Rua do Maga-Sapo

Da minha infância, em Vitória da Conquista, cidade a 509 km de Salvador, pela BR-116, emergem várias lembranças da Maga-Sapo. Minha primeira lembrança daquela rua com nome estranho – não achava estranho na época – data dos meus 8 anos de idade. Lembro-me de uma moça muito branca, sempre de vestido branco, que passava em frente à casa em que eu morava. Sentado à porta, seguindo as ordens matriarcais de não sair dali, eu a via passar. As senhoras mais velhas não falavam com ela, por ser moradora da Maga-Sapo, rua de meretrizes, lugar de mulheres perdidas, dizia-se. Ignorando os comentários, a moça branca de vestido branco caminhava até a venda (pequena mercearia) e fazia suas compras. Um dia veio a notícia: mataram uma moça no Maga-Sapo. Juntou a curiosidade e o temor de que a assassinada fosse a moça que eu via passar. Desobedecendo as ordens matriarcais, desci a Rua dos Prates, dobrei à esquerda e lá estava eu na primeira ou segunda casa da Rua do Maga-Sapo. Estendida na cama, no primeiro quarto da casa, estava a moça branca com o vestido branco. Muita gente, muito barulho. Toquei em seus pés, estavam gelados. Ela parecia dormir. Não fosse a marca vermelha de sangue no lado esquerdo do tórax, resultado da facada que a matou, diria que logo, logo estaria em pé.

Em dezembro de 2015, a Rua do Maga-Sapo voltou à minha lembrança. Foi o período de postagem de informações sobre o trabalho autoral de Fernando Zamilute (A Casa que Mora em Mim), de Valterci Freire (Pratos no Céu) e Marisa Falcão (Guimarães Rosa).  Naquele período, Fernando Zamilute enviou a seguinte mensagem para Angelita Cunha da Silva Sousa:

“Como lhe adiantei em nosso contato primeiro, morei nas imediações do Magassapo (me perdoe se assim de fato não se grafa o nome que, aliás, no seu trabalho aparece como Maga-sapo) e, na construção do meu livro, senti-me tentado a fazer referência àquele recanto da boemia conquistense. Quis juntar alguns elementos ao livro e, para tanto, visitei o Google à cata de informações. Para minha felicidade, um dos primeiros links oferecidos era, exatamente, o do seu trabalho de conclusão do Mestrado”.

Depois do contato com Angelita, Fernando Zamilute me colocou no circuito e – tudo por e-mail – falei com a autora sobre a intenção de divulgar o trabalho dela no blog, pois todos tínhamos em alta conta histórica a Rua do Maga-Sapo. Ela me respondeu:

“Fiquei muito feliz, pelas suas palavras elogiosas referentes à minha pesquisa que resultou nesse texto sobre as mulheres Conquistenses envolvidas com práticas “ilícitas”. Por meio desse estudo foi possível o resgate de memórias de mulheres e homens que vivenciaram a vida boemia da nossa cidade, entre as décadas de 50 a 70. Infelizmente, os trabalhos acadêmicos são pouco divulgados e a sua leitura, na maioria das vezes, se resume a banca que os avaliou ou algum curioso sobre o tema, como foi o caso do Fernando, nesse sentido acho interessante e necessário a abertura de novos espaços de divulgação para que outras pessoas possam ter acesso a leitura de trabalhos acadêmicos que estão sendo produzidos sobre a história local”.

Maga-Sapo - IMaga-Sapo - V

O trabalho de Angelita Cunha da Silva Sousa extrapola a rua e as mulheres das “práticas ilícitas”. As 123 páginas da tese dão uma dimensão interessante do comércio, do jornalismo e das relações sociais entre “gente do poder político” e a parte mais baixa na pirâmide social da Conquista dos anos 1950 a 1971 (período abordado pela pesquisa).

Maga-Sapo - IIMaga-Sapo - XI

Maga-Sapo - IXMaga-Sapo - VII

Maga-Sapo - VI
Maga-Sapo - VIII

Maga-Sapo - X

Antes, porém, de ir ao link dessa tese, inteire-se mais sobre a (ou o) Maga-Sapo nesse texto publicado pela Taberna da História de Vitória da Conquista:

“Com a abertura da Rio-Bahia, nos anos 40, surgiram, às margens dessa rodovia, várias casas noturnas, que serviu de inspiração ao poeta Carlos Jehovah para escrever a peça de teatro “Os Sacanas”. Nas décadas de 30, 40, 50 e 60, o ponto chique dos boêmios e prostitutas, como definiu o escritor Camilo de Jesus Lima em uma de suas crônicas, era o “Maga-Sapo”, antigo nome da “Rua D. Pedro II”. A crônica de Camilo era: “Adeus meu velho Maga-Sapo”. Ali havia várias casas de “mulheres livres”, tendo como atração principal a boate Riso da Noite, onde imperavam os sorrisos fáceis e os seios aconchegantes de Marli, Alice, Maria Peito de Aço, Rosa Bigode, Idalina, Neza, Calu, Didi, Samir, Rosinha, Ivone, Idália, Leontina, Carmem, Zenilda, Marieta, Ju, Marília, Violão Baiano e Maria Veneno (irmã de Bandola), rameiras que, como disse um cronista mundano, “participaram do progresso da cidade, além de serem antídotos para as angústias dos velhos e prazeres temerosos dos adolescentes”. No mesmo Maga-Sapo existiu, em 1937, a casa de prostituição Ao Mundo de Vênus, que funcionou até 1973, quando o prefeito Nilton Gonçalves retirou várias boates daquela rua e transferiu-as para os bairros Jurema e Departamento”.

Segundo Bruno Bacelar o nome dessa rua tem sua origem no fato de as pessoas pisarem em cima dos sapos, esmagando-os, quando atravessavam o córrego que descia entre a Rua Grande e a Praça da Piedade (atual 9 de Novembro). “Maga-Sapo” é uma aférese da expressão “esmaga-sapo”, isto é, “Esmaga-Sapo” foi transformado no dialeto popular para “Maga-Sapo”.

Leia mais no: http://tabernadahistoriavc.com.br/cabarets-do-maga-sapo/

E agora o resumo da tese de Angelita, por ela mesma:

Maga-Sapo - IIIMaga-Sapo - IV

“A Rua do Maga-Sapo, situada em uma região próxima ao Centro da cidade de Vitória da Conquista foi, entre 1950 e 1971, um importante espaço de atividades noturnas, famoso por seus cassinos, boates e pelas casas de mulheres de “vida livre”. A presente dissertação tem como objeto de estudo o cotidiano e as representações da prostituição feminina em Vitória da Conquista, com especial enfoque sobre as mulheres que, na condição de cafetinas ou prostitutas, habitaram as casas dessa zona de prostituição no período de 1950 a 1971. Com o intuito de recuperar aspectos da vida cotidiana dessas personagens, bem como as representações correntes sobre o fenômeno da prostituição, foram utilizados como fontes de investigação documentos oficiais, textos publicados em periódicos, além de textos literários. Dos periódicos locais, foram selecionadas as notícias de eventos – especialmente assassinato e escândalos – envolvendo as moradoras e frequentadores da referida rua, que serviram de pretexto ao projeto de reurbanização e “limpeza” do Centro da cidade, local de comércio e moradia das camadas abastadas da sociedade conquistense. Em conjunto, os documentos indicam a existência de um modo peculiar e contraditório de tratamento em relação às zonas meretrícias, vivenciadas como espaços privilegiados de sociabilidade do setor masculino e, ao mesmo tempo, objeto de críticas severas, pelos perigos morais decorrentes da proximidade entre as mulheres de “vida livre” e as moças e senhoras de “boa família”. As informações exaradas da documentação escrita foram cotejadas com depoimentos orais de moradoras e frequentadores das casas de mulheres e de outros personagens que viveram a época áurea do maga-sapo e, ainda, com registros fotográficos pertencentes ao acervo individual desses personagens. As fontes orais e imagéticas constituem-se em documentos de inestimável valor para a recuperação de aspectos do cotidiano das mulheres que, entre 1950 e 1971, habitaram as casas do Maga-Sapo.

E a estrutura do trabalho

Maga-Sapo - estrutura da tese

Mais sobre o Maga-Sapo na dissertação de Mestrado em Letras de Angelita Cunha da Silva Sousa, pela UESB, em 2013: A Rua do Maga-sapo, cotidiano e representações da prostituição em Vitória da Conquista – BA (1950-1971).

http://www.uesb.br/ppgcel/dissertacoes/2011/Dissertacao_Angelita.pdf

As imagens contidas neste post foram tiradas (printadas) pelo autor do blog da referida dissertação.

17 pensamentos sobre “Rua do Maga-Sapo

  1. Belíssima postagem, Bomfim!
    O trabalho de Dissertação da Angelita já havia provocado em mim uma emoção incontida, da primeira vez que o li, há cerca de um ano. Pela fluidez do texto, pelo zelo e rigor na obtenção das informações e pelo registro imagético, que dele é parte indispensável.
    Como por mais de uma vez tive a oportunidade de lhe dizer, a maneira com que a autora apresenta o seu trabalho faz com que a aridez peculiar dos trabalhos acadêmicos seja mitigada, tornando extremamente prazerosa a leitura deste em particular, ao ponto de eu relê-lo, por mais de uma vez, sempre encontrado um detalhe ou outro que, desapercebidamente deixara para trás nas leituras precedentes.
    De mais a mais, o texto de introdução que você elaborou se constitui em adorno primoroso, não apenas para o trabalho da Angelita, tanto quanto para o material trazido da Taberna da História, do nosso saudoso Luís Carlos Fernandes.
    Aquele volume de informações que, numa perspectiva historiográfica, nos é oferecido pela Angelita, vai de encontro ao olhar encantado e assustado de uma criança em face da morte, em um dia qualquer do passado, naquela zona do meretrício: a beleza vestida em branco e tingida em sangue. Marcante o seu relato!
    Sinto-me honrado de, em alguma medida, haver propiciado o encontro do seu olhar jornalístico com a abordagem de pesquisadora da Angelita. O resultado é poético.
    Parabéns para vocês!

  2. Somente quando vender todas as cocadas é que podem ir ao cinema, disse a mãe aos dois irmãos. Era uma tarde de domingo e no Cine Conquista, na matinê das 14 horas seria exibido um filme de caubói. Todos os meninos da Rua dos Pratos e adjacências já estavam na fila, portando nos braços um monte de revistas em quadrinhos. Ninguém para comprar as cocadas e o tempo passando. E mais meninos a caminho do cinema. Foi então que um deles sugeriu entrar na Rua do Magassapo. Na calçada da casa de Enézia, as raparigas estavam sentadas descansando do almoço, “esquentando sol”. Uma penteava o cabelo da amiga. Outra catava piolho na bonita rapariga de cabelos longos. Todas conversavam, riam, cochichavam. Viram, então, dois meninos limpinhos, com olhos ansiosos, com uma bandeja, coberta com um pano estupidamente branco, e cocadas com excelente aparência. Os meninos perguntaram se queriam comprar cocadas “que mãe que fez”. Uma rapariga provou e aprovou. Tá boa demais, disse. E as demais mulheres, naquele momento mulheres desprovidas da profissão de prazer, compraram todas as cocadas. Os meninos agradeceram, voltaram correndo pra casa, entregaram o dinheiro à mãe, pegaram as revistas e desceram correndo para a matinê do Cine Conquista e depois da sessão, claro, um picolé do Bar Lindóia. É a lembrança mais forte que tenho do Magassapo e daquelas anônimas mulheres.
    Mais uma exponencial contribuição à cultura de Conquista no Blog do Brown. O trabalho da Angelita é magnífico! Fui apresentado ao mesmo por Fernando Zamilute e li, de uma única vez, deliciando-me palavra a palavra, foto a foto. Muito dos personagens povoaram minha infância. A autora retratou o lado humano, verdadeiro, engraçado e cruel daquela rua e daquelas vidas sofridas, desprezadas, destruídas e tão necessárias aos homens, rapazes e pré-homens daquele tempo. Depois da noite, depois da prestação de contas, havia uma vida não muito diferente das ditas famílias. Trabalhavam e sustentavam famílias que cuidavam dos filhos e tive colegas na Escola Barão de Macaúbas e na Escola Normal que eram filhos de raparigas e não escondiam de ninguém. Prova que a mãe sabia que todos têm os mesmos direitos. O relato é verossímil em toda sua extensão, desde as fotografias (para mim, históricas) até a descrição das casas, dos casos e dos depoimentos daqueles que participaram daquela rua que despertava curiosidade face à proibição, pecado, castigo, lascívia e libido que despertava aos que a conheceram. Os homens a freqüentavam, os rapazes ali se iniciavam na vida sexual e os comerciantes das lojas de calçados e tecidos tinham boas freguesas.
    Parabéns, Angelita, sempre que tenho chance mostro aos exilados conquistenses o link do seu trabalho e o resposta é a melhor possível. É um trabalho sério, bem feito e sugiro que seja transformado em livro. Vida longa, muito obrigado e um grande abraço.

    Viva Angelita!

  3. Bomfa:

    Muito interessante a história da rua do Maga-Sapo.
    É um pena que o passado de nossas cidades fique sempre esquecido, com muito pouco registro.
    Como jornalista e bom conquistense, você teria condições de levantar para mim alguma coisa da passagem de meu pai (Antônio de Matos), como promotor público, nos anos 30 ou 40 do século passado, em Vitória da Conquista ? Ele era muito amigo (e compadre) de Dr. Adelmário Pinheiro, deputado, presidente da Assembleia Legislativa e casado com Dona Isalta, da tradicional família Ferraz.

    Abraços,

  4. Muito bom. Está de parabéns pela reportagem. Conheci o trabalho de pesquisa de Angelita no Museu Regional e realmente é uma pesquisa bem feita e muito interessante. Um trabalho que merece e deve ser divulgado. Precisamos que a nossa História transponha os muros da academia. Parabéns ao Blog. Parabéns Angelita.

  5. Uma boa lembrança da velha Conquista, não frequentei o Maga-sapo, pois era criança na época, mas cresci ouvindo histórias de lá.

  6. Pingback: Falando na Lata

  7. Parabéns, Brown. Adorei a leitura e de aprender um pouco sobre a história e a alma de Conquista. Nas linhas e entrelinhas a hipocrisia e contradições da sociedade patriarcal em relação às mulheres, tanto as discriminadas de vida livre, quanto às intocadas e enclausuradas de boa família.

    • Caro Nattinho
      Seu comentário enriquece a postagem desse blog.
      Você esteve lá, no Maga-Sapo, cantou numa das boates, é parte importante dessa história.
      Abraços
      Bomfim Brown

  8. Caríssimo Bomfim, neste momento viajei no tempo, e me lembrei daqueles tempos, devo dizer que na minha adolescência cheguei a frequentar a saudosa rua “Maga-sapo”…Entre as minhas fotos de Conquista, há uma em que estou cantando numa “Boate” que ficava nesta rua, bem perto da Praça da Bandeira, com os músicos da Orquestra do Clube Social Conquista, onde fui “Crooner” por dois anos, logo me mudei para o Rio de Janeiro. Quero crer que você tenha entre as fotos minhas esta, que me referi acima. parabéns pelo trabalho. Um forte abraço.

  9. Como morava próximo a rua citada, lembro das proibições, sequer podíamos falar o nome da rua, passar então nem em pensamento. Me recordo do assassinato de uma mulher chamada de Rosa bigode. Parabéns pelo trabalho e ao blog por divulgar.

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