A última impressão é a que fica

Este é o título da terceira crônica de André Bonelli no blog. Você vai viajar por estradas de fazendas e vai se divertir com o temor do neto ante o avô sisudo. Mais uma ótima história da infância do cronista.

Uma “venda” típica dos anos 70 (Esta foto é da Mercearia Lima – facebook)

A venda era um lugar onde se encontrava de tudo. De uma bacia de flandres pra lavar roupa a um rolo de fumo; do pacote de vela à carne de charque; do lápis ao cobertor de lã; do óleo de rícino ao facão, tudo, enfim, se achava numa venda. Lá na Limeira a venda ficava num alto, distante de minha casa uns dois quilômetros, mais ou menos, e quem tomava conta dela era seu Dozinho, um sujeito forte, com aparência de um indiano, já de meia idade e barriga roliça. Uma de minhas melhores diversões era subir a ladeira encascalhada da venda e comprar doce de goiaba enrolado na palha de bananeira e pirulito de açúcar queimado. À sua frente ficavam as barcaças onde o cacau era secado ao sol. Do lado da venda, um pouco mais acima, tinha a estufa de cacau, onde a semente era torrada e depois ensacada pra embarque nos caminhões. Ah, como eu gostava de, lá dentro da estufa, subir na ruma de grão de cacau seco e descer escorregando. Tinha sempre a companhia de Deel e a cumplicidade de seu Dozinho, que nada falava aos meus pais sobre essa peripécia, que terminava por desarrumar o cacau pronto pra sacaria.

A Limeira era uma fazenda que possuíamos no sul da Bahia, que se ligava às cidades de Itapé e Floresta Azul por estradinhas miseráveis, cujo trânsito de carros no inverno só era possível se tivessem tração nas quatro rodas. Foi lá que passei boa parte de minha primeira infância. Eu, Deel, Baia, Ana e Pepito, este ainda muito pequeno. Era uma propriedade vocacionada para a produção do cacau e, em menor escala, para a criação de gado. Vivíamos do que ali era plantado, criado e colhido.

Brincávamos praticamente entre nós mesmos, os próprios irmãos, porque as casas dos vizinhos não estavam tão perto assim. Os estudos eram lecionados por minha mãe, na garagem coberta de palhas, ao lado da casa que morávamos, e graças a esta sólida base conseguimos, mais tarde, ingressar em boas escolas de Salvador, matriculados em graus adiantados. Era uma vida em família, voltada para a própria família. Quando meu pai nos levava para Itabuna, lá uma vez por mês, era como se tivesse chegando ao estrangeiro, um lugar com muita gente, muito carro e grande movimento. Pelo menos era assim que eu via.

Nossa casa na Limeira não era muito grande, pelo contrário era até uma moradia simples e compacta. Com dois quartos, sala, copa e cozinha, era o bastante pra nos alojar com conforto e a comodidade necessária. Vivíamos ali integrados na harmonia do tempo, que passava arrastado, lento quase parando.

Na época em que uma ligação levava horas para ser completada pela telefonista, os radioamadores eram o que existia de mais moderno. O da foto é dos anos 60. E eles ainda resistem. Fonte: Site Jundiaí Agora

Meu pai saía logo pela manhã, depois de conversar no aparelho de Radioamador com meu avô e seus irmãos — meus tios —, sobre assuntos relacionados a cada uma de suas fazendas, que também se situavam na mesma região. Falavam de negócios e, cada um, ao finalizar sua fala, sempre dizia pro outro, “câmbio!”. Eu achava aquilo curioso e engraçado. Câmbio? O que significava câmbio? Que diabo era isso? Por que eles não conversavam naquele microfone como conversavam em outros lugares, sem falar aquela palavra estranha?

Então, depois de desligar o rádio, ele punha uma sela enfatiotada em Canarinho e saía montado pra ver o gado ou inspecionar alguma coisa dentro das roças de cacau ou entrava no Jeep de quatro portas, modelo com chassi longo, pouco comum, pois era bem menos vendido que o similar menor de duas portas, e partia em outras direções. Com seu chapéu de feltro de abas longas e colocado de um modo que deixava grande parte da testa à mostra, era desses homens dos quais se podia dizer que vivia para o trabalho e para a família. Além de sua mulher e filhos, na lida do dia-a-dia dele também não esquecia das preocupações com o bem estar dos trabalhadores da fazenda e de seus familiares. Me lembro bem que, à noite, em casa, ficavam ele e minha mãe comentando sobre o difrúcio de fulano, censurando a bebedeira de sicrano ou falando da febre do filho de beltrano.

De quando em vez, lá por uma ou duas ocasiões no ano, meu pai levava tio Adel, casado com tia Zeca, irmã de minha mãe, até a Limeira, que ali passava uns três ou quatro dias cuidando dos dentes dos empregados, suas mulheres e filhos. Tio Adel, que era dentista, formado em Salvador — o que era um grande status para a época —, foi um desses homens que desafiava as leis da Física. Desde pequenos aprendemos que, de acordo com a Física, um corpo maior não pode ocupar um espaço que lhe seja menor, mas isso não se aplicava a meu querido tio, porque ele tinha um coração maior que seu peito. Era um homem bondoso, incapaz de fazer mal a uma mosca. Fechava seu consultório na rua Cinquentenário, a principal de Itabuna, pra atender de graça aqueles pobres coitados trabalhadores da roça.

Minha mãe, além de nossa professora, era também exímia cozinheira; não, melhor dizer apaixonada cozinheira. Perto do fogão era o lugar em que se sentia melhor, sempre tive essa impressão. Talvez isto fosse fruto da ascendência italiana dos Bonelli e Camardelli. Meus avós maternos, em cuja casa cheguei a morar na adolescência, também tinham adoração pela cozinha: meu avô Bonelli, para comer; minha querida vó Luiza, para fabricar as massas, numa velha máquina vermelha de onde, a depender da regulagem, o macarrão saía mais fino ou mais grosso, e prepará-las como ninguém!

Celinha é o que se poderia chamar de dona de casa exemplar, para os patriarcais padrões vigentes naquele tempo. Cuidava com afinco dos cinco filhos de então, dedicava mimos ao marido, e concordava com praticamente tudo que ele dizia ou fazia. Ainda supervisionava nossas roupas e alimentação, além do estudo. Comandava também a seção higiene. Dessa eu não gostava muito. Aliás, não gostava nada! Éramos postos sentados no grande banco lateral da mesa de jantar e ali ela inspecionava nossas unhas, ouvidos, dentes e cabelos. De tempos em tempos éramos obrigados a tomar uma colher de óleo de rícino — eca! — e, com mais frequência, Emulsão Scott e Biotônico Fontoura. Sem contar os chás. Era chá de todo tipo, cor, aroma e sabor

Piolhos? Lá de vez em quando eles eram nossos inquilinos, indesejáveis inquilinos. Primeiro vinha o pente fino, que minha mãe passava devagarinho pra fazer a primeira limpa. Depois, pulverizava Neocid, um pó branco inseticida, que vinha numa latinha amarela sempre difícil de abrir ou de fechar. Após um certo tempo ela lavava nossas cabeças com sabão de coco. Vi isso se repetir algumas vezes na minha infância.

Como se não bastasse tudo isso, minha mãe achava tempo para visitar os doentes da fazenda e das imediações, prescrevendo-lhes remédios que ela mesma comprava e entregava-os gratuitamente àqueles enfermos. Passava pelas casas das grávidas e avisava que, chegada a hora, além da parteira, ela queria ser chamada pra acompanhar. Minha mãe sempre foi assim, uma pessoa incrivelmente disposta, de uma generosidade imensa, sem medo do trabalho, criativa e com magnífico veio artístico para a música. Tocava acordeom, piano, clarineta, marimba e não fazia feio no violão. Com sangue italiano, é claro que era emotiva, mas sempre bem humorada e com incrível talento para dar graça aos casos que contava. Agora, já bem velhinha, vive labutando com a memória fugidia.

Mesmo vivendo uma infância saudável e divertida, de quem, sem televisão ou cinema, shopping ou internet, desfrutava das coisas da roça, da infinita liberdade pra correr, pular, furar casa de marimbondo, tomar banho de ribeirão do fundo da casa e montar cavalo. Nossa educação, entretanto, era rigorosa. Não se engane! No pé direito da porta da parede que separava a sala da copa havia, pendurada, sempre nos olhando com repressora autoridade e imponência, uma rígida e polida palmatória, que era usada nos momentos em que as broncas ou castigos, aos olhos de meus pais, já não pareciam funcionar. Eu nem gostava de olhar pra ela; só de ver já me apavorava.

Engraçado é que as repreensões eram graduais e em níveis hierárquicos diferentes. Nem sempre era assim, mas na maioria das vezes as broncas e castigos mais corriqueiros e brandos vinham de minha mãe. Se a situação era mais grave, a exigir uma repreenda maior, aí entrava meu pai em cena. Ali, repreenda maior significava castigo mais severo ou bolos de palmatória nas mãos e sem direito ao nosso contraditório ou justificativa de qualquer espécie para evitar a surra ou arrefecer o castigo.

— Francisco, me dê aí um desses muleque seu pra ir abrindo cancela até a casa de Maviel

Roy Rogers and TriggerSite Globe Trotting

Foi assim que ordenou meu avô Daniel, logo depois que entrou sala adentro. Trocou meia dúzia de palavras com meu pai, tomou um cafezinho pegando fogo e folgou a fivela do roló, que lhe apertava um dos pés. Eu, Deel e Baia, presentes ali na sala, lhe pedimos a bença (benção, só os padres sabiam falar assim, corretamente) e por instantes ali permanecemos em silêncio submisso, com expressão de anjos imaculados. Nossos olhos sequer conseguiam mirar para os dele. Resignados, olhávamos para o chão, as paredes ou o quadro de Roy Rogers montado em seu famoso cavalo Trigger, que foi coadjuvante nos mais de oitenta filmes western do ator. Acho que meu pai se projetava naquela moldura, como se fosse o astro de bang-bang hollywoodiano.

Meu avô era um homem sisudo, de pouca conversa e que ia diretamente ao assunto que lhe interessava. Era objetivo no trato e não tinha arrodeios nem bolodório. Falava o que era importante, não espichava a prosa e não gostava quando alguém o fazia. De semblante fechado, não era, porém, alguém de mal com a vida. De jeito recatado e tranquilo, se mantinha reservado nas atitudes e contido nos comentários.

O pai do meu pai era um homem relativamente alto, de pele morena e voz grave. Meio calvo, usava óculos de molduras grossas e grau compatível com a idade. De bigode denso e bem aparado, dificilmente se separava do seu chapéu de feltro cinza escuro. Nem o calor do verão do sul baiano era suficiente para fazê-lo usar camisa que não fosse de mangas compridas, abotoadas nos punhos e no colarinho.

Meu pai nutria por ele um misto de grande admiração, carinho, respeito e um temor reverencial. Do que meu avô falava, quem era meu pai pra discordar? Na presença do velho Daniel Rebouças, meu pai, que tinha adoração por futebol, desse assunto não ousava falar, porque ele não gostava. Apreciava uma Brahma gelada ou uma pinga com limão, mas beber na frente de meu avô só em circunstâncias muito especiais, raras e autorizadas. Fumar, nem pensar. Política, só se fosse pra dizer que o candidato dele era o mesmo do avô Daniel.

Certa vez eu e meu pai estávamos nos aproximando da casa de vovô Daniel e meu pai de dentro do carro foi logo recolhendo a carteira de Hollywood sem filtro do bolso da camisa e junto com ela também o pente Flamengo. Meu avô sempre dizia que homem que vivia penteando os cabelos não era homem de verdade, era um sujeitinho vagabundo. Mesmos adjetivos que ele dirigia a quem andasse assobiando ou, ainda, a quem ficasse conversando numa esquina.

Esse era o comportamento aquietado de meu pai em relação ao meu avô. Minha mãe, pelo amor de Deus! Temia o velho Daniel, a quem chamava de tio, como o diabo teme a cruz. Pouco lhe dirigia a palavra, a não ser que ele lhe perguntasse alguma coisa. Sempre estava disposta a servi-lo, a tempo e da melhor forma, com disposição e alegria. É verdade que era uma alegria até meio nervosa, mas era o máximo que ela podia fazer para se desvencilhar logo da tarefa que fosse, sem cometer erros ou equívocos. Mesmo diante de tanta apreensão, ela gostava muito dele. E ele, dela.

Pois bem, quando o velho Daniel requisitou um de nós, para que abrisse as cancelas da estrada que o levaria à fazenda de Maviel, meu pai, olhando pra mim com olhos fixos e ordenantes, se prontificou imediatamente em atender.

— André! Vá calçar uma alpercata e acompanhe papai. E é ligeiro!

Enquanto eu estava procurando as benditas alpercatas no quarto grande, onde também dormiam todos os irmãos, meu pai entrou, passou a tramela na porta, me pegou pelo braço com firmeza e sentado na cama me disse, de perto, olho no olho, que era pra eu me comportar com educação, não aborrecer, não incomodar, nada pedir, não dar trabalho, ser obediente e fazer tudo que meu avô mandasse, exatamente como ele, vovô, tivesse mandado. Caso eu fizesse algo diferente disso, ao voltar, a palmatória falaria mais alto, com uma dúzia de bolos nas mãos e um castigo que eu ainda não tinha visto igual. Ouvi tudo calado, atento e amedrontado. Sentia que estava diante de uma empreitada que me dava calafrios. Ali eu percebi que não só os adultos têm a exata dimensão do perigo. Acho que, por instantes, meu coração parou de bater. Parou mesmo!

Na passagem pela sala, enquanto meu pai mostrava a meu avô um par de botas que tinha comprado em Ibicaraí, minha mãe me levou para um canto e lembrou que se alguma coisa desse errada eu nunca mais me esqueceria das consequências. Ufa! Por que meu pai não escolheu Deel? Pior, cheguei a pensar: vixe Maria, por que eu tinha nascido!? Passei os dedos sobre as lágrimas, enxuguei-os na roupa e me apresentei.

Meu avô era um péssimo motorista, desses que aprenderam a dirigir já com certa idade e que nunca se preocuparam em evoluir nas técnicas da boa direção. Sentava-se empertigado, como quem engoliu um cabo de vassoura e pegava o volante com os braços duros e a estranheza de um pecador rezando missa. Não tinha a noção da marcha que o carro pedia para uma ou outra situação que a estrada exigia. Dos buracos, bicos de pedras e valetas não desviava e não sabia sequer como usar o espelho retrovisor. Dirigia olhando fixamente para frente.

Entramos nessa Rural, marrom e branca, e seguimos para o destino. Maviel era um primo do meu avô, que tinha uma fazenda de cacau e gado relativamente próxima da Limeira, mas a estrada era ruim, atravessava alguns pastos de várias propriedades, inclusive os da austera viúva Bernadete, e isto implicava na existência de muitas cancelas. Algumas de bater, ou seja, permaneciam fechadas pela força da gravidade e, portanto, eram as mais pesadas para abrir. Outras de tramela, o que exigia certo esforço para serem destravadas. Estas dificuldades, que não significam nada para um adulto, não eram fáceis de transpor para mim, que só tinha sete anos. Isto mesmo, sete anos!

Sentei-me no banco da frente, ao lado dele e fomos rompendo. Não vou esconder que tive certo orgulho de estar numa Rural. Para quem estava acostumado a andar de Jeep, de capota de lona, duro feito um jumento e cujo limpador do para-brisa do lado do passageiro funcionava manualmente, acoplado a uma pequena manopla parafusada próxima do teto, estar na Rural até que elevava meu orgulho de menino da roça. Não pense que eu não gostava daquele Jeep, não é isto. Quando, debaixo de chuva feia, meu pai engatava o diferencial dianteiro, transferia para a segunda marcha na caixa reduzida, ele subia qualquer cabeça de gato enlameada ou atravessava qualquer atoleiro ou malhador. Eu ficava eufórico com a raça do jipão e a perícia do meu pai.

Cancela

Na primeira cancela meu avô parou o carro, desci e me lembro da força que fiz para cumprir minha tarefa. Mas deu tudo certo. Juntos, prosseguimos sem nenhuma palavra, de parte a parte. Ele, calado do próprio jeito dele; eu, calado pela opressão que enforcava a alma. Ouvia apenas os rangidos dos feixes de molas da Rural e o chato baticum de suas portas. Embora melhorzinha que o Jeep, era um carro de pouco conforto e nos levava sacolejando estrada afora. O tempo foi passando e mais uma cancela e mais outra e ainda uma outra e fomos rompendo até que, aliviado, avistei o oitão da casa de seu Maviel.

Com ele, entre um gole e outro de café, meu avô falou de negócios de gado; de questões da plantação do cacau e de outros assuntos que eu não entendia, só lembro que era uma conversa sobre a carga dos navios em Ilhéus. Talvez fosse algo relacionado à exportação do cacau, não sei bem. Eu permanecia quieto, calado num canto da varanda com assoalho de madeira castigada pelo tempo, só escutando a conversa, que não me tinha nenhum atrativo. Acho que ali, entendi, pela primeira vez, o ditado popular que diz “menino e cachorro é tudo igual”. Era assim que me sentia, tal como um vira-lata que ofegava com a língua de fora, ali debaixo de um banco qualquer daquele quente alpendre. Isso me fez lembrar agora de um livro — História Social da Criança e da Família —, onde seu autor, Philippe Ariès, filósofo e historiador francês do século XX, demonstra que muito costumeiramente crianças, até o fim do século XIX e início do século passado, eram consideradas quase que como animais domésticos. Referindo-se àquele tempo, um pouco de suas palavras:

É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo. Não se pensava como normalmente acreditamos hoje, que a criança já contivesse a personalidade de um homem. Elas morriam em grande número. Consta que durante muito tempo se conservou no País Basco (hoje Espanha), o hábito de se enterrar em casa, no jardim, a criança morta sem batismo. Talvez houvesse aí uma sobrevivência de ritos muito antigos, de oferendas sacrificiais. Ou será que simplesmente as crianças mortas muito cedo eram enterradas em qualquer lugar, como hoje se enterra um animal doméstico, um gato ou um cachorro?

Pouco tempo depois que saímos lá da Limeira eu já comecei e ter vontade de urinar, mas, me lembrando das advertências e ameaças de meu pai e de minha mãe, não tinha como pensar em pedir a vovô Daniel para parar o carro pra eu fazer xixi. Na varanda da casa de Maviel, enquanto conversavam, a vontade só aumentava. Mas novamente me lembrava que era pra eu me comportar com educação, não aborrecer, não incomodar, nada pedir, não dar trabalho, ser obediente e fazer tudo que meu avô mandasse, exatamente como ele tivesse mandado.

Já era hora do almoço, quando meu avô se levantou, tirou o pigarro da garganta, puxou o cinturão mais pra cima da barriga, em despedida. Maviel insistiu para que almoçássemos lá com ele.

— Maviel, por esta vou lhe agradecer, mas minha nora cozinha muito bem, você sabe, e ela está preparando uma galinha no molho pardo, que não conheço igual.

Não, eu não podia pedir para fazer xixi. Iria incomodar com certeza. Seria falta de educação, insubordinação. E a palmatória? E o tal do castigo sem igual? Entramos no carro e iniciamos o caminho de volta, agora em circunstâncias que o deixavam muito, muito mais longo. E lá se foi uma cancela e mais outra e a vontade agora já era insuportável. Chegava a sentir dor no pé da barriga. Era uma tortura. Sem me dar conta, já sem me controlar, comecei a urinar, dentro da Rural. Senti uma quentura escorrendo pelas pernas. O calção encharcado. Era uma situação constrangedora. Imaginei que descumpri todas as recomendações de meus pais e que a vergonha nunca mais me permitiria sequer olhar pra meu avô. Vergonha e medo. Medo não, pavor descontrolado, pois o vexame era evidente e a surra era certa! O xixi molhou o banco de vinil e chegou ao piso da Rural, que tinha sobre ele um capacho de sisal, com borda tingida de vermelho, meio desbotada.

Meu avô notou minha expressão de pânico e constrangimento. Parou o carro. Não tenho como descrever a dimensão da minha aflição, naquele momento. De tudo que estava à minha frente, nada mais conseguia ver. Meus olhos se voltavam pra meu vazio. O velho Daniel observou toda a situação e apenas balbuciou:

— Tem nada não.

Eu não sabia o que dizer e permaneci sentado estático no mesmo lugar. Ele abriu a porta de seu lado, passou pela frente da Rural deslizando a mão sobre o capuz do carro e eu, tenso, fui medindo cada centímetro de cada passo seu em minha direção. Já do meu lado, abriu a porta, me pegou suavemente pelo braço, com uma mão aquecida pelo calor humano daquele homem que eu, até então, não o via como ele realmente era. Ele puxou o encharcado capacho de sisal e o atiçou no mato. Ainda em silêncio, enxugou o banco com uma flanela amarela meio rota, consertou os óculos que escorregavam pelo nariz e esboçou um distante e discreto sorriso, olhando pra mim com ternura. Continuei calado, sem saber o que dizer, mas as lágrimas saíram dos meus olhos do mesmo jeito que o xixi, em abundância e descontroladamente. Lágrimas ainda de medo e vergonha, mas também lágrimas de reconhecimento pela doce complacência daquele velho senhor. Aquela foi a primeira lição que tive sobre como pode ser complexo conhecer algo ou alguém. Como não é tão simples formular uma compreensão sobre o outro. É que às vezes sabemos do outro a partir da visão dos outros e isto vai dando origem aos nossos preconceitos, não?

Quando chegamos de volta em casa, ele parou a Rural ao lado da cerca que protegia o terreiro. Meu pai logo lhe fez a pergunta que guardava com aflição.

— Olha Francisco, esse muleque é danado de bom, quero viajar com ele outra vez. E a galinha tá pronta ou não tá, Célia?

André Bonelli – advogado, professor universitário, escritor de livros técnicos de Direito


10 comentários sobre “A última impressão é a que fica

  1. Maravilha de lembranças e memórias. Imagens que refletem um tempo mais calmo, mais próximo entre as pessoas, Imagens de lugares e objetos que mostram o encanto da gente boa do sertão. Parabéns!!

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  2. Mais um impecável relato em leva o leitor para dentro da trama. E todo leitor se vê dentro da crônica. Em certo momento o amor e pavor se transforma em uma única coisa. É o maldito medo de pedir para o mundo parar e fazer xixi. E quando é criança, pior. Mas há o relato da maldita palmatória. Palmatória que citei na minha crônica “Rua dos Pratos”, aqui no blog. No relato do Bonelli a palmatória continua na parede, mas no meu caso ela foi arremessada e está, acredito, descansando eternamente no telhado da casa da minha infância. Parabéns, cronista, que venha mais!

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  3. Essa crônica é uma verdadeira viagem ao passado para mim, pois já passei por quase todo esse cenário.

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  4. Great, Mr. Bonfim! A crônica é muito bacana e as fotos – black and white – deram um toque a mais na história. Muito bom mesmo.

    Curtido por 1 pessoa

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