Cizinha e os cabeludos

Valterci, ou simplesmente Valter Freire escreve uma ótima crônica sobre os 4 músicos geniais de Liverpool , com viés da Conquista dos anos 70. Essa crônica foi publicada no livro “Corolário da alma”. Boa leitura!

The Beatles nos anos 60 – foto : zoom.com.br

A revista Manchete trazia reportagem com quatro jovens ingleses que eram a sensação naquele país e em outros cantos da Europa. A foto mostrava os rapazes com ternos moderninhos, sorridentes e o que mais chamava atenção: longos cabelos. Quem são esses cabeludos? Todos os homens usavam cabelos curtos. Apenas Jesus Cristo e Tiradentes tinham longos cabelos. Mas na reportagem tinha fotos com garotos já usando aquele tipo de cabelo e as garotas gritavam alucinadas nas apresentações. O nome do conjunto era The Beatles. Beatles? Nunca ouvi falar nem nunca tinha escutado nenhuma música deles.  Eram os Reis do iê iê iê, dizia a reportagem. Aquela imagem dos cabeludos me deixou impressionado. Algo novo está acontecendo, pensei. Eu estava com 13 ou 14 anos.

Praça Barão do Rio Branco, em Conquista, nos anos 70. À esquerda o Aliança Palace e à direita o Bar Lindóia

Entre o Hotel Aliança Palace e uma loja de representação de produtos farmacêuticos, no térreo do prédio da Contabilidade do Gaguinho, existia o Bar e Café Cacique. Pertencia ao noivo da minha irmã em sociedade com dois amigos. Eu, muitas vezes ficava no bar ajudando em algumas atividades. Durante o dia as refeições com um cardápio simples, eram feitas com muito capricho por D. Rosinha. À noite quem comandava a cozinha era Maria Clemência, que reclamava mais que trabalhava. Mas era uma mulata bonita, com um belo pé de rabo que deixava os clientes acesos. Apenas 10 mesas, uma geladeira grande e uma radiola, assim chamada o aparelho de som naquela época, que tocava elepês da Orquestra Serenata Tropical, Saraiva e seu Conjunto, Trio Irakitan, Agostinho dos Santos e Mayza. Música jovem ou rock não era tocada naquele bar. Mas tinha o por quê.

O bar era a novidade e por isso muito frequentado. De dia por viajantes, comerciantes e hóspedes dos hotéis baratos daquela região. À noite o público era diferente. Mais liberal, principalmente depois das 22 horas, o movimento era muito, o consumo de cerveja e caipirinha, novidade também, aumentava. Maria Clemência, a cozinheira, reclamava, mas os pedidos saíam rápidos e bem feitos. E bem que ela gostava de ir ao salão levar o prato solicitado para exibir o belo traseiro. Mas também deixava claro para todos que ela era “moça de família”.

Muitas raparigas, assim chamada as profissionais do sexo da Rua da Moranga e da Rua do Magassapo, de variadas idades, apareciam para alegrar o ambiente e em busca de clientes. A fumaça dos cigarros, as risadas, o perfume barato impregnava todo o ambiente. Janete, uma sergipana de cabelos crespos, tingidos de louro-amarelo, depois de umas quatro talagadas pedia para colocar o elepê de Mayza e chorava ao ouvir “I love Paris” repetidas vezes. Nunca disse o motivo do choro. Mas se chorava, tinha um bom motivo. Certa noite, ao cruzar comigo a caminho do banheiro, Mariuza, uma mulher de pele branca, cabelos pretos com penteado tipo bolo de noiva, corpo violão, seios fartos, olhar libidinosamente profissional, percebendo meu olhar, perguntou se eu “não era muito novo para estar ali naquela hora”. Gaguejei alguma coisa sem jeito. Mariuza agarrou-me, imprensou-me contra a parede e deu-me um longo beijo na boca e saiu rindo. Fiquei trêmulo, surpreso e aproveitando meu primeiro beijo com sabor de sexo. Mas percebi também que fiquei todo babado!

Certo dia, por volta das 18 horas, chegou Cizinha. Era novata na Rua da Moranga. Tinha 17 ou 18 anos, branca, cabelos bem pretos, curtos e com franja, olhos castanhos escuros, nariz adunco, boca grande, sorriso tímido, pernas compridas e torneadas e com pouca bunda. Chegara há pouco tempo de Jacobina, de onde tinha sido expulsa de casa porque “se perdeu” com o namorado que não quis assumir a responsabilidade. Nas mãos trazia um elepê e perguntou se eu o conhecia. Era o primeiro disco dos Beatles. Rapidamente coloquei-o na vitrola. Começo a tocar “I wanna hold your hand”. Ficamos escutando em silêncio. Eu estava extasiado, o coração batia mais forte, uma paixão à primeira audição. Cizinha começou a cantar baixinho. Sabia todas as músicas. Naquele momento, não era a rapariga. Era uma menina que gostaria de gritar alucinada pela beleza do Paul, pela genialidade do John, pela musicalidade de George e pela técnica do Ringo.  Éramos dois adolescentes envolvidos com uma explosão musical que mudou o mundo para sempre. Pensei: meu Deus, o que é isso? A música me dominou por completo. Em minutos eu já conhecia todas as músicas. Cizinha começou a falar sobre os quatro garotos de Liverpool. Falou como se conheceram, como começaram a cantar, da viagem a Hamburgo, das primeiras gravações e do sucesso que estava fazendo em todo mundo. E o mundo novo começava para todos os jovens que ansiavam em algo moderno. Os olhos dela brilhavam e não parava de falar. Mas teve que parar para se preparar porque dali a pouco era hora de começar a labuta. Falou: amanhã a gente continua.

E no dia seguinte escutamos o disco. E nos dias seguintes também. Cizinha começou um caso com um dos sócios do bar. Confessou-me que estava com medo de se apaixonar e isso não era bom para a profissão dela. E logo começou o ciúme por parte do amante que exigia exclusividade, mas que não a bancava financeiramente. Isso começou a deixar Cizinha triste. Mas a sessão diária de audição continuava. E os Beatles agora já tocavam no rádio. E em todas as festinhas tinha que ter os meninos de Liverpool. E as fotos deles já estampavam os cadernos das garotas. E elas disputavam o Paul, o John, o George e até o feioso do Ringo. E os Beatles já não pertenciam à Cizinha.

Mas o bar deixou de ser novidade. O movimento caiu. O desentendimento entre os sócios começou. Cizinha se desentendeu e afastou-se do amante. E um dia passou no bar, pegou o elepê e nunca mais voltou. Saiu da Rua da Moranga, foi para a Rua do Magassapo  e depois para não-sei-qual-rua. Procurei, perguntei e ninguém soube informar seu paradeiro, seu destino. Hoje eu fico imaginando onde ela está. Será que se casou? Será que continuou fazendo vida toda sua existência? Estará morando em Salvador, Marabá, Santa Rita do Passa Quatro ou Delmiro Gouveia? Terá sido feliz? Teve filhos? São muitas perguntas que faço. Mas uma coisa eu tenho certeza: a trilha sonora da sua vida também é feita pelas músicas do Lennon & McCartney. Cizinha me apresentou o Fab Four. Sempre terei um sentimento de gratidão por isso. Não sei se ela eternizou aqueles momentos em que, jovens e sonhadores, fomos tão felizes. Hoje e sempre quando escuto os meninos, eu vivo novamente aqueles momentos. E, acho, Cizinha também.

*Valterci de Souza Freire. Rio de Janeiro.

Aposentado, carioca, apesar de ter nascido em Vitória da Conquista – Bahia, leitor compulsivo e dois contos publicados na plataforma digital da Amazon.com. Publicou também contos no livro “Memórias Cariocas II”.

Este livro reúne um pequeno centelho da vasta criação corrente de norte a sul do país. Você lerá trechos da contextura em prosa ou verso, dos sessenta e seis autores expressos nas páginas de Corolário da Alma. Confira: https://portodelenha.com/livraria/antologias/50-corolariodaalma.html

6 pensamentos sobre “Cizinha e os cabeludos

  1. Relembrando nossa época, mesmo não conhecendo o bar, não lembro de Valterci mas da rua magassapo até o nome era proibido dizer, mas a curiosidade nos levava até lá. A praça alguns casarões vieram ao chão mas o hotel continua, confesso que temo passar por perto, sempre acho que vai desabar a qualquer momento. Parabéns, excelente crônica.

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  2. Gratidão por me apresentar um texto tão suave e gostoso de ler.
    Ia lhe pedir para decifrar a frase “belo pé de rabo”, mas leitura adiante, o próprio autor encarregou-se de traduzir. 🙂
    Folgo saber notícias de Cizinha (juro que estava me perguntando por onde andaria!).
    Obrigada mais um vez!

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  3. Uma pessoa que leu esta crônica falou que encontrou Cizinha, tempos depois, cantando numa das casas da Rua do Cavaco, em Itapetinga. Foi a última vez que a viu e ela cantava, belissimamente, “Malagueña”. a Rua do Cavaco era o Magassapo daquela cidade.

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  4. Que bom reviver a história de sua cidade por alguém que vivenciou isso no auge dos anos da quebra de paradigma em várias áreas, principalmente na liberdade sexual, com riqueza de detalhes da época, isso é muito bom

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    • Sim, João Luiz, depois dos Beatles a vida nunca mais foi a mesma. As saias subiram, o cabelo cresceu, a pílula libertou, o amor ficou mais próximo, as roupas mais coloridas e extravagantes. Os pais “retados”, tabus quebrados, o lenço no bolso foi desativado, o pente Flamengo foi para a gaveta e a moçada podia dançar separada. Minha geração foi a que fez a mudança, quebrou paradigma conforme você falou. E, meu Deus, como as músicas continuam belas e atuais. Beatles four ever.

      Recomendo ver o filme “Yesterday”, uma história de como seria o mundo sem a existência dos Beatles.

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