Guimarães Rosa por Marisa Aurea de Sá Falcão

 

Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa foi um escritor brasileiro. E foi também médico e diplomata. Guimarães Rosa nasceu na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais, no dia 27 de junho de 1908. Desde cedo mostrou interesse por literatura e pela natureza. Em 1918, foi para Belo Horizonte. Formou-se médico em 1930, exerceu a medicina no 9.º Batalhão de Infantaria em Barbacena e pelo interior de seu Estado, onde recolheu importante material para suas obras. Foi diplomata entre os anos de 1938 e 1944. Poliglota, falava mais de nove idiomas. Seus primeiros trabalhos como escritor foram contos, publicados na revista O Cruzeiro, em 1929. A partir de então, vieram livros de coletânea de contos e seu único romance, Grande Sertão: Veredas, considerado uma obra prima da literatura brasileira. 

Em 1934, Guimarães Rosa foi para o Rio de Janeiro onde prestou concurso para o Itamaraty. Em 1938, foi nomeado cônsul-adjunto na cidade de Hamburgo, na Alemanha. Em 1945 voltou para seu Estado para rever os lugares onde passou a infância, em busca de material literário. Em 1946, estreou com o livro de contos “Sagarana”, muito elogiado pela originalidade de sua linguagem.

De 1946 a 1951, residiu em Paris. Em 1956, publicou duas obras-primas “Corpo de Baile” (novelas) e “Grande Sertão: Veredas”. Em 1958, é promovido a embaixador, mas prefere permanecer no Rio de Janeiro.

O autor publicou ainda “Primeiras Estórias” (1962) e “Tutaméia – Terceiras Estórias” (1963). Nesse mesmo ano foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas a sua cerimônia de posse foi adiada por 4 anos. Finalmente, em 1967, Guimarães Rosa tomou posse. Três dias depois de tomar posse, tem um ataque cardíaco, morrendo no Rio de Janeiro, no dia 19 de novembro de 1967.

Foi em “Grande Sertão: Veredas” que Guimarães aplicou todo o seu extenso conhecimento linguístico, pois o livro é conhecido por sua linguagem inovadora, trazendo vocábulos antigos, misturados com expressões regionais e com a criação de neologismos.

Frases e pensamentos de Guimarães Rosa:

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.

Deus nos dá pessoas e coisas, 
para aprendermos a alegria…
Depois, retoma coisas e pessoas 
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos…
Essa… a alegria que ele quer

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, 
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

Felicidade se acha é em horinhas de descuido

Acervo: 206 frases e pensamentos de Guimarães Rosa.

 

É esse gigante da literatura que Marisa Aurea resolveu conhecer, falar e escrever. Com Marisa Aurea, que me foi apresentada – virtualmente – por Fernando Fernandes Zamilute, que os leitores do blog já conhecem como o autor de “A Casa que Mora em Mim: O livro que não queria ser”, retomamos a série dos escritores conquistenses.

Marisa Aurea se graduou em Letras na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (campus Jequié), mestrado em Letras, na UFBA, com área de concentração em Teoria da Literatura e doutorado em Literatura e Cultura na UFBA, também com área de concentração em Teoria da Literatura.

“No mestrado me dediquei ao estudo do Grande Sertão: Veredas, e no doutorado também me dediquei ao estudo desta obra a partir da relação entre cinema e literatura (Glauber e Guimarães Rosa). O nome da dissertação é “Entre o nome próprio e a identidade infinita: experiências paradoxais na travessia de Riobaldo” e a tese, “Riscos do traço e do olhar nas narrativas-limiar de Guimarães Rosa e Glauber Rocha”. A dissertação está disponível na internet, no banco de teses da UFBA. A tese foi indicada para publicação pela banca do doutorado e ainda não está disponível na internet”, informa a autora.

O artigo que dá título a essa postagem é consequência das impressões de Marisa Aurea na visita feita a Cordisburgo. As fotos, feitas por ela, da cidade e da gruta de Maquiné, são também da época da visita, em maio de 2010.

Para você, que está lendo esse post, boa leitura!

Cordisburgo - Marisa Falcão (28)    Cordisburgo - Marisa Falcão (31)

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Muros de Cordisburgo

Marisa Aurea de Sá Falcão

Cheguei a Cordisburgo logo cedo. Desci do ônibus no primeiro ponto. Quase ainda na estrada. Não queria perder tempo e pretendia aproveitar todos os recantos da cidade. Perguntei pelo museu Casa Guimarães Rosa, um simpático senhorzinho me respondeu: “Hiiii! É lá dentro da cidade, perto da prefeitura. O ônibus para na frente. Por que desceu tão longe?” Labirintos do novo… assim são as cidades, grandes ou pequenas, teimam em criar ruas para que, por algum momento que seja, seus visitantes possam estar maravilhosamente perdidos.

Bem, siga as setas e quando se deparar com uma fala de Diadorim ou Doralda, é sinal que está no caminho certo – a rota exata para a Casa Guimarães Rosa. É o que me aconselhava minha intuição lógica de viajante. Assim o fiz. Segui as setas, as pistas rosianas, os silêncios e os barulhos. Barulhinhos de silêncio: uma bicicleta que passa, um adolescente que acena para um conhecido no outro lado da rua, outra bicicleta, risos de criança, o carro do Instituto Mineiro de Agricultura orientando turistas que visitarão a deslumbrante Gruta de Maquiné, outra bicicleta, um carrinho de picolé, o coro afinado (ou desafinado) de crianças no recreio escolar e o meu andar… puro encantamento.

– Qual o caminho? – perguntava Alice para chegar a algum lugar no País das Maravilhas.

 – Se você não sabe para onde vai, não importa que caminho tome, mas certamente chegará a algum lugar, desde que ande o bastante – são as orientações dadas pelo enigmático gato de Carroll.

O Mestre Guima provavelmente diria a Alice: – “Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados”.

Eu e Alice descobrimos não existir rota certa, pois a Casa Guimarães Rosa está num museu, na residência onde nasceu o escritor, mas também está em todas as esquinas da cidade. Cordisburgo é um labirinto de frases rosianas. “Sagarana”, “Grande sertão: veredas”, “Corpo de Baile” moram nos muros, por toda a cidade. Páginas de cimento, em pichações literárias, retomam as estórias rosianas, construindo a história deste bucólico lugar, num espalhamento rizomático dos escritos de Rosa, tatuados em muros novos e antigos – homenagens a seu ilustre filho e gentilezas a seus leitores.

Não sabia se havia um busto em homenagem a Guimarães Rosa. Quando descobri que sim, já havia partido da cidade. Na verdade, não tive tempo para procurar, tão fascinada estava por perceber que a alma do escritor transborda pelas ruas, desde as praças até os restaurantes e botecos, do museu às lojas de 1,99.

Nesta hora de encontro literário com Guimarães e enquanto aguardo ansiosamente a formosa apresentação dos Miguilins, desligo minha pequena filmadora e sento-me num banquinho de cimento ao lado do trailler de cheeseburger e no meio de árvores floridas que nunca sei o nome. Ao fundo, a antiga estação de trem de Cordisburgo; em frente, o museu Casa Guimarães Rosa e o pequeno comércio da terra natal de Rosa. Queria ler Guimarães, o sertão mineiro me deu saudades de Diadorim, Riobaldo, Brejeirinha e até dos pecados de Maria Mutema. Não, na minha mochila tem passagens, água mineral, guias turísticos, bilhete de entrada para a gruta, propagandas amassadas de liquidações, alguns papéis de bala, um mapa de Belo Horizonte e até um santinho de um candidato “x” para uma eleição “y” (decididamente, para exercer bem a cidadania, é preciso atualizar o conteúdo das mochilas), mas não tem nenhum exemplar de Guimarães Rosa. Mas isto não é problema em Cordisburgo, lugar onde se pode virar os muros para ler a próxima página, numa versão arquitetônica dos livros, uma espécie de wall-book urbano. Então, fotografo a estação de trem e leio “Sagarana” na fachada da farmácia, flagro um cachorro atravessando preguiçosamente a rua (seria o cão no meio da rua, no meio do redemunho??? Toleima!) e leio “Corpo de baile” na parede lateral da loja de 1,99. Leio mais: o discurso da posse na Academia Brasileira de Letras no muro de um terreno baldio (ou teria sido num casarão fechado?), “Grande sertão: veredas” impresso na frente da venda de doces e outros, outros e outros, pelas veredas cordisburguenses. Em meio às leituras, lembro-me de outro João, que nos conta a estória de uma flor a romper o asfalto em plena capital do Brasil; aqui também, em Cordisburgo, o cimento é sujeito a mutações poéticas e, caminhando pela cidade, pode-se assistir aos personagens rosianos brotando como heras viçosas e incontroladas pelos muros encantados de Cordisburgo, invadindo as casas dos moradores, fazendo parte da vizinhança cordisburguense e se acotovelando em meio aos visitantes.

14 pensamentos sobre “Guimarães Rosa por Marisa Aurea de Sá Falcão

  1. Pingback: Rua do Maga-Sapo | Blog do Brown

  2. Pingback: Aracy, o anjo de Guimarães Rosa | Blog do Brown

  3. O artigo da Doutora Marisa é dos melhores que já li, em se tratando de Guimarães Rosa, meu escritor predileto, entre todos que gosto, nacionais e internacionais. A apresentação elegante do blog é interessante, estimuladora, sobretudo para jovens que ainda estão a conhecer os nossos escritores. Senti falta, porém, de citações sobre Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, a mulher da vida de Guimarães Rosa. E, mais que isso – que já é grande coisa! – foi muito importante ao salvar muitos judeus da morte certa nos campos de concentração do nazismo. Se o Brown não achar muita impertinência desta professora aposentada, sugiro uma postagem sobre Aracy. Parabéns pelo blog. Parabéns à Doutora Marisa. Cheguei ao blog há algum tempo, e gostei muito da leitura que fiz sobre A Casa que Mora em Mim e Pratos no Céu, que antecederam aos Muros de Cordisburgo.

  4. Na verdade, a crônica “Muros de Cordisburgo” nada mais foi que uma tentativa de transpor para o papel a minha respiração encantada por muros, ruas e Rosas; mas, pedindo licença aqui para brincar com a dicção de Manoel de Barros e Fernando Pessoa, tentei escrever em tom sincero as “linhas tortas” deste “comboio de cordas que se chama coração”. A entrada no sertão de Guimarães seguiu, de fato, rotas arteriais que deixaram marcas indeléveis na minha vida; e, nesse roteiro, nem tão inusitado, da cidade ao livro, dos muros a página, do cotidiano a literatura, Cordisburgo foi para mim, sem dúvida, um delicioso encontro com meu escritor predileto.

    Como foi dito por Brown, Valter e Fernando, esses meus amigos da literatura, estar aqui foi um convite que começou na “Casa que mora em mim” (livro de Fernando Zamilute) e se encontra agora neste salão cultural estimulante do blog do Brown. Sinto-me acolhida, numa espécie de sala de estar-biblioteca do Senhor Brown, onde tenho a oportunidade de ler, ouvir e conversar com amantes de livros, autores e personagens. Sinto-me imensamente lisonjeada por ser sua hóspede, Brown, e poder ser inserida no seu sarau de autores e leitores, muitas vezes recíprocos. Agradeço com palavras ainda não nascidas (estão na sala dos retoques, na garganta nem sempre criativa do agradecimento encabulado) os delicados elogios e incentivos de Valter e Fernando. E, poxa Valter, já que minhas palavras roçaram seus calcanhares (amei isto!), quem sabe eu tome coragem para organizar o esparramamento desorganizado de minhas sempre inconclusas imagens e linhas pretensamente poéticas. Carece de ter coragem…. risos

    A todos os que aqui leram a minha crônica e que, muito certamente, partilham do minha admiração e encantamento por Guimarães Rosa, o meu muito obrigada!

  5. Belo texto sobre Guimarães, seu universo e sua cidade natal. Tratando-se de Guimarães Rosa, Marisa Áurea é hoje uma das maiores autoridades no assunto.

  6. “Nonada!”
    Deparei-me estupefato com aquela desconhecida expressão abridora do texto de “Grande Sertão: Veredas”, em exemplar de fino acabamento, recebido em presente da minha colega de trabalho e de discussões literárias – a Marisa. Daquele instante em diante, partilhei do seu amor platônico por esse ícone da literatura brasileira, renovando a estupefação e o encantamento com o folhear de cada nova página. A cada folha virada, uma nova descoberta acerca da riqueza sonora e estética que o grande autor foi haurir das bocas da gente humilde, com a qual conviveu, e da qual sorveu, curiosamente, sabedoria, ensinamentos subliminares e uma maneira própria e única de dizer do mundo que viam e no qual viviam, com o vocabulário de que dispunham, ao longo da sua vida. Tudo em contexto adequado, de sorte a tornar belo o simples extremado.
    A Marisa deu verniz acadêmico a essa paixão, trabalhando o autor em sua dissertação de Mestrado e, posteriormente, em sua tese de Doutorado. Ao fazê-lo, no entanto, transbordou dos limites da apreciação técnica e, sem descurar do rigor científico de seu trabalho, emprestou ao mesmo toda essa tônica de afeto e encantamento com a obra, e por via desta, com o próprio autor.
    A peregrinação à terra-mãe do seu ídolo revestiu-se então de mero, e inevitável, desdobramento dessa paixão. Mas, quando de lá voltou, pôs-se ela a fazer poesia acerca do cenário onde aquele gênio viveu e constitui as bases da sua maravilhosa obra.
    Li com sincera emoção “Muros de Cordisburgo”. Emocionado por conhecer, em tão belo texto, uma cidade que, por intermédio de seus muros e letreiros, fala de um grande homem, que falava dessa cidade, do seu entorno, da sua circunstância e de sua gente.
    Poucas vezes me ocorrera de tão poucas palavras poderem dizer tanto.
    Que prazer é esse, o meu, de haver propiciado esse encontro da Acadêmica e leitora voraz com o Jornalista tão seriamente envolvido com o seu ofício. Que satisfação ver o espaço em seu blog franqueado às pessoas que têm apreço pelas letras e que conseguem, a partir delas, extrair poesia e encantamento.
    Parabéns a você, pelo gesto generoso de abrir espaço em seu blog para que isso fosse possível!
    Parabéns à Marisa, pelo belíssimo texto!
    Vida longa a Diadorim e Riobaldo, que de mais a mais, já são em si imortais!
    …E que Cordisburgo nunca deixe de escrever em muros sobre o seu filho ilustre!

  7. Conheci, também virtualmente, a Marisa através do Fernando Zamilute, amigo de infância e dos sonhos da Rua dos Pratos, rua tão bem descrita no seu livro “A Casa que mora em mim”. Assim que li as considerações, depoimentos e esclarecimentos feitas durante a construção do livro do meu amigo, fiquei encantado com a cultura, a capacidade de entender as palavras, a capacidade de penetrar na alma do escritor e descobrir o que está atrás de cada vírgula, do ponto, do hiato. Há um encantamento na sua crônica que só quem bebeu na fonte do Rosa, absorveu a efervescência lúcida-louca-pós tudo do Glauber, consegue ter. A descrição de Cordisburgo fez-me lembrar um depoimento da Clara Nunes em que falava quando corria descalça nas terras desta cidade e que o som que brotava do vento a tornava parte de um encantamento. E deste encantamento, entendo eu, criou o canto tão belo que nos deixou a querida cantora. Senti o som de Minas, o berro do boi, o chacoalhar dos caçuás, o cheiro do grilo e a coceira do capim encostando nas canelas dos diadorins e riobaldos nas palavras escritas. Marisa é uma surpresa parada no ar esperando um vento forte para se espalhar no meio literário de Conquista. Parabéns, mermão, por mostrar aos leitores mais uma maravilha da nossa vitória, da nossa conquista. E, porra, Marisa, escreva mais e nos presenteie com suas palavras. Que Clarice, Nélida, Hartoun e meu mestre Zuenir a abençoe e inspire. Valeu!

  8. O grande Guimarães Rosa! Tenho um exemplar de Sagarana desde 1976 quando fui morar em Belo Horizonte. Grande obra! Faz-nos aprender a desconfiar, mesmo não conhecendo muita coisa. Muito legal, uso sempre esta frase ha quase trinta anos. Adorei.

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