Causos de Dinho e Rambinho

Depois de algum tempo ausente do blog, Fernando Zamilute retorna com essa curiosa crônica.

Dinho, ele mesmo e ninguém mais, contou-me certa vez de fato ocorrido com ele, ao viajar de uma propriedade a outra, dos pais ou avós – não lembra ao certo – daquele seu amigo. Brigara a meio caminho com aquele – e de novo lhe falha a memória quanto ao motivo – de sorte a não mais se falarem durante o caminho faltante. Sem palavras, sem risos, sem indagações. Estar próximo do inimigo, ainda que atrás, lhe era imperativo: nada sabia daquelas terras de posse de seus anfitriões, e o trecho já percorrido era demasiado extenso para voltar autonomamente à origem; o que estava à sua frente, tampouco conhecia, motivo pelo qual, e único motivo pelo qual, submetia-se a seguir seu contendor.

Havia naquela relação, e naquela circunstância, um pouco de cada coisa: rancor pelo desafeto; subserviência, dado o medo do desconhecido; admiração pelo guia, que haveria de o levar a algum conhecido destino… vê-se, confusas eram as suas motivações para aceitar a liderança na marcha mas, aceitá-la estava acima de qualquer lampejo de irracionalidade. Dinho se borrava de medo de o guia se revoltar e mandar que deixasse de lhe seguir, não sabendo ele como retornar e, contrário senso, para onde apontar o nariz se a marcha fosse à frente. Logo, se aquele líder nada dissesse, tudo já estaria ótimo, ainda que longo, e crescente, parecesse ser o trajeto faltante… que seria isso de tão dolorido, para quem contava apenas 12 anos?

Medo se misturava à fadiga, temor se misturava à dor, rancor se transformava em idolatria e, aos pés sãos de outrora, os calos e bolhas d’água se juntavam. Há de muito arder isso quando espocar mas, a sorte que ampara aos fracos, há de me assistir! O caminho por percorrer há de ser menor que o já percorrido, e um pote de água fresca há de estar, logo ali, a me esperar. Marchemos um pouco mais, e tudo se tornará em prêmio para esse mártir que eu sou!! Assim pensava, em seu acalanto a si mesmo, o pobre Dinho menino.

Mojito

Os pedidos dessa noite não cessam de chegar ao seu bar e, dispondo-me eu a fazer novas indagações ao proprietário, vejo-o de novo sair em sua moto para efetuar as entregas. Dinho não para um instante para que eu mais lhe indague. Sigo, então, sorvendo o Mojito tão bem elaborado pela Bia, em meio a conversas com meus amigos e colegas de trabalho. Petisco aqui, logo mais um outro… o bar do Dinho serve os melhores da cidade.

Avanço no repasse da estória aos amigos, retomando do ponto de interrupção…

Julgar-se no limite do sofrimento não implicou satisfação das súplicas do Dinho. Se o ânimo já lhe fraquejava antes, imagine o que lhe alvoroçava a mente nesse ponto da caminhada. A marcha estava agora em instante de se decidir entre duas alternativas que se apresentavam naquela bifurcação do trajeto: a vereda a seguir, à direita, ou – nem me diga, ainda que em brincadeira -, a interminável ladeira, da qual não se via fim, à esquerda.

Os infortúnios são apadrinhados por costas largas. Aos nossos anseios de afastá-los se contrapõem energias a lhes sustentarem. Não que Edmilson soubesse dessas maquinações da mente do Dinho, ou das energias patrocinadoras dos infortúnios. Apenas e tão somente, como se alternativa outra não houvesse, tomou o caminho à esquerda. Conhecia muito bem, a despeito da pouca idade, todos os rincões daquelas propriedades dos seus parentes. Esquerda, esse era o caminho a seguir, e seguiu!

Vejam só: eu que apenas chegara à cidade, pouco a conhecendo em sua sede, e sem visitar qualquer das muitas fazendas que lhe contornam, já sentia a partir da mera narrativa, a apreensão e temor que assustavam ao Dinho. Ladeiras, quaisquer que sejam, já me inspiram fadiga. Pense então no que se deu a partir da narrativa. Tudo quanto mais escalo na cidade é a ladeira que dá acesso ao bar do João Marião, nas caminhadas que, por imposição matrimonial, devo fazer, ao menos até o Parque de Exposições da cidade.

Sorvo mais um gole do Mojito através daquele canudo com mania de grandeza e pescoço flex e, preparando-me para retomar a narrativa da odisseia, vejo entrar no bar, em retorno das entregas, o próprio personagem daquela.

Dinho voltou mais alegre e vivaz. As motos inspiram esse júbilo, ainda que perigosas sejam, e que comercial seja o motivo do seu uso.

A renovação da adrenalina deve justificar a aproximação de Dinho à nossa mesa, assumindo o mesmo, a partir de então, o encargo de finalizar a estória para os meus ouvintes. Seguiu ele:

Ladeirão

“Pensem num cansaço! Era o meu! Quanto mais subia a ladeira, mais parecia haver por subir. O mundo deveria ser monotonamente plano, eu desejava! Mas, bobos são os terraplanistas! O mundo real é redondo e tomado por verrugas, das quais parecia eu escalar a maior naquele dia.

Mesmo as tristes e doloridas estórias comportam finais. Nada há que perdure para sempre e, o tempo, esse que passa a despeito de nossas vontades, nos levou ao topo da ladeira, instante no qual, pela primeira vez desde a briga, dirigiu-me a palavra o Rambinho: ô capiau, o caminho a seguir era o outro, o da direita! Nada há aqui no topo dessa ladeira que nos interesse, a menos que lhe impressione a bela vista que daqui se tem. Pôs-se a rir em seguida e eu, que nem bem recuperara o fôlego, vi em mim misturados a raiva e o riso solto, com prevalência desse último. Era essa a sua maneira, e eu assim a entendi, de me declarar sua eterna amizade. Entre a fazenda Coador e a fazenda Palmito o mundo era plano!”

Conto essa estória porque, dias atrás, o mesmo Dinho me disse tê-la sonhado de maneira diversa, a partir do instante em que chegam à bifurcação do caminho. Disse-me ele, dessa outra versão:

“…Algo em minha mente sugeria ser troça a opção do Rambinho. Não que nada conhecesse eu da região e do trajeto, mas, sabia-o dado a brincar e sorrir permanentemente. Quando o vi optar por subir a ladeira – estafado que estava, e por mais medo que eu tivesse -, resolvi não seguí-lo. Ainda que o quisesse… disse-me ele, sem tornar a vista: fique onde está! Nada lhe interessa no caminho que seguirei.

Decidi então, a despeito de o mesmo não olhar pra trás, permanecer onde estava, permitindo-me o necessário descanso para o caso de, quando e se necessário, tivesse que sair em desabalada carreira atrás do mesmo.

Ele, alheio às minhas meditações, subia a ladeira com ânimo que me impressionava. Não olhava para trás, e não olhava para os lados. Apenas subia, resolutamente! Subia, e mais subia e, ao chegar ao topo, finalmente, tornou-me a vista e, com um olhar melancólico como se não mais desejasse voltar, pôs-se a subir ao infinito azul. Rambinho, meu amigo, de mim se apartara, para todo o sempre!”

A igreja (está na primeira foto acima) fotografada à noite por Fernando Zamilute


7 comentários sobre “Causos de Dinho e Rambinho

  1. O mundo redondo e charmosamente verruguento das muitas Minas. “Viver é muito perigoso”, avisa Guimarães; “mesmo que seja por um único dia”, no alerta ampliado de Virgínia Woolf. As bifurcações de Dinho, na narrativa de Fernando, me deixaram assim… na vertigem do medo e da coragem, essas encruzilhadas nossas de todos os dias. Nas narrativas do conto e da vida, fôlego mesmo, só as pausas das alegres biritas, os deliciosos petiscos e as saudades dos amigos: os ouvintes e os narradores. Parabéns, Zamilute!

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  2. Muitas vezes eu fui parei, perplexo ou nocauteado, em leituras. Foi assim quando fui em busca do tempo perdido atrás do Proust. Parei, parei, parei e segui. Entendi. Mas também parei na página 28, por várias vezes, do “Ulysses” do James Joyce. Não entendi porra nenhuma e desisti. Mas houve um choque anterior com o “grande sertão, veredas”. Porque comecei assim. Não vou comparar os três mestres, em valores, com Fernandinho (Fernando, para mim, é o pai). São todos magos nas palavras. Senti um soco ou a mesma coisa de um “tropicão” do dedinho fora da alpercata na pedra da estrada. Segui Dinho (ou orações fernandianas) como a cachorra Baleia seguiu Fabiano nas brenhas das vidas secas. E ao continuar a leitura eu sentia que as veredas de MInas estavam ali, como as veredas do Guimarães Rosa estava ali. Ali nas esquinas azuladas. À beira da ladeira para o azul. O relato tem o cheiro e a vontade velada de medo, confronto, faca. Mas caminhos e bifurcações, para a direita, para a esquerda, todo, ladeira, bifurcações ou “não interessa no caminho que seguirei” numa terra verruguenta. Quem é Dinho? Quem é Rambinho? Não sei, mas me fascinaram em não se mostrarem transparentes. Fernandinho mandou bem!!!

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  3. Obrigado, mais uma vez, pelo espaço e paciência devotados aos meus escritos, Bomfim!
    Receio que os seus leitores e seguidores não o compreendam, deslocado do contexto de sua gênese, mas creio que nos perdoarão, se assim se der.
    Abraços!

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