O Velho do Cabelão

Mais uma ótima colaboração do conquistense radicado no Rio de Janeiro Valterci Freire, o Valter dos brilhantes textos que este blog tem o privilégio de publicar. Desta vez ele traz “mais um personagem glauberiano de Conquista”, da sua infância e da sua lembrança.

Ele aparecia, na maioria das vezes pela manhã, andando com passos lentos pela Rua dos Pratos, em direção à igreja. Roupas simples, calça e camisa brancas, chinelo rasteiro de couro, um crucifixo pendurado no pescoço, usando um chapéu forrado com um pano branco, um laço azul na borda e grandes espinhos grudados, lado a lado, na aba. O semblante era de paz, o olhar era doce e bondoso. A voz era baixa, suave e segura. Pele clara, curtida pelo sol, marcada pela vida, e idade indefinida. Barba curta e cabelos grisalhos até os ombros. Os cabelos longos causavam estranheza nas crianças, porque os únicos homens de cabelos longos que conheciam eram Tiradentes e Jesus Cristo.  Por causa dos cabelos grandes e grisalhos, era chamado de Velho do Cabelão.

As crianças, contritas, lhe pediam a bênção.

A presença mística inspirava devoção, respeito, mistério, admiração e fé. Mas também inspirava medo em Tina, a menininha mais bonitinha da rua, que corria chorando de medo do Velho do Cabelão. Ele sempre falava sobre a fé que tinha na mãe de Deus, “a mãe divina que toma conta de todos vocês”, dizia com um tom solene que fascinava a todos. Dizia assistir missa e rezar o rosário todos os dias. Mas essa afirmação deixava todas as crianças em dúvida e ele dizia que a missa era às 6 horas da manhã e todas ainda dormiam. Ninguém questionava sua fala ou pregação. E ele contava causos, contava histórias, e a todos encantava. Mas a história que mais contava era o encontro que ele teve com Nossa Senhora. Era uma manhã, dizia, estava caminhando sozinho pela estrada quando um forte perfume de rosas envolveu o campo. De repente, apareceu uma luz na sua frente e, em seguida, a Santa Mãe de Deus estava parada diante dele. Ele se ajoelhou, rezou uma Ave Maria, e olhou novamente. Ela estava de branco, com um manto azul igual ao que se vê nas imagens. Era muito, mas muito bonita. Ele perguntou por que Ela apareceu a ele. A santa respondeu que ele era um fiel querido e merecedor daquela presença porque tinha uma fé, muita fé. Pediu para que rezasse sempre e para falar que Ela estava sempre olhando para quem pede sua ajuda. O Velho da Cabelão se calava e uma expressão de paz ficava no seu rosto. O convicto relato deixava as crianças emocionadas.

Mas também tinha um momento em que as crianças morriam de medo. Era quando ele falava que todos deviam rezar porque Nossa Senhora ficava pisando em uma serpente lá no céu.  Se por algum descuido Nossa Senhora for picada pela serpente e, no susto, levantar o pé, o mundo se acaba. As crianças ficavam apavoradas e algumas começavam a rezar ali mesmo. E, claro, as crianças contavam para Tina, que abria o berreiro. D. Sanô chegou com uma xícara de café para o “santo homem” como ela dizia. D. Isaura, do outro lado da rua, espiava o encontro do Velho do Cabelão mas não se aproximava não sei por respeito ou por medo. Seu Alfredo Soldado, que não gostava “nem de padre nem de igreja” passava e sequer dava um bom dia.

Nunca se soube o nome dele. Nem de onde veio, para onde vai ou aonde mora, se tinha família ou coisa parecida. Na novena de Nossa Senhora das Vitórias quando o Velho do Cabelão era presença constante, mas nunca ninguém o viu acompanhando a procissão no dia 15 de agosto, dia consagrado à santa. Falava-se que ele conversava muito com os padres da catedral mas se estranhava com o Padre Palmeira. Como também que ele foi visto fazendo romaria a pé para Bom Jesus da Lapa. Tudo indicava que ele era, sim, um santo homem. Uma coisa era certa: o carinho com as crianças. Algumas vezes distribuía santinhos de Nossa Senhora com o Menino Jesus no colo. Mas também tinha o hábito de pegar alguma flor e presentear as crianças. Todos que o conheceram têm uma lembrança boa daquele homem, têm saudade e certeza que hoje o Velho do Cabelão está no céu ao lado daquela que ele era devoto. Quem o conheceu nunca vai esquecer aquela figura mística, uma figura misteriosa e sempre vai indagar quem era o Velho do Cabelão?  

Texto: Valterci Freire

Arte:

www.youtube.com/user/pedrinhocaricaturas

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