Mergulho na hora errada

A quarta crônica de André Bonelli. Mais uma aventura na zona rural do sudoeste, tendo uma Kombi como coadjuvante de luxo. Boa leitura:

A Hyundai lançou o seu Veloster fazendo crer que este carro esporte, por ter duas portas do lado direito e só uma do lado esquerdo, trazia um algo mais para seu comprador. Não sei bem qual seria esta vantagem, mas o marketing tem razões que só o absurdo reconhece. A Fiat também passou a produzir sua picape Strada com cabine estendida e três portas, na mesma disposição. Mas aí as razões teriam sido de contenção de custos de projeto e produção, já que fabricar o veículo com apenas três seria mais econômico do que fazê-lo com quatro portas. Será?

Para alguns, essa assimetria nos números de portas em cada um dos lados do carro soa como novidade, mas não é. Quando a Volkswagen lançou a Kombi no Brasil, lá nos anos de 1950, nos apresentava um carro que tinha apenas uma porta do lado esquerdo e três na lateral direita, portanto essa diferença já vem de longe. Tempos depois lançou a Kombi de Luxo, com duas cores na carroceria, uma até a linha dos vidros e outra, sempre em tom marfim, pintada sobre as colunas e a capota, cobrindo ainda o relevo em forma de “V”, situado abaixo do para-brisa duplo, onde estava o grande emblema circular da marca, com o V (de Volks = povo) sobre o W (de Wagen = carro). Este luxuoso modelo, além de revestimento interior mais apurado e com apliques de madeira na borda de divisória entre o banco dianteiro e os demais, tinha seis portas, sendo três de cada lado. Dava até status ter uma Kombi assim. Mais cara, sinalizava que você era um tanto abastado e chefe de uma família numerosa e isso importava para a época. Importava porque ter muitos filhos significava virilidade para os homens e devoção materna para as mulheres.

Nos idos de 1969, meu pai, já chefe de uma família de oito filhos, que pouco tempo depois aumentaria para dez, não hesitou em comprar mais uma Kombi dessa, de luxo. Foi a terceira “de luxo” que possuiu. Era um modelo nas cores verde, denominada de verde folha no documento, e marfim. Saiu estalando de nova da concessionária Cobape que ficava em Água de Meninos, em Salvador.

Logo no início de dezembro, nas nossas primeiras férias com o novo carro, seguimos para o Trapiá, fazenda que meu pai tinha e que ficava no município de Iaçu, porém mais próxima da cidade de Milagres. Propriedade situada numa região de caatinga de solo claro arenoso, secava muito a partir do mês de julho até a chegada das novas águas, depois de outubro ou novembro. Nesse tempo as aguadas expunham seus lastros de torrão seco rachado e era preciso possuir uma fazenda que tivesse água no período da seca, sob pena de perder toda a criação.

O velho Rebouças não contou conversa e procurou, perguntou, investigou até que achou, distantes uns quarenta quilômetros do Trapiá, uma fazenda às margens do Rio Paraguaçu, com água perene, farta e doce. Parecia feita sob medida. Com baixios de terra fértil e úmida, já tinha pasto feito, cercas prontas e uma pequena casa, meio abandonada, em precário estado de conservação, mas isto já era bastante satisfatório para a finalidade pretendida por ele, que era a de transferir a criação para lá sempre a partir do meio até o fim de cada ano, quando a coisa apertava cá no Trapiá.

Lá fomos nós conhecer a nova e salvadora propriedade. Na imensidão da Kombi e acesso garantido por suas seis amplas portas, ingressamos eu, meus irmãos Deel, Pepito e Gustavo, além dos primos Lando, Deco e Beto, cuja faixa etária oscilava entre os cinco anos de Gustavo e os dezesseis de Deel e Lando. De adultos, tinha meu pai e seu Arlindo. Éramos nove ao todo, exatamente o número de passageiros que a Kombi (oficialmente) comportava.

Minha mãe permaneceu no Trapiá, acompanhada das minhas irmãs Baia, Ana e Vera e do caçulinha Ricardo, então com cerca de dois anos, além da prima Adélia, que era presença garantida em todas as nossas férias, fossem onde fossem. Para não fugir à regra machista de então, primeiro os homens e só depois as mulheres teriam o prazer de conhecer aquela nova fazenda.

A ida foi um passeio e tanto. O carro, sempre dirigido por Deel, ia fluindo pelas estradinhas de terra batida, alternadas por areais rasos e perfumadas por cassutingas e alecrins. Ah! Tinham também os velames, de aroma agradável e mil utilidades medicinais. Aliás, todas elas são medicinais. Meu pai, com vozeirão grave e braços longos que escapavam pela janela da Kombi a todo instante, ia nos mostrando como essa região de baixios planos era farta em termos de lagoas e riachos afluentes do Rio Paraguaçu. Dizia ele, com uma convicção de monge, que essa era uma parte daquela região da caatinga excelente para a criação de gado e cavalos porque, tendo água pra beber, até com graveto e folhagem seca os animais se mantinham gordos. Talvez ele estivesse certo mesmo.

Enquanto a prosa de adulto ia se desdobrando entre meu pai e seu Arlindo — não propriamente entre meu pai e seu Arlindo, mas de meu pai pra seu Arlindo, mero ouvinte — eu, cá com meu botões, só pensava no banho de rio com meus irmãos e primos, nas jabuticabas, umbus e quixabas de que tinha notícias existirem com fartura nessa fazenda. No meio daquela conversa de gente grande seu Arlindo, quebrando seu silêncio de beato, que só fala pra dizer amém, fez uma pausa, olhou para os quatro cantos do céu e contemplou:

— Cumpade, vou dizer uma coisa pro senhor: ainda hoje, lá pela tardinha, a trovoada vai roncar e vai roncar é das forte!

Meu pai quis até acreditar, mas deu os ombros para aquela previsão. De fato, naquele início de dezembro o calor, prelúdio das trovoadas, era muito intenso. Nem uma palha de licuri se mexia. Me lembro que no percurso até a fazenda vi uns dois teiús deitados sobre a areia fervente e muita rolinha fogo-pagou anunciando a quentura do tempo. Os vidros da Kombi não se abriam descendo por dentro das portas como comumente acontece. Os das portas dianteiras corriam por trilhos e os das traseiras apenas basculhavam uns poucos centímetros, o que acentuava mais ainda aquele calor sufocante.

Seu Arlindo era um desses empregados, ainda comuns àquela época, que guardavam para o patrão os melhores sentimentos de fidelidade e admiração. Era o gerente do Trapiá, mas, o que era mais importante, ele e sua mulher, dona Dete, eram compadres dos meus pais e nutriam entre si uma amizade, respeito e carinho muito grandes. Minha mãe cuidava de Dalva, Roberto e Detinha, filhos deles, como cuidava de nós. Detinha fez um prolongado tratamento ortopédico em Salvador, numa das melhores clínicas do ramo e foi tudo custeado por meu pai, sendo que nesse período ela morou em nossa casa.

Ao contrário do velho Rebouças, seu Arlindo era um homem de gestos contidos, fala mansa e que tinha a timidez como parceira de sempre. Excelente vaqueiro, companheiro inseparável do seu chapéu de couro, com fronte escurecida pelo suor do dia-a-dia, conhecia das coisas e mistérios da caatinga como ninguém. Com discrição, podia comentar qualquer assunto que se relacionasse à vegetação, aos bichos, ao clima ou os costumes daquele sertão. Talvez por tudo isso fossem tão amigos, tão complementares e cúmplices. Se meu pai pitasse um cigarro, ele também fumava. Se o velho bebesse uma lapada de pinga com limão, ele também entornava. Caso meu pai pusesse malagueta no feijão, aí seu Arlindo também acompanhava. Amigo de Rebouças era seu amigo também. Desafeto daquele era inimigo figadal deste e assim foram amigos até que a morte proporcionou, certamente, o reencontro de ambos em outra dimensão.

O trinco me parecia muito duro, mas abri a porta da Kombi e ganhei aquele mundo de meu deus, eu e o resto da meninada. Enquanto meu pai e seu Arlindo, já dentro da pequena casa abandonada, foram tratar da sua reconstrução e de assuntos rurais da nova fazenda, corremos em disparada para as águas do poço mais próximo, daquela imensidão que era o Paraguaçu, isto depois de um rigoroso sermão paterno, de voz encorpada, testa franzida e dedo em riste, sobre como nos comportar ante os riscos das águas profundas. O discurso nos atingia a todos, mas era mais dirigido aos mais velhos, Lando e Deel, responsáveis por tudo que nos acontecesse. Não queria estar na pele deles…

Que maravilha, pular das pedras mais altas e descer direto pra água em ponta de agulha, sem dar barrigada. Isso exigia uma certa perícia. Não eram todos que sabiam fazer essa proeza. Beto, Lando e Deco eram melhores nisso que eu Deel e Pepito. Essa competição Gustavo só assistia, se não tivesse entretido fazendo boneco de barro molhado.

Depois do banho de rio e após o saboroso almoço trazido de nossa casa, feito de carne seca assada e farinha molhada salpicada com cebola roxa e tomate picadinhos, passamos um bom tempo brincando entre as árvores, atirando em passarinhos com badoque e chupando umbu, quixaba e jabuticaba, até que lá pelas tantas ouvimos um grito de seu Arlindo — só gritou porque tinha sido ordenado pra isso —, nos chamando para o retorno ao Trapiá. Me pareceu cedo, mas quando cheguei perto da casa da sede, entendi. Eles dois comentavam sobre a chegada acelerada de densas e pesadas nuvens ao redor da área, de tal modo que pouco tempo depois começou a chover, primeiro em cada pingo um pote e depois foi chuva de trovoada com muitos relâmpagos e raios que desenhavam serpentinas nos céus repentinamente escurecidos.

Era uma tempestade, nunca tinha visto algo assim. No começo e discordando de seu Arlindo, meu pai achou que, embora forte, logo passaria. Mas estava enganado. Não era prudente discordar de seu Arlindo nesses assuntos. A tormenta continuava e foi engrossando com o tempo. Começamos a arrumar as tralhas, pratos, panelas, um saco de umbu catado para minha mãe e as meninas e corremos para o carro, debaixo daquele aguaceiro. Fomos nos sentando em nossos lugares dentro do carro para percorrer o caminho de volta, já do meio para o fim da tarde. Cada um de nós queria disputar com o outro o lugar de ida repetindo o lugar da vinda. Coisa de menino…

Deel, embora só com seus dezesseis anos, já era um motorista de mão cheia. Talento que foi apurando ao longo do tempo e que atingiu o ápice quando, alguns anos mais tarde, se tornou caminhoneiro, ofício do qual foi um apaixonado e competente praticante até resolver comprar uma fazenda lá para as bandas de Oliveira dos Brejinhos, onde se estabeleceu e vive até hoje com a família. Pois bem, foi ele quem novamente assumiu a direção da Kombi e partimos de volta pelo mesmo caminho que, porém, agora já era uma estrada perigosa, com muitas poças d’água, algumas mais rasas outras já fundas, lama pra todo lado e chão muito escorregadio e inconsistente. Atolar ali era mais fácil que ver tiroteio em filme policial barato.

A Kombi quando vazia tinha problemas de tração por causa da ausência de flexibilidade das barras de torção da suspensão traseira, mas como estava com mais de meia carga e a destreza de Deel, fomos nos desincumbindo bem dos desafios da estrada ruim, agravados pelo mau tempo. Depois de percorrermos mais ou menos uma légua, nos deparamos com um riacho, um daqueles insignificantes afluentes secos que passamos pela manhã, mas que agora, com água de barranco a barranco, vociferava com a fúria de Posseidon. Meu irmão parou o carro. Do banco de trás olhei pra ele e percebi sua tensão. Talvez ele já imaginasse que seria impossível fazer aquela travessia.

Meu pai, porém, não tinha dúvidas e, batendo firme a palma da mão no painel da Kombi, esbravejou:

— Bota pra lá rapaz!!! Tá com medo de pouca água? Se não tem coragem me passa esse volante que você vai ver como é que se faz…

Isto, é claro, soou mais como uma ordem do que propriamente uma provocação ou uma orientação. Mesmo assim, Deel ainda tentou ponderar:

— Mas pai …

— Vá, diga logo e deixe de embromação.

— Não pai… Será que não é melhor a gente descer, ver a correnteza, onde a água está mais rasa e tentar ir por aí? Será que dá pra atravessar mesmo?

— Ora, Daniel, você não viu esse ribeirãozinho porcaria, seco hoje de manhã? Então passe logo porque ele é todo igual na fundura. Afaste mais o carro pra trás, ponha a primeira e acelere fundo porque Kombi, com motor atrás, não molha o distribuidor nem as velas. Com a gente dentro fica mais pesada e isso é ainda melhor. Quando pensar que não, já tá do outro lado.

E assim foi feito. Aliás, não poderia ser diferente porque quando meu pai nos chamava pelo nome, em vez do apelido, já estava brigando, dando uma ordem. Daniel, quero dizer, Deel, não tinha alternativa. Ele deu uma ré curta o suficiente pra pegar embalagem de volta, trocou de marcha e acelerou até o limite da primeira, enfiando o carro no riacho na rotação e velocidade máximas daquela marcha, tudo como lhe fora determinado. As águas, embora de uma profundidade que pouco ultrapassava o meio metro, tinham a força transversal brutal que as enxurradas das enchentes costumam ter e a distância a ser atravessada por dentro delas devia ser de uns dez ou quinze metros até se chegar à margem posterior.

Quando a Kombi bateu n’água levamos alguns poucos segundos sem enxergar nada à frente. A água barrenta cobriu o para-brisa e os limpadores não deram vencimento do manancial. Os primeiros metros foram percorridos com esforço e o carro foi rapidamente perdendo tração e velocidade até que, com as rodas dianteiras já tocando a outra margem do ribeirão, o motor começou a falhar e a perua estancou. Deel, imediatamente, desligou e ligou a ignição numa fração de segundos, mas nada… O motor não voltou mais a funcionar.

Fomos um a um descendo do carro apressadamente e eu me sentia cercado pelo desespero e pela frustração. Meu pai parecia se justificar atribuindo o problema à falta de potência do motor de 1.500 cilindradas da Kombi, refrigerado a ar. Aliás, ele tinha um talento invejável para transferir suas mancadas para os outros. Nisso aí, que ninguém se engane, Reboução era imbatível!

Ford F100 – 1957

— Queria ver se fosse uma F-100, V8, se a gente ficava aqui. Mas esse diabo desse motorzinho frouxo dá nisso. É o diabo mesmo! Puta que pariu! E você, Daniel, devia ter acelerado mais…

O fato era o seguinte: agora, já na boca da noite, estávamos todos fora do riacho, à sua margem, debaixo de muita chuva e vendo a Kombi dentro dele, com suas rodas dianteiras entre a água e a terra e o restante coberto de água até a altura dos para lamas. Começamos a empurrá-la e, felizmente, mesmo sendo somente dois adultos, um adolescente e cinco crianças, isso gerava força suficiente para que Deel no volante pudesse conduzir o carro até fora d’água, há uns dez metros de distância da borda do ribeirão. Ali já não havia o menor risco da enxurrada levar o carro e, superado o susto, meu pai, meu irmão e seu Arlindo de tudo fizeram para pôr o carro em funcionamento, sem qualquer êxito, porém. Não se sabia a extensão do dano. O pior problema seria um calço hidráulico, que poderia causar empeno das bielas e até trincamento do bloco do motor. O menos grave poderia apenas ser o distribuidor ou velas encharcadas. Mas o fato é que o carro não saía do lugar.

Entretanto, pelo menos a chuva foi diminuindo de intensidade aos poucos e virando barrufo. Bom, mas já era noite, talvez algo em torno das sete horas e não parecia ser a melhor alternativa pernoitar, nós nove, dentro do carro. Meu pai e seu Arlindo sabiam que a pequena casa abandonada da fazenda não tinha condições de nos abrigar. De telhado roto e com portas e janelas carcomidas não nos dava bom abrigo.

Para nós, crianças, tudo era uma aventura. Entre momentos de tensão e de ação, eu me sentia num filme de 007. Permanecemos ali por algum tempo, com os faroletes da Kombi ligados e notava o semblante de preocupação dos mais velhos. Percebi meu pai conversando em voz baixa (o que era muito incomum) com seu Arlindo e só depois pude entender que ele estava definindo nossos próximos passos. Chegaram a cogitar três opções: atravessar o arriscado riacho e voltar cerca de uma légua para pernoitar na pequena casa abandonada; passar a noite dentro do carro ou prosseguir andando, também por mais ou menos uma légua, até a casa do velho Plínio Bento.

A escolha foi feita. Dali, marchamos para a casa do velho Plínio. O seu Plínio era um senhor que já tinha passado dos oitenta anos e morava sozinho num casarão de adobe aparente, com varanda por toda a frente vazada por uma infinidade de desbotadas janelas com arcadas. Era uma típica casa caatingueira, antiga. Lá, meu pai sabia que tinha pelo menos um copo de café quente pra se tomar e alguma acomodação. A ideia era a seguinte: iríamos todos até a sede da fazenda do velho Plínio Bento, lá eles nos abrigariam e no outro dia, cedo, seu Arlindo montava num de seus burros em direção ao Trapiá, onde havia uma picape Willys 4X4 que era utilizada quase sempre nos trabalhos da fazenda mesmo. Seu Arlindo acalmaria as mulheres e retornaria dirigindo a picape, pra rebocar a Kombi até a oficina de Rubão, em Milagres.

Lembro-me que meu pai tentou desfazer o amigo vaqueiro da sua ideia de seguir viagem montado, naquela mesma noite, sugerindo a ele de só prosseguir para o Trapiá após o dia amanhecer. Mas seu Arlindo, pensando em nós, estava decidido a assim que chegássemos na casa do seu Plínio, rodar um animal no pasto, selar e partir direto, noite adentro, varando os mais ou menos trinta quilômetros que separavam aquela casa da nossa.

De todo modo isto nos confortava a todos. Sabíamos que minha mãe, dona Dete e mesmo as meninas deveriam estar extremamente preocupadas. Montando à noite, seu Arlindo chegaria no Trapiá ao amanhecer, o que diminuiria a aflição e o desespero das duas. Não tinha como avisá-las sobre nada, se não fosse assim. Este era o modo mais rápido. Ninguém, nem George Orwell, que no seu 1984 fez previsões sobre um futuro próximo, poderia imaginar que décadas mais tarde apareceria um telefone que nos acompanharia por toda a parte e dele poderíamos falar, passar mensagens escritas, imagens e sons em multimídia. Sem o celular, só nos restavam a montaria e a generosidade de seu Arlindo.

Feita a programação, nos cabia marchar em frente. Iniciamos a caminhada noite adentro. Olhei ainda para a Kombi que, toda suja de lama, já não parecia mais aquela senhora dada aos luxos das duas cores, revestimentos apurados, apliques de madeira e companhia para as famílias de certa posse. Me parecia desolada, pra dizer a verdade.

Não conseguia enxergar um palmo além do meu nariz; não sabia por onde estava pisando e tínhamos que nos manter juntos, para não nos perdermos. Caminhávamos conversando porque isto nos dava a exata noção da proximidade entre nós. Começava a fazer um comecinho de frio e a fome já dava alguns sinais. Era tudo suportável, mas já incomodava um pouco. O que mais me perturbava eram os sapos e rãs que de vez em quando eu pisava ou que pulavam em minhas pernas. Tenho até hoje uma relação fóbica com rãs e sapos. Não tenho medo de bichos, mas rãs e sapos não são bichos, são coisas medonhas de outro mundo, que vieram à terra para apenar os pecadores!

Depois de certo tempo, Gustavo, ainda pequeno, começou a chorar e, visivelmente cansado, passou o restante do caminho se revezando no colo ou nos braços ou no cangote de cada um de nós. Não foi uma caminhada muito longa, mas andar pouco mais de seis quilômetros numa noite turva, debaixo de chuva, numa estrada de chão irregular, enlameado, já com fome e cansados, tornou o percurso mais longo. Além do mais, como ter a certeza de que a casa do velho Plinio estava próxima ou não, já que não havia qualquer iluminação. Seguramente foi a experiência, o conhecimento de bicho do mato de seu Arlindo que, cerca de quase duas horas depois de chuva no lombo, nos colocou na porta da casa do solitário ancião.

— Seu Plínio!!

Gritou meu pai, que repetiu o brado uma vez mais.

— Quem é de lá!?

— É Chico Rebouças. Tô precisado de sua ajuda, seu Plínio!

Coisa de um minuto, o velho abriu a porta abotoando uma velha camisa com rasgo no peito. Cabeça toda alva, barba feita para a última feira há uns seis ou sete dias atrás, de estatura média e a magreza típica de um oitentão sertanejo, o velho Plínio foi discreto, mas caloroso. Tive a impressão que ele já ouvia nossos passos de longe, mesmo com o barulho baixinho do chuvisco no telhado. Nos acolheu com gentileza e com voz baixa, antes mesmo de meu pai contar o nosso caso, foi logo perguntando se os meninos não queriam comer alguma coisa. Antes de qualquer resposta, ele mesmo arrematou:

— Agora tem nada não, mas vou passar um café e lá dentro tem pelo menos uma dúzia de broa ou mais.

— Tenha paciência, seu Plínio, vou contar ao senhor porque é que eu, cumpade Arlindo e esses meninos estamos aqui, te incomodando a essa hora da noite.

Meu pai foi sempre um homem que conversava muito. Muito e pra todo mundo ouvir. Quando começava não tinha medida pra terminar. Pra explicar alguma coisa ou contar um caso, fazia voltas, descia a detalhes tortuosos, mudava o rumo da prosa, retornava ao assunto e, ufa! Chegava ao final da história; acho que nem o velho Plínio tinha mais interesse em tanto palavreado e naquela ladainha cumprida. De todo modo, depois de toda a história narrada por meu pai, o bom velho, aproveitando a brasa que ainda incandescia no fogão de lenha, coou e nos serviu café quente, de primeira, que eu tomei acompanhado de um prato de esmalte branco, de borda preta, que pus apoiado nas coxas, com umas três broas de milho. Estava tudo delicioso.

No curral do lado da casa, por sorte nossa, havia um burro. Não sei por que o seu Plínio o deixou ali, parece coisa do destino e isso dispensou seu Arlindo de ter que rodar o animal no pasto, até botar o cabresto nele. No curral mesmo ele foi arreado para que o grande vaqueiro e fiel amigo prosseguisse sua noitada, sob chuva.

Só mesmo seu Arlindo. O simples e bom Arlindo Louzada.

André Bonelli – advogado, professor universitário, escritor de livros técnicos de Direito


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