Uma semana pra não esquecer

Mais uma crônica de André Bonelli Rebouças para você curtir e, igual ao autor, lembrar de situações que valem a pena serem lembradas. Boa leitura!

Fiat 147

Procurei uma vaga no estacionamento. Qualquer uma cabia meu pequeno Fiat 147. Estacionei e esperei um pouco ali, enquanto chovia. Deixei os limpadores de parabrisa ainda funcionando e fui arrumando alguns documentos em minha pasta. Toda segunda-feira pela manhã, antes de começar a trabalhar, verificava a agenda – essa eu tinha comprado há pouco tempo na Civilização Brasileira -, separava alguns papéis, formulários, procurações, tudo que levava na minha pasta, companheira de muitos anos dos advogados, até que as rotinas eletrônicas selaram o seu destino funerário.

Aproveitei a chuva e fui organizando essas coisas. Pouco depois a chuva foi cessando, virou chuvisco. Desliguei os limpadores, abri a porta e saí apressado, atravessando o pátio até que, já no saguão do edifício da Chesf, tentei espanar com as mãos alguns dos respingos que salpicaram o terno. Era mais uma semana de trabalho que começava.

Fui subindo as escadas para o segundo andar e pensando na viagem que faria no dia seguinte, para ver um processo no fórum de Gandu e um grave problema na zona rural de Camacã, referente ao proprietário de uma fazenda de cacau que não permitia que a linha de transmissão de energia, em construção, passasse por suas terras.

Ao abrir a pesada porta de vidro, cumprimentei com um sonoro bom dia! – algo que sempre faço ao chegar no trabalho -, dona Léa e Albinha, antigas secretárias da divisão jurídica e, já saindo da sala da secretaria, fui entrando no corredor onde, mais ao fundo, ficava a sala que eu dividia com Ednaldo, um colega nascido em Várzea do Poço, cidade da região de Jacobina, e que de lá trazia latas de manteiga, da boa, pra vender na cantina da empresa.

– Bonelli, é você!?

Era doutor Edvaldo, meu chefe. Ele, na casa dos seus sessenta anos, era um advogado experiente, professor de direito civil e dono de uma cultura que me fazia seu admirador. Leitor dedicado de filosofia, literatura e história, ainda dominava o latim. De estatura mediana e meio rechonchudo, aparentava ter mais do que os sessenta que realmente tinha, com sua calvície emoldurada por ralos cabelos brancos, tinha o hábito de ficar filosofando sobre a vida alisando sua densa barba igualmente alva.

De origem pobre, seu pai teve uma pequena padaria numa viela no bairro da Ribeira e sua mãe, dona de casa, era, como me dizia ele, uma mulher exigente e implacável, nascida em Melgaço, pequena cidade do extremo norte de Portugal, e vinda para Salvador ainda mocinha. Ambos, então já falecidos, educaram doutor Edvaldo com rigor e disciplina; com conservadores ditames morais e educação rígida, voltada para cultivar hábitos respeitosos.

Eram essas as palavras que ele usava para referir-se à sua educação. Estudou com dificuldades de menino pobre – me contava que lavava a única camisa da farda todas as noites pra usá-la na manhã seguinte -, sempre frequentou escolas públicas até atingir, depois de muito estudo e trabalho, confortável situação como competente advogado que era. Aliás, pra amealhar algumas economias, ele contava com o avarento controle de gastos que lhe impunha sua esposa, dona Abigail, senhora simpática, alegre, de quem eu gostava muito.

Acho que graças a essas economias, eles puderam comprar um bom e antigo sobrado, na Rua Urbino de Aguiar, uma transversal da Avenida Dom João VI, no bairro de Brotas. Às vezes, ele convidava alguns colegas pra tomar umas e outras, acompanhadas de petiscos da cozinha árabe, que dona Abigail, descendente de libaneses, fazia como ninguém. Ali, eu ficava observando aquela antiga casa de dois andares e um quintal imenso, repleto de fruteiras, que ia dar perto do vale do Ogunjá.

Ele era um competente gerente jurídico, que administrava muito bem as questões que envolviam a empresa nos Estados de Sergipe e da Bahia, área de nossa atuação. Àquele tempo, jamais imaginaria que eu seria, seis anos mais tarde, escolhido para substituí-lo na chefia, em razão de sua aposentadoria.

Ao ouvir o chamado dele, em vez de seguir corredor adentro, voltei, bati na porta da sua sala e entrei. Doutor Edvaldo, com uma das mãos encostada no alizar da janela, parecia contemplar a chuva fina que caía lá fora. Percebendo minha presença, se voltou e, com sobrancelhas franzidas, lábios cerrados, apontou para uma das cadeiras que ficava em frente à sua mesa. Sentei ali. Enquanto ele dava a volta para se sentar do outro lado, à minha frente, vi, por seu gestual e semblante, que se tratava de algo desagradável. Com ar zangado, sentenciou:

– Filhos criados, trabalhos dobrados!

Desde que o vi, ao voltar-se pra mim, percebi que as coisas não estavam bem. Ele, embora formal, era sempre gentil e bem-humorado, mas estava triste e aborrecido. Ao falar daquele jeito sobre a criação dos filhos, fiquei realmente preocupado com a situação porque notei que poderia ser algo relacionado à sua única filha, Alzirinha, pós-adolescente educada com muitos caprichos, limites e preceitos morais. Me parecia que educava a filha tal como tinha sido educado em tempos já distantes.

Doutor Edvaldo depositava confiança em mim, apesar de eu ter meus vinte e sete anos, então. Dizia que eu era ajuizado, estudioso e que cultivava a qualidade de saber ouvir.

Hum…, se eu, com minhas inseguranças, achasse que era dez por cento do que ele imaginava, já me dava por satisfeito.

– Neste fim de semana, Bonelli, na noite de sábado pra domingo, eram umas dez horas e eu já estava recolhido com Abigail, no nosso quarto. Ouvimos um barulho lá embaixo, vindo da sala. Prontamente levantei e fui até a escada, descendo devagarinho, quando vi Alzirinha com o namorado, motoqueiro sem vergonha, e ela… ela estava… pendurada…

Tenso, com boca seca, ele interrompeu bruscamente a narrativa pra terminar de tomar o meio copo dágua que estava na sua mesa. Nesse curto espaço de silêncio, fiquei a imaginar mil coisas… mil possibilidades. Fiquei a pensar sobre que cena ele, pai devotado e rigoroso, teria presenciado entre sua filha e o namorado. Em que ela estaria pendurada?

Onde, exatamente? Como? Eu estava curioso, mas também sem graça em presenciar o constrangimento que ele expirava.

Foto: https://www.1zoom.me/pt/wallpaper/506489/z2480.9/3840×2400

– Ela estava pendurada… pendurada nos lábios do calhorda! Então, pus o dedo na cara do moleque, mandei que ele sumisse dali imediatamente!

Sabe o que ele me respondeu?

Nada, nada Bonelli! Ele não falou nada!

Covarde! Calhorda e covarde!

– Puxe daqui agora!

Por instantes tive que me controlar pra não rir. Juro que quando ele gritou calhooorrrda – isso mesmo, prolongando o “o” e tremulando o “r” -, me deu uma vontade danada de rir.

Calhorda era uma palavra estranha, arcaica e engraçada, ali. Mas foi uma vontade momentânea. Não poderia ser tão cruel com a dor dele, com o desespero daquele pai conservador, retrógrado, mas sempre cheio de amor e doçura para com sua única filha.

Na minha frente, o pobre do doutor Edvaldo ofegava, sofrido. Não sabia onde botava as mãos; sequer sabia pra onde olhava. Balançava a cabeça de um lado pra outro, em reprovação. Estava consumido em decepções, preocupações…, sei lá mais o que. E eu, o que fazer? Que dizer a ele? Não falar nada?

Olhou pra mim com expressão de quem queria ouvir algo. Esfregou a mão na barba comprimindo o queixo, como a me indagar. Coitado de mim. O que eu poderia dizer a ele?

Poderia nada falar, manter meu silêncio cúmplice das suas aflições. Então decidi falar e procurei ser sincero, diante do que eu realmente sentia, sem ser indelicado. Não tinha conhecimento nem experiência pra confortá-lo. Falei com o coração.

– Doutor, veja o senhor o respeito e o carinho que Alzirinha tem pelo senhor. Ela poderia estar fora da casa, em algum outro lugar, mas se sentiu acolhida e segura na sua casa, a casa dela. E, depois…, foi um beijo. Um beijo, um namoro, talvez um amor. É assim com ela e pode ter sido assim com o senhor.

É assim com todo mundo, não?

As palavras saíram sem reflexão. Fui falando como elas iam chegando à cabeça. Ele ouviu, mas não disse mais nada, nem eu. Pedi licença e saí.

Na minha sala, procurei esquecer momentaneamente as angústias de meu chefe amigo.

Tinha que escrever algumas petições e assim comecei. Peguei umas folhas de papel pautado e pus a esferográfica pra deslizar. Depois que concluía os textos, os entregava a dona Elisa, nossa datilógrafa que, após alinhar no rolo da Olivetti a folha de papel ofício, a de carbono e a folha de cópia, disparava a datilografar rapidamente, sem jamais olhar pro teclado. Inacreditável aquilo.

Por instantes parei pra pensar no velho doutor Edvaldo. Figura cordial, sempre de bem com a vida, estava agora tão amargurado. Dentre suas virtudes, ele tinha gentileza no tratar as pessoas, fosse o porteiro, a servente ou o diretor da empresa. Tratava-os sempre com consideração. Ele conversava com seu Tonel, apelido de Apolônio, senhor gordo que era office-boy, do jeito que atendia a Dr. Eunápio, o mais importante diretor da Chesf e conhecida personalidade da engenharia de então, do qual derivou o nome da cidade de Eunápolis, porque ele, quando gerente técnico da construção da BR-101, criou um acampamento, pouco abaixo da cidade de Itapebi e pra lá viajava constantemente pra acompanhar o andamento da obra da estrada.

Aliás, o conservador Doutor Edvaldo não se referia a seu Tonel como um office-boy, porque achava que isso era novidade de americano. Entendia que sua atividade era de estafeta, antiga designação para quem era o portador de recados, encomendas e cartas.

Veja só, que palavra: estafeta!

Vá entender…

Na terça-feira acordei cedo, coisa de umas cinco horas da manhã. Arrumei a maleta com umas poucas mudas de roupa e peguei a Remington portátil, para o caso de precisar fazer alguma petição. Me despedi da mulher e dos filhos e fui pra Chesf, onde deixaria meu carro e pegaria um da frota da empresa, pra viajar pra Gandu e depois, o que era o mais importante na viagem, seguir pra tal fazenda do cidadão de Camacã, que não permitia que construíssemos uma linha de transmissão que atravessaria sua propriedade.

Na garagem da Chesf me aguardava um recém comprado Gol 0 km, modelo 1984, que, me parece, foi o último ano em que ele foi fabricado com o obsoleto motor boxer a ar, criado por Ferdinand Porsche para equipar o VW sedan (nosso Fusca), que ele projetou no início da década de 1930. O engenheiro Ferdinand também colocou esse motor no primeiro carro da fábrica de automóveis que fundou após a Segunda Guerra, a lendária Porsche AG, sediada em Stuttgart.

Gol 1984

Lá fui eu, desenhando barrancos, pontes, bancas e paisagens da estrada. Pense numa pessoa que gosta de viajar. Se duvidar, eu sou dos que gostam mais do caminho do que do destino. O Golzinho era daqueles modelos de desenho quadrado, com interior apertado e muito barulho vindo do raquítico motor 1.6 a ar, de apenas 55 cavalos. Pra se ter uma ideia, nos dias atuais, o VW Polo 1.0 desenvolve, com um compacto motorzinho turbo de três cilindros, bons 128 cavalos de potência. É mais que o dobro do irmão mais velho.

Então, de ladeira em ladeira, de curva em curva – a BR-101 tem muitas -, fui varando a distância.

Na mesma terça-feira cheguei a Gandu, onde tinha que analisar um processo lá no fórum.

Já conhecia a serventuária. Nas comarcas do interior, os funcionários são sempre mais atenciosos. Dona Angelina se encaixava nesse perfil, com sua disposição e boa vontade.

Folheei o processo, num canto do balcão pra não atrapalhar o atendimento, vendo cada petição, cada despacho, até que cheguei à última decisão do juiz, o que mais me interessava. Era favorável, ufa! Ainda bem. Em pouco mais de quarenta anos de advocacia, mantenho a mesma apreensão antes de saber do conteúdo de uma decisão judicial.

Nunca se tem total certeza de como o juiz vai interpretar os fatos e de como ele vai aplicar a norma àquele determinado caso. As ciências humanas são assim meio imprecisas, diante das variadas compreensões, percepções e vivências das pessoas em relação às situações da vida e da suas concepções sobre a verdade. O Direito não é exceção a isso. O próprio significado etimológico da palavra “verdade” nos coloca, de certo modo, diante dessa subjetividade de cada um. Ela se compõe do radical “ver”, que deriva do latim “videre” que significa ver, enxergar algo, acrescido do sufixo “dade”, que se traduz como, estado, modo ou condição. Por isso, nessa perspectiva, “verdade” pode ser traduzida como sendo um modo de se ver algo.

Por isso, a verdade de doutor Edvaldo, percebida sobre o que viu em relação ao beijo entre a filha e o namorado, foi diferente da verdade que eu assimilei sobre a mesma cena. Não duvide, quando não se quer ser apenas leviano, julgar é difícil, muito difícil.

Tirei uma xerox da decisão judicial e a guardei na pasta, pra levar pra Chesf no meu retorno. Processo eletrônico, insta, face, celular, print? Ora, nem pensar. Tudo acontecia num tempo diferente, num ritmo diferente. A vida seguia mais lenta…

Pernoitei em Gandu, numa pensãozinha que ficava no andar de cima do posto Esso, na praça, e no dia seguinte segui pra Camacã. Na verdade, sendo mais preciso, pra uma serrana localidade rural daquele município, conhecida por Curralinho, onde se situava a imensa fazenda de cacau do seu Bitonho Barreto, abastado cacauicultor da época.

Mesmo tendo sido ele contactado antes por Almeida, um outro advogado de nossa divisão, que me disse ter informado a seu Bitonho sobre os termos do pedido de permissão de passagem, para que os técnicos, seus equipamentos e máquinas pudessem ingressar na sua área; mesmo tendo sido-lhe explicado sobre seus direitos, sobre o valor da indenização, aquele proprietário, segundo Almeida, não queria conversa, não rendia assunto e proibiu que fizéssemos a obra pública.

Quando Almeida retornou à Chesf, falando sobre o embargo criado pelo dono da fazenda, a quem ele taxava de velho estúpido, doutor Edvaldo me chamou e passou-me a missão de reverter a situação.

– Bonelli, você sabe Almeida como é que é. Ele é uma pessoa desajeitada, afoita…

Enfim, você vai ter que ir lá e conseguir essa permissão. O engenheiro Benevides está me cobrando resultado rápido e a obra, já atrasada, não pode parar.

Sabia que seria uma missão difícil. Se iniciava na empresa a tentativa de não usar da ação de desapropriação indistintamente, sem antes tentar consensar com o proprietário da área uma solução negociada, afinal pro resto da vida tínhamos que entrar nessas áreas para fazer vistoria e manutenção da linha de transmissão. Iniciar a relação com os proprietários já precedida de uma impositiva liminar não era algo adequado. A liminar possibilitava uma solução imediata pra entrarmos na propriedade privada, mas muitas vezes projetava uma difícil convivência futura, de mágoas, ressentimentos e má vontade dos donos dos imóveis.

Cerca de dez anos anos mais tarde, a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) veio a exigir que as empresas públicas de energia seriam obrigadas a realizar vários procedimentos de negociação antes de ingressarem com ação de desapropriação contra proprietários de terras atingidas pela linhas.

Com as informações que Almeida tinha me passado em Salvador, saí da BR-101 e entrei por uma estradinha de terra cheia de ladeiras serpenteando as serras, tinha piso ruim e nenhuma manutenção. Desviando de buracos e bicos de pedras, fui dirigindo com cuidado, sem me esquecer que o cárter daquele Gol era de alumínio, frágil, e arrastar numa daquelas pedras poderia significar o fim da viagem.

Aliás, meses atrás, transitando por uma precária estrada de terra, no interior do município de Carira, em Sergipe, furei o cárter de um Fusca (lembre-se, tinha o mesmo motor do Gol) numa pedra escondida debaixo de uma moita de mata-pasto. O óleo do motor vazou pela rachadura e tive que voltar caminhando pra cidade, atrás de um mecânico.

Tempos difíceis…

Finalmente, cheguei à sede da fazenda de seu Bitonho Barreto, por volta das onze horas, sob sol ardente e muito calor. Antes, desde que entrei nessa estradinha miserável, já fui logo abrindo o quebra-vento do Gol, para ver se aliviava o calor.

Olha, quente o tempo estava, mas parte daquele calor, da suadeira, era decorrente da minha agonia em ter de enfrentar aquele enorme problema.

A casa ficava numa meia barriga de alto, um pouco acima do ribeirão que se espalhava num poço de água serena, que de cá eu vi. Estacionei na sombra de um encorpado ingazeiro. O carro tinha o emblema da Chesf na porta. Ao sair percebi, uns trinta metros à minha frente, um senhor que supus ser seu Bitonho, vindo de dentro da casa. Ele parou, atento, ainda na enorme varanda que circulava toda a casa de telhado de quatro águas.

Colocou as duas mãos com firmeza sobre a balaustrada, com gradil de madeira torneada, numa postura autoritária, imponente e bradou:

– Já vi que é da Chesf. Se for pra falar da obra, pode pegar o caminho de volta!

Com uma recepção dessa, tive duas certezas: uma, aquele era realmente seu Bitonho Barreto; outra, eu ir ter uma difícil batalha pra vencer. Se pudesse. Fui me aproximando, até que cheguei próximo ao primeiro degrau da curta escada da varanda, onde seu Bitonho permanecia na mesma pose de imperador.

– Seu Bitonho, bom dia! o senhor podia pelo menos me dar um copo de água, o calor tá grande…

Falei isso suplicando. Com olhos de pedinte, procurei ser simpático o mais que podia.

Enfrentar uma situação dessas não era comum na minha ainda curta trajetória de advogado da Chesf, onde eu estava há só três, dos trinta e três anos que lá trabalhei. Sabia que, fora da cerca daquela propriedade tinham tratores, talhas, caminhões e toda sorte de equipamentos nas mãos dos operários e técnicos que aguardavam uma solução. Obra parada é obra cara, sabia eu.

Lurdinha, veja pro doutor essa água.

Enquanto a velha senhora, sua esposa, foi buscar a água, ele se postou com olhar abstraído, me ignorando, mas fui observando aquela pessoa ali à minha frente. Como poderia abordá-lo? Será que ele seria tão rude assim? Na hora, me lembrei de uma frase de Gandhi: “As verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes, e estão na mesma árvore”.

Embora possamos parecer tão diferentes, no fundo somos todos folhas de uma mesma árvore, então podemos ter pontos comuns, essências compartilhadas. Esse homem, de aparência inflexível, tosca, deveria ter alguma empatia, nem que fossem meros vestígios de resiliência, pensei eu.

Bom, pelo menos ele chamou a esposa pelo diminutivo do seu nome. E vi ali, no jeito dele, alguma coisa de carinho. Um bom sinal. Bebi a água doce, fria, gostosa, certamente vinda do poço ao lado, na certeza de que precisava conversar com o velho Bitonho fazendo do mesmo jeito que se come mingau quente: devagar e pelas beiradas.

– Muito obrigado, senhora. Seu Bitonho, eu posso pelo menos conversar um pouco com o senhor?

Ele tirou o chapéu de abas manchadas, virou-se e o pendurou num cabideiro de madeira pregado desalinhadamente na parede. Olhou pro relógio, me olhou dos pés à cabeça, mandou eu subir os degraus e disse:

– Se for pra falar da obra, pegue o caminho de volta, já disse!

A Chesf foi incapaz de mandar uma pessoa conversar comigo, me explicar as coisas. Doutor, o senhor é ainda menino e não sabe das dificuldades da vida, do que eu passei pra ter isso daqui.

– Seu Bitonho, entendo… me desculpe, mas antes não veio aqui o advogado, Dr. Almeida, conversar com o senhor?

– Não!! de jeito nenhum. Advogado, não! Veio aqui um cavalo, um cavalo! E eu não tenho o costume de conversar com bicho!

Nesse momento me lembrei da conversa de doutor Edvaldo, sempre educado nas palvras, pra mim: Almeida é desajeitado, afoito. De fato era. Mas, muito mais que isso, ele não tinha educação doméstica, modo pra falar, era um sujeito arrogante, nascido e criado no bairro da Graça e frequentador do Clube Bahiano de Tênis. Filho de um influente militar de alta patente, era protegido de importante político de então, e por isso toleravam-se suas complicações no trabalho, seus maus tratos às pessoas, sem sequer poder transferi-lo para outro setor. Demiti-lo, nem pensar, era amparado por poderosos e pela estabilidade do emprego público.

Me cabia agora tentar contornar os desatinos e grosserias do estúpido do Almeida. Não sei se o fato de seu Bitonho, diante dos meus vinte e alguns anos, ter me achado um menino, era algo bom ou ruim pra nossa conversa. Mas, como fazia pra comer o mingau quente, fui devagar, pelas beiradas.

Eu tinha na pasta a cópia do Decreto federal, assinado pelo Presidente da República, General João Figueiredo, para desapropriar toda propriedade que estivesse no traçado da linha de transmissão, traçado cuja planta era parte integrante do Decreto e, por isso, não podia ser alterado. Nada lhe falei sobre todo esse aparato de poder porque isto não faria o menor sentido naquele momento. Então, cheguei mais pra ponta da cadeira de palha trançada em que eu estava, fiquei mais perto dele e, com tranquilidade nas palavras e na expressão, lhe disse:

– Minha intenção não é mexer com a Justiça, seu Bitonho. Pra que isto vai servir pra nós e pro senhor? Serviria pra vir uma ordem de um juiz, possivelmente um homem criado em cidade, que não sabe o que é uma roça, o trabalho que dá e também não sabe, seu Bitonho, o justo motivo do apego que seu dono tem ao que plantou, à sua criação e ao que construiu na sua terra. Terra em que, muitas vezes – o senhor sabe disso -, foi onde o dono nasceu e que veio lá de seu pai, avô…

Ainda sem muita convicção, porém começou me dar um pouco de atenção. Botou as duas mãos sobre os braços da cadeira de balanço e me olhou mais detidamente. Dona Lurdinha pôs o copo em cima da mesa da sala, lá dentro, e voltou pra me escutar.

– De que adianta, seu Bitonho, essa tal de liminar de juiz, se o senhor, pro resto da vida, vai ficar, com razão, remoendo a raiva de quem lhe processou na Justiça e, por isso, nunca vai ter a boa vontade de conviver com as pessoas da Chesf. A gente não quer isso, de jeito nenhum. Eu vim aqui conversar com o senhor. Conversar, ouvir o senhor, e lhe pedir essa permissão.

– É… doutor…, mas vocês não são o dono da minha fazenda. E não se entra na casa de ninguém sem a ordem do dono. Isso é impossível.

Só o fato de ele, quando eu cheguei praticamente ter me enxotado, estar agora me dando um pouco de atenção, já era um passo importante. Continuei conversando com ele eexplicando que as torres que ancoram os cabos tinham trinta metros de altura e que isso em nada ia atrapalhar a roça de cacau nem os pastos que tivessem abaixo dos altos fios.

Também lhe disse que era preciso contar com a compreensão dele, pra que um engenheiro da empresa, a cada seis meses, pudesse, após a sua permissão, ingressar para fazer a vistoria das torres, estais, cabos, isoladores etc. Ele, desconfiado, balbuciou:

– Hum, mas…

Notei que ele já hesitava um pouco. Não concluiu sua frase; ficou pensativo. Aproveitei o momento e falei também que a região começava a ter problemas de fornecimento de energia – com o que ele acenou vagamente com a cabeça, concordando, e que aquela nova linha de transmissão iria trazer energia de qualidade pra ele e toda a população daquele sul baiano. Ali já percebia que eu estava mais perto do que longe de obter sua concordância com a passagem dos eletrodutos de alta tensão.

– Bitonho, enquanto vocês prosam aí, vou passar um café fresquinho pro doutor. Torro aqui mesmo. Toma café doutor?

Aproveitei a mesura de dona Lurdinha, aceitei, agradeci a oferta, e continuei.

– Olha, seu Bitonho, com quatro dias de nascido, fui morar numa fazenda de cacau, onde passei parte de minha infância. Minha casa ficava na baixada, perto da roça de cacau na serra, perto das barcaças, estufa… Via a tropa de burros passar no terreiro, com os caçuás atolados de cacau. Vivi aquilo tudo com o maior apreço pelas coisas dali, pelos trabalhadores da roça, os tropeiros, pela lida de meu pai, tios, meu avô… Por tudo isso, é que tenho toda compreensão da reação do senhor.

Ele começou a se balançar na cadeira, lentamente, ficou olhando distante um certo tempo e perguntou de onde eu era. Lhe disse que nasci em Itabuna e logo fui morar na fazenda, no município de Itapé. Acho que nossa conversa nos aproximava. Ele já não demonstrava indisposição ao nosso encontro, começava a falar das coisas que tinha ali, daquela casa, que, no começo da casamento, levou anos pra terminar, do curral…. Enfim, foi interagindo mais.

– Lurdinha, o café tava danado de bom. Doutor, eu não deixei o pessoal entrar por causa daquele animal que veio aqui, relinchar. Não sabia tratar; não conversava com humildade, entende doutor? Humildade…

Mas, te digo uma coisa, se esse pessoal aí da Chesf quebrar uma cerca, um broto de cacau, boto todo mundo pra correr na bala!

Que alívio! Do jeitão dele, acabara de permitir o acesso. Ainda com prudência, terminei de explicar alguns aspectos da escritura de servidão pública que ele assinaria. Acontece que faltava o mais importante, pensei eu. A essa altura, já tinha comido as beiradas mais quentes do mingau, mas precisava falar pra ele que o valor da indenização, por hectare, iria corresponder a um terço do valor do hectare pago normalmente pela terra, porque, na verdade, a área continuaria sendo dele, pra continuar a fazer o que já fazia ali.

Torres de transmissão de energia elétrica de alta tensão

Puxou as bochechas pra baixo com os dedos, fez uma expressão de quem estava meio cismado com a proposta, mas disse:

– Seu doutor, essa indenização aí… Bem, essa indenização eu recebo na hora que assinar a escritura, certo?

Olha, veja bem… O preço nem é tão bom assim, também não é ruim. Não gosto de explorar ninguém…

Parou a fala, ficou pensativo por instantes. Comecei a ver naquele velho homem coisas boas. Ele não era só rudeza. Me lembrei da frase dita por Gandhi, de que verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes, mas são folhas de uma mesma árvore. O velho podia ter folhas de aparências toscas, com pragas, mas tinha folhas viçosas também. Procurei entender as verdades de seu Bitonho e perceber, portanto, a sua verdade, ou seja, o seu modo de ver. Ele se virou pra esposa, passou a mão alinhando os cabelos grisalhos e já com um pouco de simpatia, disse:

– Então vou levar a professora Anita comigo e repasso o dinheiro pra ajudar ela na reforma da sua velha escola, onde os filhos da gente estudou, hein Lurdinha!?

Claro que dona Lurdinha concordou. Eu, respirei relaxado.

Passei um termo de permissão provisória e ele foi desenhando com dificuldade, vagarosamente, as letras de seu nome e sobrenome. Terminamos aquela formalidade e eu entreguei um cartão meu, dizendo-lhe que até meu retorno para assinarmos a escritura, se ele tivesse qualquer necessidade ou dúvida, que fosse na cidade e ligasse pra mim. Me despedi deles na varanda mesmo, agradeci a dona Lurdinha pelo café; apertei com firmeza a mão de seu Bitonho e o agradeci por sua atitude e compreensão. Mais uma vez me desculpei pela arrogância de Almeida e caminhei para o carro. Liguei o motor e já ia saindo quando ouvi ele me chamar. Pronto, tá tudo perdido, ele mudou de ideia, pensei.

– Doutor!!, Lurdinha leu aqui seu cartão. O senhor é dos Rebouças de Itabuna?

Conhece Bartolomeu? É o quê seu?

– Conheço, sim, seu Bitonho. Bartolomeu é meu tio.

– Home, sai desse carro e vem comer um ensopado de carneiro e abóbora com nois!

Chega pra cá!!

Foi um banquete, comidinha caseira da melhor qualidade, regada pela ingenuidade amistosa e sincera daquele casal.

Na quinta-feira viajei de volta. No dia seguinte estava eu na Chesf com as novidades, desta vez, boas.

Uma semana pra não esquecer…

André Bonelli Rebouças


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