A vingança de Kirk Douglas

Valterci, o nosso conquistense amigo e colaborador deste blog Valter Freire, manda um e-mail, ontem, 5 de fevereiro, com a mensagem ” Caro Brown, nosso ídolo de infância partiu. E a relação dele conosco foi assim.” Valter acrescenta que, “além de excelente ator, Kirk foi um cidadão exemplar. Foi o primeiro a enfrentar o mckartismo ao aceitar o Trumbo como roteirista de “Spartacus “. Quase todo dinheiro que ganhou ele distribuiu em caridade ou centro de pesquisas”. A continuidade é um texto especial, tão bem escrito como os anteriores, reportando atuações de Kirk Douglas nos filmes que faziam nossa imaginação viajar nos cines Conquista, Glória, Eldorado e Ritz. Sim, Vitória da Conquista já teve esses cinemas. Segue o ótimo texto de Valter (detalhe importante, Valter escreveu essa crônica em 14 de dezembro de 2019) e as lembranças da eterna Rua dos Pratos, também imortalizada no livro A Casa que Mora em Mim, de Fernando Zamilute.

Kirk Douglas em ação, imagens enviadas por Valter Freire

Kirk Douglas era o ator preferido dos meninos da Rua dos Pratos e também das outras ruas da cidade de Vitória da Conquista, na Bahia. Era bom de briga, não perdia nenhuma, vencia todos os bandidos no duelo, vencia todas as batalhas contra os índios, contra os inimigos dos vikings, era o defensor dos fracos, protegia os meninos das cidades oeste. Domava cavalos selvagens, atravessava desertos e campos nevados. Trazia sempre um sorriso cínico no rosto. Conquistava a mocinha do filme mas no final partia sozinho porque queria sempre a liberdade de enfrentar novas aventuras. Era o mais valente e sempre o “primeiro artista”, assim chamado o protagonista. Nas matinês ele enfrentava qualquer parada, sendo detetive policial ou lutando contra um polvo gigante no fundo do mar por vinte mil léguas submarinas, ou no duelo no OK Corral, ou enfrentando gigantesco cíclope e feiticeiras na odisseia da volta para casa, ou enfrentando quadrilhas sanguinárias, soldados corruptos, e sendo até um cínico jornalista do interior. E como era muito bonito, todas a mulheres eram atraídas pelo seu charme.

Então foi anunciado que o Cine Conquista apresentaria o filme “Vikings, os conquistadores” em que Kirk Douglas tem como parceiro o galã Toni Curtis que, por sua vez, o preferido das meninas e adolescentes da Rua dos Pratos e também de outras ruas da cidade. Os meninos não gostavam dele porque só fazia filme “de amor” que não tinha briga, tiros, duelos, enfrentamentos etc. E filme sem esses componentes não era filme, na opinião dos meninos. Minha irmã adolescente tinha um retrato dele na capa do caderno. Aliás, ela e centenas de adolescentes.

No filme Kirk e Toni disputavam o amor da mocinha. Kirk era filho do chefe, valente, brigão, bom de espada e terror das mulheres. Toni era um escravo. Os vikings mandavam no mundo e queriam conquistar a Inglaterra. E enfrentaram e venceram todas as batalhas. Para entrar no castelo onde estava a mocinha, tiveram uma luta infernal. Os guerreiros jogaram machados no portão do castelo, Kirk correu, deu um pulo, agarrou nos machados presos ao portão, brigou com os soldados inimigos e abriu o portão para os vikings entrarem. É inesquecível o momento em que o heroico Kirk galga a torre do castelo e com os pés quebra os vitrais da capela onde a mocinha estava presa. Nesse tempo a batalha já estava ganha. Mas o Toni Curtis correu até a capela e começou a lutar com o Kirk. Golpe pra lá, golpe pra cá, seguiram lutando até a beira do castelo. A espada do Toni quebra e Kirk vai dar o golpe final quando se lembra que o Toni, na realidade, é seu irmão. Kirk hesita e o Toni aproveita para enfiar a espada quebrada. O viking cai e morre. A meninada no cinema ficou muito irritada. Vaiou o Toni. Como pode, um “frouxo” desse matar logo o Kirk Douglas? Decepção foi tão grande que até o picolé do Bar Lindóia naquele dia não teve o mesmo sabor. Mas tinha que ter uma vingança.

E então no mesmo cinema veio “Spartacus” em que Kirk foi o escravo que se rebelou, libertou os companheiros e liderou a maior revolta de escravos da história. Vencia todas as batalhas e um dos escravos libertados era o Toni Curtis. Mas desta vez não disputavam a mesma mocinha. Kirk era o chefe, o líder, o libertador que derrotou o império romano. Mas foi traído, perdeu a batalha e foi preso com os sobreviventes e condenados à crucificação. Mas antes os soldados obrigaram Kirk e Toni lutarem até a morte. Ah, finalmente a hora chegou. Agora vamos à forra, gritavam os meninos. E golpe pra cá, golpe pra lá, espada pra cá, espada pra lá, os dois rolavam no chão e Kirk dá o golpe de misericórdia. Toni está morto. Kirk venceu. Finalmente a meninada se sentiu vingada.

Valter Freire

Rio, 14/12/2019

Kirk Douglas, ator e diretor, morre aos 103 anos

Pai de Michael Douglas foi três vezes indicado ao Oscar e atuou em ‘Spartacus’, ‘A montanha dos 7 abutres’ e ‘Sede de viver’, pelo qual ganhou um Globo de Ouro.

Kirk Douglas – Spartacus

12 comentários sobre “A vingança de Kirk Douglas

  1. Meu amigo, vi muitas sessões dessas que você fala. Muito boa sua crônica. Saudades daquele tempo de Kirk Douglas atuando.

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  2. A gente ficava numa ansiedade grande desde o início da semana quando sabíamos que domingo haveria “filme de espada”. Com Kirk Douglas, então, a ansiedade chegava ao nível mais alto. Ótima crônica!

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  3. O texto, muito bom, me reconduziu à infância, adolescência em que curtíamos as sessões nos cines Conquista (depois Riviera), Glória e Madrigal. Saudades daquele tempo tão inocente para nós, que éramos simples crianças.

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  4. O texto é demais. Grande homenagem ao Kirk. Com ele, morre parte da história do “ainda jovem” cinema.

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  5. Belo texto enfatizando um dos ícones da nossa infância… Assisti estes filmes nas matinês do Cine Central, aqui em Caxias (RS), onde hoje, infelizmente, estão as Lojas Americanas

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