Ruas de Conquista

O cronista Valter Freire nos brinda com outra bela crônica. As ruas conquistenses de outrora. Vi nomes, na crônica, que desde criança não ouvira mais. Por que será que políticos de ocasião adoram enterrar a história das cidades? O questionamento de Valter aguarda respostas. Vamos à crônica! E fotos que farão adultos se emocionarem a ponto de chorar.

Escola Barão de Macaúbas – não existe mais

Na Escola Barão de Macaúbas, sob a regência da professora Anita, aprendi o hino de Conquista e lembro-me de um  trecho: “Conquista, de emoção vibra o meu peito, ao fitar-te no mapa do Brasil”. Como estou fora dessa cidade há muitos anos, saudosamente, acessei  o Google Maps  (como se vivia sem o Google?!) e procurei as ruas em que aprendi a viver. Fiquei confuso, “estatelado”, como dizia minha mãe.  As ruas sumiram? Onde estão as Ruas de Areião,  do Cobertor, do Bueiro,  dos Cachorros, do Espinheiro, do Tanque,  das Sete Casas, da Moranga, da Boiada, da Conquistinha, e Rua dos Tócos?

Praça Barão do Rio Branco, em 1977

A Praça da República virou Praça Tancredo Neves?  E a Rua das Flores e Rua dos Campinhos? Entendo que o político mineiro tenha o seu valor (mesmo tendo sido um presidente que não foi presidente… deixa pra lá), mas a denominação de uma praça com o nome República é a mais perfeita da democracia. Onde está a Rua da Taboquinha, das Pedras, da Usina, das Sete Casas, da Palha, do Gancho? A Rua do Cruzeiro tem outro nome? E a Rua do Magassapo (Tá legal, já era rua D. Pedro II, mas se fosse D. Pedro I ficaria mais coerente). E a Baixa da Égua? E a Ruas do Gancho, do Cajá, dos Tócos e as Praça da Feirinha, Praça dos Eucaliptos, Praça do Chafariz, Praça da Casa do Bispo e Praça do Alto Maron? Vi com alegria que a Rua das Pedrinhas continua com esse nome, mas e a Travessa Cabo da Mãe, onde está?  Rua do Cemitério, Rua dos Pratos, Rua do Cici, Rua da Avenida? E a Rua da Barragem ou Rua do Poço Escuro? E o Beco da Tesoura? Cadê a Rua da Granja, da Usina, do Mamoeiro (onde havia uma casa de muitas alegrias para a rapaziada)? Rua do Pela-jegue, Rua da Igrejinha de São José, Rua da Gurita de Brumado, Rua do Sobradinho de Nestor, Rua das Bateias, Rua dos 12, Estrada da Mata de Miguidônio, Rua das Sacramentinas, Rua de Deraldo, Rua do Campo de Aviação e Rua do Campinho da Ster, onde estão?

Banda Marcial do Colégio Batista Conquistense desfila na Rua João Pessoa (Rua da Boiada) em 1974
Casa de Dona Zaza , na Praça Barão do Rio Branco

E o Beco Sujo? E o Beco da Bosta.  Belos e pitorescos nomes que no momento me fogem aos dedos e da mente….

Cadê o centro histórico da cidade? Cadê os belos casarões das famílias tradicionais, que disputavam quem fazia a casa mais bonita? Cadê a memória da cidade? 

Em 1985

Talvez eu esteja procurando uma cidade que hoje está na memória, na saudade, na tradição. As ruas que procuro devem ter nomes de políticos que fizeram ou não fizeram nada. Seus nomes podem estar perpetuados, mas o inconsciente coletivo (e consciente também) sempre vão buscar os nomes da origem, da tradição, da história. Os antigos e pitorescos nomes têm razão de ser e foram batizados anonimamente pelo povo.  Voltando ao hino, “esperança sorridente do Brasil, a ti o meu orgulho soberano” e é em nome desse orgulho soberano que para mim, as ruas terão sempre os nomes de origem.  Desses políticos, que a Câmara de Vereadores resolve homenagear, claro que tem exceções, um exemplo é a Praça Misael Marcílio, que homenageia um líder nato do bairro, numa praça que não tinha denominação, poucos têm a ver com a rua que ora detém seus nomes.  Ou seja, políticos atuais jogam fora tradições para, às vezes, fazer média com determinadas situações.  Se querem homenagear, que deem nome nas novas ruas e não nas ruas que já são batizadas pela língua do povo.

Em 1980, Fernandinho Zamilute, Paulo Rocha e Luciano Popó (tem mais um, mas está encoberto) conversam, sob o olhar de um camponês, antes da reunião que haveria no Fórum, hoje Câmara de Vereadores
Banda Marcial do Instituto de Educação Euclides Dantas (Escola Normal), considerada a campeã, desfila entre a Praça Barão do Rio Branco e o Jardim das Borboletas, em 1972
Solar dos Fonsecas – Atualmente é a sede do Conservatório Municipal de Música

Toda cidade tem sua história, suas estórias, suas lendas. Conquista tem tudo isso e muito mais. Tem filhos ilustres, tem força, tem resistência, é única. Glauber Rocha disse certa vez que se um disco voador viesse para a terra, não seria no cabo Canaveral ou na base russa no Cazaquistão que pousaria e sim em Vitória da Conquista, por ser uma cidade “muito louca”. 

Uma cidade que tem o Poço Escuro, com a água mais saborosa que já provei em minhas andanças pelo Brasil e que deu personagens que só encontrei paradigmas nos filmes de Fellini, deveria preservar e manter mais nomes tão bonitos, representativos e lúdicos.

E cadê a casa do elefantinho, junto ao Cine Glória? E o sobradinho de Nestor ainda está em pé? E, porra, porque derrubaram o sobrado daquele professor americano na Rua 2 de Julho? E, crime maior, cadê o Jardim das Borboletas? E o posto Brasília, no final da Rua do Espinheiro, com suas formas modernas? E onde está o frondoso pé de cajá na praça do mesmo nome? E a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato? Cine Conquista, Cine Ritz, Cine Eldorado, Cine Glória, Bar Lindóia, onde estão vocês?

Vista do “Lindoya” na Praça Barão do Rio Branco em 1987, poucos meses antes de ser demolido. Detalhe na foto, para os veículos no ponto de Táxi, e a fachada do térreo do “Hotel Aliança”, que ainda ostentava as cores da Caixa Econômica Federal, ao qual funcionou ali uma agência, até ser transferida pra o novo prédio, também na mesma praça, no início da década de 80. Podemos observar também a agência de Loterias “Loteba” bem como a loja de motos “Zoom Motos”, ali do lado direito da foto. E o piso da praça, nem era asfalto: era de paralelepípedos. Foi construído nos anos 50, e demolido em 1987. No Blog do Anderson
Bomfim fazendo graça na Biblioteca Monteiro Lobato (no Jardim das Borboletas), em dezembro de 1974. Valter Freire informa que esse desenho na parede da biblioteca é de autoria do Adelson do Prado
Praça Nove de Novembro, anos 40, antes do Gato Preto
Praça 9 de novembro. Ao centro, o Bar Gato Preto. Ao fundo a Catedral e a casa de Dr. Ubaldino, na esquina do Jardim das Borboletas, ainda preservada.
Local hoje: http://goo.gl/maps/q6tI4
Foto: http://debalcao.blogspot.com.br/2011/11/mitos-da-historia-de-vitoria-da.html
Aurino Cajaíba, seu nome é escultura. Veja mais em: http://cadernodecinema.com.br/blog/cajaiba-o-fazendeiro-do-ar/

Vi, com alegria, que tem ruas com nomes de Filinho Candeão, do escultor Cajaíba, do cineasta Glauber Rocha. Mas não vi nenhuma homenagem à Parteira Gemima (acho que boa parte da turma acima de cinqüenta veio ao mundo por suas mãos, inclusive este que escreve), a Anecy Rocha (maravilhosa atriz que deu nome a ruas no Rio de Janeiro e em São Paulo), ao pintor Adelson do Prado, ao inesquecível professor Everardo Públio de Castro, ao pintor Geraldo Rocha ou a figuras exóticas como Lilita, Medonho ou Cafezinho.

Saí de Conquista, mas Conquista nunca saiu de mim.

Rio de Janeiro, Tijuca, 25 de junho de 2021

No Blog do Paulo Nunes, no post “Nossa história, nossa gente: tipos populares”, você tem outras informações sobre esse assunto, confira: https://wordpress.com/post/blogdobrown.wordpress.com/6499

Que legal, Bomfim!
Válter, a sua cidade está onde sempre esteve, aguardando pelo seu retorno e pelo de tantos outros que daqui saíram, cada um pelos seus particulares motivos.

É fato que os nossos governantes, todos eles, demonstram e demonstraram um grande desapreço pela memória. A arquitetura da cidade de nossas infâncias praticamente inexiste, qual se houvesse promovido um incansável, sistemático e incessante trabalho de demolição. E, pela forma como isso se opera, parece até mesmo haver um método para essa desconstrução de ruas, de prédios e, tão pior, de memórias. Portanto, volte à cidade que é, mas nunca mais à cidade que foi. Essa última, tenhamo-la guardada em nossas mentes e corações. Guardemo-la em letras, em crônicas, em livros.
Sei que o mesmo fenômeno se dá em muitas cidades, e isso não é nada confortador. O que assusta, no caso particular de Conquista, é que no breve transcurso de meia-geração, praticamente tudo veio abaixo: não apenas os nomes, como junto as praças; não apenas as casas, como as ruas que as acomodavam; não apenas os espaços públicos, como assim também os privados.
No meio de uma praça tinha um Lindoya, remova-se o Lindoya; um posto Brasília ali, dali se lhe retire para, tempos depois, um novo posto ali instalar; o que é uma casa com um elefantinho a lhe adornar o jardim? Remova-se o elefantinho e, logo depois, remova-se a casa inteira; seis cinemas, a que serviriam? Adequemo-los a templos religiosos; grupo escolar? Pra quê? Façamos surgir escolas-modelo, tão mais modernas…
Um pouco mais à frente iremos nós mesmos, as testemunhas do que foi. Cuidemos para não levar conosco o pouco que há. Semeemos as lembranças e registros, como você faz agora.
Abraços para os saudosos Amigos!

Fernando Fernandes Zamilute


12 comentários sobre “Ruas de Conquista

  1. SAUDADES DA RUA DA CONQUISTA ONDE NO SABADO A NOITE NOS REUNIMOS NA VENDA DE NETO PARA SAIRMOS PARA CURTIR A NOITE CONQUISTENSE : EU, BIBIU CASSEMIRO (JACARE ) SEU QUEBRA NEKA JOAO GRILO FILHOTE EDMAR DAL SERJAO SIL TONHO GALINHA BUSQUE ESTROMPA PAULINHO BREQUELA JOAO DO VIADO PAULO PRETO ROBERTO CAPENGA ERLI E TANTOS OUTROS ( FAMOSA TURMA DOS AVELINOS )

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  2. Boas lembranças. Muito de tudo agora só existe mesmo na memória. Ah, o Sobradinho de Nestor ainda está de pé.

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  3. Agradeço as palavras da Maria da Glória, Fernando Zamilute (um mestre), Nilton Amorim, Ivanildo, Shais, Edgar e Bomfim. Gloria disse que “perrdemos nossas identidades, ao resta emocionar quando alguém as trás de volta”. Sim, a intenção é essa porque a cidade do nosso íntimo está sempre em ebulicão, independente da evolução física/econômica que ela passa. Alguns amigos lembraram que alguns nomes não foram citados como a Rua da Corrente, Rua do Piolho, Rua Calango Nú e Rua do Som. Ah, quantos nomes simples e gostosos…. Valeu, Conquista!

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  4. Que beleza Bonfim, show, as memórias vieram à tona.
    Ótimas lembranças. Parabéns ao Valter pela bela crônica.
    Abraço

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  5. Que legal, Bomfim!
    Válter, a sua cidade está onde sempre esteve, aguardando pelo seu retorno e pelo de tantos outros que daqui saíram, cada um pelos seus particulares motivos.
    É fato que os nossos governantes, todos eles, demonstram e demonstraram um grande desapreço pela memória. A arquitetura da cidade de nossas infâncias praticamente inexiste, qual se houvesse promovido um incansável, sistemático e incessante trabalho de demolição. E, pela forma como isso se opera, parece até mesmo haver um método para essa desconstrução de ruas, de prédios e, tão pior, de memórias. Portanto, volte à cidade que é, mas nunca mais à cidade que foi. Essa última, tenhamo-la guardada em nossas mentes e corações. Guardemo-la em letras, em crônicas, em livros.
    Sei que o mesmo fenômeno se dá em muitas cidades, e isso não é nada confortador. O que assusta, no caso particular de Conquista, é que no breve transcurso de meia-geração, praticamente tudo veio abaixo: não apenas os nomes, como junto as praças; não apenas as casas, como as ruas que as acomodavam; não apenas os espaços públicos, como assim também os privados.
    No meio de uma praça tinha um Lindoya, remova-se o Lindoya; um posto Brasília ali, dali se lhe retire para, tempos depois, um novo posto ali instalar; o que é uma casa com um elefantinho a lhe adornar o jardim? Remova-se o elefantinho e, logo depois, remova-se a casa inteira; seis cinemas, a que serviriam? Adequemo-los a templos religiosos; grupo escolar? Pra quê? Façamos surgir escolas-modelo, tão mais modernas…
    Um pouco mais à frente iremos nós mesmos, as testemunhas do que foi. Cuidemos para não levar conosco o pouco que há. Semeemos as lembranças e registros, como você faz agora.
    Abraços para os saudosos Amigos!

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  6. Obrigado, Bomfim, você fez um excelente trabalho ao incluir fotos históricas da nossa cidade, e da nossa história também. Mas nenhuma me emocionou tanto quanto a fotografia da Biblioteca Infantil que ajudou plenamente na formação cultural de várias gerações de conquistenses. Já procurei em muitis lugares mas nunca havia encontrado qualquer retrato da nossa BIVC. E ver o desenho da Emília feito por Adelson do Prado me fez chorar de emoção. E nas salas haviam outros desenhos dos personagens do Monteiro Lobato. Ah, que saudade! Valeu, mermão!

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  7. . Agente abafa essas lembranças, algum mais jovem diria “está ficando velho lembrando essas coisas” mas hj entendo pai por exemplo contando as suas histórias, é saudade! Nossas ruas transformaram em políticas, a rua 10 de novembro por exemplo um motorista de aplicativo me contou que tem outro nome de uma personalidade política, não me lembro qual. Perdemos nossas identidades, ao resta emocionar quando alguém as trás de volta.😘

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