Rua dos Pratos revisitada

Valter Freire volta à Rua dos Pratos/Prates. Você se lembra, o assunto já foi bem divulgado pelo blog (clique aqui). Ele conta porquê retornou ao assunto: “Fiz uma revisão no texto da Rua dos Pratos.  Encontrei duas fotos antigas da casa em que nasci nesta rua. Em uma foto estou com minha filha Camila. Acho que são as únicas fotos da casa, que teve a fachada alterada. Alterou para pior”. Vale a pena você passear de novo por essa rua de Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia.

Rua dos Pratos ou Rua dos Prates? Conta-se que a construção de uma das primeiras casas da rua, o proprietário mandou colar na parte da frente, sobre a porta e as janelas alguns pratos de louça para que a casa ficasse bonita, destacando-se das demais. O povo começou a chamar a “rua da casa com pratos”. Depois, para “Rua dos Pratos”. Alguns moradores achavam esse nome um tanto pejorativo e, aproveitando da fama de uma tradicional família da cidade, começou a chamar Rua dos Prates. Lenda? Ninguém sabe ao certo. Para os mais antigos, por tradição, nostalgia, saudade ou carinho, para muitos é a Rua dos Pratos, que começa na junção da Travessa do Triunfo (aquela com calçamento com pedras, do tipo “pé de moleque”, onde morava uma família de negros, cuja matriarca havia nascido escrava e que todo dia 13 de maio acontecia uma grande festa) com a Rua da Palha (posteriormente denominada Rua da Conquista) e termina na Rua Laudicéia Gusmão.

Rua de muitos meninos, meninas, moças bonitas e figuras inesquecivelmente eternas. No início da rua, morava seu Antonio Seleiro (ou Antonio Birila) com inúmeros filhos: Darça, Beto (com problemas nas articulações das pernas, não andava. Tinha o dom de desenhar quaisquer figuras, destacando em criar cowboys e índios), Vane, Áurea, Antonio e mais algumas meninas que me fogem os nomes. Ao lado, numa pequena casa, morava Aurino Preto, baixo, conhecedor de futebol e fanático torcedor do Fluminense, tinha a mania de escovar os grandes dentes brancos na porta da rua. Anos mais tarde viria a trabalhar comigo na casa de couro “Rancho Alegre”. O bangalô ao lado era a residência de uma mulher morena, com corpo  violão, que não era bem vista pelas mulheres da rua. Não era muito direita, mas a empregada dela namorava Chico Sapateiro, que era ídolo dos meninos da rua por ser halterofilista e usava uma cabeleira no estilo Gordon Scott, o Tarzan. Na pequena casa ao lado, bem pobre, de chão de barro, sem luz elétrica, de vez em quando havia sessão espírita, onde seu José, marido do dona Rita, se tratava da doença que o levaria meses depois. A velhinha que dirigia os trabalhos se despedia cantando: “adeus irmão, eu já vou embora, eu vou com Deus e Nossa Senhora”. Em frente, morava Ceci, com sobrancelhas à la Edith Piaf, seu marido Giltinho (filho de Sá Nô) e os filhos Venilton e Calu, o merrequento. Ao lado, a casa de dona Miri era repleta de filhos, todos com nomes começando com a letra n: Natair, Nathan, Natalice, Nivaldo, Nourivaldo, Nilzete, Neusa, Neide e muito outros. Damião, Daniel e seus irmãos, todos com pele escura e cabelos lisos, negros como a noite, moravam numa das casas mais pobres da rua, e diariamente seguiam para a praça da feira com seus carrinhos de mão para ganhar uns trocados. Mudaram-se tempos depois lá para as bandas da Rua do Bueiro, próximo à casa do Raimundo, casado com dona Maria Candomblezeira. Em seguida começava a chácara do seu Cori, que ocupava mais da metade da rua e era o paraíso para a meninada com dezenas de árvores frutíferas. Do outro lado, sempre limpos, penteados, sentados no batente da porta da casa, os filhos de dona Suzete. Esta era uma das mais ricas da rua e não deixava os filhos brincar com as outras crianças. Eles olhavam tristes, com vontade de estarem descalços, descabelados correndo, brincando na rua. O único aniversário comemorado com doces, refrigerantes, bolo e bolas foi na casa de dona Suzete.

Luzinete (a primeira da rua a se casar, e quando nasceu seu primeiro filho, combinou comigo e meu irmão Dino para buscar o leite diariamente na leiteria de seu Moderato. Para isso receberíamos uns trocados.) e Luzineide (dengosa, mimada, bonitinha, tinha longos cabelos sempre em tranças), seus pais se tratavam carinhosamente de Moamô (meu amor), sendo motivo de riso entre as mulheres.  Dona Rosa e seu Rubinho tinham uma casa cheia de filhos, sendo a maioria mulheres e apenas dois homens: Sonia, Regina, Lourdes, Josenita, Margarida (disparada, a mais bonita moça da rua, foi eleita Rainha das Rosas ou Rainha dos Comerciários), Queu, Graça, Zélia, Nil e Beto. Na casa verde ao lado, Zete, morena bonita, corpo violão, era rapariga de um rico fazendeiro, que aparecia sempre à tarde, causando sussurros entre as mulheres a alimentando a libido dos meninos. Ao lado, dona Chiquinha (varria a casa e encostava o lixo no canto e “amanhã eu pego”, mas no dia seguinte fazia a mesma coisa e o monte de lixo só crescia.) Seus filhos eram Pinto, Jesus, Francisca e Cícera.  A velha Rita, com todas características de bruxa, metia medo, ficava acocorada junto à porta da casa ao lado, pitando seu cachimbo, cuspindo e não dava conversa a ninguém, nem mesmo à nora Vitorina, costureira de mão cheia sempre sorridente, falante, cabelos pretíssimos. O melhor dessa casa era a quantidade de galos de briga do seu Egídio no quintal e uma rede que fazia nossa alegria. Seu Egídio era guarda da peste, caçador e líder do bloco de carnaval “Caçadores da Selva em Folia”. Dona Vitorina adotou Paulino e trouxe Marli, uma garota da roça para morar com ela. Estávamos brincando e Marli passava com dinheiro apertado na mão, falando repetidamente para não esquecer: “cinco mil reis de pão, cinco mil reis de pão”. Visto isso, algum dos meninos, devagar, sorrateiramente chegava atrás da Marli e dava um grito bem alto. Marli se assustava, se esquecia do que ia comprar e voltava correndo, chorando para casa. Depois, a casa de seu Ioiô Magro e dona Valdívia. Ele tinha semiparalisia, sentia dores horríveis, e em tempos de crise, gritava dia e noite, mas mesmo com os problemas de saúde, aplicava injeções e cortava o cabelo dos meninos da rua. Seus filhos eram Zálvia, Ainê, Zildinê, Dudu, Dadai, Bina (com cabelos negros, rosto redondo, rosado, emoldurados por belos olhos verdes, era a mais bonita das meninas da rua, mas também a mais chorona, principalmente quando ouvia dizer que o mundo ia acabar), Diran (goleiro do time da rua, engolia todos os chutes até descobrir que era completamente míope) e Juanita, filha de criação, e a mais desbocada da casa. Distribuía palavrões contra tudo e todos. Ao lado, uma casa pequena, comprida foi habitada por Vicente e Otávia, depois por Marfisa e Edson, tendo sido a casa que mais teve reza, missa, rosário, terços etc, nunca Santa Rita foi tão louvada quanto naquela casa. Depois, na mesma casa, veio dona Mariquinha, viúva, sempre com uma roupa preta que cobria braços e só deixava o tornozelo à vista. Fala mansa, vivia com as netas Auri, Lúcia e Eliene, a mais catarrenta das meninas da rua. Casa de dona Nininha e seu Alfredo Soldado, meus pais e de meus irmãos Nicinha, Eni, Dino (Vivi), Delva, Nevilda, Carlinhos e Núbia, mas que também  abrigou por tempos o tio Dedé e o primo João, mecânico de mão cheia e de engraçadas histórias. João infernizava Eni por causa das marcas de varíola chamando-a de “bixiguenta”, mas essa doença o pegou também, deixando-o mais marcado que a prima. Depois a casa de Sá Nô e seu Salu e seus filhos, Gildete, Nina, Zito, Jonas, Zé Baleia, Valtinho, Indoze (disputava com Margarida o título da moça mais bonita da rua), Gilton, Jolanda, Jacira, Julieta, Jailsa, Geraldo e Gildásio (chupava dedo até quando jogava bola), e os netos Jolandinho, Gilmar (homenagem ao goleiro campeão mundial de 1958), Ubirajara, Soraildes, Soraia, Alix, Elmo e Jeff. Uma das características dessa família era que a maioria dos filhos e genros eram camioneiros. Por isso, sempre havia um caminhão parado na porta, para alegria da meninada que subia e descia da carroceria o tempo todo. Mas a maior alegria era quando a lona do caminhão era aberta na rua e depois dobrada com ajuda de todos. Um dos filhos era motorista de ônibus e certo dia o estacionou na porta da casa e foi almoçar. Gildásio, o irmão mais novo, entrou no veículo com muitos outros meninos. Travou a porta do ônibus e não conseguia abri-la. Neozinho Doido ajudou os meninos a saírem pela janela. E Gildásio levou mais uma das suas memoráveis surras. E por falar em surra, quase todas as casas tinham uma palmatória que era muito utilizada. Eu e meu irmão Dino jogamos a palmatória de nossa casa no telhado. Mas não adiantou porque muitas vezes minha mãe pedia emprestado a da vizinha.

Na casa próxima moravam Luiz Carlos e Luiz Henrique. A mãe era rapariga e os garotos sempre fugiam de casa, passando vários dias fora de casa. Essa fuga era sonho de consumo dos meninos, pois não tinha dever de casa, escola e tudo cheirava a liberdade. A mãe chorava e era consolada pelas mulheres da rua, esquecendo o “passo mal dado”. Nesse instante, a solidariedade era o instinto de mãe. A casa ao lado vivia mais fechada que alugada. Uma meia-água era a casa de Osvaldo, mulato de olhos azuis, bom de bola, mas nem sempre livre para brincar, pois ajudava os pais em trabalhos braçais. Duas casas depois,  dona Lourdes do Leite e seus filhos: Mazinho, Toin, Dinda, Beto, Lia e Loura.

E a venda do seu Zeca. Ah, seu Zeca, quando a gente queria umas balas, levava folhas da figueira da casa de Sá Nô para colocar em infusão na cachaça. Do outro lado da rua, a venda de Bai. Existiam muitas lendas sobre ele. Diziam que Bai descascava as bananas, escarrava nelas, colava as cascas e as colocava para vender. Tinha parte com o capeta. Tinha sacos de dinheiro enterrado na venda. E na quaresma virava lobisomem. Metia medo e fascínio na meninada da rua. Para mostrar quem era corajoso, tinha-se que ir até à venda e comprar alguma coisa. Bai vivia muito doente. Vivia só. Quando morreu, foi um auê. E a fortuna, para quem ia ficar? Mas apareceu uma filha e vendeu a venda para seu Aristides. Não tinha fortuna nenhuma, a não ser uma vida só, envolvida na sua solidão, segredo e silêncio. Manoel Messias, Maria das Graças e Maria de Fátima eram filhas de dona Eurides, participavam de todas as brincadeiras, assim como os primos encapetados João e Messias. Os casais sem filhos eram como se não existissem. Dona Nola era viúva, mãe de Gisleine, Gisleide, Beto, Zé Macaco (o mais rápido em subidas nas árvores da chácara), Eduardo e mais uns três miúdos chorões. Enedina, moça velha, era noiva há muitos anos do ex-marido de Alice, filha de tia Rita. Falava que seu casamento seria na catedral e que todos iriam a pé para a cerimônia. Se houve casamento, até hoje não sei. Morava com duas outras moças velhas. Ao lado, dona Nenzinha e Filó Farias (rabugento que só ele), dono de muitas casas na rua, infernizava os filhos Nice e Hamilton para estudar. Mas para o filho caçula, Alberto, não havia essa cobrança. Seus sobrinhos, Santo (nunca soube seu nome verdadeiro) e Felinto não brincavam na rua porque tinham uma barraca de miudezas na feira, assim como Doza e Sinval, que se mudaram para a Rua da Barragem e nunca voltaram à Rua dos Pratos. E ainda havia um caboclinho espevitado chamado Deusdete.

Um cheiro de pastel, de quibe e esfiha dominava a casa de dona Aurinha e seu Benjamim. Ah, que cheiro! Era influência árabe trazida pelo patriarca do Líbano. E o rádio estava sempre ligado. Aidil, Terezinha, Jamile, Janete e Fernando eram seus filhos. Fernando era pai de Zezé (a terrível), Jorge, Virginia, Bete, Fernandinho, Marcelo, Marcos e Adriana, todos eram parceiros de brincadeiras. Jorge, brincando de fazer cigarro, queimou o rosto e ficou marcado para sempre. E na meia-água de chão batido moravam seu José e a filha Isaura. Filho de escravos, seu José contava histórias da escravidão. Isaura não gostava. Mas para mim, seu José tinha alguma coisa de São José. Talvez a barba branca, a pureza que irradiava ou o conhecimento das plantas medicinais que tinha no seu quintal. Muitas vezes fui lá buscar folhas de laranja-da-terra a pedido de minha mãe, e pacientemente, como se pedisse licença à árvore, seu José colhia as plantas. Era praxe todos os meninos pedirem bênção àquele preto velho tão iluminado.

E na casa da chácara viviam dona Rita, seu José e o filho Adão, que era o mais danado da rua. Seu José morreu cedo, nasceu uma planta em sua sepultura e logo se transformou em uma enorme árvore. Sua viúva apareceu grávida alguns meses depois e enviou Adão para uma instituição de menores em Salvador.

Muitas moças já trabalhavam no comércio, muitas crianças, muitas brincadeiras, muitas cantigas de roda. A maioria das crianças estudava na Escola Barão de Macaúbas. Outra parte estudava na Escola Anísio Teixeira. À noite, as crianças brincavam, as mães conversavam nas calçadas. Meninos da Rua do Cici compareciam para as brincadeiras. Muitas vezes Sá Nô contava histórias mal assombradas. O medo tomava conta. Outras vezes mostrava no céu o Cruzeiro do Sul, as Três Marias, o Caminho de São Tiago, a Cova de Adão, mas não podia apontar as estrelas com o dedo senão nasceria verrugas. As moças cantavam cantigas de roda jogando versos: “Ó que noite tão bonita, ó que céu tão estrelado, quem me dera estar agora, onde está meu namorado”, enquanto os meninos corriam descabelados brincando de pega ladrão. Quando se recolhiam para dormir, sujos, eram obrigados a lavar os pés.

Certa noite, um homem baixo, de chapéu, passou correndo em direção à Rua do Cemitério, segurando alguma coisa embaixo da camisa. Dava para perceber que era uma arma. Em seguida um Jeep, com três ocupantes, parou e perguntou se o sujeito passara por ali, pois ele acabara de matar um figurão na Praça Barão do Rio Branco. A meninada se assanhou querendo ir ver o defunto, mas as mães obrigaram todos a encerrar as brincadeiras e entrar em suas respectivas casas. Decepção geral, mas felicidade porque no dia seguinte haveria um grande enterro e isso era motivo de euforia, pois se o morto era rico, o enterro tinha tudo de ser um grande evento, afinal o prestígio do morto era medido pela quantidade de carros acompanhando o caixão. E isso era uma festa para aquela meninada. A rua era passagem para muita gente que vinha do Centro da cidade. Seu Álvaro, simpático e educado, sempre com um branquíssimo terno branco de linho, muito bem engomado, seguia em direção à sua casa, mas antes passava na casa da outra na Rua do Triunfo, com quem teve as filhas que a esposa não pode ter. Mas também passava por ali, altivo, impertinente e de cara fechada, o jornalista Alarico. Quando isso acontecia, dona Valdívia mandava seus filhos entrar em casa, fechava porta e janelas no momento em que ele cruzava em frente à casa, tendo em vista o jornalista ter matado um seu irmão anos atrás. Os meninos olhavam, silenciosos, o matador passar, afinal ali estava passando o cara que empunhou uma arma e matou outro. Era a personificação real de um daqueles homens maus dos filmes da matinê de domingo: um bandido.

Perto de meio dia, Honorino do cartório seguia em direção à sua casa na Travessa do Alecrim e sempre trazia consigo um presente, uma fruta ou um buquê de flores para sua esposa, que ficava em casa sempre de robe de chambre colorido, elegante, às vezes com turbante na cabeça combinando com a roupa. Não faz nada em casa, por isso anda tão arrumada – diziam as mulheres, com uma velada inveja do marido romântico, pois seus maridos jamais tinham feito tais gentilezas que Honorino fazia.

E aos domingos? Ah, o melhor dia da semana. Pela manhã meninos saíam de casa para engraxar sapatos na redondeza. E, no sábado, todos desciam para a feira, orgulhosos com suas galiotas para carregar feira da mãe e de outras mulheres, ganhando um bom dinheirinho. Ter galiota era prestígio, todos tinham uma para pequenos serviços e buscar pó de serra e pedaços de madeira na Serraria Salles. Cheiro de galinha, de lombo, de carne de porco ou de carneiro estava no ar. Pratos eram trocados, elogiados. Todas as casas tinham rádios ligados na Rádio Clube, no Programa de Auditório com os valores da terra. Os meninos, eufóricos, de banho tomado, saíam em disparada logo após o almoço, com montes de gibis nos braços, para o Cine Conquista ou Cine Glória (o Cine Ritz era ignorado solenemente pois só exibia filme de amor, filme de arte). O filme tinha que ser de espada ou de cowboy (mas desconfiavam de filmes estrelados por Victor Mature porque esse ator era mole, frouxo, fracote, calça-frouxa, sempre morria no final). Os gibis eram trocados ou vendidos, e os meninos voltavam no domingo seguinte para a mesma coisa. Às vezes tinham que levar os irmãos pequenos, mas isso não era empecilho para o divertimento.

Os noivos Luzinete e Moura, após o almoço de domingo, estendiam romanticamente um lençol no quintal, embaixo do abacateiro, para namorarem. Mas Dalva, Zélia e Luzineide ficavam à espreita e, atrás do muro do vizinho, jogavam pedras, atrapalhando o namoro. Nunca os noivos descobriram os autores. Mas a culpa era jogada nos moleques da rua. Após a matinê, o picolé do bar Lindóia era obrigatório. Assim como era obrigatória a brincadeira de pega-ladrão no Jardim das Borboletas, enquanto as mães assistiam à missa. Os meninos brincavam, as moças desfilavam, namoradeiras e exibidas para os rapazes na praça em frente à igreja. Depois da missa, volta para casa em disparada, pegando carreira

Era uma rua com muitos sons e de alguns agregados que prestavam algum tipo de serviço em troca de um prato de comida: Vitória e o filho Valdo, Cumpadi, Maria Garrancho, Pisa na Fulô, Bem-ti-vi, Néu Barrão e Maria Doida. Outro que aparecia de vez em quando era o Velho do Cabelão. Tarde da noite, embaixo do fino cobertor, eu escutava o som dos caminhões subindo a serra do Periperi. Esse som me acompanha até hoje. Algumas vezes escuto o som dos ônibus que passam na Rua São Francisco Xavier, bairro da Tijuca no Rio de Janeiro, ao lado de minha casa e na modorra do meu sono, fico sem saber em que tempo/espaço estou, achando que estou ouvindo o som que vinha daquela serra que vive em mim. Mas à noite também escutava extasiado som de sax ou de trompete que vinha do Magassapo. Era, para mim, o som da boite, o som da noite, o som da boemia, o som do mistério, o som do pecado. Descobri anos depois que aquele som era jazz, daí a minha paixão por Chet Baker, Bill Evans e Moacir Santos. A batida do sino da catedral era ouvida de hora em hora, assim como as chamadas para a missa ou quando os sinos dobravam em homenagem a algum morto rico ou ilustre. Pobre não tinha essa honraria. Tinha também o serviço de alto-falante CPL (Conquista Publicidade Ltda.), com anúncios do comércio e muita música de Osvaldo Fael, Waldick Soriano e Nubia Lafayete.

Foram anos difíceis naquela rua. Dificuldades financeiras, materiais, mas também de muita solidariedade, amizade, de companheirismo. E também anos felizes. A maioria dos padrinhos e madrinhas dos filhos de dona Nininha eram nossos vizinhos. Fomos crianças na profunda acepção da palavra. Brincamos sem brinquedos caros ou mesmo sem brinquedos. A criatividade e a simplicidade das atividades foram a tônica da criançada. As meninas, após o banho à tarde, colhiam boninas junto à casa de dona Isaura. As mocinhas varriam a rua em frente às suas casas. Os meninos corriam, jogavam bola, brigavam e muita guerra de caroço de mamona. O jogo era com bola de meia ou bola de mangaba. Certo dia o Jeep de aluguel do seu Juca passou por cima da bola de mangaba. Maldito seu Juca! A trave do gol era com os chinelos, colocados com cuidado para não ficarem virados porque se assim ficassem a mãe morreria. Muitos arranhões, pedaços de unha, cicatrizes, pedaços de pele dos dedões do pé se misturaram com a terra daquela rua. Crescemos, seguimos destinos diversos, aprendemos a andar e viver em muitas ruas. A Rua dos Pratos/Prates começa na direção do nascer do sol, atrás da catedral de Nossa Senhora das Vitórias, e termina em direção ao pôr do sol, por trás de cemitério. E muitas saudades, aprendizados e exemplo de vida tem origem da Rua dos Pratos… Olho no Google Maps. A rua está diferente, mas algumas casas estão lá do mesmo jeito. A chácara não mais existe. A maior árvore, a grande nogueira foi derrubada. Onde estão aquelas pessoas? Aqueles meninos e meninas? Estão espalhados pelo mundo, por outras ruas, por outras memórias. Os pais já partiram. Alguns filhos também partiram. Muitos destinos, muitos sonhos realizados. Muitos sonhos não realizados. Muitos caminhos traçados e mal traçados. Mas dentro de cada um tem uma rua. Rua de verdade, de recordação. Ou alguns são reféns da lembrança. Uma lenda espanhola diz que encontrará dragões. Lutas com dragões deixaram feridas. Mas as feridas cicatrizam. Ficam apenas marcas e aprendizados. Toda rua tem seu curso. É por onde temos que caminhar, reconhecer erros, acertos e seguir adiante. Dentro de mim, aquela rua está intacta, inteira, para sempre!


7 comentários sobre “Rua dos Pratos revisitada

  1. Meu deus que viagem ao passado que ficara tão próximo em minutos de uma maravilhosa viagem. João brazil ( ou João grilo filho de dona Inez. Meu irmão se casou com loura de dona Lurdes do leite. ) que saudade bateu 🙏🙌😃😃😃😃😃😃😃😃😃

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  2. Misericórdia! Revivi tantas coisas nesse texto, me sinto feliz em ter lido até o final, nasci na rua dos Pratos/Prates, no 110, Sou neto de Ioiô e Valdivia, Filho de Albina (Bina), há tantas coisas me fez voltar ao passado, mas como me lembrar de Culpado e vovó mariquinha, MEU DEUS QTAS SAUDADES, muitíssimo obrigado o autor deste memorável texto!!! Muitas abraços de gratidão, sim e vou ler novamente este texto para toda a minha família!

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  3. Saudades imensas do Sr ANTONIO BIRILA, Grande mestre que tive o prazer de conhecer nos anos 70 (Ao mudar para a travessa do Alicrim). Eu, Pedrinho,Valdeilton, Piquetti, Adalberto, Erli, Sergao e tantos outros trabalhavamos ajudando a fazer Selas . No sabado, a tarde, ele sentado na sua poltrona e fumando o seu cigarro Continental nos pagava. O sabado era so farra com todos com dinheiro no bolso. Um tapa em quem condena o trabalho infantil (com seriedade), em nada nos atrapalhou na vida adulta muito pelo contrario nos enriqueceu.

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  4. Lindo demais. Um passeio pelo tempo. Lembro bem do Beto, o desenhista e pintor. Eu ia à sua casa, e lá aprendia com ele a desenhar e pintar quadros renascentista. Isso por volta de 1976. Fabuloso.

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  5. Grande amigo e contemporâneo Valter que memória prodigiosa, trazendo para atualidade as doces e divertidas histórias de um tempo que não volta mais, porém continua vivo em nossas saudosas lembranças. Parabéns nobre amigo.

    Um grande e fraterno abraço do seu amigo Vilson

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