Preguiça ou Pressa

O blog apresenta hoje a segunda crônica de André Bonelli. O mestre de cerimônia é Antônio Carlos Rodrigues, amigo de infância do cronista:

Advogado de longa carreira, professor universitário, escritor de livros técnicos de Direito, André Bonelli resolve abrir o baú e nos presentear com pérolas da sua vivência no Sertão Baiano, sempre com a presença dos automóveis e de um momento familiar e histórico marcante. Seu estilo é quase “cinematográfico“, que nos faz sentir até o cheiro das floradas de aroeiras, baraúnas e demais árvores da nossa caatinga.

Aproveitem! Saudações Caatingueiras, AC Rodrigues

Caculé

Nada parece ter limite para o jovem. Aquilo que tem riscos pra todo mundo, pra ele é como se não os tivesse. O que traz medo e incerteza para os comuns dos mortais é, ou aparenta ser, pra ele algo recheado de previsibilidade. Eram assim minhas viagens de férias da universidade. Já com a carteira de motorista no bolso, me sentia dono do mundo, nada me detinha a não ser o último dia de aula. Fechado o caderno, se abria um universo ilimitado de possibilidades que as férias proporcionavam.

Já nos derradeiros dias de aulas, naqueles em que você não aguenta mais olhar pra cara do professor, passava a programar a viagem com os amigos, caronas de sempre, porque Caculé nos esperava com suas festas, meninas sedutoras — nossa testosterona achava quase todas sedutoras, fossem ou não… — e aí desaguavam as chances de nos mostrar, de aparecer. Nessa fase da vida o que mais se quer é fazer de conta que se tem tudo que quer e que sobre tudo se sabe.

Os riscos de que falo vinham daquelas viagens feitas em alta velocidade, desembestadamente, num Fusquinha 1300, que foi de meu irmão Deel e que nosso pai me presenteou como prêmio por ter passado no concorrido vestibular de Direito da Universidade Federal da Bahia. Alta velocidade? Não, lógico que não. Isso é mais o jeito de falar ou o jeito de guiar. O Fusca tinha 46 hp segundo os critérios da época, mas esta potência nos dias de hoje corresponde a insignificantes 38 cavalos, conforme os atuais padrões de medição. Em outras palavras, isto equivale a menos da metade da potência de um carro popular na atualidade. Imagine só…

Embora a velocidade não fosse tanta, eu o dirigia intrepidamente como se não houvessem curvas nem lombadas nem caminhões a ultrapassar, isto sem falar no rali em que eu transformava os duzentos e cinquenta quilômetros de estradas de terra que faziam parte do trajeto, a partir de Vitória da Conquista, passando por Brumado, até Caculé. Esse modo de dirigir sintetizava um misto de ansiedade, exibicionismo e de extrema técnica, tudo numa condução absolutamente imprudente. Que loucura! É por isso que eu digo que o que traz medo e incerteza para os comuns dos mortais é ou aparenta ser para o jovem algo recheado de segurança e previsibilidade. E emoção, é claro!

As reuniões que antecediam as viagens, geralmente aconteciam em algum boteco e eram feitas basicamente pra dividir a gasolina. Uma dessas viagens foi para os festejos de São João. Combinamos a divisão dos gastos com Newton de Kelé, Elias Bochecha, João Bubu e George Lapa, o metódico. Grandes amigos, praticamente de infância. Galera do bem!

Newton, filho de seu Clemente Vieira, vulgo Kelé do Bar, era um cara interessante. Adorava um papo-cabeça, cheirando a filosofia de almanaque, principalmente no campo da política, inclusive na área da política internacional. Algo tipo as últimas investidas de Nixon, com a interlocução de Kissinger, sobre os problemas do Vietnam do líder comunista Pham Van Dong. Daquilo ele falava com uma propriedade impressionante, como quem soubesse mesmo do que estava falando. Franzia as sobrancelhas, cerrava os lábios, ficava circunspecto e, entonando a voz, se danava a elucubrar. Punha o copo, com meia cerveja já pouco gelada, em cima da mesa, olhava distante e fazia comentários sobre os quais estava convencido que eram fundamentais para a humanidade. Ficava aborrecido se algum de nós demonstrasse desconfiança ou descaso sobre a seriedade de seus conhecimentos e projeções. Grande figura humana!

Se alguém fizer uma consulta ao dicionário vai ver que faroleiro também tem o significado de ostentador; aquele que diz ser o que não é. Elias, apelidado de bochecha pela protuberância das maçãs do rosto, sempre estava à frente do seu tempo, pelo menos era assim que ele pensava. Achava que era o mais experiente, o mais sábio e, principalmente, o que mais agradava às mulheres. Nenhum de nós e ninguém mais fazia o que ele sabia fazer, nem conhecia do que ele dizia conhecer. Era ô cara! Se alguém dominasse bem um assunto qualquer seria, no máximo, próximo do que ele já sabia há tempos. Alto, alourado, destoava do jeito e aparência nordestina de nós outros e, talvez por isso, imaginava que as mulheres o assediavam. Mas na prática as coisas não aconteciam bem assim…

O verdadeiro significado do apelido Bubu é impublicável, mas Joãozinho convivia pacificamente com essa alcunha. Talvez até sentisse orgulho dela. Ele é uma dessas pessoas de convivência fácil, amistosa. Bem-humorado, gostava de música e tocava na Banda de Chico Amaral, uma fanfarra que acordava a cidade nas alvoradas musicais que tinham início lá pelas 5 horas da manhã, ou antes. Era muito lindo ouvir aquele som melodioso que ecoava repicando nas paredes das casas de ruas apertadas e de calçamento de pedras desalinhadas. Também era bom aluno de matemática e encarava com altivez as perguntas e equações desconcertantes da rigorosa professora Iracema, temida docente do Colégio Norberto Fernandes.

George. Ah! Esse era um grande companheiro. Você conhece alguém metódico?! Pronto, este é George, quinto integrante do grupo dessa viagem junina. Meio machista e de poucas reservas quanto às intimidades de seus namoros, não guardava muita simpatia com algumas causas feministas. Minucioso em seus afazeres, detalhistas nos propósitos, era um especialista em mecânica de automóveis. Aliás, em mecânica de tudo. De motorzinho de liquidificador, passando por compressor de geladeira até o solenoide de diferencial, George habitava com competência. Regulava uma dupla carburação como ninguém. Era um alívio viajar com ele, principalmente numa época em que carros quebravam a cada esquina. Mas não posso me esquecer: era alguém de um senso de solidariedade incomparável.

Da viagem de ida e da curta estada não há muito que destacar, não. O problema desta viagem estava no retorno a Salvador. Duas estradas ligavam Caculé a Vitória da Conquista, de onde pegávamos a BR 116 até Feira de Santana e daí para Salvador, pela conhecida 324. A primeira alternativa nos conduzia a Conquista através de Brumado; a outra era ir por Condeúba.

Optamos por esta última, que tinha um trânsito pouco intenso de caminhões e ônibus. Para falar a verdade, era praticamente deserta, já que nos anos 70 ninguém poderia falar de trânsito intenso nas estradas baianas daquelas bandas do Sertão.

João Bubu ficou em Caculé e em seu lugar passou a ocupar o concorrido Fusca, Pepito. Ainda adolescente, meu irmão precisava vir a Salvador para refazer exame de vistas. Pito foi, dentre todos os irmãos, o que usou óculos mais precocemente. Como eu, adorava ler e podia-lhe faltar tudo nessa vida, mas sem óculos não ficava. Lia atentamente qualquer texto que se relacionava com biologia, zoologia e aeronáutica. Transitava ainda pela filosofia do evolucionismo de Darwin. Mas também precisava de boas lentes para acompanhar o minudente transitar das formigas, cupins, grilos e congêneres pelo quintal de nossa casa, número 06 da Arthur Castilho.

Saímos exauridos da festa de São João, no Clube Social, já ao amanhecer, e precisávamos chegar a Salvador ainda no mesmo dia do dia 24 porque, embora em férias escolares, no dia seguinte todos nós já trabalhávamos e tínhamos nossos compromissos no emprego. Havia ainda a consulta ao oftalmologista, já previamente marcada. O único jeito seria ir pra nossas casas, dormir até o meio-dia e em seguida seguir viagem. É claro que dona Célia, dona Maria, dona Nena e dona Marialda, todas mães desse bando de irresponsáveis, jamais aprovaram tal atitude. Mas era inevitável e assim foi feito porque tínhamos pressa.

Almoçamos, qualquer coisa, apressadamente, e isto me despertou, o que era fundamental porque o motorista dessa empreitada era eu, não por obrigação, mas por imenso prazer. Dirigir, pra mim, era e é um ato de relaxamento; um hobby. Tirando Pepito e Elias, que estavam lá em casa, dobrei a esquina da Ladeira de Newton — uma travessa entre a antiga Praça do Mercado, hoje, do Fórum, e a Rua Ruy Barbosa —, dali retornei pela frente do Norberto, peguei George e fui completando o Fusquinha com ressaqueados sonolentos e suas ínfimas bagagens de poucas (e baratas) roupas.

Rádio Zilomag OM-OC para carros – anos 70

O Belo Fusca 1300 (existe Fusca que não seja belo?) era bege alabastro com bancos marrons de napa, em tom café com leite, e estava sempre bem lavado, polido e com a mecânica em dia. Tinha um (im)potente rádio Zilomag AM/OC, de onde escutávamos a Rádio Mundial ou mais eventualmente a Globo, esta só nas horas de futebol. Nos primeiros momentos da viagem não se escutava uma palavra. O mau-humor disputava espaço com o sono em cada um de nós, enquanto o carro deixava um véu de poeira avermelhada ao longo daquela esburacada vereda que insistíamos em apelidar de estrada. Que jeito…?

Esse era um tempo em que começava a chegar ao Brasil os hoje conhecidos pneus radiais, que quase não furam e são muito duráveis, mas é evidente que aquele Fusquinha jamais os conheceu. Se contentava com os esquecidos e inseguros pneus diagonais, que sofriam de profunda alergia. Alergia a espinhos, pregos, meios-fios e prolongada quilometragem. O tratamento? Idas quase que mensais aos borracheiros. A depender do tipo de uso, esse prazo poderia ser drasticamente diminuído. Não saber manusear uma chave de roda e um macaco soava como não saber dirigir. Os carros quebravam tanto que ser um bom piloto significava conhecer pelo menos os rudimentos da mecânica.

Não deu outra. Logo que passamos pela quieta Condeúba, ainda com pequenos montes de cinzas e alguns tições enfumaçados nas ruas, senti o carro perder aderência, puxando para a esquerda. Fui diminuindo a velocidade e parei. Diagnóstico: o pneu traseiro esquerdo furado. Nos entreolhamos todos, como a perguntar quem seria o herói a sair da sua zona de conforto, aquela que mesclava mal humor e sono, agora já embalados pelo enjoo de uma ressaca indisfarçável. O Fusca nos esperava indignado num acostamento inventado, aguardando que alguém tomasse a iniciativa de restaurar sua plena integridade física, lhe colocando um pneu digno.

Não, eu não poderia deixar de usar minha autoridade de dono do carro, pensei. Mas era uma autoridade mísera, dessas de chefe de torcida e, pois, de nada me valeu. Consensamos, então, o seguinte: cada um iria realizar uma atividade na troca de pneu. Um manuseia o macaco pra levantar o carro; outro retira a calota e folga as porcas; outro retira o pneu furado de dentro do para-lama; mais um guarda o pneu vazio e fecha o capuz e, finalmente, o quinto coloca o estepe/socorro, aperta as porcas e repõe a calota semiesférica que só o Volkswagen tinha. Ao certo não sei exatamente quem fez o quê e desconfio que nenhum de nós lembre.

Até então eu nunca tinha visto tantos preguiçosos juntos, me incluindo no meio deles, claro. Newton, filosofando contra a lógica, se rebelou e disse que aquilo não era demonstração de preguiça, mas apenas um democrático trabalho de equipe. Trocados os pneus, entramos no carro com ar orgulhoso de quem acabara de fazer algo benemerente e seguimos em frente para devorar as centenas e centenas de quilômetros que ainda nos aguardavam por toda tarde e noite.

Viajávamos com pressa, o destino era longe, quando, surpreendentemente, num susto enorme e não acreditando no que víamos, nos deparamos com o pneu traseiro recém-colocado ultrapassando em alta velocidade o Fusca!!

Era uma cena inusitada, algo inacreditável. Aquele pneu não dava a mínima para o carro a quem pertencia. Saiu correndo em disparada e nem deu aviso para onde ia! Fugia do Fusca como o crente do pecador.

Enquanto isso, todos atônitos e tensos, o problema agora era outro: como controlar um carro correndo numa estrada de terra, em apenas três rodas? Seguramente esta foi uma experiência que jamais esqueci. Aquele mau-humor foi-se instantaneamente embora e levou com ele o sono, a preguiça e a ressaca, tudo junto. No lugar veio o pânico, afoito! O Fusca já era instável por natureza e segurá-lo na mão me parecia impossível, então. Fui ziguezagueando entre o barranco e a ribanceira que ladeavam a estrada até que, reduzindo as marchas e sem praticamente usar os freios, consegui conter a fúria daquele monstro de trinta e oito cavalos e cinco burros. Tudo isso aconteceu em fração de segundos.

Estávamos todos pálidos, pálidos como o bege alabastro do Fusca. Todos nós nos entreolhávamos com acusações mútuas e recíprocas em relação ao responsável pelo quase trágico acidente. Pepito disse que pensou que foi Newton que ficou de apertar as porcas da roda. Newton dizia que não foi ele e que achava que fosse João, o responsável pela colocação da roda no tambor. Para João, quem passaria a chave de roda era Elias que, por sua vez, negava ter sido dele essa função.

Eu e George nada podíamos saber sobre o autor de tamanho descalabro porque, enquanto o pneu de socorro era colocado, estávamos debruçados no porta-malas, reconectando o fio do único alto falante do Zilomag, que tinha se soltado na trepidação.

Bem, agora não era mais hora de chorar sobre o leite derramado. Depois do acontecido, olhei à minha volta tentando descobrir onde estaria o pneu que se embrenhou mato adentro. Eu e Newton fomos encontrá-lo algumas dezenas de metros depois do local onde o carro parou. Estava descansando ao lado de uma cerca de quiabento, mas não chegou a tocar nela. O quiabento é uma árvore da família das cactáceas, naturalmente retomada de espinhos e muito usada como cerca divisória de pastos e propriedades rurais no Sertão do sudoeste baiano. Mas o pneu estava ali tranquilo, se recuperando da carreira que deu, na sombra refrescante da moita.

A questão agora era como fixá-lo no local de origem porque os parafusos se perderam todos e, nessas circunstâncias, era chegada a hora de George mostrar porque era considerado o Professor Pardal do grupo. Metódico e entendedor de mecânica, coçou a barba num só sentido, como costumava fazer quando queria pousar de autoridade e logo sentenciou:

— Basta que a gente tire um parafuso de cada uma das rodas e coloque provisoriamente na roda que se soltou e o problema tá resolvido.

Era uma solução que não exigia nenhum conhecimento técnico específico ou raciocínio mais aprofundado, mas… dito e feito, seguimos viagem até Piripá, onde resolvemos a pendência em definitivo.

André Bonelli

a-bonelli@uol.com.br


6 comentários sobre “Preguiça ou Pressa

  1. Eu conheci essa turma. Eu morava em Caetité, nessa época, e eles em Caculé. Há anos moro em São Paulo, mas tenho lembranças boas desse tempo tão bem descrito nessa aventura no Fusca. Parabéns pelo texto.

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  2. Bonelli, o cronista advogado nos presenteou (se estamos na semana do Natal, é presente) com mais um relato brasileiro onde a cenografia é o sertão, o bicho corredor é um pneu desembestado e o outro bicho que mete medo é a porra do quiabento. Ah, quiabento que me furou todo numa queda de cima do muro de tijolão e ainda tenho a marca no meu pé. A testosterona que nos mostrou belas mulheres broxou em cima de três rodas. Inspiração chapliniana? Talvez. O fusca foi, ou é, o primeiro amor de muitos brasileiros. Alguns os vê numa beleza ímpar. Mas não aconteceu comigo. Seu Alfredo Soldado, meu pai, dizia que eu era “do contra, espírito de porco, anarquista” porque sempre discordava ou gostava sempre ao contrário. Nunca gostei ou vi beleza no fusquinha, que foi o primeiro carro para milhares. Eu preferi o Fiat 147, o mais duro, desconfortável dos carros. Sempre tive carros desta montadora italiana. Será por causa do Fellini? Não sei. Mas a viagem empoeirada rendeu um belo road story. Acredito que ainda veremos chevete, opala, monza, santana ou uma kombi. Parabéns e repito: cara, você escreve!

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