Lembranças

Quase à meia-noite de sexta-feira, 8 de outubro de 2021, Fernando Fernandes Zamilute teve uma repentina lembrança dos amigos Luciano Popó e Peri (Erivaldo), que já partiram para outras dimensões, e de nossas juventudes…

A lembrança trouxe também momentos de alegria dos amigos reunidos na casa de Popó (em Vitória da Conquista), devorando as dobradinhas e buchadas feitas por Dona Violeta (Mãe de Popó). Os tempos eram muito difíceis (anos 70 e 80), mas a alegria da juventude cheia de sonhos compensava tudo.

Leia a crônica de Fernando F. Zamilute e curta a canção de Gil.

Foto: Página do Facebook da Jurubeba Leão do Norte

Estou puto da vida!!! Que merda é essa? Único dia da semana em que, julgando-me rico, quero ser atendido como tal. Três gritos, palmas batidas ao ponto de avermelhar as mãos, imprecações que vão de caralho a porra e, e… nada!!!

Esse Vavá é foda! Nem tanto por demorar em atender, como sugere a introdução. É mais mesmo por essa mania que ele tem, bêbada e escrota de, quando se digna a atender, trazer ao balcão a garrafa que usa para mijar nos fundos do estabelecimento. Duas garrafas irão ao balcão, posto que, segurando à primeira, não conseguiria abrir à segunda: mijo – e, mijo fétido – numa; o legítimo vinho de Jurubeba Leão do Norte, noutra. É salutar prestar atenção redobrada no que foi servido, antes de lançar-se ao gole.

Toda vez que eu quero tomar essa Jurubeba gelada, e só aqui se serve assim, é a mesma zorra. Gritos, palmas, porrada no balcão, demora e, divino arremate, um garçom que sempre traz uma garrafa com mijo às mãos. Vou me queixar com Jean, mas esse, nem aí: só quer saber de fazer poesias. Vavá, por seu turno, deve ter feito na véspera as incursões que estamos hoje, prestes a fazer.

Misericórdia!!! Único nome possível para uma rua em que haja um bar como esse.

Eu estou hoje especialmente excitado. Devo me encontrar aqui, nesse mictório – digo, bar -, com meus outros tardões amigos para, depois da Jurubeba, rumarmos para alguma casa à frente. Dois motivos me animam o espírito – no que já redundo, pois espírito é alma, e alma é ânima -, apenas me abrandando a excitação uma música de Gil que toca num radinho de pilha, ao fundo: “Seu Olhar”. Creio ser esse o nome e, há nela um verso especial que mais radiante faz a esse dia. É assim:

“Há no seu olhar, algo que me ilude,

Como o cintilar, da bola de gude…”

Quem escreve algo assim terá passado, algum dia em sua infância, por um bazar que as vendesse.

Enfim, vou ver o mais inteligente e barato entre os homens a quem tive oportunidade de ser apresentado. Nada nos cobra para parecer-se igual a nós… mas, é muito superior; vou almoçar almoço feito pela divina Mãe desse ser superior.

Levarei, se chegarem, os mais especiais amigos comigo.

É tão barato ser feliz, eu penso enquanto aguardo. Tudo de que necessitamos é um pouco de sol num domingo, uns trocados dados pelo Pai – ou pelo Irmão generoso -um horizonte em que exista uma dobradinha e, creiam, farinha. É certo que ouvir o Gil em tudo colabora.

Eu nunca quereria sair dessa vida, se me fosse dado escolher.

Eu nunca quereria sair desse dia, se me fosse dado escolher. Eternos seriam o Vavá, o Popó e a Violeta. E, com eles, nós mesmos, em nossos joviais espíritos.

Eternos são os que permanecem em nossos corações e mentes. Eternos seremos nós, também, enquanto pudermos assim preservá-los.

OS SERTÕES, A RUA DA MISERICÓRDIA

Era necessário, antes, à maneira de Euclides, descrever o espaço físico. Funcionou comigo e, creio, funcionaria com meus poucos leitores.

Nada há, aqui, de rompante pedagógico, antes nada mais sendo isso, senão, que a conversão às letras da experiência íntima.

Indaguei certa feita, e pedi que retransmitida fosse a indagação pelo meu qualificado interlocutor, a tantos quantos imersos no mundo das Letras, por ofício de aprender e ensinar, quantos desses teriam tido a radiante sensação de vitória de transpor o primeiro terço d’Os Sertões, antes de abandoná-lo, sem volta para a leitura, num escondido qualquer de prateleiras ou criados-mudos. O silêncio falou eloqüentemente, em resposta.

Os livros têm essa natureza bruta e embirrenta de, meio que “me aceitem como sou, ou nunca me aceitem”. Propõem desafios e não se solidarizam com quem não consiga desses se desvencilhar, como que a dizerem: “se não conseguem me ver, não merecem me ver!”.

Euclides descreve em parte 1, o que é absolutamente necessário à compreensão de parte 3. O elemento físico, geográfico.  Mais que isso – o próprio elemento geológico – em que a saltada parte 2 – o elemento humano – se embaterá com a força bruta das Krupp – no morticínio de Canudos. Fácies geológicas, arenitos, oolitos, turbiditos (sedimentos de natureza clástica, oriundos de correntes de turbidez, decorara eu em antecedência a uma prova), afloramentos e termos tais, advindos da sua erudição e conhecimentos científicos, perpassam esse inóspito início da sua obra. A Caatinga é desnudada, por outra vez, já que nua o é em si mesma. Rala vegetação e galhos contorcidos, verde que insiste em existir em meio a cenário de sol abrasante, mulungus e mandacarus como símbolos de resistência. Desoladora, ela é!

Cheguei ao cenário do embate brutal imerso em cada palmo da terra empoeirada, onde cada mísero arbusto significava o necessário mimetismo da pobreza, da adoração messiânica e da combalida existência corpórea, com a terra ocultadora. Ali, naquela poeira, naquela terra, e entre aqueles arbustos, a famélica figura do seguidor messiânico se avultava em força e resistência. As Krupp poderiam lhes vencer – e ao  final venceriam -, mas teriam que ser muitas, e muitos os que as manejassem.

Com o auxílio de Euclides, ali morri como personagem de resistência -, ou matei -, como o personagem opressor.

Mas, não se trata aqui de Sertões, tanto quanto o é apenas de Misericórdia, digo, Rua da Misericórdia.

Himalaia olhando, por sobre nariz arrebitado, às terras de Holanda.

Não era apenas o exótico Bar do Vavá que era diferente naquela rua. Era-o, também, a maneira altiva e distanciada com que as casas do lado oposto olhavam para as do lado do bar.

Havia ali um desnível quase sobrenatural entre um lado e outro da rua. Não sei se a condição física do terreno induziu separação de vizinhanças, ou se significava separação em castas. Fato é que, todas as casas do lado mais alto estavam em média, ou por baixo, dois metros acima do nível da rua. As do lado oposto, nem se bastavam ao nível da rua estar. Ficavam, ainda, ao menos um metro abaixo, acabrunhadas, protegendo-se das agruras pluviométricas com mecanismos como muretas ou diques – diques de Holanda -, a lhes resguardarem. Era assim com o Bar do Vavá, era assim com a casa de Hermann Prates, e era assim, também, com o Cartório do bigodudo Honorino.

Eu falo isso porque falo muito, mas já adianto que não havia soberba do lado alto. Ao menos não na casa à qual intentávamos visitar nesse auspicioso domingo. Era ali, exatamente, a casa onde eu iria comer a minha dobradinha. Tudo pode ser dito em relação à nossa Anfitriã: morava em casa do lado alto da rua; tinha nome altivo de flor; era de uma educação ímpar mas, e antes de tudo: era uma pessoa extremamente afável e desafetada. Fazia jus, em altivez, à figura representada por seu Filho. E ainda era divina cozinheira, pois que eu saiba, não havia na casa ajudante de ordens culinárias. E, mais ainda: cedia espaço aos nossos ímpetos juvenis de transformar o mundo. Digo isso em todas as acepções da palavra. Nunca ficava conosco para além do estrito necessário a nos servir suas iguarias… e recolher às loucas; nunca invadia o nosso espaço de sonhar, quando a isso nos voltávamos.

E assim foi, também, naquele longínquo domingo. Bomfim, Peri, Paulo, Jean, Alba, Ivone, Ceza, Fernando, Lu… tínhamos todo o saldo de um domingo, fartados em Jurubeba e dobradinha, para fazermos o futuro.

Os dias se bastam em si mesmos, e não devemos turbá-los com os efeitos legados ao dia seguinte, para os quais reservados as ressacas, se é que essas existem naturalmente, ou que Jurubebas as produzam em artifício. Nesse sentido, necessário dizer que eu talvez não desejasse estar eternamente amarrado às segundas-feiras.

Fernando Fernandes Zamilute


4 comentários sobre “Lembranças

  1. Um ode à vida. Uma declaração de amor ao simples. Uma declaração dilacerada de paixão escondida na zoada da bola de gude. Ou daquele instante eterno do estranho caminho da bola. De gude, de meia, couraça ou de borracha vagabunda. A bola sai mas nem sempre cumpre o objetivo traçado, como a jurubeba pedida chega precedida da dúvida do mijo. Mijo nas garrafas iguais. São três homens e uma flor. Três nomes incompletos. Indefinidos, até. E qual a casa a seguir? Que fome a ser saciada. Carnal ou estomacal. Misericórdia fica a dois passos do mamoeiro. O lúdico, a dor e a embriaguez da alma estão presentes. E na mesa ao lado eu vi o Quincas Berro d’Agua e seus fantasmas cachaceiros… Não convivi com Popó, Vavá e Violeta, mas sou um anjo torto vivo à sombra das lembranças garrafais.

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  2. Poxa, Bomfim!
    Nossas memórias merecem textos mais esmerados.
    Fui tão econômico em relação ao que poderia ser dito daqueles longínquos e inesquecíveis dias.
    Sabemos que o tempo é insuscetível de aprisionamento, o que parece ser ruim. Por outro lado, sabemos da nossa capacidade de eternizar aos que amamos em nossas memórias, de onde nunca deverão sair enquanto existirmos… e isso é muito bom!
    Nesse sentido, ainda que econômico o texto, e que poucos sejam os nomes literalmente citados, vejo nesses a própria e merecida reverência a todos de quem gostamos em nossas vidas.
    Abraços!

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