Fernando F. Zamilute: “Meu caro Valter…”

… li os seus escritos e, mais uma vez, belos

Também excelente colaborador do blog, seja com conteúdo para postagem, seja com seus brilhantes comentários, Fernando Fernandes Zamilute (autor do livro A Casa que Mora em Mim) explica que ao receber o link da texto encaminhado por Valter Freire, no Dia do Poeta, lembrou-se de já ter lido o poema, foi conferir nos e-mails trocados e percebeu um comentário que fez sobre o assunto em outubro de 2014. O comentário é o que você lê (no título e subtítulo e a seguir):

The Beatles

Vejo a cena descrita em ambos. Meados dos anos 60, para a Cizinha; meados para final dos anos 70, para a ambientação do seu poema, muito instigante porque, em certa medida, é a própria descrição da minha chegada a Salvador, aos dezesseis anos, para estudar e trabalhar ou, mais adequadamente, trabalhar e estudar.

Morando em república estudantil a partir dos dezessete anos, ingresso à Academia aos 18, dependente de bandejão e, sem exata noção do alcance dos atos, ligado a alguma sigla partidária não-oficial que dividia o bolo de cooptados no ambiente universitário. Tempo de dureza, em muitos sentidos, mas tempo de prazer, também.

Eu vi a inteira cena mas, do meio da cena narrada, pincei o itálico de Lerfa Mu e Celacanto causa maremoto. Não me era familiar e, agora o sei, deveu-se isso ao fato de tratar-se de manifestação cultural de índole regional – o Google não desampara aos desinformados -, eclodida na cidade do Rio de Janeiro, em meados dos anos 1970. Li toda a história mas, no arrastão que foi a pesquisa, veio de cambulhada um link que me conduzia à música Celacanto e Lerfá Mu, gravada naquela década – provavelmente instigados pelas pichações que banhavam a cidade maravilhosa – pelo grupo Bendegó.

Que grata surpresa e, buscando no porão da memória, penso que já a tinha ouvido antes, nunca lhe emprestando qualquer significado outro que não o de alguma criação de bichos-grilos, moradores de Arembepe, nos idos tempos da eclosão do movimento hippie em terras baianas.

O que de fato me causou a surpresa, em realidade, foi a constatação de que esse grupo – o Bendegó & Gereba – já era do meu conhecimento por volta do ano de 1977. Estava ainda me preparando para o vestibular e uma das minhas colegas de curso era filha de um radialista em Salvador. Nessa condição, o seu pai recebia muitos discos para divulgação – já vai muito longe a prática do jabá, como se vê – e, quando eu digo muitos, entenda-o em sua ampla extensão. Eram muitos mesmo!

Certa feita fui à casa dessa colega e ela me disse: “Veja quantos lhe interessam e pode levá-los para você!”  Uma verdade quase absoluta, posto que, ao pinçar logo de início um disco dos Novos Baianos, fui advertido: “Esse aí, infelizmente, não!”.

Pus-me a coletar outros e, não me recordando de todos, listo os que me vêm à memória; Dixieland Jazz Band, um Nicóllo Pagannini do selo Deutsche Gramophone, um disco de Manolo Otero – precursor do Júlio Iglesias, falecido há pouco tempo -, um da Banda de Pau e Corda, um outro de algum festival da Record dos anos sessenta _ me lembro de Beto Bom de Bola, interpretada por Sérgio Ricardo -, um outro em que Agostinho dos Santos interpretava Manhã de Carnaval e, sem nenhuma referência, o disco Onde O Olhar Não Mira, da Banda Bendegó & Gereba.

Gostei de todos! Todos excepcionais frutos daquele meu garimpo.

O disco do Bendegó, no entanto, e muito particularmente a música que empresta nome ao LP me marcaram de forma mais especial. Tinha muito a ver com o particular momento do início do namoro com minha hoje esposa. Era o fundo musical que embalava o namoro e os primeiros estremecimentos deste. Que legal! o mundo é, definitivamente, intertextual!

Por outro lado, enquanto a Cizinha oferecia seus préstimos sexuais, ao mesmo tempo em que você servia caipirinhas e cervejas – já não era tempo de Cuba libre, não? – àqueles promitentes compradores de tais serviços, embalados, todos, por Maysa – que deve ter sido a melhor intérprete de Manhã de Carnaval – ou pelos Beatles, era eu, fedelho de calças curtas, do nosso lado da cidade, duplamente brindado pelo prazer que acompanhava a audição dos Beatles. O deleite em ouvi-los – ainda que com 6 a 7 anos – e, de lambuja, em vê-los em figurinhas que revestiam os deliciosos tutti-frutti dos chicletes Ping Pong.

É curioso mas, um homem sempre consegue – talvez por necessidade – demarcar o exato momento da primeira ocorrência para cada fenômeno.

Eu primeiro ouvi aos Beatles um pouco abaixo da casa de Dona Maricota, em frente à casa de Seu Locha, onde muito ia para brincar com o Alan. Quem ouvia à música, nessa oportunidade, era a Cristina, irmã do Alan. Ali ocorreu o meu estalo.

Depois, bem o sabemos, é isso que é, parecendo nunca ter tido início e, parecendo, mais ainda, que nunca mais vai ter fim. A magia musical manejada por aqueles alquimistas, de maneira que nunca mais deve voltar a acontecer.

Meu Filho graduou-se ano passado e, durante a cerimônia, como trilha musical da entrega do seu diploma, escolheu “Strawberry Fields Forever”. Meu Filho dista quase cinquenta anos da eclosão da Banda. É simplesmente incrível!

Eu tive a oportunidade de visitar – a trabalho -, a cidade de Liverpool, onde passei uns sete dias, no ano de 1993.

Fui aos dois espaços, num mesmo beco, onde está localizado o Cavern Club. É mágico, cara! Andar aquela cidade por ruas por onde os caras passaram, é fantástico! Muito do que transita pelo mundo, simplesmente está, ou esteve, ou estará. Os caras, em termos musicais, SÃO!

Tenho algumas fotos da viagem, perdidas em algum lugar aqui em casa. Pena que a qualidade não ficou grandes coisas.

Aproveitei a oportunidade da viagem e dei uma esticada até Sheffield, cidade natal de um outro monstro musical ao qual me curvo, o Joe Cocker. Muito legal, também.

Pergunto ao final: imaginaria a Cizinha, por acaso, que em algum instante no futuro, por obra e graça do acaso, ela se veria oferecendo seus préstimos – ou apenas se deleitando -, nessa reunião eclética entre The Beatles, Joe Cocker, Maysa, Agostinho dos Santos, Sérgio Ricardo, Manolo Otero, toda uma banda de Dixieland, e mais uma outra de Pau e Corda, Nicóllo Pagannini e Bendegó & Gereba, tendo a nós dois por voyeurs?

Onde estará a Cizinha, enfim, para nos responder?

Abraços,

Fernando F. Zamilute.”


5 comentários sobre “Fernando F. Zamilute: “Meu caro Valter…”

  1. Quero parabenizar o autor do texto, Fernando Zamilute.Muito bom. E completa bem a postagem anterior de Valter Freire.

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  2. Cizinha foi vista, poucos anos após os fatos que narrei, em uma das boites da Rua do Cavaco em Itapetinga. Cantou e encantou. Viu o antigo cliente, riu e disse tchau. Estava viçosa, bonita e feliz. Nunca mais soube dela. Mas enquanto se pensar nos Beatles eu pensarei na Cizinha.

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  3. Texto excelente que fala de uma época mais romântica de nosso país, embora o regime fosse de ditadura militar. Uma contradição que não impediu os sonhos de toda uma geração.

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