Uma vila em Irajá

O cronista Valter Freire conta o que o inspirou para escrever essa crônica: “Era uma vez uma vila no bairro de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro. Há semelhanças com a Rua dos Pratos, de Vitória da Conquista. A crônica foi inspirada nas lembranças da Tereza, madrinha dos meus dois filhos”. Confira, a seguir, o excelente texto.

Bairro de Irajá, encontro da Avenida Monsenhor Felix, com estradas Padre Roser e Coronel Vieira. Detalhe, a Igreja Batista de Irajá, ao fundo. Foto: Nelson Cravo Junior

Desempregado de novo, Ferreira? Você não aprendeu ainda que tem uma família para sustentar? Será que vai depender a vida toda da sua mãe, que vergonha, meu Deus, disse Valdira, andando agitadamente pela pequena sala. Ferreira estava sentado no sofá, segurando a cabeça com as duas mãos e cotovelos apoiados nas pernas dizia: não sei o que acontece comigo, eu não sei o que faço, acho que é a bebida, me perdoe mulher, me perdoe.  Netinha e a irmã Leide saíram de fininho para fora de casa, fugindo de mais uma briga. Era uma casa pequena em uma vila simples lá em Irajá. A vila tinha 18 casas, todas pintadas de branco com portas e janelas verdes. Um tanque de cimento para lavar roupa e um banheiro servia a duas casas. Na casa 1 morava um senhor negro, cabelos brancos, olhar bondoso, sorriso carinhoso e chamado por todos de Tio Chico. A aparência dele era de um “preto velho”. Todo dia ele varria a porta da vila cumprimentando com alegria aos que passavam por ali. Tinha sempre uma palavra de afeto para as crianças e sempre as protegia como se fosse um anjo da guarda. Lá, no fundo, moravam Dona Generosa e Seu Adamastor, portugueses, cujos filhos já casados, moravam em Cascadura. Ela era boa vizinha, cozinheira de mão cheia, lavava roupa para fora. Ele tinha “cara de limão estragado” como dizia Dona Tina, da casa ao lado, mãe de sete filhos encapetados. Era uma vila de muitas crianças e, consequentemente, muito barulho. Dona Leocádia e Seu Cícero eram sergipanos e pais de cinco filhos. Ele trabalhava na construção civil, era muito calado e mal falava com os vizinhos. Mas quando chegava bêbado, era um inferno, brigava com toda a vila e expulsava mulher e filhos de casa, que se abrigavam nas casas nos vizinhos. Conceição era uma solteirona que na festa de Cosme e Damião, assim com em outras festas na vila, tomava uma cachaça e recebia santo e isso era uma festa para a meninada. Outras moradoras da vila também eram lavadeiras e os filhos maiores eram os entregadores das roupas limpas. Dona Gessy era a mais metida e falava-se que ela pulava a cerca, pois de vez em quando saía toda arrumada e não dizia aonde ia. E a fofoca rolava. Dona Severina era uma viúva cuja situação era a pior possível. Além de lavar roupa para fora, vendia doces na estação de Irajá, com ajuda dos três filhos. Dona Sonia era a mais fofoqueira, Dona Ester a cartomante, Dona Rute costureira e confidente de todas, Dona Isaura a mais católica, liderava as orações e rezas. A vida era difícil para todos, mas o cheiro de comida variava de acordo com a casa. Tripa à moda do porto, feijão com paio, sardinha frita, pirão de mocotó e comida caseira feita com capricho. Mas, como em toda vila, sempre rolava uma briga, principalmente por causa do uso do tanque de roupa. Certo dia, Dona Sonia encrencou com Valdira sobre um balde de roupa debaixo do tanque. Bate boca pra cá, bate boca pra lá, verdades e segredos vindos à tona, a mãe de Netinha entrou dentro de casa, chegou até a janela, chamava a vizinha de “maracujá de gaveta” e se escondia. Repetiu isso várias vezes e as vizinhas, que a tudo assistiam, sorriam alto, irritando mais ainda a Dona Sonia. As crianças vaiavam e se divertiam. Mas havia também briga entre a meninada da vila. Netinha, apesar de magra, era a mais briguenta e não levava desaforo para casa. No mês de junho as festas de São João e São Pedro eram deliciosamente comemoradas. Seu Cícero fazia uma fogueira, as mulheres da vila faziam comidas típicas e a animação era geral, com quadrilha de adultos e de crianças. No dia de Cosme e Damião as crianças saíam com sacos da Casa da Banha em busca de doces. Netinha era a mais rápida e por isso conseguia a maior quantidade. Leide, esfomeada que só ela, comia muito doce e passava dois dias de dor de barriga. Netinha tinha uma memória fantástica para música, era a primeira a aprender a letra e cantava com a voz de “taquara rachada”, sempre acompanhada de Tonho, Ricardo e Zé Macaco, a música que era sua cara:

“Teco, teco, teco, teco, teco
Na bola de gude era o meu viver
Quando criança no meio da garotada
Com a sacola do lado
Só jogava p’rá valer
Não fazia roupa de boneca nem tão pouco convivia
Com as garotas do meu bairro que era natural
Subia em postes, soltava papagaio
Até meus quatorze anos era esse meu mal
Com a mania de garota folgazã”

E durante a noite as crianças brincavam, cantavam, brigavam, riam e corriam de pique-esconde, amarelinha e outras brincadeiras. Poucas crianças tinham brinquedos e por isso inventavam e sorriam felizes de qualquer coisa. Mas muitas vezes alguns arrancavam o couro do dedão do pé no jogo de bola e imensos arranhões que eram tratados com mertiolate que ardia que nem o diabo. Quase todos estudavam na Escola Municipal Mato Grosso. Era uma festa o caminho de casa até o colégio. Costumeiramente sagu era servido na merenda. Leide comia rapidamente o seu e ficava pedindo um pouco aos colegas. Por causa disso ganhou o apelido de Maria Sagu. E por falar em apelido, quase todos tinham o seu. Netinha, por ser magra, tinha o apelido de Maria Cambito. Um dia, ao sair do colégio, na Rua Marquês de Aracati, uma garota chamada Eliete ficou provocando a Leide e a chamou de boboca e Maria Sagu. Netinha se irritou e partiu pra briga. Grudaram-se pelos cabelos, rolaram no chão, tapa pra cá, tapa pra lá e a meninada gritava, incentivava, torcia. Netinha tirou o sapato tipo tanque e deu na cabeça da Eliete que conseguiu pegar na manga da camisa da Netinha e fez um rasgo imenso. A professora Dalva chegou, separou a duas, deu uma bronca. Eliete foi chorando rua abaixo e Netinha tomou caminho de casa já pensando na surra que iria levar ao chegar em casa toda descabelada e camisa rasgada. Aos domingos, quando tinha dinheiro, a matinê no Cine Irajá era certeza. Os filmes, na maioria das vezes, era de bang bang, de aventuras ou de Mazzaropi. Era um barulho infernal dentro daquele cinema, mas a magia da sétima arte fazia a felicidade daquelas crianças. Na parte do fundo do cinema os casais se agarravam, beijavam-se esquecidos do filme. Na saída, também, quando o dinheiro dava, um sorvete ou picolé era o complemento perfeito para o domingo. E ao lado da vila havia uma casa com algumas árvores no quintal. E, claro, as crianças pulavam o muro, subiam nas árvores, lideradas quase sempre por Netinha. Mas o tempo passou, a vida chegou. Cada família seguiu sua trilha. Onde estão hoje aquelas crianças? Que aconteceu com elas? A vila ainda está lá com casas cheias de grades, modificadas, com outras famílias ou descendentes. Mas a vila gostosa, vistosa, cheirosa continua viva dentro da lembrança, será sempre uma bucólica vila em Irajá.

ADEMILDE FONSECA – TECO TECO – SÉRIE RELÍQUIAS – acervo de PEDRO LECUONA


9 comentários sobre “Uma vila em Irajá

  1. Já foi um lugar tranquilo, infelizmente a violência chega também a lugares como esse. A crônica é ótima.

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  2. O autor foi muito feliz ao escrever essa crônica. Conheci o local, até hoje sinto saudades das amizades que fiz em Irajá. A vida da gente toma outro rumo, hoje moro em Salvador e nunca mais falei com os amigos da época.

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  3. Gostei muito da crônica. Retrata bem Irajá e essa vila tão legal. Morei perto da vila, há uns 30 anos ou mais. Hoje, moro em São Paulo, mas não me esqueço de Irajá. Gostei muito do que li aqui, esse blog é muito legal.

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  4. Cara, que crônica manera! Gostei, fala do meu Irajá, e fala com estilo. Foi um boa surpresa. Vi Irajá no google e parei aqui, no blog.

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    1. Marcos, o subúrbio carioca tem um fascínio eterno. É poesia, é terreiro, é Zeca Pagodinho, é Seu Monarco, é o fantasma de João do Rio batendo papo com o fantasma de Lima Barreto, sob as bênçãos de Clementina de Jesus. Mas como cantou Nei Lopes junto com Chico Buarque, “Tenho impressa no meu rosto
      E no peito, no lado oposto ao direito
      Uma saudade, que saudade
      Sensação de na verdade
      Não ter sido nem metade
      Daquilo que você sonhou
      Que sonhou
      São caminhos, são esquemas
      Descaminhos e problemas
      É o rochedo contra o mar
      É isso aí, ê Irajá
      Meu samba é a única coisa que eu posso te dar”

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  5. Que texto bem escrito. E traz informações interessantes de um lugar que conheço bem. Talvez até conheça o autor da crônica.

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