Valter e a Procissão de Nossa Senhora das Vitórias

Em 15 de agosto, Vitória da Conquista comemora o dia de Nossa Senhora das Vitórias, padroeira da cidade. A festa religiosa é celebrada desde 1809. Valterci Freire, ou simplesmente Valter, cronista colaborador do blog, fez a crônica, que você vai ler a seguir, em 15 de agosto de 1973, quando já morava no Rio de Janeiro, no bairro das Laranjeiras. Boa leitura!

Procissão de Nossa Senhora das Vitórias, em 2017. Esta e outras fotos no Blog do Anderson: https://www.blogdoanderson.com/2017/08/16/padroeira-da-cidade-procissao-nossa-senhora-das-vitorias-reune-milhares-de-fieis-em-vitoria-da-conquista/

Hoje é dia de Nossa Senhora das Vitórias,

Nossa senhora da vitória, glória, Maria, conquista,

Enfim, dia da Senhora, aquele dia em que Ela sai de casa

A caminhar e olhar a cidade. É a procissão, é a festa bonita e eterna

Da vida daquele povo, da minha gente, da minha mãe Conquista.

E essa Senhora sai muito enfeitada. E o povo, de roupa nova, a carrega nos ombros,

Junto  com o prefeito, o advogado, o padre, o frade e o bispo da capital.

Ela ri do povo, ela ri para o povo, vela o povo e o protege.

O povo, e eu. Eu sou povo. O povo é um polvo. E braços a carregam.

Eu vivi a procissão sempre onde uma gente bonita, rica, pobre e feia,

Rezando desafinadamente acompanha também a Lilita, beatas e o Padre Palmeira.

A procissão segue firme.

E a Senhora presenciou, calada, outras coisas naquela distante tarde bonita,

Em que anjinhos, homens, mulheres, analfabetos, ateus e fazendeiros,

Arrodeada de copos de leite, margaridas, rosas e cravos da outra santa, a Rita de Cássia, quando um homem apareceu correndo, vindo lá se sabe de onde, seguido de outros homens, caiu cheio de balas debaixo do andor. Procurou abrigo achou a morte. E Nossa Senhora o acolheu e o levou consigo, disse uma beata. Mas o bêbado disse que ele encontrou o caminho do céu ou do inferno, de acordo com o julgamento da santa

E a partir daquele dia a imagem de Nossa Senhora foi substituída por outra.

Bonita, mas não tanto quanto a que mora no altar da catedral.

Mas agora a multidão, a cruzada, os soldados do Tiro de Guerra, o povo das Bateias,

Das Pedrinhas, dos Campinhos, da rua do Cobertor e das ruas dos ricos pagam promessa e cantam.

E Nossa Senhora respeita e acolhe as promessas e os pedidos, inclusive daquela rapariga do Magassapo, vestida de branco, descalça, mãos postas, os longos e belos cabelos pretos, muito bonita e cheia de pecado, de segredo e de silêncio, caminha contrita na sua fé. É promessa? O que ela faz aqui, pensa a velha rica. Algumas mulheres calavam suas cantorias, mantiveram respeito, pensamentos confusos e também inveja da pecadora por sua beleza, coragem, com cabelos tão lindos, só comparados aos da santa, e por estar no centro da atenção. Ah, velada inveja! Muitos homens a conheciam mas sequer a olhavam com medo das esposas.  E ela caminhou pelas ruas, ao lado e com proteção, talvez envergonhada, mas manteve a dignidade e teve o respaldo da Mãe Nossa. Na noite daquele dia a rapariga foi muito procurada no Magassapo, mas não trabalhou.

E lá vai a “gentaiada” toda a caminho da catedral. E vivas, vivas, muitos vivas, fogos e aplausos!

E Nossa Senhora entra de costas na igreja. É pecado entrar de frente.  Por que, não sei.

E lá no altar-mor está a imagem belíssima, antiga, testemunha de um assassinato, olhando a cidade do nicho, segurando o Menino Jesus e um pequeno estandarte. A Senhora mais bonita fica no altar e a Senhora não-tão-bonita é levada às ruas. Eu, na minha meninice, não entendia porque o Menino Jesus usa uma camisa em que fica com o ombrinho de fora. Será que Nossa Senhora não via que ele podia pegar um vento e ficar doente?

Ah, Nossa Senhora das Vitórias, obrigado por ter permitido caminhar ao seu lado.

Laranjeiras, Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1973.


3 comentários sobre “Valter e a Procissão de Nossa Senhora das Vitórias

  1. Valter recebi de uma amigo seu trabalho sobre a rua dos Prates . Nasci na rua da Vitória sou filho de Júlio ele era fiscal da prefeitura meu nome é Júlio (Juju) fiquei muito feliz de fazer uma viagem aos meus tempos de criança, talvez fomos companheiro de algumas brincadeiras na rua. É o retrato de uma infância feliz, estou enviando para meu irmão Melquiades (Tida) um abraço e parabéns

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    1. Julio, obrigado pelas palavras de incentivo. A rua me deixou lembranças profundas. Outras ruas também. Até hoje sinto as pernas finas bamboleando nas pedras pé de moleque da Rua da Vitória e vejo D. Almerinda se despedindo de Seu Álvaro na janela. Vejo D. Delcina, vejo D. Lindona, vejo Zenilda e a irmã se preparando para transformar a casa em escola. Vejo o Carlinhos indo para a feira, vejo o Gildo caminhando para casa e ouço o barulho da serralheria da esquina. E também vejo Seu Juju. Abraço.

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