Em três dias de tiroteio, Pau de Colher acabou destruído – parte II

Hoje, A Tarde publica a segunda matéria da reportagem feita por Cleidiana Patrícia Ramos (fotos de Gildo Lima) sobre a crueldade praticada contra as comunidades sertanejas de Caldeirão e Pau de Colher. Episódio que mostrou o ataque de polícias militares da Bahia, Pernambuco e Piauí e do Exército brasileiro contra civis brasileiros. Ontem, você leu como tudo começou. Leia hoje como foi a destruição. A série continua amanhã e quarta-feira.

Edição de A Tarde de 6 de setembro de 2010

A GUERRA
A polícia da Bahia, de Pernambuco e do Piauí e o Exército foram mobilizados para pôr fim ao acampamento messiânico. Morreram 400 pessoas
Uma das coisas que lembro é que um menino se dirigia para perto do caldeirão onde estava a comida. Ele recebeu um tiro e caiu morto”. O relato de Maria da Conceição Andreza, 81 anos, se refere à repressão da polícia ao movimento messiânico que se instalou em Pau de Colher dos meados de 1937 até o início de 1938.
Durante três dias – 19, 20 e 21 de janeiro de 1938 – 90 homens comandados pelo capitão Optato Gueiros mataram, estima-se, 400 pessoas.
Do lado militar contou-se seis mortos e dez feridos, segundo o estudo O Movimento Messiânico de Pau de Colher, de autoria de Raymundo Duarte, publicado em 1969. O destacamento chefiado por Gueiros era apenas uma parte da força militar mobilizada para conter os conhecidos como “fanáticos” ou “caceteiros”.
Para lá foram também acionados um esquadrão motorizado; uma companhia de fuzileiros, um destacamento da polícia do Piauí, e o apoio do 19º Batalhão de Caçadores (BC) e do 28º BC. Ao todo eram três estados unidos no objetivo de sufocar o arraial: Bahia, Pernambuco e Piauí, além do Exército.
“Estabelecendo-se que somente à polícia caberia intervir na luta, planejou-se o cerco de Pau de Colher pela polícia. No entanto, quando policiais baianos e piauienses atingiram o local, o reduto tinha sido destruído pela força de 90 homens sob o comando do capitão Optato Gueiros que, se dirigindo para lá a fim de cumprir uma missão de “capturar elementos avançados do inimigo” resolveu atacar temendo ser envolvido pela retaguarda” narra o professor Raymundo Duarte.
O conflito final havia sido precedido por uma luta no dia 10 de janeiro. Um destacamento comandado pelo sargento Geraldo Bispo dos Santos e integrado pelo cabo Antônio Vieira Silva (Vieirinha), quatro soldados e 30 civis, foi até Pau de Colher. O destacamento foi motivado por três mortes atribuídas a integrantes do grupo reunido no acampamento. Eles atacaram José Rodrigues de Souza (José da Barra), José Cocoisa e José Rubens porque os mesmos não queriam aderir ao movimento. Segundo relatos, foram mortos a golpes de varas de marmelo carregadas pelos líderes do grupo.
No combate do dia 10, morreram José Senhorinho, João Cabaça, Simplício, João Damásio e Pedro Bevenuto. Do lado militar morreram o cabo Vieira e o soldado João Batista dos Santos, o que motivou a fuga do resto da tropa. A próxima investida militar foi a mais incisiva e final.
Sobrevivência
Diante do ataque militar, conhecido na região como “o fogo”, a primeira reação de dona Maria foi jogar o corpo para proteger sua irmã Joana, ainda bebê. Só mais tarde, quando o barulho de tiros acabou é que ela conseguiu entregar a menina a uma outra irmã mais velha. “Eu vi minha mãe morrer ao levar um tiro. Minha avó, Andreza, também morreu, assim como meus irmãos. Duas das minhas irmãs, fiquei sabendo depois, morreram em uma casa que foi incendiada, inclusive a que era ainda bebê”, conta dona Maria.O incêndio foi provocado pela polícia e nele morreram todos que tinham se refugiado na casa.
O que serviu de escudo a dona Maria durante o tiroteio foi um tronco de umbuzeiro.
De lá só saía, quando possível.
“Numa dessas quando voltei tinha uma mulher morta caída. Fiquei assim mesmo. Ao lado ficou também um casal”, diz. Além do medo tinha a fome e a sede. “Tentei beber minha própria urina, mas não consegui”, narra. Havia horas em que o perigo passava perto. “Senti uma bala raspando o meu cabelo. Comecei a gritar que tinha levado um tiro na cabeça, aí o casal disse que não, senão eu teria morrido”, afirma.
Ali perto outro menino lutava para sobreviver, correndo de um lado para o outro.
Era Martiniano da Silva, hoje com 83 anos, conhecido como Bianinho. Ele foi parar no arraial por iniciativa da avó, Eva de Aguiar da Silva. A mãe e os irmãos já estavam lá e o pai já tinha morrido. Pelos detalhes do relato de seu Bianinho, o tipo de vida do acampamento não o agradava e passava a maior parte do tempo fugindo.
Também fala sem simpatia de líderes como José Senhorinho e José Camilo. Este, conta, lhe deu uma surra, porque se negava a tomar a bênção a Senhorinho. “Vi um daqueles que chamavam de santo jogar uma criança para cima e amparar no ferro que chamavam de espada divina porque o menino chorava era de fome”, relata.
Seu Bianinho lembra que ainda chegou a encontrar a mãe após o tiroteio, no meio da caatinga, mas resolveu fugir novamente. Foi a última vez que a viu. A sorte foi que reencontrou a avó e foram acolhidos numa fazenda.
Após o tiroteio, Pau de Colher estava destruído. “A polícia continuou na área, dando batidas, fazendo prisões, inclusive barbaridades. Muitos voltaram às suas casas meses depois. Outros tomaram rumos diversos e jamais foram vistos pelos parentes”, narra Roberto Malvezzi no livro História de Pau de Colher, publicado pela Diocese de Juazeiro. Neste trabalho é lembrada a vida de dona Maria após passagem pelo acampamento.
LEIA AMANHÃ SOBRE O DESTINO DOS SOBREVIVENTES

4 pensamentos sobre “Em três dias de tiroteio, Pau de Colher acabou destruído – parte II

  1. Histórias como Pau de Colher, Canudos Contestado e Caldeirão, efetivamente não são contadas na escola.

  2. Pingback: caceteiros parte dois… « o flamboyant

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