Adeus, Moreira

O blog sente-se prestigiado com a colaboração do amigo Nestor Mendes Júnior, jornalista e advogado. Ele fez o belíssimo texto, abaixo, sobre Antônio Moreira da Silva, o Moreira, que partiu para outra dimensão terça-feira, 2 de janeiro de 2018.

 

ADEUS, MOREIRA

Nestor Mendes Jr.

Antônio Moreira – foto Andréa Farias – Arquivo Correio

Antonio Moreira da Silva, o Moreira, partiu ontem, aos 72 anos, da Bahia para um outro porto, de outra dimensão. Foi-se mais um pedaço da velha cidade da Bahia inzoneira, sestrosa, poética, cayminiana e amadiana. Dessa cidade ainda guardada nos cartões do Tempostal, nos sambas de Batatinha e Edil Pacheco, nos textos de Tasso Franco e Jolivaldo Freitas, na poesia de Florisvaldo Mattos e no espírito dos baianos que ainda fazem questão de se manter gentis e hospitaleiros.

Com o seu irmão Chico, sucedeu ao pai, Moreira, no restaurante “Casa de pasto e espírito Porto do Moreira”, a princípio no Mucambinho e, por último, no Largo das Flores. Mais do que um espaço gastronômico, de delícias por Deus esculturadas, o Porto do Moreira é uma espécie de mistura de Senado com Casa de Tolerância – embora aquele não faça justiça à decência desta.

“Senadores” discutem ali a poluição do planeta, as querelas entre o prefeito e o governador, a contratação do treinador do Bahia, a gravidez de Ivete, o último chifre dado de “com força” em uma cabeça coroada – com o perdão do trocadilho. Tolerância em homenagem às putas – musas da predileção de Moreira – e para destacar a diversidade de sexos, raças, classes sociais, religiões e ideologias dos que frequentam o Moreira.

Carlistas, waldiristas, petistas, xiitas, coxinhas, devotos, ateus, crentes, letrados, iletrados. Do repasto do Moreira servem-se todos.

Jorge Amado, Glauber Rocha, João Carlos Teixeira Gomes, Ary da Mata, Jorge Portugal, Florisvaldo Mattos, Humbertinho Sampaio, James Correia, Dultra Cintra, Paolo Marconi, Edil Pacheco, Alberto Freitas, João Paulo Costa, Paulo Gaudenzi, Cristóvão Rios, Tasso Franco, Carlos Navarro, Alberto Oliveira, Armando Lemos, Roque Mendes, Benito Gama, Paulo Bina, Jorge Ramos, Gerson Gabrielli, Zé Américo Moreira da Silva, Washington Souza Filho, Fernando Vita, Valmar Hupsel, Marco Hulk, Roberval Foca Luânia, Vicente Pinga, Manoel Castro, Getúlio Soares, Fernando Santana, Carlos Coqueijo, Isidro do Amaral Duarte, Antonio Menezes Filho. A lista é longa. E interminável…

Caetano Veloso gosta da “Moqueca de Miolo”, para relembrar Dona Canô; Carlos Libório degusta o “Carneiro Assado”; o ministro Peçanha Martins devorava a “Galinha ao Molho Pardo”.

Mas tolerância, especialmente, era o que Moreira não possuía. Contrariava, sem pudor, a regra básica do comércio: “o freguês tem sempre razão”. Ali, nunca! Quando a casa estava cheia, ele ficava indócil. Quando alguém reclamava da conta, ele bufava. E por tudo isso – e acho que até por causa disso – todos o adoravam. Nós o amávamos.

A Ian, meu filho, ainda pequeno, em companhia de meu afilhado Tassinho, ensinei a perturbá-lo com a provocação “Moreira, ladrão!”. Ele ria, até que um dia fez um discurso no restaurante: “Eu não sou ladrão! Sou comerciante, mas todo comerciante é ladrão”…

Era assim Antonio Moreira, que sabia todas as fofocas – dos palácios e do submundo. Um coração gigantesco, maternal, mas que gostava de uma pilhéria, de uma provocação, de uma boa discussão.

Capaz de parar na CardioPulmonar por causa de uma querela a respeito do preço do Cointreau, mas que não deixava ninguém pagar um centavo quando fazíamos uma farra com ele fora do Porto.

Meu coração está mais vazio. Vou continuar indo ao Porto do Moreira comer uma “Rabada” ou uma “Moqueca de Carne”, mas naquela mesa – da “Diretoria” – estará faltando ele, como no samba de Sérgio Bittencourt, imortalizado por Nelson Gonçalves: “Naquela mesa tá faltando ele/e a saudade dele tá doendo em mim”. 

Adeus, Moreira. E muito obrigado!    

Antônio Moreira – II – foto Andréa Farias – Arquivo Correio

 

Carminho canta “Sabiá”, de Chico Buarque & Tom Jobim, em homenagem ao mais português dos baianos: Antonio Moreira da Silva, o nosso inigualável Moreira (1946-2018), que ontem (02/01/2018) nos deixou, rumo a outro porto. Nestor Mendes Jr.

Leia no Correio:

Morre Antônio Moreira, dono do restaurante Porto do Moreira

‘Memorável figura’: amigos lamentam perda de Antônio Moreira

14 pensamentos sobre “Adeus, Moreira

  1. Comecei a ir no Porto do Moreira com meu pai, depois com amigos. Faz parte da minha história. E o Moreira era maravilhoso. Que fique em paz.

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  2. Fui algumas vezes no Porto do Moreira. Bom lugar para bater-papo e almoçar e atendimento ótimo. Uma pena essa morte, mas é o processo da vida.

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  3. Nossa, Nestor, quantas lembranças vc me trouxe. Inclusive pq a última vez que estive no Moreira foi com vc, após visita a nosso amigo Sinval, outro frequentador constante daquele Porto. Minha preferência e de Joana D’arck sempre foi a moqueca de miolo com zoião (ovos), delícia das delícias, concordo com Caetano. Quantas farras terminavam com o inesquecível “Moreira, ladrão”, puxado por Araka por causa do preço do Contreau. A mesa da cúpula nunca mais será a mesma, mas temos que voltar lá e continuar brindando “Moreira, ladrão”. Parabéns pelo texto, amigo

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