A Nação e a História não podem desconhecer o massacre de Caldeirão e Pau de Colher

De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros se transformou em reportagem, foi post aqui no blog e, quem sabe, ainda será um documentário que dará muito o que falar. Clique aqui e veja um pouco dessa história que a Nação ainda não conhece e que os governos e as forças armadas brasileiras jamais tiveram o trabalho de vasculhar e reconhecer a matança promovida pelo Estado contra uma comunidade sertaneja.
Sim,  a guerra dos caceteiros foi o assassinato de sertanejos nordestinos por armas do Exército brasileiro, em 1938. Um um crime terrível que, infelizmente, a História do Brasil oficial não registra.
Em 9 de novembro, a jornalista Socorro Araújo, que trouxe à tona toda essa história há cinco anos, recebeu a visita de dona Maria, que era criança na época do massacre e foi uma dos poucas sobreviventes. Leia o relato – brilhante – de Socorro e depois clique nos links no final do texto para saber mais desse atentado do Estado contra uma comunidade indefesa. A imagem a seguir é de um recorte de  jornal da época.
Imagem de recorte de jornal de 1938 - está na Wikipédia

Imagem de recorte de jornal de 1938 – está na Wikipédia

Leia o texto de Socorro Araújo:

“Os governos democráticos que ajudamos a construir também provocam exclusões”. Lembrei dessa frase do escritor argentino Juan Gelman ouvindo, mais uma vez, neste fim de semana,  o relato de dona Maria da Conceição, mãe de uma amiga minha. Dona Maria tem mais de 80 anos, mas conta, com impressionante nitidez, como os soldados mataram a mãe, a avó e cinco irmãos num episódio da nossa história quase desconhecido pela maioria dos brasileiros: o Massacre de Pau de Colher.

A 600 km de Salvador, num lugar ermo, fronteira com o Piauí, região de Casa Nova, árido, pobre, miserável, mas reduto de famílias abastadas, um beato chamado Senhorinho, seguidor de Padre Cícero, se instala, com seus seguidores, em 1937.

Pensou em Canudos? O governo também. E, como sempre, numa aliança entre Estado, Igreja e latifundiários, mandou pra lá seus soldados. Em 3 dias, mataram mais de 500 “fanáticos”. Dona Maria tinha 8, 10 anos e lembra de detalhes. Eles atiravam à queima-roupa em pessoas desarmadas ou armadas com pedaços de pau. Viu a mãe morta com tiros nas pernas, um dos irmãos, menino como ela, com um tiro na cabeça. A avó, cega, tomou um tiro no peito. Duas irmãs pequenas, uma de colo, que se abrigavam numa casa, foram queimadas vivas, junto com outras crianças, feridos e velhos que se refugiavam ali. Isso quando a “guerra” já tinha acabado.

Não satisfeito, o Estado trouxe a menina, com outros “órfãos de guerra”, como anunciavam os jornais na época, pra Salvador e ela foi doada pra uma família. Trabalhou como escrava até que se casou e pôde sair de lá. Eles sabiam que o pai tinha sobrevivido porque ela o viu numa foto de jornal entre os prisioneiros e mostrou aos “patrões”. Queria voltar pra casa. Não deixaram. Passou a vida pensando em encontrar a outra irmã, que foi separada dela no trem quando vinham pra Salvador, mas quando soube já era tarde para o reencontro. A irmã, que vivia em São Paulo, tinha morrido fazia pouco tempo. A irmã tinha procurado por ela também a vida toda.

Cada vez que dona Maria conta isso, sem derramar uma lágrima, eu fico com vergonha de nós. Porque, por mais que eu concorde que alguém que perdeu o emprego no tempo da ditadura seja indenizado, não posso entender como dona Maria e os outros sobreviventes das tantas violências cometidas pelo Estado não tenham o mesmo direito. Dona Maria é uma mulher alegre, acreditem, quer agora encontrar o batistério, que é uma espécie de registro de nascimento, pra poder saber o dia que nasceu e comemorar o aniversário. Pode estar na Arquidiocese de São Raimundo Nonato, no Piauí, ou em Casa Nova. Quem puder ajudar…

Esse vídeo foi feito por um dos filhos dela, ano passado, quando ela voltou ao local para o trabalho de formatura da neta. O áudio tem alguns problemas, mas vale a pena ver um pouco do relato da menina que ainda sobrevive nesta mulher…

Clique na imagem e veja.

Caldeirão e Pau de Colher - vídeo

Saiba mais:

De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros

Ensaios

Pau de Colher e Casa Nova

Caldeirão e Pau de Colher: A história das lutas populares é indestrutível

Imagens sobre o massacre

Holocausto no Caldeirão Ceará e Pau de Colher Bahia envergonha a elite do Nordeste

Denúncia Histórica

Livros:

Editora: Do Autor (engeo.com.br)

Estante: História do Brasil

Ano: 1998

Pau de Colher - autor: Gilmário Moreira Brito Editora da PUC-SP, 01/01/1999 - 259 páginas

Pau de Colher – autor: Gilmário Moreira Brito
Editora da PUC-SP, 01/01/1999 – 259 páginas

Pau de Colher – Moradores lutam para que a história seja conhecida – IV

E chegamos à quarta e última matéria da reportagem da jornalista Cleidiana Patrícia Ramos (com fotos de Gildo Lima e ilustração feita com pirógrafo de madeira de Túlio Carapiá, da Editoria de Arte de A Tarde) sobre o massacre do Exército brasileiro e polícias da Bahia, Pernambuco e Piauí contra a comunidade de Pau de Colher, distrito de Casa Nova (BA), em 1938.
Não há dúvida de que esta reportagem ajuda a reescrever a História do Brasil, dá visibilidade a excluídos de tudo, inclusive da própria vida. Para mim e Socorro Araújo, que há três anos me trouxe essa história, o objetivo era a divulgação em um veículo de comunicação de grande porte para, quem sabe?, outros sobreviventes do massacre, crianças em 1938 – a exemplo de dona Maria da Conceição Andreza, principal fonte da reportagem – aparecerem, ou pelo menos parentes delas, e se mostrarem ao país.
E esse objetivo foi atingido. Sabemos que remanescentes do massacre entraram  em contato com Cleidiana Ramos. E já há movimento para a realização de um documentário.
A matéria de hoje revela também que o prestigiado Sante Scaldaferri tem dois quadros sobre Pau de Colher, que foram censurados durante a ditadura militar de 64. São fatos que demonstram que não há nada isolado. Canudos, Pau de Colher  e outras tragédias humanas repercutem no Século XXI. Só precisamos estar atentos para os sinais. Fiquemos agora com o último texto da série e aguardemos novos acontecimentos.

EPÍLOGO

Distrito ainda guarda marcas do acampamento.

Paróquia de Casa Nova organiza romaria em dezembro para lembrar movimento de Pau de Colher

Por  Cleidiana Ramos

Edição de A Tarde de 8 de setembro de 2010

A história de Pau de Colher ainda recebe pouca atenção. O movimento é desconhecido mesmo em Casa Nova, município do qual a localidade é distrito. A Paróquia de São José, sediada em Casa Nova tem se empenhado no resgate da história do movimento. Há oito anos, por exemplo, a paróquia realiza uma romaria em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, que é a padroeira de Pau de Colher. A caminhada começa no sítio onde aconteceram as mortes e está a sepultura coletiva e segue até onde ocorria uma conhecida feira.
“Quando eu cheguei aqui em 2002 ninguém falava no movimento. Tivemos a ideia de fazer uma romaria porque é parte da história de um povo que muitas vezes foi contada apenas do ponto de vista do poder político local”, destaca o pároco de Casa Nova, padre Aluísio Alves Borges.
A diocese de Juazeiro, da qual a paróquia de Casa Nova faz parte, lançou um livro intitulado História de Pau de Colher – o último grande movimento messiânico do Brasil.
O livro foi escrito por Roberto Malvezzi, membro da Pastoral da Terra da Diocese de Juazeiro.
“Pau de Colher se insere no contexto de movimentos como Canudos, Crato e Caldeirão.
Por isso precisa ser conhecido no cenário nacional dos movimentos sociais”, diz.
Outros estudos sobre o assunto, além do clássico O Movimento Messiânico de Pau de Colher, de Raymundo Duarte, publicado em 1969, são os livros: Pau de Colher – um pequeno Canudos, de Raimundo Estrela, veiculado em 1997; De Caldeirão a Pau de Colher: a guerra dos caceteiros, de Ruy Bruno Bacelar de Oliveira, lançado em 1998; e Pau de Colher na Letra e na Voz, de Gilmário Moreira Brito, de 1999. O pintor Sante Scaldaferri tem duas pinturas sobre o episódio feitas para uma exposição patrocinada pela Fundação Nacional da Arte (Funarte) e que teve o texto de apresentação censurado pela ditadura militar. O coordenador de Cultura da Prefeitura de Casa Nova, Luciano Correa, afirma que o órgão tem o projeto de fazer um documentário sobre o local.
Abandono
Fora essas iniciativas, o silêncio ainda paira sobre Pau de Colher, onde moram cerca de 40 famílias. As casas não chegam a formar um arraial, pois ficam afastadas umas das outras.
São 98km até Casa Nova, via estrada de terra e sem referências.
Lá não tem posto de saúde, nem telefone público.
A água vem de cisternas e a energia é solar, o que dá para ter uma televisão. A geladeira já é um luxo maior porque precisa de adaptação que custa caro. As casas de taipa são comuns em meio à caatinga.
O período de estiagem às vezes chega a oito meses.
Gregório Manoel Rodrigues, 65 anos, não é sobrevivente do movimento nem teve a sua família diretamente envolvida, mas conhece alguns dos que escaparam e vários detalhes da história.
“Quando a gente veio morar aqui eu sempre tive curiosidade aí comecei a perguntar”, relata. Seu Gregório faz parte do grupo que organiza a romaria de Pau de Colher.
“Eu queria ver isso aqui ter um tratamento melhor porque é a nossa história”. diz. O filho de seu Gregório, Paixão Rodrigues, que tem um bar em Pau de Colher, guarda vários objetos achados em meio à caatinga que parecem remeter aos fatos de 1938.
“Isto parece uma bala”, deduz ao contemplar um artefato que achou na caatinga.
Segundo ele, de vez em quando, um ou outro caçador relata ter desistido da caçada após ouvir barulho como de gente conversando.
São, talvez, os sinais de uma história que usa as armas sobrenaturais de uma consciência coletiva para não ficar totalmente esquecida
“Pau de Colher se insere no contexto de Canudos, Crato e Caldeirão. Precisa ser conhecido no cenário nacional dos movimentos sociais”, diz o escritor Roberto Malvezzi.
Série 4/4
AS MATÉRIAS CONTARAM A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO MESSIÂNICO OCORRIDO EM PAU DE COLHER A PARTIR DAS MEMÓRIAS DE MARIA DA CONCEIÇÃO ANDREZA.

Em três dias de tiroteio, Pau de Colher acabou destruído – parte II

Hoje, A Tarde publica a segunda matéria da reportagem feita por Cleidiana Patrícia Ramos (fotos de Gildo Lima) sobre a crueldade praticada contra as comunidades sertanejas de Caldeirão e Pau de Colher. Episódio que mostrou o ataque de polícias militares da Bahia, Pernambuco e Piauí e do Exército brasileiro contra civis brasileiros. Ontem, você leu como tudo começou. Leia hoje como foi a destruição. A série continua amanhã e quarta-feira.

Edição de A Tarde de 6 de setembro de 2010

A GUERRA
A polícia da Bahia, de Pernambuco e do Piauí e o Exército foram mobilizados para pôr fim ao acampamento messiânico. Morreram 400 pessoas
Uma das coisas que lembro é que um menino se dirigia para perto do caldeirão onde estava a comida. Ele recebeu um tiro e caiu morto”. O relato de Maria da Conceição Andreza, 81 anos, se refere à repressão da polícia ao movimento messiânico que se instalou em Pau de Colher dos meados de 1937 até o início de 1938.
Durante três dias – 19, 20 e 21 de janeiro de 1938 – 90 homens comandados pelo capitão Optato Gueiros mataram, estima-se, 400 pessoas.
Do lado militar contou-se seis mortos e dez feridos, segundo o estudo O Movimento Messiânico de Pau de Colher, de autoria de Raymundo Duarte, publicado em 1969. O destacamento chefiado por Gueiros era apenas uma parte da força militar mobilizada para conter os conhecidos como “fanáticos” ou “caceteiros”.
Para lá foram também acionados um esquadrão motorizado; uma companhia de fuzileiros, um destacamento da polícia do Piauí, e o apoio do 19º Batalhão de Caçadores (BC) e do 28º BC. Ao todo eram três estados unidos no objetivo de sufocar o arraial: Bahia, Pernambuco e Piauí, além do Exército.
“Estabelecendo-se que somente à polícia caberia intervir na luta, planejou-se o cerco de Pau de Colher pela polícia. No entanto, quando policiais baianos e piauienses atingiram o local, o reduto tinha sido destruído pela força de 90 homens sob o comando do capitão Optato Gueiros que, se dirigindo para lá a fim de cumprir uma missão de “capturar elementos avançados do inimigo” resolveu atacar temendo ser envolvido pela retaguarda” narra o professor Raymundo Duarte.
O conflito final havia sido precedido por uma luta no dia 10 de janeiro. Um destacamento comandado pelo sargento Geraldo Bispo dos Santos e integrado pelo cabo Antônio Vieira Silva (Vieirinha), quatro soldados e 30 civis, foi até Pau de Colher. O destacamento foi motivado por três mortes atribuídas a integrantes do grupo reunido no acampamento. Eles atacaram José Rodrigues de Souza (José da Barra), José Cocoisa e José Rubens porque os mesmos não queriam aderir ao movimento. Segundo relatos, foram mortos a golpes de varas de marmelo carregadas pelos líderes do grupo.
No combate do dia 10, morreram José Senhorinho, João Cabaça, Simplício, João Damásio e Pedro Bevenuto. Do lado militar morreram o cabo Vieira e o soldado João Batista dos Santos, o que motivou a fuga do resto da tropa. A próxima investida militar foi a mais incisiva e final.
Sobrevivência
Diante do ataque militar, conhecido na região como “o fogo”, a primeira reação de dona Maria foi jogar o corpo para proteger sua irmã Joana, ainda bebê. Só mais tarde, quando o barulho de tiros acabou é que ela conseguiu entregar a menina a uma outra irmã mais velha. “Eu vi minha mãe morrer ao levar um tiro. Minha avó, Andreza, também morreu, assim como meus irmãos. Duas das minhas irmãs, fiquei sabendo depois, morreram em uma casa que foi incendiada, inclusive a que era ainda bebê”, conta dona Maria.O incêndio foi provocado pela polícia e nele morreram todos que tinham se refugiado na casa.
O que serviu de escudo a dona Maria durante o tiroteio foi um tronco de umbuzeiro.
De lá só saía, quando possível.
“Numa dessas quando voltei tinha uma mulher morta caída. Fiquei assim mesmo. Ao lado ficou também um casal”, diz. Além do medo tinha a fome e a sede. “Tentei beber minha própria urina, mas não consegui”, narra. Havia horas em que o perigo passava perto. “Senti uma bala raspando o meu cabelo. Comecei a gritar que tinha levado um tiro na cabeça, aí o casal disse que não, senão eu teria morrido”, afirma.
Ali perto outro menino lutava para sobreviver, correndo de um lado para o outro.
Era Martiniano da Silva, hoje com 83 anos, conhecido como Bianinho. Ele foi parar no arraial por iniciativa da avó, Eva de Aguiar da Silva. A mãe e os irmãos já estavam lá e o pai já tinha morrido. Pelos detalhes do relato de seu Bianinho, o tipo de vida do acampamento não o agradava e passava a maior parte do tempo fugindo.
Também fala sem simpatia de líderes como José Senhorinho e José Camilo. Este, conta, lhe deu uma surra, porque se negava a tomar a bênção a Senhorinho. “Vi um daqueles que chamavam de santo jogar uma criança para cima e amparar no ferro que chamavam de espada divina porque o menino chorava era de fome”, relata.
Seu Bianinho lembra que ainda chegou a encontrar a mãe após o tiroteio, no meio da caatinga, mas resolveu fugir novamente. Foi a última vez que a viu. A sorte foi que reencontrou a avó e foram acolhidos numa fazenda.
Após o tiroteio, Pau de Colher estava destruído. “A polícia continuou na área, dando batidas, fazendo prisões, inclusive barbaridades. Muitos voltaram às suas casas meses depois. Outros tomaram rumos diversos e jamais foram vistos pelos parentes”, narra Roberto Malvezzi no livro História de Pau de Colher, publicado pela Diocese de Juazeiro. Neste trabalho é lembrada a vida de dona Maria após passagem pelo acampamento.
LEIA AMANHÃ SOBRE O DESTINO DOS SOBREVIVENTES

De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros

Há 3 anos, a jornalista Socorro Araújo me falou de uma guerra declarada pelo governo brasileiro contra uma comunidade sertaneja brasileira. E não era de Canudos que Socorro falava. Ela trazia para mim uma novidade, como também é novidade para quase todo mundo que ouve falar sobre o assunto.

A guerra dos caceteiros, o assassinato de sertanejos nordestinos por armas do Exército brasileiro, em 1938, foi um crime terrível que, infelizmente, a História do Brasil oficial não registra.

Tentamos divulgar o assunto, falamos de livros e trabalhos já escritos sobre Caldeirão e Pau de Colher por abnegados bem-intencionados, mas a grande imprensa não se mostrava disposta a ver o assunto como “uma boa pauta”.

Felizmente, encontramos na jornalista Cleidiana Ramos a inteligência e sensibilidade para dar espaço e voz às vítimas do ataque cruel e desumano do Exército brasileiro. Ela convenceu seus editores de A Tarde e hoje temos a primeira das quatro reportagens sobre o assunto.

Parabéns a Cleidiana, ao repórter-fotográfico Gildo Lima, ao departamento de infografia e editores de A Tarde. As reportagens prosseguem segunda, terça e quarta.

Leia a deste domingo:

Edição de A Tarde de 5 de setembro de 2010  

De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros

Série lembra Pau de Colher

Em uma série de quatro reportagens, iniciada hoje, A TARDE resgata a história do movimento messiânico de Pau de Colher, ocorrido em janeiro de 1938. A saga é contada a partir da história de Maria da Conceição Andreza, 81 anos, que sobreviveu à repressão policial ao movimento, uma ação que deixou cerca de 400 mortos ESPECIAL A12

Histórias de quem saiu viva do ataque a Pau de Colher

A partir das memórias de Maria da Conceição Andreza, o movimento messiânico que atraiu várias famílias em busca da terra prometida é resgatado

Pedro Andreza chegou em casa e avisou à família que iam viajar.

Foi assim que começou, em janeiro de 1938, a participação de sua família no movimento messiânico de Pau de Colher, distrito do município de Casa Nova, a 572 km de Salvador, no médio São Francisco. Para trás ficaram as três roças e um rebanho de caprinos. A aventura que o envolveu e mais sua mulher, os oito filhos e mais a sua mãe terminou com cerca de 400 mortos.

A história da participação desta família no movimento messiânico é preservada pela memória de uma das filhas de Pedro: Maria da Conceição Andreza, 81 anos, idade aproximada, pois uma de suas batalhas é para encontrar sua certidão de nascimento: “Um dos meus sonhos é saber a minha idade real”, diz dona Maria.

Ela mora em Salvador para onde foi trazida à força, após sobreviver ao tiroteio policial que acabou com o acampamento dos chamados “fanáticos” ou “caceteiros”. Embora tenha batalhado por mais de 60 anos, dona Maria não conseguiu reencontrar os parentes que sobreviveram.

Quando descobriu a pista do pai em Casa Nova ele já tinha morrido. O mesmo aconteceu com duas das irmãs.

Separação

Dona Maria se tornou, após o movimento, um dos chamados “órfãos de Pau de Colher”, título dado às crianças que foram distribuídas a famílias da capital pelo próprio Estado sem o esforço de pesquisar se ainda tinham parentes vivos.

Elas sobreviveram ao ataque ao acampamento que foi o ponto final da caminhada da família naquele janeiro de 1938 e que durou um dia. O acampamento ficava em volta da casa de José Senhorinho, um líder religioso que desde o ano anterior agitava Pau de Colher.

O nome da localidade faz referência a uma árvore que os moradores não sabem afirmar com certeza se era usada para fazer o utensílio de cozinha.

Pau de Colher fica a 98 km de Casa Nova, sede do município do qual é distrito. Para chegar lá, ainda hoje é difícil, pois tem que se percorrer uma estrada de terra, cheia de curvas e com poucos marcos de referência. Na época do movimento, a feira do lugar era bem conhecida na região e ocorria ao redor de um juazeiro que continua de pé.

Padre Cícero

O povo que seguiu para lá esperava a partida para uma terra prometida sediada no Ceará e chamada Caldeirão que tinha o beato José Lourenço como líder. Penitência fazia parte da rotina. “Tudo que acontecia lá era por obediência a José Senhorinho que era chamado de padrinho.

Tinham outros, mas era a ele que a gente pedia a bênção.

A gente ficava ajoelhada, com a mão estendida e demorava que ele abençoasse, pois tinha que fazer penitência”, conta dona Maria.

Um dos trabalhos mais conhecidos sobre Pau de Colher é o elaborado pelo professor da UFBA Raymundo Duarte, já falecido. Intitulado O Movimento Messiânico de Pau de Colher, o texto foi apresentado no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, em 1969. O estudo de Duarte aponta o parentesco do movimento em Pau de Colher com o ocorrido em Caldeirão, liderado por José Lourenço, um discípulo do polêmico padre Cícero Romão, de Juazeiro do Norte.

Após a morte do padre em 1934, a localidade de Caldeirão com sua prosperidade, pois tinha até um sistema próprio de abastecimento de água, passou a atrair muita gente. Em Caldeirão, como iria se repetir em Pau de Colher, todo mundo vestia preto, em sinal de luto pela morte do padre Cícero. A prosperidade do lugar começou a incomodar e em 11 de setembro de 1936 foi bombardeada por um destacamento da Força Aérea. Talvez este episódio seja o único na história em que civis brasileiros foram atacados por uma força aérea do próprio País.

Herança

Amigo de José Lourenço e discípulo do padre Cícero, um beato chamado Severino passou por Pau de Colher. Foi ele quem, depois de conferir o conhecimento que José Senhorinho tinha da Bíblia e de outros fundamentos do catolicismo, o deixou como uma espécie de líder. Na casa de Senhorinho, os moradores de Pau de Colher começaram a se reunir para rezar. Mais tarde, com a chegada de um outro líder, Quinzeiro, também vindo de Caldeirão, o movimento começou a ter ainda mais adeptos.

“Quando a gente chegou já tinha muita gente por lá. O abrigo eram umas barracas chamadas de latada”, conta dona Maria. Logo, o poder político da Bahia, Pernambuco e Piauí decidiria que o movimento era perigoso demais.

Leia também:

De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros

Ensaios

Pau de Colher e Casa Nova

Caldeirão e Pau de Colher: A história das lutas populares é indestrutível

Imagens do massacre

Holocausto no Caldeirão Ceará e Pau de Colher Bahia envergonha a elite do Nordeste

Livros:

  Autor: Ruy Bruno Bacelar de Oliveira   

Editora: Do Autor (engeo.com.br)

Estante: História do Brasil

Ano: 1998

Pau de Colher - autor: Gilmário Moreira Brito Editora da PUC-SP, 01/01/1999 - 259 páginas

Pau de Colher – autor: Gilmário Moreira Brito
Editora da PUC-SP, 01/01/1999 – 259 páginas

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