Dona Guilé

O cronista Valter Freire, bem conhecido aqui dos leitores do Blog do Brown, conta desta vez uma história ocorrida em Anagé, sudoeste baiano, protagonizada por Dona Guilé.

Informações da foto no final do texto

Seu nome era Guillhermina, mas todos a conheciam como D. Guilé. Era irmã de Seu Jorge, Seu Aurélio, Seu Zeca e D. Maria. Mãe de Anésia (dócil e terna que nem essa jamais existirá), Alício, Arlindo e Nemira. Era unha e carne com a cunhada, outra dócil como todas as flores: Tia Fulô!  O semblante era costumeiramente sereno e sério. Não era de muito papo, passava “rabo de olho”  para os netos, mas tinha um bonito e contido sorriso.  E sempre emitia um delicioso  “mas quá” nos momentos mais adequados nas cotidianas conversas. Personalidade forte, não levava desaforo para casa e não tinha medo de ninguém ou de assombração. Contava para os netos que certa noite ao entrar no quarto uma alma do outro mundo soprou e apagou o fifó que ela carregava. Os netos, de olhos esbugalhados, tremiam de medo e na hora de dormir era um horror. E alguns mijavam na cama com medo da assombração…

Anagé

Alguns momentos ficam eternizados na mente. São aqueles momentos onde a simplicidade, o cotidiano transformam em mágica, em felicidade. Foi assim que em uma tarde eu me sentei na soleira da porta da sua casa  em Anagé. D. Guilé saiu e caminhou com passos curtos pela rua em direção ao largo da feira. Fiquei observando. Solon passou e a cumprimentou. Boaventura estava na janela e Edna sentada no batente da porta. Um catingueiro veio na direção contrária puxando um jegue que carregava dois caçuás, um de cada lado da cangalha. “Boa tarde, D. Guilé”, disse e seguiu seu caminho. Os filhos de Alício, todos alourados e “cara de um, focinho do outro”, liderados por Adri, correndo falaram “bênção, vó” todos ao mesmo tempo. Esses meninos já vão “vadiar” na beira do rio, pensou e os segui com um rabo de olho. Eu, embevecido, observei aquele momento poético que, para mim, era como um balé catingueiro. D. Guilé rescendia o cheiro agradável, doce e levemente azedo do umbu. Mas também lembrava as bromélias, cactos, o ipê-roxo, angico,  jericó ou aroeira. E também lembrava a beleza infinita de um cesto de guabiroba. E mostrava também a força da imburana e a resistência do umbuzeiro. Era como se as flores e cheiro do sertão estivessem naquela mulher firme, bonita e ampla. Não era alta ou magra e se fosse comparar com uma planta seria uma coroa-de-frade, típica da região, com formato arredondado, pequeno e achatado, cujas flores atraem abelhas mas que também tem espinhos que afastam predadores. D. Guilé também distribuia carinho, ou flores, atraía pessoas mas também colocava para correr quem a perturbasse. Ah, D. Guilé, essa personalidade forte está presente em alguns de muitos descendentes.

E eu, um neto emprestado e orgulhoso, tive aquele momento de intensa felicidade observando aquela matriarca.

Numa manhã de sábado eu fui à feira com D. Guilé. Queria comprar umbu. A feira fervilhava. E todos cumprimentavam aquela que para mim é a diva de Anagé. Eu, feliz, participava de tudo. Na esquina da Rua Parteira Gabriela uma mulher vendia  umbus. Grandes, cheirosos, brilhantes, suculentos. Enchi os olhos e a boca encheu de água. Perguntei o preço e a mulher, percebendo que eu não era da cidade, informou um valor bem mais alto que o normal. D. Guilé, irritada, falou: “Não compra, Valter, ela tá roubando no preço, não compra!”. A mulher se enfureceu e falou: “D. Guilé, não se meta onde não é chamada. Ninguém pediu sua opinião”. D. Guilé, que não era de levar desaforo pra casa, respondeu: “Eu me meto, sim, ele é casado com minha neta que mora no Rio. Você tá roubando. Não compra, Valter!”. E o bate-boca continuou. Era um tal compra-não-compra.  E  eu no meio daquela interminável discussão! E a mulher, claro, teve que concordar em baixar o preço. Alguém vai contradizer D. Guilé?  Comprei todos os umbus. E, ao sair, a D. Guilé olhou para a mulher e falou bem alto: “E eu não tenho medo de carantonha, viu? Tá pensando o quê?”. Voltei pra casa morrendo de rir e comendo os mais deliciosos umbus da minha vida. E depois de participar de um momento assim, o que dizer de situação tão engraçada, bela e inesquecível.

Na foto eternizada acima estão juntas uma menininha com a avó Anésia e a bisavó Guilé. Nessa mesma porta eu via os sapos que à noite subiam do Rio Gavião e passeavam na rua. E D. Guilé ria de mim, dizendo que “como pode um homem dessa idade ter medo de sapo”. E ela disse que gostaria de visitar minha casa, a casa da neta. Mas o destino não permitiu. Foi para a Vila Nova perto do Criador, deixando ensinamentos, boas lembranças e imensa saudade!


2 comentários sobre “Dona Guilé

  1. Parabéns, Valter Freire! Irmão do meu amigo e irmão Jose Carlos Freire espetáculo de matéria. Valeu Valter conquistense filho de Dona Nina.

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