14 de março de morte: o mundo fica mais pobre em generosidade. Adeus, Sebastião Castro

No Blog do Paulo Nunes é publicado que o médico Sebastião Rodrigues Castro, de 78 anos, sofreu um infarto no final da tarde de terça (13 de fevereiro), foi submetido a um cateterismo e na manhã de quarta-feira, 14, sofreu uma parada cardíaca. Após várias tentativas de reanimação pelo corpo clínico do hospital SAMUR, Dr. Tião veio a óbito. Sebastião Rodrigues Castro nasceu em 20 de janeiro de 1940, em Ribeira do Pombal, e foi trazido pela família para morar em Vitória da Conquista em 1947. Ortopedista e traumatologista, Tião formou-se na Faculdade de Medicina da UFBA, em 1965. Em 1967, ele passou a trabalhar em Vitória da Conquista, na Santa Casa de Misericórdia onde, junto com Jadiel Matos e outros médicos idealizaram a construção do hospital SAMUR. Em 1971, o SAMUR foi inaugurado. Mesmo aos 78 anos, Tião como era carinhosamente chamado, trabalhava todos os dias. Sebastião Castro disputou três eleições para prefeito em Conquista, sendo a última em 1988. Foi eleito deputado estadual por duas, sendo líder da bancada da situação do governador Nilo Coelho, em 1990, com quem compôs a chapa como candidato a vice-governador. Sebastião Castro, que conseguia ler três livros ao mesmo tempo, embora adversário político de José Pedral (ex-prefeito de Conquista), era também seu médico. Pura civilidade.

Dr. Tião operou meu braço esquerdo (de José Bomfim, o Bomfimbrown deste blog) em 1971, período em que foi meu professor de Biologia no Colégio Batista Conquistense. No anos 1990, então deputado e líder da situação, foi por mim – na época jornalista de política em A TARDE – entrevistado várias vezes. Um privilégio ter convivido com figura tão pacífica e civilizada.

Leia a excelente crônica do jornalista, amigo-irmão, Paulo Bina:

Tião Castro foi o parlamentar melhor intencionado que conheci em 30 anos de ALBA. Desculpe o trocadilho, era sebastianista. Gostava de ver acontecer, nunca se limitando a permanecer passivo, à base de discurso, conciliábulos, ou acertos partidários de bastidores.

Colocava a mão na massa incansável. Também sempre preocupado com o porvir, com a história – sobre o quê ficaria de cada um para as próximas gerações. Afinal como os novos saberiam quem eram aquelas 63 pessoas? O que pensavam, fizeram? Qual o legado?

Secretário geral da Constituinte, líder da oposição contra o forte governo de ACM foi um exemplo de praticidade e competência. Show de bola, a que se somou a correção absoluta. A toda prova.

Chegou rico, otimista e cheio de ideias novas numa Casa talhada para o imobilismo, para não funcionar… Ou melhor, funcionar quando interessar ao governo de plantão.

Tião estava sempre em ebulição. O belo título da biografia do conterrâneo de vocês (conquistenses), “Gláuber Esse Vulcão”, de Júlio Lobo, excelente livro, não permitiu que a máquina de moer biografias o atingisse.

Saiu imaculado, de cabeça erguida, bem mais pobre do que oito anos antes, quando na chegada ao Legislativo meteu a mão no bolso e comprou seu micro (enorme, monitor com tela de letras verdes, sem imagens), e alugou enorme máquina de xerox fugindo da ridícula cota de 100 cópias mensais – depois 400.

Luis Cabral foi o pioneiro na informatização do gabinete, também comprando sua máquina, cara prá caramba a época.

Quase não tinha espaço nos nove metros quadrados para mesas, cadeiras e as geringonças e a sua equipe: Lucinha, Nágila e Humberto – o vice deputado.

Em quatro anos no primeiro mandato a mesma D20 bege e a Caravan azul da sua querida – e adorável Nevinha.

Não pode sequer trocar de carros.

Pior…Ele só pode mandar e manter em Campinas no segundo grau, depois na Unicamp, – para estudar com nível de excelência – os dois filhos mais velhos.

Os demais se formaram por cá mesmo e Tião penou para pagar escolas particulares numa época em que os deputados ganhavam cerca de U$3mil e pouco.

Sem penduricalhos.

Ele largou de mão do cafezal, fazenda de búfalo, gado, e retiradas no Samur.

Mas saiu do mandato tão altivo como sempre foi e voltou a estudar, se atualizando, para retornar a sua outra vocação, a Medicina que exerceu até o fim da vida com a bondade inata.

Tião Castro era bom, Brown.

Médico humano, que sofria com os pacientes e não fazia mercancia com a dor alheia.

Sempre que estive em Conquista nesses anos todos, em folgas, o procurei para conversar. Bastava um tempo vago e um pulo no Samur.

Certa vez a atendente mandou entrar (ele não quis esperar o fim da consulta)  me deparei com uma senhora idosa sem a blusa, seios de fora, sendo engessada. E Tião conversando rindo daquela maneira cativante dele, na maior naturalidade.

O constrangido fui eu. A velhinha, como a música (horrível) “tava nem aí.”

Na ALBA viajamos muito. Madrugador, muito me fez sofrer com os horários. Também o acompanhei demais a umas sestas depois do almoço. Nunca deu tempo de pregar o olho. Ele deitava e dormia imediatamente, nunca mais de 15 minutos e acordava novinho.

Eu, arrasado com sono atrasado, pois o ritmo era alucinante.

Bela história para uma biografia, a do nosso querido Tião Carreiro Castro, nessa terra tão cruel com a memória.

Por que você não se habilita?

A última vez que encontrei o casal Nevinha/Tião foi há uns três anos. Ela continuava bonita e simpática. Foi numa solenidade pelos 50 anos de formatura na UFBA. Festa grande no Terreiro de Jesus, um primo meu, Zé Carlos, colega de turma de Tião, me avisou que ele estava me procurando aos gritos em meio a centenas de pessoas, quando informado que eu estava por lá.

Conversa rápida, pois os médicos teriam jantar privado no Santo Antônio – mas matamos a saudade e a desolação com o fim ético do PT…

Tião me marcou de forma indelével. Tive algumas vezes o prazer de ir a seu apartamento “comer o pirão da Nevinha” e de recebê-los em casa para cafés com o requeijão feito na hora por dona Lourdes, sogra querida.

A morte inesperada dessa figura querida me chocou. No dia eu estava afastado do trabalho, dor demais na coluna, e já tinha acertado que iria para casa após infusão mensal na clínica – mas fui fazer a inevitável matéria do “luto oficial”…

Pretendia um texto melhor que o geral, mas fracassei.

Queria prestar uma homenagem, um toque pessoal, mas não consegui muita coisa. Saí bem tarde Brown, e tudo que obtive foi um materão enorme com declarações gigantes. O contrário do desejado.

Talvez o choque e o amor por esse cidadão (na melhor acepção desse conceito) excepcional que foi  Sebastião.

Também um bom contador de histórias, casos; político dedicado, competente e bem intencionado… E também amigo a toda prova. Médico humano, pai amoroso, preocupado, bom colega, companheiro de toda a vida da sua Nevinha querida e muito, muito mais.

Estamos hoje mais pobres, e isso não é um mero chavão.

Foi um privilégio ser amigo dele. Só lamento que vocês. Conquistenses, não o tenham tido como prefeito. Como vc sabe ele perdeu três para Pedral Sampaio (nada contra esse símbolo da resistência do Sudoeste, à época), mas bem que ele poderia ter sido batido uma vez, que fosse, não é?

Nilson das Coxas, cunhado do também saudoso Pedro Matos, vaticinava, baixinho no pé de ouvido dos interessados “essa tá no papo…” Quando saía o resultado, com o mesmo sigilo admitia. “Nos lascamos’…

Estou lembrando de estória atrás de estória… Vou tratar de uma:

Na Constituinte, capitaneada por Raimundo Caires (creio) foi liberado no primeiro turno de votação o jogo em estâncias hidrotermais e outros locais restritos – caiu no segundo turno, por inconstitucionalidade…

Mas, no jornal da Constituinte, o “Plenário” – em que você colaborou -, nós encontramos e, conseguimos cópia, no Jornal da Bahia, foto de uma roleta.

Decidi, com Jadson e Irecê, esquentar a edição – jornalisticamente, demais, como se verá – o house organ com 30 mil exemplares de uma casa política plural.

Colocamos essa imagem tomando quase toda primeira página com um título frio: “Jogo Aprovado na Assembleia”; e um apoio forte: “Senhores Deputados Façam suas Apostas”…

Deu jegue!

Uma lista com quase 30 assinaturas chegou no mesmo dia à secretaria geral e Tião mentiu com categoria, cara limpa, nariz de Pinóquio, vermelho, na maior.

Assumiu a responsabilidade, alegando que tinha eu tinha lhe apresentando aquela página (o que não aconteceu antes ou depois) e ele não só autorizara, como gostou muito.

A turma queixosa perdeu o mote.

Quando o grupo saiu, berrou do primeiro subsolo um Biiinnnnaaaa tão alto que quase escuto do segundo andar.

Na conversa veemente que tivemos, a ameaça de não proteger mais ninguém, etc e tal, se aquilo voltasse a ocorrer (como aconteceu).

Depois me abraçou, sorriso maroto e a confissão no pé do ouvido – ficou porreta. E fomos comer no bar do Zito, um sujinho da Sussuarana, agora intragável comida a quilo perto da Justiça Federal.

Mas outra capa, fria, foi impressa e distribuída.

Tião Castro era um bom Brown. Terei, sempre, saudade.

Muito a lembrar, mas digitar nessas merdas de celular é um saco, estou cansado.

Fico por aqui, com minhas boas lembranças, daquele que Brecht considerava como imprescindível.

Abraço.

P.S Foi a ele que logo recorri, quando numa triste madrugada um enfarte levou minha mãe que chegou morta na clínica Eco, na Manoel Dias da Silva.

Acordei Tião atrás de um atestado de óbito para evitar o trauma da autópsia. Ele suspendera o registro profissional para exercer o mandato, mas acordou um colega  (não recordo o nome) que me fez esse enorme favor. Às sete da manhã, no Aristides Maltez, obtive o documento e pude sepultar minha querida Aldinha em paz.

Abração apertado querido irmão.

Sebastião Castro, na inauguração do Samur, entre Josué Figueira – de óculos escuros – e o ex-prefeito Nilton Gonçalves, em 1971 – http://www.blogdopaulonunes.com/v4/?p=27276

Leia também a crônica de Ruy Medeiros no Blog do Paulo Nunes

Tião: pelo maior cronista da História do Sertão da Ressaca

Em 1973, conheci Sebastião Rodrigues Castro, Tião. Eu havia sido convidado para ser Procurador Jurídico do Município de por Jadiel Matos, Prefeito eleito com ampla margem de votos, e ele, como era de esperar- se, foi convocado para ser Secretário Municipal de Saúde. Demonstrou, desde os primeiros dias, capacidade de administrar, liderar e ser possuidor de grande capacidade de perceber o lado político das situações enfrentadas.
Com poucos recursos, realizou excelente gestão à frente da Secretaria Municipal de Saúde e ai contou com a valiosa colaboração de Josué Figueira. Mostrou logo a que vinha: conseguiu que a administração adquirisse duas unidades móveis de saúde, uma médica e outra, odontológica, com as quais levava atendimento à zona rural e às escolas.
Tião foi o principal assessor de Jadiel Matos, mas sabia respeitar a decisão coletiva e gostava de amadurecer as discussões.
Quando da luta pela sucessão da bem sucedida administração de Jadiel, aceitava uma candidatura de consenso entre os grupos do MDB, mas isso tendo ficado inviável não teve dúvidas em pleitear sua candidatura. Em convenção partidária, obteve maioria de votos, porém Raul Ferraz obteve-os em número suficiente para ser candidato e o MDB, como era possível na época, concorreu com dois candidatos: Tião e Raul. Raul sagrou- se vitorioso e foi Prefeito.
Sebastião disputaria o cargo por mais duas vezes, sem sucesso. Em 1978, comigo e outros, criamos o Semanário o Fifó, que pretendia ser um jornal alternativo que chegasse a adotar um discurso e esquerda. Mais da metade das edições de o Fifó foram redigidas e planejadas em sua residência, em tempo que ele roubava da medicina e de sua família. Nevinha, sua esposa, recebia-nos, a mim, ao “datilógrafo” Hélio Gusmão, e a outros que, ás vezes apareciam com solidariedade. O Fifó sobreviveu por 15 edições e Tião foi responsável por alguns artigos e geralmente discutia comigo os editoriais.
Por duas vezes Deputado Estadual, numa das quais foi líder de Governo, Tião inaugurou seu mandato com um pequeno estudo sobre a Região Sudoeste ( denominação administrativa) , muito bem elaborado.
Embora tendo-se afastado de disputas como candidato, nunca deixou a política, nem fez desta núcleo para criar inimigos. Eu mesmo, que passei a militar em outro partido e José Pedral, que fora seu adversário dentro de MDB e, depois, em outras siglas, sempre mantivemos com Tião laços de amizade. Dele, José Pedral recebeu toda atenção nos tempos últimos de sua vida. Continuou lúcido, inteligente, preocupado com esposa e filhos, com os quais dividia sua amizade com a terra e povo que um dia o receberam vindo de Ribeira do Pombal com os pais.
É uma vida que merece respeito e gratidão da maioria de todos nós, mesmo os que divergimos de posições politicas que se foram formando durante o recuo do governo dos generais e contra esse, um das quais ele adotou, enquanto outros preferiram caminho mais a esquerda e outros mais houvessem se distanciado da defesa dos preceitos democráticos.
Meu abraço forte a Nevinha, aos filhos de Tião e aos muitíssimos amigos que ele deixou.

Ruy Medeiros

Um pensamento sobre “14 de março de morte: o mundo fica mais pobre em generosidade. Adeus, Sebastião Castro

  1. Meus sinceros pêsames, atrasados, à família. Dr. Tião é um ser maravilhoso, foi um médico que não tinha hora para atender seus pacientes, fossem ricos ou pobres. Obrigado, Dr. Tião, o senhor foi também um político honesto, coisa rara nesse país.

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