E esse menino aí é pagão?

Você que gostou das quatro crônicas de André Bonelli, publicadas aqui, no blog, vai se entusiasmar com mais essa. Vamos à leitura.

Milagres – Amargosa

Meu avô Daniel Rebouças nasceu na caatinga, no povoado de Tartaruga, situado às margens da estrada que interliga as cidades de Milagres e Amargosa. Ele povoou algumas cenas da minha infância e, embora meu olhar de menino visse ali um homem austero e reservado, também capturava seu lado equilibrado, amoroso e solidário.

Tio Zeca, filho caçula de vovô, após alguns anos de pesquisas em documentos cartorários, cartas, fotografias, entrevistas com antigos moradores dos lugares por onde seu pai passou, além de conversas com familiares, veio a escrever o livro “Álbum de Família”, onde faz alguns recortes genealógicos e biográficos da família Rebouças, desde a chegada desses portugueses-açorianos na Bahia. Desses escritos, retirei algumas passagens que revelam um pouco da inspiradora pessoa que foi meu avô paterno.

No livro, o querido tio Zeca fala da infância e adolescência de vô Daniel, que a parteira trouxe ao mundo em 23 de novembro de 1893:

“Nascido na enorme casa antiga que ainda hoje se vê em Tartaruga, com suas janelas numerosas e altíssimo oitão, Daniel foi menino nesse pacato arraial, que, na época, era movimentado caminho para o interior, boca do sertão. Era o penúltimo dos nove filhos de Joaquim José Rebouças e Ana Miranda Rebouças. Seu pai faleceu três anos depois, em 1896. A mãe permaneceu em Tartaruga até que Daniel já fosse meninote, quase adolescente, se é que naquele tempo havia essa categoria de gente. A única escola que frequentou na vida, por dois anos, foi a do professor Napoleão, única que por ali existia. Aprendeu a ler, escrever e fazer contas. Mais tarde, minha vó se transferiu para Nova Itarana, que naquele tempo era chamada de Veados, passando a morar com sua mãe, dona Balbina, também viúva.”

Em seguida, com pouco mais de vinte anos, vô Daniel foi trabalhar numa fazenda bem próxima à cidade de Maracás, onde conheceu minha vó Edith Formigli, que, como as demais famílias de imigrantes italianos da localidade, labutava entre a lavoura e o comércio. Ali, segundo consta, começava o namoro. Pouco tempo depois, porém, movido pela necessidade de ganhar a vida e por seu espírito aventureiro, seguiu para São Paulo, juntamente com seu amigo Sérgio, com quem trabalhava nos tabuleiros das caatingas, a fim de trabalhar numa fazenda do Dr. Clementino, médico nascido em Maracás e já estabelecido há tempos no município de Araras/SP. Viagem que tio Zeca descreve:

“Pegaram o trem em Tamburi (atualmente Marcionílio Souza, município baiano situado a 336 km da capital), tomaram navio em Salvador, desembarcaram no Rio de Janeiro e aí pegaram o trem para São Paulo. Botinas apertadas, classe lotada, tiveram que se sentar no chão, até finalmente chegarem ao destino. Em São Paulo estranharam o frio, … usavam um par de marombas para que, de madrugada, esquentassem o sangue com exercícios.

A aventura paulista certamente teria durado mais tempo, não fossem os compromissos assumidos em Maracás, com Edith. Dois anos depois, estava de volta às caatingas.”

Maracás

Algum tempo após ter retornado, meu avô, por volta de 1922, então noivo de vovó, recebe uma proposta de negócios para ele comprar uma pequena fazenda, mais uma casa de moradia e uma venda de secos e molhados, tudo em Serra do Vitorino, atual distrito de Ibitiguira, Maracás, negócio a ser pago no prazo que fosse preciso e sem juros, como lhe disse o vendedor. Pelo preço e pelas condições, não haveria oportunidade melhor. Negócio fechado, vovô rumou para Serra do Vitorino e, como já contavam sete anos entre namoro e noivado, veio a se casar com minha vó, em 1923, numa festança que começou num dia em Veados e terminou nos dias seguintes em Serra do Vitorino.

Já estabelecido na nova localidade, ali tornou-se um cidadão influente, como relatado por tio Zeca:

“Serra do Vitorino está a cerca de mil metros de altitude. Faz ali muito frio. No inverno era preciso colocar telhas de barro com brasas na sala e nos quartos para aquecer um pouco. Ali meu pai fazia de tudo. Comerciante, fazendeiro, juiz de paz, fazia as vezes de subdelegado, prefeito e médico nos casos urgentes. Todos os problemas, todas as brigas, toda atrapalhada ele tinha que resolver”.

Embora o início da exploração comercial da cultura do cacau no sul da Bahia remonte a meados do século XIX, lá na virada dos anos de 1920 para a década seguinte, mesmo morando em Serra do Vitorino, meu avô sabia que ainda havia muita área a ser cultivada naquele sul e com isso sonhava. Foi assim que no final do ano de 1936, vendeu a pequena propriedade rural, a casa de moradia e a venda de secos e molhados que tinha em Maracás (Serra do Vitorino), e ele, minha vó e seus sete filhos arrearam os burros, prepararam toda sorte de mantimentos para, dividindo o lombo desses animais com os caçuás, alforges, malas e baús cheios dos pertences que tinham, seguirem por dias para Jequié, onde minha avó e as crianças moraram por quase dois anos. Vô Daniel, porém, passou de passagem por Jequié apenas para alojar a família e prosseguiu viagem na mula que mais gostava, de trezentas léguas, lá pros lados da região de Itabuna. Por lá comprou uma área de terra propícia ao plantio, mas sem qualquer infraestrutura. Foram tempos de trabalho duro e sofrido aqueles primeiros dois anos, até que, no segundo semestre de 1939, voltou a Jequié para buscar a família, que começaria vida nova nas terras do cacau.

Visionário e empreendedor de mão cheia, foi expandindo as áreas de plantio do cacau e estruturando a fazenda com casas para os trabalhadores – foi um dos pioneiros em assinar carteira de trabalho dos empregados, na região –, fazendo estradas, construindo barcaças, fornos, estufas, semeando pastos e afinal a própria casa da sede.  Com o passar dos anos, a fazenda Riacho de Areia transformou-se numa das mais produtivas e organizadas propriedades de cacau de que se tinha notícia naquelas plagas. Meu avô tornou-se um homem de negócios bem sucedido, que fomentava novos empreendimentos, mas sem nunca esquecer da infância modesta educada sob a batuta materna da viúva dona Ana. Até porque, para ele, lembrar das próprias dificuldades era importante que continuasse uma pessoa simples e, sobretudo, generosa.

Meu avô Daniel, diferentemente de meu avô materno Bonelli – um italiano de temperamento apaixonado e impulsivo -, era um homem tranquilo e de poucas palavras. E as falava sem esbravejos.

Ao longo das três décadas vividas no sul baiano, porém, mantinha um canto no seu coração reservado para guardar a saudade que sentia das caatingas. Nunca esqueceu das cassutingas, umbuzeiros, velames, jabuticabas, alecrins, licuris e calumbis que margearam os caminhos de sua meninice. Não deixava de lembrar dos mamotes, cabritos e marrãs que, no fim das tardes, ele, com uma varinha de incó nas mãos, entoava de volta pro curral.

Até que, no início dos anos de mil novecentos e sessenta, ele já próximos dos seus setenta anos de idade, retorna à região onde nasceu com a intenção de rever os tabuleiros e lajedos que sempre afagou em sua memória. Os negócios continuavam em Itabuna e região, mas queria ter um lugar pra se distrair, como dizia ele. Depois de olhar algumas fazendas que lhe remetiam à infância, escolheu a Santa Clara. Era uma propriedade pequena, que mantinha o aspecto rústico e simples. Tinha na sede uma antiga casa de adobe, um pequeno curral de madeiras já velhas, e conservava a vegetação nativa do sertão. Era o que ele queria mesmo. Produtividade, organização, rentabilidade, investimentos, isso tudo era coisa pro Riacho de Areia. Ali na Santa Clara, não.  Ali, ele voltava pra dentro de si e mirava o caatingueiro que cultivou por anos a fio. Ali, gostava de usar roupas velhas, confortáveis, calçado em sandálias de correias de couro cruzadas, mesmo diante dos resmungos de minha avó, reclamando que eram trapos!

A Santa Clara, então, passou a ser o lugar de encontro da família. Para lá, seus sete filhos e duas dezenas de netos iam passar férias ou feriados prolongados. 

Corria o ano de 1966 e lá, num feriado de semana santa, estavam eu, meus pais e meus irmãos. Existiram poucos lugares em que eu experimentei tanta diversão e liberdade. Ali eu e os irmãos nos divertíamos do jeito que só menino criado em fazenda sabe como é que é. Na frente da casa, no final da malhada empastada de malva miúda, tinha um lajedo que descambava para um baixio cheio de jabuticabeiras. Era um lugar lindo! No chão a folhagem seca e uniforme, que ressoava crocante quando a gente pisava. Olhando pra cima, entrevia o sol se esquivando de folha em folha pra tentar chegar no solo. Era o sombreado maravilhoso das jabuticabeiras, num microclima fresco, arejado, contrastando com a quentura daquele sertão. Mas o que mais me seduzia a atenção eram os caules e galhos empretecidos de jabuticabas que, desde longe, já adoçavam a minha imaginação. 

Passarinhos, nunca vi tantos e de tantos tipos. Num tempo em que não era errado meninos usarem seus badoques, eu e meu irmão Deel – apelido que dei a Daniel, cujo nome era uma homenagem a nosso avô –,   saíamos cedinho pra caçá-los. No mato, o nosso silêncio, quietude, nossa atenção aguçada, contemplação e nosso foco, tudo que eu então julgava ser importante apenas para a caçada, na verdade ressurgiram mais tarde como sentidos e posturas que foram se revelando como essenciais, sim, por toda a minha vida.

– Edith, o assado tá no ponto?

Essa pergunta de meu avô não deixava de esconder certa ansiedade dele pela chegada do amigo Iozinho de Macário, frequentador assíduo da casa, que vinha para o almoço. Seu Iozinho, negociante de gado de Feira de Santana, era um homem beirando os setenta anos, grandão, de rosto largo, barrigudo, de pele enrugada e avermelhada, que ficava ainda mais ruborizada quando entornava uns quatro copinhos de pinga, algo que gostava muito. Falava sempre muito alto, gesticulava e xingava palavras que hoje caberiam na boca de qualquer ingênua criança: murrinha! impestiado!

Eu ouvia os mais velhos dizerem que ele era destemido e valente igual a cascavel. Não tinha medo nem da polícia. Aliás, dela nem gostava. Tinha até o boato de que quem ousasse trapaceá-lo, ele mandava dessa vida pros infernos! Eu ouvia aquelas histórias, atônito. Me recordo que ele tinha um jeito de ficar sentado, com a ponta dos dedos da mão comprimindo pra cima a bochecha, que fechava um dos olhos, mantendo o cotovelo desse braço apoiado no punho do outro braço, escorado na gorda barriga. Assim, ele ficava assuntando as conversas até quando resolvia falar também. Não vou esconder: quando seu Iozinho bradava, eu tremia de medo. Com meus dez anos de idade, achava que aquele homem tinha parte com o diabo. Hum… até diziam isso dele.

Meu avô e meu pai sempre diziam que negociar com ele era ter a certeza do pagamento do modo acertado, na data ajustada. Era honesto e bom pagador. Tinha palavra. Também era muito religioso, católico até a alma, contribuía para uma ordem de freiras, que não me lembro o nome, pra ajudá-las a manter uma escola na área rural de Feira.

Na varanda da casa, numa conversa entre minha mãe e vó Edith, elas comentavam que Deel já tinha feito a primeira comunhão aos sete anos, lá na capela do Riacho de Areia, mas que eu, não se sabia por que motivo, ainda não tinha realizado essa primeira eucaristia, mas – assegurava minha mãe –, assim que voltássemos a Salvador, iria providenciar logo isso com tia Alcina, freira Sacramentinas, prima de meu pai.

Do lado de dentro da sala, por uma janela que dava na varanda, seu Iozinho de Macário, que fazia umas contas com lápis numa caderneta, não teve como não ouvir a conversa, e, com os olhos arregalados se debruçou na janela, suplicando:

– Minha senhora dona Edith e dona Célia, me desculpa pela maleducação de inxirido, com a licença da Virgem Maria, e esse menino aí é pagão!? 

Verdadeiramente pagão eu não era, fui batizado assim que nasci. Mesmo assim minha vó fitou ele com olhar de completa aprovação. Olhou como se tivesse a dizer que estranhava que meus pais não tivessem cuidado disso antes; olhou concordando que ter um menino que foi batizado, mas que não recebeu a consagração da Eucaristia era, com toda a certeza dela, ainda pagão. Desconcertada, minha mãe trazia a carga da culpa no semblante. O peso de não ter catequizado seu filho para a primeira confissão dos pecados perante o Senhor, fazia vergar seus ombros. As vi entre perplexas e fragilizadas diante da indagação de seu Iozinho.

Eu, que brincava no chão da varanda, com um carrinho de lata e roda de tampa de frasco de injeção, tudo ouvia e via, atentamente. Desde a conversa de minha mãe com minha vó até a intervenção assustada e incisiva de seu Iozinho. A cena me deixou apavorado. Dele, já tinha medo. Ainda mais agora que dizia que eu era pagão. Pagão? Pensei eu, que devia ser isso. Uma maldição? Coisa boa não devia ser, se não ele não falaria daquela forma, nem minha mãe teria dito, desde antes, que iria providenciar logo a minha primeira comunhão. Algo de muito grave ela queria reparar.

Ele deu a volta pela porta da sala, destramelando a metade de baixo da porta, até então fechada pra impedir o acesso das galinhas à sala, e cheio de cerimônia apresentou sua solução à minha mãe. 

– Dona Célia, eu conheço, de muitos anos, o padre Adelino, lá de Veados. Tô indo pra lá hoje à tarde, pra ferrar umas novilha, e falo com ele. Amanhã, indo pra Feira, passo aqui de volta e digo pra senhora se ele pode fazer logo a primeira comunhão desse menino.

Aquela fala caiu como uma luva pra elas. Todo o remorso de minha mãe e toda a censura de minha vó ruíam por terra diante da possibilidade de eu poder logo receber esse sacramento.

Veados era o antigo nome de Nova Itarana, situada um pouco adiante de Milagres, que, embora emancipada com esse novo nome cerca de dois anos antes, tanto meu avô como seu Iozinho insistiam em chamá-la de Veados. Aliás, eles e todo mundo. Se despediu de meus pais, de meus avós. De mim, não. Pra quê!? Não se despedia de menino porque menino não era gente. Bateu forte a porta de sua Rural azul-acinzentado e acelerou forte. Os pneus atiçaram pra longe o cascalho do terreiro e o poeirão subiu!

Ele tinha fama de ser motorista corredor. Só andava em alta velocidade, sempre. Ele mesmo dizia que na frente dele só os para-choques do próprio carro, e que andava era com o pé na tábua, expressão da época que revelava o gesto de apertar o acelerador até o pedal encostar no assoalho do veículo. Não era de se estranhar que seu carro fosse uma Rural 1966 último modelo, já com o novo motor de dupla carburação, que, diferentemente das demais que tinham um motor de 90 cavalos, era uma versão mais cara do utilitário e com motor de 110 cavalos, um bólido para a época. Na revista Fatos&Fotos e na O Cruzeiro a propaganda provocava: “Possante motor Willys de 110Hp. Dois carburadores, alimentando cada um 3 cilindros, equalizam melhor a pressão e proporcionam ao motor maior eficiência volumétrica!”

Propaganda da Rural em 1966

Mas devido à exclusiva suspensão dianteira com molas espirais excessivamente macias, essa Rural era um carro perigosamente instável e inseguro, além dos péssimos freios a tambor, de uma sapata por roda. Além de ser mais potente, toda essa insegurança do carro não interessava a ele. Aliás, a iminência da morte não parecia interessar àquele destemido e valente cidadão.

Aquela noite fui dormir sem parar de pensar na resposta de seu Iozinho, no dia seguinte. Já passava do meio da manhã quando ouvi o barulho de sua potente Rural encostando no terreiro, na sombra de um umbuzeiro podado pela boca dos bodes. Saltou alegre e resoluto. Parecia ter descoberto um remédio pra curar a humanidade de todos os seus males juntos. Depois dos cumprimentos, daquelas conversas introdutórias que os adultos inventaram para anteceder o que é importante, ele pigarreou e se dirigiu à minha mãe, que chegava segurando uma cesta de maxixe, mandada de presente por dona Idalina, vizinha de cerca. Colocou a cesta no chão e sentou-se atenta à sua frente.

– Padre Adelino me disse, dona Célia – desculpe, bom dia! -, que é pra levar o menino lá na missa de domingo que vem, que ele aproveita e faz logo essa primeira comunhão aí.

Só faltavam cinco dias para este memorável domingo. Meus pais me levaram pra Amargosa e lá compraram minhas vestes para a cerimônia. Compraram um par de sapatos Conga, branco, e encomendaram à costureira de tia Maroca, irmã de minha vó que ali morava, a calça de linho e camisa igualmente brancas, de mangas compridas que, dois dias depois, meu pai retornou pra pegar. Também foi comprada uma vela, longa e paramentada de adornos.

A semana transcorreu com minha mãe me ensinando o catecismo e me dizendo que estava me preparando para receber Jesus, no domingo. Para minha mãe, eu tinha que saber alguns princípios da Igreja, os tais Dez Mandamentos, as principais orações – a Ave Maria, o Pai Nosso e o Credo -, e os sete sacramentos.  Como isso era tão inatingível por mim, aos nove anos de idade. Aqueles ritos eram-me incompreensíveis. Eu só queria saber que tudo isso e a confissão dos pecados ao sacerdote me livrariam dessa tal paganice.  

Mas confessar o quê? Os pecados! Mas quais eram os meus pecados?

Minha mãe me orientou a falar sobre todos.

–  Diga ao padre, meu filho, que você jogou a galinha dentro da lagoa; que você já deu chocho pra sua mãe; que não reza sozinho e que não escreve prestando atenção. Não se esqueça de nada disso, hein! Ah, sim, que bateu em sua irmã.

Nesse instante, diante de tantos pecados que jamais imaginava ter, fiquei triste comigo mesmo. Até então não me via por esse viés de pecador, de culpado. Ali já era possível se ter a ideia de que religiões podem até ajudar as pessoas, mas, ambiguamente, a carga punitiva que trazem contrariam a própria mensagem do bem, da compreensão e do perdão que pregam. Fui vendo que religião não é coisa de Deus, é coisa dos homens.

Seu Iozinho, retornando de Feira, dormiu lá na Santa Clara mesmo, do sábado pro domingo da primeira comunhão. Como a velha casa de adobe da sede era relativamente pequena, meu avô, como que antevendo que aquela fazenda seria um espaço de encontro e recreação de seus filhos e netos, ao comprar a propriedade foi logo tratando de fazer uma casa, mais abaixo, a uns duzentos metros da antiga, exatamente para abrigar os familiares. Logo, passou a ser chamada de “casa nova’. De construção simplória, de dentro dela via-se o telhado assentado em ripas e o piso de ladrilhos hidráulicos, com desenhos de hexágonos marrons e pretos, intercalados. Esse nome pomposo não traduz a simplicidade desse piso rudimentar, artesanal e feito à base de cimento, muito usado nas casas do interior, até meados do século passado.

A casa nova era usada apenas como dormitório, e as refeições eram sempre feitas cá mesmo, na antiga sede, onde tinha um velho e bom fogão e forno a lenha, comandado por dona Lita. Fui acordado ainda na escuridão da madrugada pra tomar banho e me arrumar no capricho. Vi o dia amanhecer com minha mãe me ajudando a vestir aquela roupa bem passada e engomada. Pouca coisa antes das seis horas meu avô nos chamou para o café que, muito mais que um simples café era, na verdade, um almoço disfarçado. Não era exatamente sempre assim, mas era quase sempre assim, com abóbora cozida, aipim, batata doce, cuscuz de mandioca, inhame, carne do sol assada, beiju, requeijão, ovos estrelados, farofa, coalhada e, na extremidade da cabeceira, uma garrafa de mel de abelha manda-saia, com um pano amarrado na boca, assistindo àquela paisagem de fartura.

Ouvia todo dia meu avô se queixando do excesso da mesa, de tanta comida assim, mas era em vão. Ali naquele espaço sua voz não era ouvida. Aliás, era o único espaço onde ele não era obedecido. Minha vó Edite não lhe dava ousadia nesse assunto. Ela comandava a cozinha do jeito que dizia ter sido criada por seus pais, dando viva pro bucho e vaia pro luxo. Ela administrava essa atividade com o maior orgulho e se sentia envaidecida antes os elogios, principalmente os vindos dos netos.

O velho Daniel sentou-se no tamborete da cabeceira e ao longo de cada comprido banco lateral dessa infinita mesa os demais adultos foram se alojando até chegar em nós, insignificantes crianças. Seu Iozinho sentou-se ao lado de meu pai e apressou-se a dizer que o menino da primeira comunhão iria no carro dele, incluindo também os meus pais nessa jornada.

– Rapaz, esse negócio é ao contrário. Mexa igual os ponteiros do relógio rodam!

Essa ordem vinha lá do meu avô, na cabeceira e era destinada pra mim. Não fazia a menor ideia, após pôr o açúcar, em que sentido eu deveria mexer a colherzinha na xicara do café. Eu nem ninguém, acho. Mas vovô falou com inabalável certeza e repreensão para que eu seguisse o mesmo movimento circular dos ponteiros do relógio. Como? Que sentido era esse dos ponteiros? Perguntava a mim mesmo, abafado, sem resposta. Deel, próximo a mim, fez em mímica, na proporia xícara e eu imediatamente imitei. Ufa!

Pouco antes de seguirmos para Veados, escutei minha mãe cochichando a meu pai, no quarto, que não queria ir no carro de seu Iozinho, porque, segundo todo mundo dizia, ele tinha fama de doido no volante. Meu pai murmurou:

– Célia, como podemos fazer uma desfeita dessas? Foi ele quem arrumou tudo, conseguiu tudo. Indo com ele é um agradecimento…

Não deu outra. Em instantes estávamos na Rural 3.000 de Iozinho de Macário. No banco inteiriço da frente, ele e meu pai. No de trás, eu, meus irmãos pequenos Pepito e Vera, além de minha mãe. No outro carro, dirigido por Orlando, prudente e recatado motorista, seguiam meus avós e os irmãos Deel, Baia e Ana.

De fato, o homem era doido mesmo! Seu Iozinho pisou fundo no acelerador do seu instável e inseguro bólido, na recém asfaltada BR-116, chamada apenas de Rio-Bahia e seguimos viagem, passando por Milagres até chegarmos no entroncamento da estradinha de terra que dava acesso à Nova Itarana. Ôpa! Veados. A velha placa de sinalização à margem da estrada ainda trazia esse nome. Claro que, a essa altura, o carro de meu avô, com toda a cautela de Orlando, tinha ficado muito pra trás.

Nessa estradinha, passei os quinze quilômetros mais tensos que vivi dentro de um carro. Seu Iozinho parecia que tinha baixado um santo. Nada falava, pra nada olhava e, entusiasmado, pisava fundo por cima das costelas-de-vaca, lombadas, valetas, buracos e o diabo a quatro! A Rural bambeava, ia em cima e ia em baixo voando estrada adentro e poeira afora. Notei que meu pai tentou até ponderar, mas, que nada. Ela sabia do jeito inamovível do velho Macário e sua natureza cismada. Se meu pai insistisse com ele pra dirigir mais devagar, sabia que ele seria capaz de nos deixar na porta de igreja e ir embora. Êta velho cabreiro!

Avistei, com imenso alívio a torre da igreja matriz. Era uma pequena igreja, com três portas em paralelo e, no plano superior, mais três janelas, tudo na mesma simetria da fachada desbotada. Ao seu redor, a praça com ruas de terra, algumas algarobeiras e casas simples, geminadas, com arcadas nas portas e janelas, protegidas por telhados desalinhados de duas quedas, uma pra rua outra pro quintal. Ali, nas manhãs de domingo, tinha a missa das sete e a das oito horas. Esta segunda era a minha missa. Eu estava ansioso.

Ficamos do lado de fora até que as pessoas começaram a sair e outras, inclusive nós, pudessem ir entrando. Minha mãe me chamou num canto do apertado pátio da frente e repassou tudo. Eu entraria pelo corredor central, acompanhando os demais comungantes e os seguiria até receber Jesus na hóstia. Não deveria esquecer, também, dos meus pecados a confessar ao padre Avelino. Sem segredos, na frente de quem ali estava, ela repetia pra eu não esquecer:

– Meu filho, preste atenção, fale que você jogou a galinha dentro da lagoa; que você deu chocho pra sua mãe; que não reza sozinho, não quer escrever direito e ainda bateu em sua irmã.

De conga branco, calça e camisa brancas engomadas, cabelos bem aparados e assentados com brilhantina, com a exagerada vela nas mãos unidas à altura do peito, saí do banco de onde acompanhava a missa e, junto aos familiares e demais fiéis, segui pelo corredor central da pequena igreja. Pra mim, foi um percurso longo. Fui pensando como é que Jesus chegaria até ali, na hora em que eu recebesse a hóstia. Minha mão havia me dito que ele era invisível e por isso não iria vê-lo, mas que ele estaria ali, sim. Mesmo assim, fui olhando atentamente pro velho telhado à mostra, na esperança de, quem sabe, ele pudesse aparecer por uma das gretas das telhas.

E fui andando, seguindo a fila. Eu era a única criança naquele corredor. Via, aos lados, pessoas cantando, rezando, olhando pra cima com olhos fechados, outras com terços nas mãos, e quase todas as mulheres com aqueles véus de rendas cobrindo parte de seus rostos. E eu, andando vagarosamente, mas sem esquecer de nenhum dos meus pecados. Os repetia pra mim mesmo, sem parar, até que cheguei bem próximo ao altar, observando uma grande cruz cercada de imagens e enfeitado com flores já meio murchas. Era minha hora.  

Fui me aproximando do padre, agora em passos bem curtos e arrastados, na espera de quem estava à minha frente fosse saindo do altar. Eu estava tenso e compenetrado.  Pouco antes de chegar junto dele, já vinha eu de boca aberta. Finalmente, recebi a hóstia e, como minha mãe me ensinara, baixei a cabeça e retornei ao banco. Realmente não vi Jesus, mas que me esforcei, esforcei.

Encerrada a missa, coisa de uma meia hora depois, já estávamos todos do lado de fora da Igreja e seu Iozinho falava alegre, sempre alto, claro, como sentisse ser ele o anjo sagrado que me tirou da paganice. Meu pai olha pra mim e com um gesto de sobrancelhas sinaliza a chegada do sacristão, que veio nos avisar que seria iniciada a confissão. Êta! Não podia esquecer de meus pecados. Voltei pra lá pra dentro em companhia do coroinha, que me falou que o padre lhe disse que só me chamasse mais pro final das confissões e isto explicava porque tinham só quatro pessoas sentadas no banco próximo ao confessionário, aguardando sua vez.

Sentei no banco imediatamente atrás e, naquele silêncio, fiquei imaginando quais seriam os pecados deles. Logo à minha frente, uma senhora gorda, de ombros redondos, com um vestido rosa claro, de florzinhas, esfregava uma mão sobre a outra, repetidamente. Que pecado teria cometido ela? Pensei.  Já na ponta oposta do banco, o próximo a confessar era um homem magro, com um jaleco estragado, escondendo uma camisa com remendo à altura dos ombros. Fiquei ali olhando pra ele, que me chamava a atenção porque chorava silenciosamente, com discrição. De vez em quando, levava uma escondida mão ao rosto e tirava uma das lágrimas. Meu pai dizia que homem não chorava e eu acreditava nisso até aquele momento. O que teria acontecido a ele? Qual seu pecado? Por que chorava aquele homem?

Confessionário

Chegou minha vez, afinal. Me dirigi ao confessionário, trêmulo, mas sem esquecer de nenhum dos meus pecados. Como uma forma de me lembrar de todos, cheguei a numerá-los, até. Encostei, me ajoelhei, e diante da madeira furadinha que me separava do padre Adelino, ansioso fui logo falando dos meus pecados. Ele me interrompeu com voz tranquila e me disse que antes fizesse o nome do pai. Fiz e falei tudo, sofregamente.

Com leveza nas palavras, que eu não costumava ouvir, cochichou apenas: 

 – Filho, você é uma criança… um menino. Crianças não têm pecados. O que você me contou são coisas que também fiz. Umas, tenho até saudades… Trate sempre seus pais e seus irmãozinhos com carinho, tá bem? Papai do céu vai te acompanhar.

Mesmo depois, enquanto ainda frequentei missas, nunca saí da igreja com uma sensação tão boa quanto aquela alegria de menino que vivi ali.

André Bonelli

a-bonelli@uol.com.br


2 comentários sobre “E esse menino aí é pagão?

  1. Olá, td bem?
    Somos de origem familiar.
    Sou Gabriel Neto, filho de Acurcio Formigli, neto de Vó Marocas Formigli e Vô Gabriel.
    Ouvi falar muito de tio Daniel, meu pai morou com tio.
    Achei seu blog por acaso, pesquisando outras coisas… rs.

    Abraços !!!

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  2. Mais um primoroso relato do Bonelli. Como já disse em outro comentário, o cronista nos leva para dentro da narrativa. Narrativa em que até o cheiro do mato é sentida por quem lê. O estilo é parecido, melhor, é igual ao do velho Graciliano Ramos em “Infância”. O personagem é o menino que não fala, mas são os olhos e voz da trama. E o final, com aquele terror que tivemos ajoelhados perto do padre contando pecados inventados é uma marvilha. Parabéns, Bonelli!

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