As aventuras de Dargilan e seus amigos na geral do Maracanã

O cronista Valter Freire desta vez escreve sobre a antiga geral do Maracanã. Depois que o estádio virou arena, a geral desapareceu. Então, viajemos ao passado lendo a crônica de Valter.

Gente chegando de todo lado. O tradicional barulho ao redor do estádio do Maracanã era a mistura de gritos da torcida, cantoria do hino e os nomes dos times gritados a todo pulmão. Claro que o Mengooooooo apagava o Foooogo!  Dargilan, Ernane e Bebeto chegaram apressados. As bilheterias atulhadas. Empurra daqui, empurra dali, roça daqui, roça dali e finalmente compraram os ingressos, passaram pela catraca, penetraram no túnel escuro, fedendo a urina, páginas do Jornal dos Sports, também conhecido como o “rosinha”, distribuído gratuitamente do lado de fora do estádio. Mas ao sair do túnel, a visão do Maracanã cheio é emoção pura. Os três geraldinos finalmente estavam na geral e não se importavam se o local era desconfortável ou insalubre. Ali pretos, brancos, paraíbas, papa-papas-goiaba, paulistas (qualquer branquelo era assim chamado), gaúchos,  desdentados, pobres, ricos, estudantes, crianças e adultos são iguais. E torcedores de times ficam lado a lado sem brigas ou desavenças. São todos cariocas, são todos torcedores. Um jovem negro diz, feliz,  que “com farda do Exército aqui na geral eu entro de graça”. Um sujeito sentado no chão descansava porque “o trem tava cheio pra dedéu”. 

Dargilan, Ernane e o gordo Bebeto procuraram um lugar para ver o Flamengo e Botafogo. A tarde estava muito quente e a voz de pato sai dos alto-falantes antigos: SUDERJ informa público e renda. A galera vai ao delírio. Sede dos diabos! Mas Dargilan e amigos só tinham dinheiro para o ônibus na volta pra casa. Ali perto Paulo, Valter e dois geraldinos contavam moedas  e compraram um Mate Leão para dividir entre eles. Assim era a geral. O geraldino ao lado logo se transformava no melhor amigo de infância. Bonsucesso e São Cristóvão jogavam a preliminar para “esfriar o sol”. Mas não empolgava. E de repente aparece uma bola na geral, e todos jogam. Do outro lado vem um grupo de geraldinos carregando um improvisado  caixão de defunto com a estrela solitária. E tome vaia! Os geraldinos botafoguenses provocam, discutem mas o enterro prossegue para dar a volta na geral, sob aplausos dos arquibaldos.  Um  baixinho, com o radinho de pilha colado no ouvido está alheio ao mundo.  Embaixo das cabines de rádio, um negão grita alto: Saldanha, ô João Saldanha! E o genial jornalista, lá de cima, põe a mão em conchinha no ouvido e pergunta o que é. O negão então grita: Saldanha, vá tomar no c*! E, claro, o João sem medo responde no mesmo tom: vá tomar no c*, você, crioulo fedorento! A geral se deliciava com a discussão entre o jornalista  e a geral. O calor aumentava. O Botafogo entra em campo. Vaias e aplausos. O Flamengo entra em campo. Apoteose. Como explicar esse fenômeno? Como explicar esse amor, esse poema em movimento ou uma espécie de ópera sem maestro ou fagote? E começa o jogo. A mãe do juiz é logo chamada por todo estádio.

O geraldino perto do técnico grita como se fosse o tal. Outro geraldino, bêbado, dorme no chão. Chega  o intervalo. Os geraldinos sabem que esta é a hora do “lá vem mijo!” e bagaço de laranja. Mas o bagaço de laranja é imediatamente devolvido à arquibancada. Mas a maioria das vezes cai nas cadeiras. E xingamento é direcionado aos arquibaldos. Dargilan, Ernane e o gordo Bebeto resolvem matar a sede. E gastam todo o dinheiro. A gente dá cano no ônibus, diz Dargilan, gargalhando, convencendo os amigos.  Um molecote com a cara cheia de espinha diz orgulhoso que “sou murilo, porra, pulei o muro e o guarda não viu”. Flamengo perde um pênalti. Que urucubaca! Mas em seguida  faz um gol. E depois outro. E o juiz apita pela última vez. E os geraldinos saem cantando. No túnel, alguns mijões não estão nem aí. Já está noite. Todos suados e felizes em direção ao trem, ônibus, carona ou “viação canela”. Os pontos de ônibus da Rua São Francisco Xavier estavam lotados. O ônibus 433, Vila Isabel – Leblon, já chegou cheio. Dargilan, Ernane e Bebeto entraram, ficaram na “cozinha” porque a intenção era “dar o cano” quando chegasse na praia do Flamengo.  E tome cantoria dentro do ônibus. Calor, fome e sede. O gordo Bebeto provocava os botafoguenses e quando o ônibus passou pela sede de do alvi-negro em General Severiano, a briga começou. Porrada pra todos os lados. Mas assim como começou, acabou.

O cobrador percebendo a malandragem do trio rubro-negro gritou: “Piloto, toca para o ponto final, os caras querem dar o cano”. Dargilan ria, Ernane ria, mas Bebeto ficou puto. E o ônibus só parou no ponto final na Praça Antero de Quental. E agora? Quando o cobrador recolheu o dinheiro e saiu do ônibus, rapidamente Dargilan e Ernane passaram por baixo da catraca. Bebeto fez a mesma coisa, mas como era gordo, ficou preso nos ferros da catraca. Me ajudem, porra!, gritava. E logo juntou gente a rir da situação inusitada. O cobrador gargalhava. Um gaiato gritou que havia uma baleia encalhada, outro dizia para trazerem um guindaste, uma garota disse que “o gordo parece a leitoa branca da fazenda do meu avô”. Dargilan e Ernane não sabiam se ria ou chora. E o Bebeto, vermelho de raiva e vergonha, tentava esconder o rosto. Puxa daqui, puxa dali e nada de desencalhar o Bebeto. Os bombeiros chegaram. Alívio! O motorista avisou que fossem pra longe do 433. Nossos amigos se dirigiram até a Ataulfo de Paiva, pegaram o 583 e “deram cano” no Largo do Machado. Bebeto, puto, avisava que não queria ouvir uma palavra sobre o ocorrido. Acontece que Dargilan, engraçado e bem humorado o tempo todo, incentivado por Ernane, provocava o gordo. Vou jogar vocês lá de cima do prédio se não pararem com essa gozação, dizia. E chegaram no apartamento. Trocaram olhares e caíram na gargalhada. Tomaram banho, comeram alguma coisa e, felizes com a vitória do Flamengo, entenderam que aquele foi um domingo inesquecível, como é inesquecível uma tarde da geral do Maracanã.

Valter (Valterci) Freire, Rio de Janeiro, 1º de maio de 2021


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s