Nivaldo Santos Souza, o guerreiro Bozim

O ano era 1977. A Residência de Estudantes de Conquista localizava-se em Nazaré, na Rua Inácio Tosta, vizinha ao Touring Club. Abrigava estudantes secundaristas (cursando o 3º ano) e universitários. A entidade institucional era o Centro de Estudantes Universitários e Secundaristas de Conquista (CEUSC). Clique e veja o vídeo do 25º aniversário de fundação do CEUSC.

A REC, comumente, recebia outros conquistenses para visitas ou pequenas estadias. Um deles foi Nivaldo, no auge dos seus 22 anos, ingênuo, alegre e curioso, vendo tudo como novidade, como quase todos nós quando chegávamos à capital naquela época. Leonel Fonseca, um dos gozadores da residência, logo apelidou o visitante por Bozim, diminuitivo de Bozó, um personagem de Chico Anísio, que fazia grande sucesso na TV.

Desde então, firmamos laços de amizade e nos encontros em Conquista saíamos todos juntos. A época era de ditadura militar, instaurada em 1964. Os chamados anos de chumbo. O CEUSC era uma das instituições mais resistentes ao regime militar.

Em 1979, começou a movimentação para criação do Partido dos Trabalhadores. A onda vinda de São Bernardo (SP) tendo José Dirceu como principal mentor intelectual e um metalúrgico chamado Luís Inácio da Silva, com um carisma que atraía a atenção da massa de trabalhadores e dos militares, levou aqueles jovens do CEUSC a serem protagonistas na história.

A REC passou a ter novo endereço, em 1981 – Praça José de Alencar, no Pelourinho – mas a luta continuou a mesma. Os meninos já não eram tão ingênuos assim, principalmente depois de tanto enfrentamento contra a repressão policial nas ruas de Salvador. Estudantes da casa foram baleados e outros ameaçados, além de agredidos e presos, nesse período. Mais “cascudos” viam na construção de um partido dos trabalhadores a importância para enfraquecer a ditadura militar.

Um dos panfletos produzidos por nós em 1980

Era na casa de Bozim e Gilda, em Conquista, que fazíamos as primeiras e secretas reuniões de fundação do partido. Era lá que ouvíamos as músicas mais identificadas na luta contra a ditadura militar, era lá que sonhávamos o sonho de libertação do país. Liderados por Jersulino Binho (que depois da redemocratização tornou-se deputado estadual e, infelizmente, morreu jovem em 2001), estavam Luciano Popó, Paulo Preto, Fernando Zamilute, Bomfim Brown, Damião Mesa, Erivaldo (que chamávamos de Perivaldo), Grimoaldo Valverde (nosso Caculé, que morreu há dois anos), César Frenético, Lito, Zélio, Carlos Luna, César Barrocas e outros; as jovens Ivone Garcez, Cesarina, Alba, Mércia, Cristina, Sandra, Alda, Vitória Régia, Janete, Eliana, Elvira e outras.

Com muita dificuldade e a ajuda de comerciantes conseguimos alugar um pequeno imóvel, primeira sede do PT, na Rua do Triunfo. Era ali que fazíamos jornais e panfletos e enfrentávamos a ira de quem menos esperávamos. Gente que se postava à esquerda vandalizava a nossa sede, riscando paredes e atirando pedras na janela do imóvel.

Em 1982, na eleição municipal de Conquista, lançamos Nivaldo Bozim como primeiro candidato a vereador pelo PT (em recente pesquisa, vi que os que aderiram ao PT e se tornaram governo, omitiram essa parte da história). O número de votos foi alto para nossas expectativas, mas insuficiente para conquistarmos uma cadeira na Câmara Municipal de Conquista. Mas, definitivamente, estavam demarcadas ali, naquele instante, mudanças jamais imaginadas pela elite político-econômica que dominava o município.

Na época, apesar de tudo de ruim em termos de falta de liberdade política, o ódio por adversários de urnas não existia, como se vê na atualidade. Declaração de Gildeni, irmão de Gilda, esclarece bem a situação: “Tínhamos na família outro candidato, além de Nivaldo. Meu pai também se candidatou a vereador, só que pela Arena. No entanto, meu pai pedia voto pra Nivaldo. Todos tínhamos orgulho dele ser o primeiro candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores em Conquista”.

Nivaldo com Lula, em encontro sindical

 

Depois da eleição, Bozim se destacou no sindicato dos eletricitários, participando ativamente de congressos e outros eventos pelo Brasil. Era querido por todos os colegas. Foi muito atuante em defesa dos direitos dos trabalhadores.

No dia 3 de outubro de 2017, Marília, filha de Paulo, manda mensagem falando da morte de Nivaldo. Quando a pessoa está doente, de alguma forma nos preparamos para a notícia do fim. Mas como absorver uma notícia quando a pessoa está num momento de recuperação plena?  

Dylan Thomas (E a morte perderá o seu domínio…).

Há 4 anos, Bozim e Gilda perderam um filho adolescente (16 anos) para a violência urbana, assassinado numa festa. A depressão pegou firme o casal.

Há algum tempo, seguindo aconselhamento médico, Bozim pedalava, na busca por melhoria na forma física e clínica. Estava bem de saúde.

O casal voltara a sorrir desde setembro de 2017, quando nasceu Ágatha, a primeira neta, filha do filho mais velho. Tudo indicava que a alegria voltaria à família.  

Procurei os blogs conquistenses para saber mais detalhes do recado de Paulo. As notícias iniciais falavam que um carro bateu na bicicleta que Bozim pedalava. Ele caiu, mas teria se levantado, ido para casa, tomado banho e aí sentiu algumas dores, pegou um táxi, foi para um hospital e lá não demorou no atendimento, falecendo rapidamente.

Depois do sepultamento, a família procurou o táxi utilizado por Bozim (olharam no celular e viram a chamada) e o taxista repetiu o que ouviu do próprio Nivaldo, enquanto o carro se deslocava para o hospital.

Gildeni, que tanto colaborou na produção dessa homenagem ao nosso Bozim, é quem relata: “Nivaldo tinha feito uma bateria de exames e deu tudo normal, as taxas baixas de colesterol, triglicerídes, glicemia, tudo estava bem. Ele tinha parado de beber já fazia mais de 4 anos, não tinha mais barriga grande, a aparência estava ótima. E pedalava todos os dias 40 km. Neste dia 6 de outubro ele pedalava na Avenida Brumado, perto da casa  dele, na ciclovia, e um casal na frente dele, também de bicicleta,  o fechou e ele caiu, sofreu ferimentos no joelho, cotovelos e nos quadris, e levou uma pancada nas costelas, do lado esquerdo. Isto resultou num coágulo, que fechou a veia do coração, segundo o médico, e causou o  tamponamento cardíaco, e ele faleceu”.

E assim, mais uma vez, a história é interrompida de forma brusca, estúpida, deixando-nos perplexos. No dia 14 de outubro Nivaldo e Gilda completariam 39 anos de casamento.

Mais abaixo você vê fotos de Nivaldo em vários momentos da sua gloriosa vida. Quando criança, em festas de carnaval em clube de Conquista, no teatro – sempre ao lado de sua amada Gilda – na peça O Amor, no casamento, e mais recentemente.

 

Peça de teatro “O Amor”  

     

Na foto abaixo, parte da turma no quintal da casa de dona Almerinda Rodrigues de Oliveira, a dona Mera (senhora em pé, de vestido comprido e lenço na cabeça), mãe de Bomfim Brown, em 5 de novembro de 1980. É uma foto que representa muito para aqueles que viveram os momentos descritos acima. Além de dona Mera, já deixaram esse mundo: Perivaldo, em pé à direita; e agora Nivaldo Bozim, em pé, segurando um copo, no centro da foto.

 

As palavras são inúteis nos momentos em que entes queridos partem. Tentamos por todos os meios fazer homenagens, mostrar que, sim, foi relevante, sua vinda ao planeta, construíamos coisas boas que ficarão marcadas para sempre na memória de todos aqueles que conviveram com você, querido Nivaldo Bozim!

26 pensamentos sobre “Nivaldo Santos Souza, o guerreiro Bozim

  1. Lembro bem do Bozim. Gente boa. Tempos difíceis aqueles, mas havia uma solidariedade grande entre estudantes e não estudantes que habitavam a REC. Brown, escreva um livro sobre aquele período.

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    • Companheiro Teta, há quanto tempo.

      Mais uma ótima ação do nosso inesquecível Bozim. Depois de Tedy e Adelias, o blog tem a honra de contar com sua presença, caro Teta.
      Nossas saudosas Eras permanecerão sempre em nossa memória!
      Abraços!
      Lembranças à família.
      Brown

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  2. Brown, bela homenagem. Sou da geração anterior e sofri, mais ainda, os terrores dos anos de chumbo. Vejo um pouco de minha biografia na biografia do Nivaldo. Que não conheci. Dos citados apenas conheci, pelo que me lembro, de você, do Zamilute e da bela Elvira. Descanse em paz, Nivaldo e aqueles que decepcionaram o país sejam devidamente castigados.

    E que bom ver D. Almerinda, sempre charmosa e elegante, a mesma imagem que guardo da minha infância.

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    • Valter, é ótimo, é enriquecedor, tê-lo nesse blog. Mesmo que em comentários rápidos, mas sua presença faz o blog brilhar. Obrigado, obrigado pelas palavras inteligentes e pontuais.
      Obrigado pelo elogio a querida D. Almerinda.
      Abraços
      Brown

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  3. Caro Bomfim,

    Foi com imensa tristeza que recebi, lhe tendo por fonte, a notícia da morte do nosso Querido Nivaldo.
    O soco que lhe destrói por completo, ao corpo e à alma; a terrível notícia que não haveríamos de dar, nem receber, nos casos em que pessoas pelas quais tenhamos apreço estejam envolvidas; uma renovação do martírio que vem alcançando com muito mais frequência aos da nossa faixa etária. Não imaginava que, em relação ao Nivaldo, fosse em mim causar tanto impacto, posto muito pouco nos vermos nos últimos anos. Em realidade, a última vez que o vi, pessoalmente, foi quando eu e minha Esposa visitamos o casal, após a violenta tragédia que lhes subtraiu o Filho mais novo. Estavam destroçados, como agora estão a Esposa Gilda e seu outro Filho.
    Ao revés do que sugere a racionalidade, no entanto, senti! Senti, e muito, o impacto da notícia!
    Gostaria, no entanto, fugindo um pouco à história de vida política do nosso Amigo – que nos foi comum em boa parte do trajeto -, de lembrar os primeiros contatos com ele mantidos, quando, moradores que éramos da REC, tínhamos a ele, o Nivaldo, como visita ilustre, remunerada – pois era entre os de nossa turma o único trabalhador, de fato -, dotada de veículo que nos levava a umas festinhas aqui, ou acolá, durante suas idas a Salvador. Era uma festa, em si, a tão só chegada de Bozim à capital da Província. Havia um genuíno apreço a permear o nosso relacionamento, em face do qual era real o carinho que por nós ele nutria e, por igual motivo, real também o carinho que tínhamos para com ele.
    A vida nos separa os corpos mas mantém intacta a afetuosidade. Isso eu senti, e tantas outras vezes tenho sentido em relação aos nossos contemporâneos de trajetória que se apressaram em partir. Tocaram nossas almas, e nelas deixaram suas impressões profundas, inafastáveis, intensas, carinhosas… permanentes!!!
    Quanto podemos de melhor lhes desejar? Que partam em paz, que lhes acolham os que lhes precederam, que sejam encorajados os que aqui ficaram e, ludicamente, que possa o nosso Querido Bozim fazer os seus zilhares de quilômetros de pedalada que tanto lhe davam felicidade. E que, sobejando as possibilidades em relação às crenças pessoais que possamos ter, promova ele uma bela reunião com o Peri da Pituba, e o Popó, e o Cacula… bem assim como fazíamos ao brincar de fazer política em nossa adolescência.

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    • Adelias, obrigado por prestigiar esta homenagem. É com alegria, graças ao nosso Bozim, que encontro você e Tedy aqui, no espaço virtual.
      Abraços!
      Lembranças à família.
      Bomfim Brown

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  4. Bela história daqueles que, em certos idos, lutaram contra a ditadura. Binho, no entanto, logo mudou de lado, pois eleito deputado estadual pelo PMDB assumiu a presidência da Emater-Ba, aonde foi algoz de muitos funcionários, eu inclusive, a serviço do governo direitista de Nilo Coelho. Felizmente, ele caiu do cargo e muitos puderam retornar ao trabalho. Creio que sua ação negativa foi responsável pelo estresse de que foi vítima culminando na morte prematura. Salve Bozim!

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  5. Que linda homenagem um amigo poderia receber!!! Sua pagina relatou muito amor. Parabéns.
    Cresci com seu Nivaldo, o seu Nivas, vascaíno apaixonado e um grande pai, marido e amigo. Sentiremos muita saudades.

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  6. Li agora sobre o seu amigo Nivaldo e a estupidez da morte que veio do nada.
    Tocante esta homenagem Bonfa.
    Um sujeito daqueles que Brecht dizia serem os imprescindíveis. E comum como eu você, Binho e Irecê.
    Só desejamos viver nossas vidas sem fazer mal a ninguém e ajudar a construção de uma outra pátria, solidária e justa – um lugar melhor para viver, criar filhos, netos…
    Deu no que deu!

    Trapaça, engodo, ladroeira, incompetência e equívoco.
    Equívoco na escolha do caminho para o progresso com justiça social – que o mercado JAMAIS proporcionará.
    E que a fossilização das ideias do século XIX, mesmo depois do malogro soviético, impediu o surgimento de uma terceira opção – quem sabe viável.

    Não sei como o conquistense Nivaldo encarou o fim de uma utopia. Da nossa utopia e a falta de ideias para seguir.
    Mas com certeza ele não coonestaria com o quadro de desolação trazido a lume no mensalão, Lava Jato e seus filhotes.
    Parabéns a Perivaldo, Nivaldo, Irecê, Binho e também a nós dois.
    Abs

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    • Paulo Bina, muito sensato seu comentário. É triste ver um partido e seus membros nascidos com esperança e ética estarem hoje nas páginas policiais. Foda!

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