“Cumpadi”

Colaborador do blog, o escritor conquistense, residente no Rio de Janeiro, Valterci de Souza Freire, nosso amigo Valter, reaparece para falar de uma das figuras mais interessantes de Vitória da Conquista. “Cumpadi” não fazia mal a ninguém e alegrava a todos. Um pouco da sua vivência está também no livro A Casa que Mora em Mim, de autoria de Fernando Zamilute, e divulgado aqui, no blog. Cumpadi faz parte da História de Conquista!
Cumpadi – na década de 1970 em Vitória da Conquista

“Cumpadi”

 *Valterci de Souza Freire

Ele se referia a todas as pessoas por compadre ou comadre. E ficou conhecido como Cumpadi. Fazia pequenos serviços como capinar terrenos, lascar lenha, tirar água das cisternas (poços artesianos) por qualquer dinheirinho ou um prato de comida. Era simpático, bem-humorado e sorridente. Mas, em compensação, nunca tomou um banho. Mas, estranhamente, não fedia. Portava um chapéu seboso, chinelo de couro, e um embornal de pano. Cumpadi era, mesmo dentro da sujeira, um homem bonito. Cabelo castanho claro liso, com brilho, olhos verdes, nariz afilado, pele clara e boa altura. Tinha uma irmã chamada Pisa na Fulô e outra chamada Maria Garrancho, todas também bonitas e com características iguais ao Cumpadi, inclusive na deficiência mental. Maria Garrancho também não tomava banho e morava com outro maluco chamado Picareta. Nunca me esqueci da forma simples e espontânea como falava “Bom dia, compadre” e estendia a mão que nunca era recusada por quem recebia o cumprimento. Cumpadi foi um daqueles personagens que marcou a vida de muita gente na minha cidade. O nome verdadeiro dele e das irmãs eu nunca soube.  Como lembra nosso amigo Nilton Oliveira, o Nil, sempre que estava na venda de Seu Aristides, na esquina da Rua dos Pratos com Rua Laudiceia Gusmão, sorridente, Cumpadi falava versos: “Eu vou contar um causo da finada sua madrinha que comeu uma banda de boi e 100 litros de farinha e quando foi de madrugada estava empazinada na cozinha”.

Ria de dobrar e continuava: “Eu vou contar um caso da finada sua vó. Em cada banda do nariz cabia 100 litros de pó, daqueles fumo bem ruim, é daquelas medidas maior”. Cumpadi alegrava a venda.

Numa quarta-feira de agosto de 2002, durante o sono, Cumpadi nos deixou. Foi um homem bom, simples, do bem. Mas será sempre o meu, o seu, o nosso Compadre!

*Autor de Três Mulheres Distintas e Encontros na Rua da Lapa

17 pensamentos sobre ““Cumpadi”

  1. Interessante a ideia de traz à luz figuras como Cumpadi. Todas as cidades tem essas figuras, consideradas exóticas por todos, mas que dão vida ao lugar.

  2. Valter amigo, que bom ler o seu comentário sobre a nossa Conquista querida, sobre a minha amada mãe D. Zó. Sou só saudade…

  3. Finalmente saiu essa bela homenagem ao Compadre, Válter.
    Que saudade daquela figura simples e ímpar. Semeava bondade com seus modos.
    Nunca ouvi sobre a sua partida, que certamente já aconteceu.
    Ao ver sua foto fui tomado de emoção e melancolia, mas, foi muito bom ainda assim!
    Abração a você e a todos os nossos queridos vizinhos e amigos da nossa Conquista!!!
    Valeu pela publicação, Bomfim!
    Abraços!!

    • E ainda faltam homenagens à Vitoria, Medonho, o Velho do Cabelão, Cafezinho, Adão, Ben-te-vi, Barrão, a Velha Neném, Mocofaia, Lilita, Neu Barrão, Cocão……

      • Valter, inclua na lista Getúlio e Cabeção. E quantas homenagens forem feitas ainda assim serão poucas. Vamos lá, você, Fernando, aguardo os textos.

  4. Lembro muito bem de Cumpadi. Ele quase todos os dias comia no corredor lá da casa da Rua da Conquista. Ele chegava cedo e meu pai (como você conheceu) ia no fogão fazer o prato pra ele, e a minha mãe falava ”Date ninguém nem almoçou ainda” E meu pai ”Você não sabe a última hora que este homem comeu”.

  5. Que bacana!!
    Aqui, em Conquista, tem um restaurante que se chama “Pisa na Fulô “. Será que tem relação com a irmã do “Cumpadi” ?
    Mas acho que uma música do Gonzagão é que inspirou o nome. Não é um nome comum, ao me deparar, não tive como evitar a associação rs. Mas bacana a história do Cumpadi. Essas boas figuras não se encontram mais nos dias atuais…

    • Verdade, Rita, ele trabalhou em muitas casas na Rua da Conquista (ou Rua da Palha). Lembro das casas de D. Zó, D. Marfisa, D. Dulce, D. Dida e tantas outras. Cumpadi era uma figuraça!

      • Como é bom ler sobre Cumpadi e depois os comentários, tanta gente bacana de Conquista, dessa cidade que amo, com todos seus problemas. Muito interessante mesmo. Estão todos de parabéns. Morei na Rua da Conquista quando jovem, lembro bem de todos.

  6. Brown, adoro histórias dessas pessoas simples e pobres, são as mais verdadeiras. Estamos tão acostumados com histórias dos nossos políticos bandidos que quando lemos uma dessa ficamos felizes pela simplicidade da fonte. Abraço irmão. Você sempre trazendo coisas boas no blog.

  7. Que legal, tio! Eu conheci, tenho lembranças de um “cumpadi”. Será o mesmo? “Morava” ali no bairro Iracema. É capaz de ser o mesmo. Digo Iracema, porque a casa ficava próximo de onde morávamos.

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