O Ritz e outros cinemas de Conquista

Grêmio Castro Alves e Cine Ritz
No primeiro andar, o grêmio. No auditório térreo, o Cine Ritz.
Nos cartazes é anunciada para a sessão de domingo a comédia americana Movie Crazy, um cinemaníaco, de 1932.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Movie_Crazy
Foto: http://tabernadahistoriavc.com.br/os-primeiros-cinemas-falados-de-conquista/

Valterci Freire relembra no texto a seguir, o Cine Ritz (que foi Íris e depois Poeira), os tempos áureos de Vitória da Conquista no que se refere a cinemas de rua. Tão interessante o assunto que, a partir do ótimo texto de Valter, pesquisei em outros sites e blogs e o assunto tornou-se empolgante. Ao mesmo tempo as saudades alcançaram pessoas queridas que já partiram (Bomfim Brown).

Cine Iris/Cine Ritz
Segundo Antônio Teixeira, na foto o dia da inauguração do Grêmio Castro Alves. No casarão ao lado do cinema funcionava o Hotel Jardim. A quarta casa, é a de Dona Zaza, preservada.
Anos 1940.
http://bit.ly/12ulmqY

O Ritz – por Valter Freire

Janis Joplin disse que trocaria muitos amanhãs por um ontem.  E a dona de uma das mais impressionantes vozes do século passado disse o que todos gostariam de ter. A oportunidade de um dia voltar para fazer, refazer ou sentir novamente o que sentiu ou passou.  Vi há pouco tempo uma fotografia do Cine Ritz, localizado na rua Maximiliano Fernandes, creio eu, que era o prolongamento da praça Barão do Rio Branco. No meio da praça tinha um prédio onde ficava o bar Lindóia, o bar Pinguim, o ponto de ônibus da Etmisa e no andar de cima, algumas salas de escritórios ou consultório. Do outro lado, o prédio o do Cine Ritz. Além do Cinema, funcionava também a Rádio Clube de Conquista. O Cinema não era o “Cinema elite da cidade” que nem o Cine Glória mas tinha seu público cativo. A bilheteria ficava à esquerda da entrada, separada por umas grades douradas da pequena sala de espera, onde ficavam os cartazes dos filmes a serem programados. Não era luxuoso, também não era um “poeira”, mas tinha a melhor programação de filmes da cidade. A programação não agradava muito aos meninos, pois a maioria dos filmes exibidos eram os que hoje chamamos cults ou, na época, filmes de arte. O Cinejornal que exibia antes dos filmes era da Art Films e se chamava “O que vai pelo mundo”. Por ser de distribuidora francesa, sempre tinha reportagem com o presidente Charles de Gaulle.  Eu, na minha meninice, ficava impressionado com o jornal, pois a filmagem era do globo terrestre, tendo perto uma antena de onde saíam os letreiros, imaginando como teriam feito a filmagem fora do planeta.  Na tela do Ritz, Brigite Bardot apareceu nua em “E Deus Criou a Mulher”, “Vida Privada” enlouquecendo a juventude com sua beleza e sensualidade. Eu e colegas “filávamos” aulas da Escola Normal para vê-la e ter sonhos pra lá de libidinosos.  Muitos filmes eram impróprios para menores de 18 anos, mas sempre se dava um jeito para ver esses filmes.  Nesse Cinema vi “Acossado”, meu primeiro Godard. Meu primeiro Fellini, “Os Boas Vidas” também vi nessa sala, e aí aprendi a amar a sétima arte. Todos filmes da nouvelle vague foram exibidos lá. Lembro-me dos filmes de Louis Malle, Yves Robert (como esquecer “A Guerra dos Botões”, produção de 1962 e que mantém uma atualidade impressionante com a discussão sobre igualdade e liberdade), Rene Clement (também não dá para esquecer “O Sol por Testemunha”), François Truffaut, Visconti, Antonioni, de Sica e tantos outros. Muitos desses filmes revi anos depois nos bons tempos de sessão de meia-noite no Cine Paissandu, no Rio de Janeiro, (seguido de chopes, pontos de vistas nos bares e botequins do bairro do Flamengo), na Cinemateca do Museu de Arte Moderna e no Cineclube Macunaíma da Associação Brasileira de Imprensa, onde sempre tinha bate-boca empolgante com Cacá Diegues). Quando foi lançado “A Doce Vida”, do Fellini, o sucesso foi total, causando escândalo com os temas abordados no filme. Lembro-me da minha irmã falando da beleza do Marcelo Mastroianni e da Anita Ekberg, cujo cartaz mostrava a bela num vestido preto, com belíssimos seios quase pulando para fora, dentro da Fontana de Trevi, deixando a meninada maluca. Outra peculiaridade era a exibição de festivais de filmes russos “A Balada do Soldado”, “Quando Voam as Cegonhas” “Hamlet”), tchecos (“Amores de uma Loura”, “Trens Estreitamente Vigiados”), polonês etc. Mas o que mais agradou à meninada foi um festival de faroeste da Fox, entre os quais “A Última Carroça”, “A Lança Partida”, “Duelo na Cidade Fantasma”.  Nessa época, a meninada do Barão de Macaúbas saía correndo para ver os cartazes e comentar as brigas do mocinho com bandidos ou índios.  Certa matinê, os ânimos ficaram exaltados no Cinema. O filme era “Falta um para Vingar”, um western com Jock Mahoney criou uma expectativa alucinante pelo título. Esperava-se um filme eletrizante com brigas, tiros, mortes, lutas, vingança, beijos etc. Mas foi uma decepção, o filme foi muito lento, sem emoção, sem briga. O mocinho era um “frouxo”, que nem brigou, nem trocou tiro com o bandido e o filme acabou sem pé nem cabeça.  Um filme pacifista! Quando as luzes se acenderam, a meninada vaiou e dava porrada e chutes nas cadeiras de madeira do Cinema.  Que raiva, que decepção! Só restava ir trocar revistas de quadrinhos na porta do Cine Conquista e comprar picolé no Lindóia (tinha que ser picolé quadrado, pois se fosse picolé redondo, era motivo de chacota e gozação) e à noite brincar de polícia e ladrão no Jardim das Borboletas, além de ficar olhando e imaginando coisas com a estátua da mulher nua da fonte luminosa.  Não eram só filmes franceses, mas também dramalhões americanos, mexicanos e espanhóis eram exibidos.  Lá conheci também Luiz Buñuel, com “Anjo Exterminador” e “Viridiana”, verdadeiras lições de Cinema e respeito às diversidades  religiosa e sociais. Buñuel continua imbatível como melhor Cineasta espanhol de todos os tempos, apesar do sensacional Almodóvar. Outra figurinha certa no Ritz era o Bergman, com “Morangos Silvestres” e outras pérolas. Como esquecer de Micheline Presle e Gérard Philipe em “Adúltera”? O Cine Ritz me marcou muito, como acredito ter marcado muitos outros conquistenses. Apesar das cadeiras duras, do som horrível, do sanitário esquisito, pois tinha que caminhar até a tela para entrar à esquerda, uma nostalgia, uma saudade, uma vontade de estar lá é sempre um sonho. Só tenho a agradecer e ser feliz por ter um dia ido ao Cine Ritz e conhecer a beleza que é o Cinema.

A viagem na história dos cinemas de Conquista prossegue com pesquisas em sites e blogs:

O 2º Glória, com sua “nova” fachada (década de 1970), hoje
é a “Igreja Universal do Reino de Deus” da Francisco Santos
Cine Riviera: uma das fachadas de cinema mais clássica
do Brasil foi derrubada pelo Banco Econômico para dar lugar ao prédio da atual loja “Insinuante” na Praça Barão do Rio Branco
Cine Madrigal – anos 90

História dos Cinemas de Vitória da Conquista

19 de novembro de 2010, 17:21 / Anderson BLOG @blogdoanderson

Por Luís Fernandes

Nivaldo Araújo, natural de Itaquara (BA), foi proprietário de cinco salas de cinema em Vitória da Conquista; instalou seu 1º cinema, o “Cine Ritz”, onde antes funcionava o “Cine Vitória”, no prédio da antiga “Rádio Clube de Conquista”, pois o “Vitória” já estava desativado. Logo depois Nivaldo o vendeu para “Juvenal Calumbi” (uma empresa de cinema de Salvador). Isso ocorreu assim que Nivaldo adquiriu o “Cine Glória” de Frederico Maron (Itabuna-Ba), que havia construído o 1º Glória. Nivaldo reformou o prédio, mudando-lhe a fachada. O “Glória” tinha capacidade para 600 pessoas. Esse 2º Glória só foi desativado em 1992, quando o Grupo Cinematográfica Nivaldo O. Araújo Ltda., empresa de Nivaldo que controlava todos os cinemas de Conquista nos anos 70, 80 e 90, vendeu o prédio para a Igreja “Universal do Reino de Deus”.

Em julho de 1971 Nivaldo Araújo já havia adquirido os outros três cinemas da cidade: o Eldorado, o Riviera e o Madrigal. O “Eldorado” pertencia ao grupo de Petrônio Sales, que explorava o prédio de propriedade de José Isidoro da Silva Primo (dono do posto de gasolina que funcionava na frente ao cinema). O Eldorado tinha capacidade para 300 pessoas. Mais tarde, Nivaldo devolve o prédio a Isidoro, extingue o Eldorado e constrói um prédio na Avenida Itabuna (bairro Brasil) e instala ali o “Trianon”, por volta de 1974, com capacidade para 500 pessoas. Mais tarde Nivaldo vende o prédio do Trianon para a Igreja Universal.

O “Riviera” pertencia ao grupo de Petrônio Sales, Joaquim Teixeira e Cláudio Cordeiro, que havia adquirido o “Cine Conquista” de João Picopel e mudado o nome para “Riviera”. Tinha capacidade para 550 pessoas. Picopel e Inocêncio, por sua vez, tinha comprado o cinema de Jeremias Gusmão. Depois, Nivaldo Araújo vendeu o prédio ao Banco Econômico, para ser derrubado e construído no local a nova agência, inaugurada em 1984. Por fim, o “Madrigal”, que foi adquirido de Gentil Alves (Jânio Quadros-Ba). Gentil construiu o prédio da “Galeria Madrigal”. “O cinema foi inaugurado no dia 22 de maio de 1968, com a exibição da fita A Noite dos Generais“, lembra Edilno Ferreira Macedo, gerente do Madrigal na época e que foi colega de banco de Nivaldo e Enésio (os três trabalharam no Econômico e os três tinham vinculações com cinema). “No dia da inauguração tinha capacidade para 1.022 lugares”, complementa Edilno, que lutou até o fim para que o Madrigal não fosse fechado em Conquista, mesmo depois que a “Art Filmes” o adquiriu em 1996, fechou em 2001 e reabriu em setembro de 2002. Ícone da antiga geração de amantes da 7ª arte de Conquista, o Madrigal, infelizmente, teve seu fechamento definitivo no dia 30 de julho de 2007.  

Raimundo Amaral Menezes e o Madrigal

Publicado no Resenha Geral em 14/10/2016

Raimundo Amaral Menezes morreu na noite de quinta-feira (13 de outubro de 2016) aos 83 anos. Seu Raimundo Menezes trabalhou no Cine Madrigal desde a fundação do cinema. “Para esquecer é muito difícil, só quando morrer. Foram 45 anos trabalhando lá, mas desde que o cinema fechou a emoção continua e eu continuo até hoje frequentando o Madrigal, porque tenho as chaves e sou eu quem tomo conta do espaço”, relatou em uma das suas últimas entrevistas. Raimundo Amaral Menezes era irmão de um dos radialistas históricos da cidade, Jota Menezes.

Raimundo Amaral Menezes, Zé Baleiro e Edilno Ferreira Macedo, ex-gerente do Madrigal. Foto de 2016

Luís Fernandes do site Taberna da História

Luís Fernandes, criador da Taberna da História do Sertão Baiano. Também lançou a Revista Histórica de Conquista

Vítima de um infarto fulminante, morreu na noite de 3 de abril de 2015, aos 45 anos de idade, o servidor público federal, Luís Carlos Fernandes. Era servidor do Ministério Público do Trabalho, bacharel em História e cursava Direito na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), trabalhou jornais de Vitória da Conquista. Em 2005, Luís Fernandes ele começou a legendar fotos históricas para o Blog do Anderson, o que futuramente resultou em dois livros e o seu site, Taberna da História do Sertão Baiano. Informações do jornalista Paulo Nunes ao Blog do Anderson.


18 comentários sobre “O Ritz e outros cinemas de Conquista

  1. A crônica retrata um tempo em que Conquista era mais bucólica e a juventude prezava mais o conhecimento histórico, cultural. Sem querer ser uma saudosista exagerado, nossa cidade era bem melhor que os dias atuais.

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  2. Que história bonita! Conversando com tia Minervina ela disse que tudo isso é verdade e que conhece o autor da crônica, Valter Freire. E me falou que Conquista já teve vários cinemas. Era um dos grandes programas de domingo na cidade, naqueles anos 60, 70, período da mocidade dela. Parabéns, Valter Freire, seu texto é muito bom.

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  3. Valter Freire, você trouxe com palavras todas aquelas cenas românticas e até ingênuas dos anos 60 e 70 que eu vivi muito bem. Palmas para você. Palmas para o texto também do Fernando F. Zamilute. Textos de alto nível aqui neste blog.

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  4. Eu me lembro muito bem do Ritz. Valter, você foi longe e trouxe uma boa recordação para nós que já passamos dos 65. Parabéns.

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  5. Paulo Bina também tem dentro dele um cinéfilo. Somos todos iguais ao personagem Totó de “Cinema Paradiso”. Paulo Bina é também um cronista de mão cheia. Parabéns, cara!

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  6. Quanta história bonita de minha cidade. Parabéns ao Brown por trazer esse texto de Valterci e os outros textos publicados em outros blogs. Daqui de São Paulo nunca esqueci minha Conquista querida. Um dia ainda retorno.

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  7. Em Mataripe, onde passei infância e juventude, só tinha um cinema. De madeira, cadeiras de pau e no fundo um “poleiro” – uma arquibancada, tipo o ICBA de antigamente.
    Nem nome tinha. Só um filme por semana, de sexta a sábado. Cabia umas 150 pessoas (eram 130 casas), mas havia dois alojamentos para operários e vinha gente de Madre de Deus e de Niterói, uma tabelinha fora da vila.

    Os filmes não tinham nada de Cult. Esses citados vi depois, muitos na Biblioteca Central, ICBA e ACBEU. Mas o vídeo e a própria TV me salvaram.

    Em Mataripe, muitos dramalhões – se Jivago, os Girassóis da Rússia (quem não se filiou ao Tema de Lara?), Laurence da Arábia, No tempo das Diligências e tantos cowboys… poucos filmes para maiores de 18, um deles vi, pulando a janela: A primeira Noite de um Homem, com uma trilha de Simon&Garfunkel de matar e a matadora Mrs. Robinson…

    No mais, comédias, Jack Lemmon, Jerry Lewis e romances.

    Em Salvador, entrei nesse mundo maravilhoso no Tupy (cinerama) onde assisti 25 horas de Le Mans e 2001, odiei. Isso lá por 68. Depois, vim para cá em 72 fazer o científico.
    Mas já na capital me revezava nos cines Bahia, Guarani , Tamoio, Capri, Excelsior e Liceu.
    Depois Bristol tb, que chegou a ter duas salas. Dava para ver três filmes num dia.
    Tudo a pé, entrava no meio da sessão e revia o filme do começo ao fim – bem nutrido com esfirra e coca-cola da Ladeira da Praça ou da praça da Sé.

    Passava a semana vindo do Severino a pé ou não merendando na cantina, porque meu pai não aguentaria essa farra. Um filme por semana já era luxo.

    Lembrei quem em Candeias, cinco quilômetros de Mataripe, tinha um cinema. Fui, mas nem sei o nome.
    Se bem que na época teria de ser levado lá.
    Boas lembranças, Bomfim. Hoje isso não existe.

    Ainda garoto, em Mataripe lembro da expectativa da viagem para Salvador (uma hora de fusca) todo o primeiro domingo do mês para assistir o Tom e Jerry, 10hs. Mais de uma hora de desenhos seguidos no Guarani, com direito a Frutella, Mentes, Baton, Zorro, Diamante Negro e Prestígio.

    Cada um, eu e meu irmão Lula, poderíamos escolher dois doces e dois chiclete Adams – que não fazia bola – comprados naqueles baleiros maravilhosos, sortidos de tudo.

    Depois sorvete no Cacique ou Cubana, a depender de onde o carro estivesse, e almoço na Casa de alguma tia.
    Era uma farra.

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  8. O blog é trincheira de preservação da memória. Daqui a pouco vai ser tema de trabalho acadêmico. Vc vai ver. Apesar de tanto desalento, tem uma molecada esperta e atenta. Sua dedicação não será em vão, amigo-irmão.

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