Henrique e Carioca, dois ídolos esquecidos

Colaborador do blog, o jornalista e delegado de Polícia Antônio Matos* fala da efemeridade da idolatria no futebol. Particularmente, de Henrique e Carioca, que alegraram a torcida do Bahia e hoje sequer são citados quando se fala em conquistas do chamado “Tricolor de Aço”. Vamos ao texto.

 

Meio desengonçado nos seus quase dois metros, o zagueiro de área Henrique, revelação do campeonato carioca de 1956 pela Associação Atlética Portuguesa, chegou a Salvador em janeiro de 1957, juntamente com o volante Joe, também da Portuguesa, por indicação do treinador Lourival Lorenzi, o ‘Mariposa’. 

O ‘Gigante de Ébano’, apelido cunhado pelo consagrado radialista baiano Carlos Lima, numa referência a cor e ao seu tamanho, era  quase imbatível pelo alto e tinha um bom desarme no chão. Nascido em 30 de agosto de 1933, o carioca Henricão se distinguia pela lealdade, jamais utilizando o porte físico para intimidar os adversários.

Para que os torcedores mais novos tenham ideia de quem se tratava, ele lembrava, por ser negro e alto e pelos poucos recursos técnicos que dispunha, os também zagueiros tricolores Advaldo, o ‘NBA’ (1994), e Rafael Donato (2012/2013). Possuía, entretanto, uma garra incomum e um futebol melhor do que os dois juntos.

Na I Taça Brasil, machucado e afastado dos gramados por mais de 70 dias, só entrou no time a partir do primeiro jogo contra o Sport, na Fonte Nova. Na partida decisiva contra os pernambucanos, foi um dos destaques, marcando implacavelmente o perigoso centroavante Osvaldo, artilheiro do Sport, com quatro gols, nos dois primeiros compromissos diante do Bahia.

Formou dupla de zaga com inúmeros companheiros dos mais diversos estilos, a exemplo de Bacamarte, do lendário Juvenal Amarijo, Vicente, Pinheiro, Russo, Gonzaga, Ivan, Pepeu, Hílton, Thiago, Dario e até com a então jovem promessa Roberto Rebouças.

Sob o comando do folclórico treinador Pedrinho Rodrigues, atuou pela Seleção Brasileira, representada por jogadores em atividade no futebol baiano, contra o Chile, em 1957, pela segunda edição da Taça Bernardo O’Higgins. Ficou no primeiro jogo na reserva de Valder, do Fluminense de Feira, substituindo-o no decorrer da partida. No segundo compromisso, já era titular.

Sofrendo de Alzheimer, Henricão atualmente mora no Rio, para onde retornou em maio de 1967, após encerrar a carreira em meio a um sério desentendimento com o presidente Osório Villas-Boas.

Carioca

Embora mineiro de Ponte Nova, José Paulo de Souza, ponta esquerda inteligente e driblador, era conhecido como Carioca. Participou dos dois primeiros jogos (Bahia 5 x CSA 0, no Mutange, e Bahia 2 x CSA 0, na Fonte Nova) na campanha do time baiano na Taça Brasil de 1959 e foi dele, aos 20 minutos do segundo tempo, o terceiro gol no chocolate aplicado à equipe alagoana, em Maceió.

Revelado pelo Sete de Setembro (Belo Horizonte) e com apenas 22 anos, teve, em maio de 1959, o passe adquirido a peso de ouro ao Cruzeiro. Uma memorável partida, com direito a ‘baile’ no marcador Leone, num jogo diante do Bahia em Salvador, foi o suficiente para os dirigentes baianos abrirem o cofre e desembolsassem Cr$ 250 mil: Cr$ 150 mil à vista e Cr$ 100 mil equivalentes a renda de um amistoso com o próprio Cruzeiro, na Fonte Nova.

Carioca chegava para ser titular da extrema esquerda, mas uma discussão com o dirigente Benedito Borges mudou seu destino. Transtornado, alegando saudades da família e doença da mulher, voltou – por conta própria e com apenas quatro meses de clube – para Belo Horizonte.

Como a legislação esportiva da época, lastreada em conservadoras resoluções da Confederação Nacional de Desportos (CND), era muito pouco protetiva para os jogadores, o jovem rebelde Carioca teve o contrato suspenso e jamais conseguiu o atestado liberatório.

O Bahia exigia que ele devolvesse os Cr$ 100 mil que recebera de luvas e, como isto não aconteceu, foi obrigado a encerrar precocemente as atividades profissionais como atleta.

Filho de um motorista de táxi e com muito tino comercial, teve um restaurante na capital mineira, chamado ‘Recanto da Bahia’, com a cozinha dirigida por pessoas recrutadas em Salvador. Em seguida, esteve à frente de postos de gasolina e, também ligado a setor hoteleiro, chegou a comandar uma rede de motéis.

Embora com um agressivo glaucoma, que lhe reduziu bastante a visão, continuou trabalhando até que um câncer de pâncreas lhe tirou a vida em junho de 2015.
Dentre outras coisas, os filhos de Henricão se queixam que ele, ainda lúcido, não foi convidado para participar do filme ‘Bahêa Minha Vida’, que registrou depoimentos de Nadinho, Leone, Vicente, Marito e Léo, seus companheiros de jornada na I Taça Brasil.

Apesar de apenas dois jogos e de um gol naquela competição, Carioca legitimamente sempre reivindicou o título nacional. Reclamava de ser esquecido nas diversas comemorações promovidas pela conquista da TB/59 e lastimava não ter uma foto sequer com a camisa tricolor. “O Bahia vem, pelo menos, uma vez por ano a BH e ninguém me procura. Acho que o pessoal pensa que eu não integrei aquele elenco campeão”, lamentava.

Em 29 de março de 2017, faz 57 anos em que o capitão Beto levantou, no Maracanã, o troféu de campeão brasileiro de 1959, após uma indiscutível vitória do Bahia sobre o Santos, por 3 x 1. Em relação a Carioca isto já não é mais possível, mas ainda é tempo de se homenagear em vida Henrique.

*Antônio Matos, jornalista e delegado de Polícia, está finalizando o livro ‘Heróis de 59’, sobre a conquista pelo Bahia da I Taça Brasil.

Veja também:

Taça Brasil de 1959

Um pensamento sobre “Henrique e Carioca, dois ídolos esquecidos

  1. É assim o mundo do futebol, enquanto dão o sangue e geram renda os jogadores são importantes, depois os dirigentes e parte da torcida nem se lembram deles.

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