Em casa, naturalmente

Um artigo de Jorge Carneiro sobre o parto humanizado. Muito interessante. Confira.

 

Momento do parto, em 1º de fevereiro de 2019

 

Bebê Maria Clara em 1º de fevereiro de 2019

 

Maria Clara, em 6 de fevereiro de 2019

*Por Jorge Carneiro

Um dos protocolos adotados pelos cartórios para a emissão da primeira via da certidão de nascimento é, no mínimo, curioso. Ao informar que você pretende registrar o seu filho, ou a sua filha, a pergunta inicial é sempre “Nasceu em qual hospital?”. Confesso que me senti excluído, como se o tipo de parto escolhido por mim e pela minha companheira, em casa e humanizado, fosse algo improvável, fora da normalidade, uma aberração. Um simples “Nasceu onde?” ou “Nasceu em qual bairro?” seria mais cordial e abrangente. Bom esclarecer que essa pergunta, feita ainda na triagem, visa apenas saber se o registro será feito naquele ou em outro estabelecimento. No meu caso, mesmo conseguindo enxergar da porta do cartório o prédio onde moro e nasceu minha filha, fui encaminhado a outro, muito mais distante. Que coisa!

Fico imaginando quando essa pergunta passou a reinar nesses espaços burocráticos. Afinal, minha avó pariu sete vezes em casa, acontecimento bastante frequente até um dia desses, mas que – infelizmente – vem saindo de moda a partir de ações orquestradas, sobretudo por médicos não dispostos a “perder tempo” em demorados trabalhos de parto – que certamente terão início em locais, datas e horários não programados -, e por hospitais que adoram faturar hospedando gestantes que “optam” pelo parto cirúrgico e não residencial.

A história vivida por mim no cartório ilustra bem a percepção atual do nosso povo acerca dos partos não hospitalares. O senso comum, ainda que desprovido de evidência científica alguma, dá conta de que é melhor e mais seguro parir em hospitais e, pior, de forma não natural, a partir de cirurgia. O Brasil é o segundo país do mundo em número de partos cesarianos não necessários, conforme pesquisa recente da UNICEF. Enquanto nos países mais desenvolvidos, e também nos que apresentam os melhores índices de saúde, a recomendação é para que os partos sejam normais, deixando os cirúrgicos apenas para casos de extrema complexidade, em que a saúde da mãe ou do bebê esteja em risco. No Brasil tudo se transforma em desculpa para que o parto não aconteça naturalmente, mas num centro cirúrgico obstétrico.

Parte expressiva dos médicos e médicas tem a cartilha do desencorajamento na ponta da língua: bebê muito grande; bebê muito pequeno; bebê com circular no pescoço; mãe muito pequena; mãe muito magra; mãe muito gorda; bolsa rota; feto em posição pélvica; bebê não encaixado; parto anterior cirúrgico; mãe muito velha; mãe muito nova; sangue do bebê diferente do sangue da mãe e tantos outros esfarrapados argumentos. Aqui, 40% dos partos em hospitais públicos são cirúrgicos. Na rede privada, esse índice chega aos 84%. Uma vergonha, já que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece em até 15% a proporção recomendada de partos por cesariana.

Tenho quatro filhos. Os três primeiros nasceram em diferentes hospitais da capital baiana, sempre de forma cirúrgica. A caçula, por outro lado, nasceu em casa, de parto normal e humanizado. A mãe definiu o local, a posição. Escolheu não tomar anestesia, não ser cortada. Elegeu não ser medicada para acelerar as contrações, não teve pressa. Foi a primeira a olhar nos olhos da cria, não sem que o pai, antes, aparasse o bebê e a entregasse. Dentro d’água pôde contempla-la por muito tempo, num primeiro contato mágico e muito menos traumático para, só depois, na cama, para onde se dirigiu com as próprias pernas, expulsar a placenta e ver o cordão umbilical, já sem pulsar, ser cortado por mim. Havia um plano de parto, algo tão fundamental, amparado legalmente e totalmente desconhecido pela maior parte da nossa gente, não por acaso.

A violência obstétrica, que tanto infelicita mulheres, bebês e homens, precisa acabar, ser combatida.

Vida longa ao parto humanizado e natural, em casa ou na maternidade.

*Jorge Carneiro

Jornalista e professor de Geografia

14 pensamentos sobre “Em casa, naturalmente

  1. É muito bonito e elogiável, mas quem for fazer precisa pesquisar e se inteirar do assunto. Há muita controvérsia a respeito do tema. Tanto o Conselho Federal de Medicina do Brasil como o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia são contra o parto domiciliar. De acordo com estas entidades, o hospital é o local mais seguro para o parto, por oferecer infraestrutura e equipe treinada para lidar com intercorrências e emergências. Assunto para discussão.

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  2. A vantagem de parir em casa é estar cercada por um ambiente acolhedor, com maior controle sobre toda a experiência do parto e sem ter que passar por intervenções médicas que são rotina nos hospitais, nem sempre necessárias.

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  3. Elogio a iniciativa do casal, mas ressalto nem toda grávida que deseja ter um parto domiciliar tem as condições certas para isso. Gestantes mais suscetíveis a alguma complicação de parto precisam contar com maior assistência e monitoramento, o que só pode ocorrer em um hospital.

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  4. Acho muito interessante, mas sugiro que quem for fazer discuta com o médico que acompanha o seu pré-natal e já vá também procurando referências de parteiras ou médicos que atendam parto domiciliar.

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  5. perfeito o comentario do amigo Fernando E acrescento nao devemos esquecer das intercorrencias existentes durante o parto ( trabalhei muitos anos em obstetricia ) Portanto e necessario um bom planejamento

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  6. Ótimo artigo.
    Temos o dever de incentivar prática desse método natural de parir e, ao mesmo tempo, de denunciar a desonestidade de operadores planos de saúde.

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  7. Muito bom. A experiência pessoal do pai e da mãe somam-se à divulgação dessa prática do parto natural para outras pessoas que estão em dúvida sobre fazer cesárea ou não.
    Infelizmente, as cesarianas, como demonstra o autor do artigo, viraram uma maneira dos planos de saúde ganharem dinheiro, muito dinheiro, e não uma alternativa para casos excepcionais nos quais a mulher não pode dar à luz naturalmente.

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  8. Legal, Bomfim!
    Sempre vi com ressalvas esse imperativo dos partos cesarianos em detrimento dos ditos “partos normais” – não querendo aqui adentrar ou confrontar a competência de julgamento do olhar médico -, antes me pautando nessa permanente disputa dos dados nacionais de uso do procedimento contra as estatísticas de terras outras. Temos que confiar nas recomendações médicas, emitidas por profissionais capacitados a fazê-las, mas os números apresentados sugerem um claro e desmedido exagero na adoção de tal procedimento no Brasil.
    Creio, por outro lado, que o meio médico falha em dois aspectos, relativamente à questão: 1) a propositividade em estimulá-los, quando não necessariamente desejado pelos Pais, e; 2) A falta de diligência em desestimulá-los, nos casos em que Pais o desejem em face de condições clínicas que não o sugiram.

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