O Réu e o Rei

Paulo César de Araújo - foto O Globo

Paulo César de Araújo – foto O Globo

Nesta série sobre escritores conquistenses, o blog fala de Paulo César de Araújo.

Naqueles anos 70, quem pretendia fazer alguma faculdade, obrigatoriamente, tinha que sair de Vitória da Conquista. Quem não tinha muitos recursos ou quase nenhum ia para Salvador, morar na REC (existia desde o início daquela década a Residência do Estudante de Conquista, já citada neste blog); ou para outros lugares, outros estados, onde morasse um parente em condição financeira mediana. Alguns faziam a faculdade de direito em Teófilo Otoni (MG), perto de Conquista, o que não alterava nada em termos de moradia. Havia também Itabuna, mas aí era preciso fazer a mudança.

Paulo César de Araújo, de família pobre, com seus 7, 8 anos foi engraxate e fez outros trabalhos antes de ir para São Paulo (a Meca dos nordestinos em busca de emprego naqueles anos de chumbo) e depois para o Rio de Janeiro, onde construiu sólida carreira de historiador e escritor.

Roberto Carlos - quero que vá tudo pro inferno

Foi em Conquista, aos 7 anos, que ele viria a conhecer musicalmente aquele que nortearia sua vida, para o bem e para o mal. No dia em que ouviu a música “Quero que vá tudo pro inferno”, consagrou Roberto Carlos como seu ídolo. Em todo mês de dezembro, fosse qual fosse a sua situação financeira, comprava o disco do “Rei”.

E foi com essa idolatria que depois de se graduar em jornalismo e história, Paulo César tomou pra si a responsabilidade de fazer a biografia do cantor. Foram 15 anos de pesquisa, entrevista de um sem número de gente que fez parte da vida de Roberto Carlos, mas jamais conseguiu ser ouvido pelo seu ídolo para a construção da biografia.

Livro Roberto Carlos em detalhes

Com um arcabouço poderoso de informações sobre tudo de RC, Paulo César fez o livro “Roberto Carlos em Detalhes”. Estava ali a biografia do rei da jovem guarda, que, no entanto, detestou e, no Judiciário, com juiz e promotor seus fãs declarados e parciais no julgamento, impediu a venda e continuidade da publicação da obra. Felizmente para a liberdade, quando houve a decisão o livro já fora vendido até no Exterior. Clique na imagem ou aqui e leia o livro proibido em PDF.

Mas a proibição do livro e toda a história para que as edições fossem jogadas na fogueira (como definido em sentença) gerou algo maior: revisão e redefinição da lei das biografias. Mostrou também que ídolos podem ter os pés de barro. O próprio rei RC, e Chico Buarque, que “se esqueceu” que fora entrevistado por Paulo César (felizmente, fitas cassete e fotos do encontro viraram provas do escritor, na grande imprensa, de que não estava mentindo) ficaram mal no episódio.

Livro Eu não sou cachorro não

Além do livro proibido, Paulo César de Araújo escreveu “Eu não sou cachorro não”, obra que tirou das sombras os chamados cantores brega. O livro mostra que eles sofreram tanto quanto outros artistas, os ditos engajados politicamente, durante a Ditadura Militar instalada no Brasil em 1964. Os artistas brega – revela o livro – foram importantes para as classes menos favorecidas economicamente, e por isso censurados sistematicamente pelo regime militar. Com sua linguagem peculiar, davam “seus recados” sobre a situação social e política do País.

Livro O Réu e o Rei

Depois da proibição de “Roberto Carlos em detalhes”, Paulo César de Araújo foi à luta e sabiamente escreveu “O Réu e o Rei”. Na linguagem popular, o escritor deu 1 a 0 nos censores (incluindo nessa categoria Roberto Carlos e os que o apoiaram, além de juízes, advogados e promotores que ficaram ao lado do “Rei” e ainda tiraram selfie).

O Réu e o Rei começa com a audiência que colocou querelado e querelante frente a frente, e depois vai contando a saga de Paulo César nos 15 anos de pesquisa; fala também de sua infância, das dificuldades quando saiu da Bahia, do encontro e da amizade com João Gilberto (são capítulos informativos sobre a MPB, a Bossa Nova, mas também cômicos) e… A vida de Roberto Carlos. Sim, desde o nascimento em Cachoeiro do Itapemirim, o acidente na linha de trem que o fez amputar a perna, até a luta para se tornar o maior nome da música nacional (em termos de venda e de reconhecimento mundial), Roberto Carlos está, no “O Réu e o Rei”, inteirinho e com detalhes. Mais adiante, você tem links de entrevistas de Paulo César, que promete publicar livro específico sobre RC em 2016, não diz se é a biografia não autorizada ou outro. Além de talentoso para apurar, pesquisa e escrever, o conquistense é bom de briga.

Roberto Carlos - o rei da censura

Veja alguns links:

Paulo Cesar de Araújo e Chico Buarque juntos durante entrevista Imagem publicada na Folha de São Paulo

Paulo Cesar de Araújo: “Fui tratado como criminoso”

Roberto Carlos: o rei da censura

Paulo Coelho: “Roberto Carlos manipulou Chico, Caetano e Gil”

Paula Lavigne critica reportagem sobre biografias não autorizadas

Roberto Carlos deixa o grupo Procure Saber após ataque de Caetano Veloso

Entenda a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas

Ministros do STF decidem liberar biografias não autorizadas

Por 9 a 0, STF decide pela liberação de biografias não autorizadas

Vale a pena ler de novo: A vitória da liberdade de expressão e a derrota dos artistas que envelheceram

De Nana Caymmi em 11/10/2013 no site de O Globo:

“Sempre fui a favor da liberdade, desde o episódio da biografia de Garrincha, do Roberto Carlos. Se você quer ser artista, sua vida se torna pública. Proibir biografias é falta do que fazer, vem da invenção da máquina de lavar. Estão todos velhos [os artistas que são contra biografias não autorizadas]”.

4 pensamentos sobre “O Réu e o Rei

  1. respeito a iniciativa do conterrâneo Paulo, de escrever sobre o cantor RC é evidente que não cheguei a ser como cantor e compositor, nascido em Vitória da Conquista Ba, sucesso no Brasil, porem como crooner da banda “Os Cometas” de Maringá, quase dez anos na época da “jovem guarda” cantei em todo o estado do Paraná, animando bailes, com, digamos grande sucesso, e devo dizer que as músicas do “Chamado” rei não era de agrado do público. Devo dizer também que nunca achei que ele fosse Rei de coisa nenhuma, simplesmente nasceu com o cu virado pra lua, até dizem que uma grande parte das músicas que tem o nome dele e do Erasmo, foram compradas, como no caso da música chamada o “Careta” que teve que pagar 2 milhões de indenização, ao verdadeiro autor, por ter roubado aquela coisa chamada de música. Mas hoje além de muito rico, ainda continua cantando na Globo para um público forçado a assistir sua apresentação ridícula. Desculpe -me mas gostaria de dizer também que compus uma canção que fala de meu berço natal minha querida Vitória da Conquista, e no ano passado levei alguma cópias para a radio de lá (Radio Clube Conquista) minha contribuição para a história de minha cidade natal, entretanto não tive a receptividade que esperava, mas fica a homenagem que será para sempre.

    • Nattinho, é com alegria que o blog lhe revê.
      Pena que a turma não percebeu, em Conquista, a importância do seu trabalho.
      Continue desfilando seu talento por onde passar, conterrâneo.
      Abraços
      Bomfim Brown

  2. Baixarei o livro, pdf, para leituras de janeiro. Instigante, posso afirmar pela prévia que você enviou. Então, desejo um Feliz Natal, com muita paz, luz e felicidades.

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