Carlinhos The Beatles

Carlinhos The Beatles

Carlinhos The Beatles

Na minha época de criança em Vitória da Conquista, meu primeiro contato com a música dos Beatles foi com um garoto mais velho, que andava com o vinil do grupo de Liverpool embaixo do braço, em busca de uma vitrola para mostrar seu achado à garotada. E, assim, Carlinhos tornou-se o Carlinhos The Beatles.

Segunda-feira, 3, o amigo Fernando Zamilute (autor de A Casa que Mora em Mim) e minha irmã Maria da Glória (que organiza bibliotecas em centros espíritas) mandaram, por e-mail, a notícia que estava sendo “velado na Capelinha do São Vicente, o corpo de Carlos Augusto Félix de Araújo, de 64 anos”. O link do Blog do Anderson completava: “Morador da Rua do Alecrim, Carlinhos D´Bitus veio a óbito no Hospital São Vicente de Paula onde estava internado. O sepultamento acontece logo mais às 10 horas desta segunda-feira (3), no Cemitério da Saudade”.

No mesmo dia, mais tarde, Valterci Freire, nosso amigo Válter (autor de Pratos no Céu) envia a ótima crônica que o blog publica a seguir. Carlinhos The Beatles está agora no time que conversa alegremente, como o descrito por Válter no cinematográfico conto Pratos no Céu.

O menino e o sorriso da morte

Por Válter Freire

O dia estava bonito, céu claro, sol fraco e brilhante naquela manhã. Eu estava nos braços de meu pai, que andou e direção à casa verde, com portas e janelas também verdes, porém com tonalidades diferentes. O movimento naquela casa estava grande. Muitas pessoas se aglomeravam em frente da casa. A calçada de cimento liso onde as crianças brincavam estava cheia de mulheres que falavam baixinho uma com as outras. Algumas choravam, outras lastimavam. Os homens, sérios, também falavam baixinho. Os meninos maiores estavam sentados na calçada do Seu Filó. Quietos, calados. Meu pai se aproximou de Seu Inocêncio, abraçou-o e falou para ele se conformar, que nada pode fazer, foi Deus que quis assim. Ele, chorando, com olhos vermelhos, falou que tudo era muito triste, que a morte era muito feia, muito triste e o que ele iria fazer com o menino sem mãe. As mulheres suspiravam, choravam e diziam que “Deus dá e Deus tira”, que é assim mesmo. Do alto dos braços de meu pai, eu via, ouvia e não entendia o que estava acontecendo.

Cruzamos a porta da casa. No meio da sala, uma mulher enfeitada de flores, vestida com uma roupa azul clara, dormia dentro de um caixão forrado com pano também azul. O caixão estava apoiado em quatro cadeiras. O cheiro de vela se misturava com o cheiro das flores. D. Rita começou a rezar o terço, no que foi acompanhada pelas outras mulheres presentes. A mulher continuava a dormir, indiferente às rezas e às lágrimas.

Vem tomar um cafezinho, Seu Alfredo, disse Dona Amélia. Meu pai caminhou até a outra sala, onde uma jovem mulher segurava um bebê. O nome dele será Carlos, vai ser criado pela avó. O bebê, Carlinhos, assim como a mulher da sala, dormia indiferente a todos, apesar da tristeza que havia em todos os cantos da casa.

Meu pai tomou um cafezinho, conversou um pouco e saiu da casa. Na sala, a mulher continuava a dormir. Perguntei por que ela estava dormindo ali e não no quarto. Respondeu o meu pai que ela havia morrido no parto. A morte chegou para separar ela do filho. Entendi que todo aquele choro era por causa da morte. A sala estava ainda mais cheia de gente.  Vamos lá para fora, disse meu pai.

Do lado do fora, mais movimento. Os homens conversavam, os meninos já não estavam na calçada em frente. Brincavam em frente ao muro branco da chácara mais adiante. O cachorro de Dona Aurinha dormia no meio da rua, como sempre. Do alto dos braços de meu pai, eu via o mundo. Via as pessoas olhando pela janela. Via as pessoas que vinham da feira com as verduras para o almoço. Via as meninas brincando. Foi então que vi a morte. Apavorado, vi a cara feia da morte. No cimento liso, os olhos estavam fixos em mim, uma boca imensa escancarava os dentes grandes um sorriso sangrento. O terror tomou conta de mim em forma de medo. Os chifres, enormes e afiados, pareciam estar prontos para me atacar. Abaixo da boca vermelha, quase sem carne, aparecendo o branco dos ossos, a garganta estava à vista, comprida, ensangüentada e, na ponta, o coração e o pulmão. No medo, meu coração batia forte e, também forte, o coração da morte também batia na mesma intensidade. Virei o rosto e tremendo abracei meu pai, mas não conseguia dominar o pavor e instintivamente olhava novamente. Sim, era verdade, a morte é muito feia. Muito feia. Por que a morte continuava ali? Será eu vai levar mais gente? Eu tremia e não tirava os olhos da morte, daquela figura quieta, silenciosa, vermelha, sangrenta, do mal. Será que está aqui para levar o Carlinhos? Se as mulheres rezavam, por que a morte não desaparecia? E ela continuava a olhar para mim com os olhos cada vez maior. Tremi e comecei a chorar. Meu pai perguntou o que eu estava sentindo. Tremendo, apontei para a morte.

Calma, meu filho, é só uma fussura de boi que o homem trouxe da feira, colocou ali e foi ver a mulher que morreu. Ele já vai embora e vai levar isso daqui. Não tenha medo, disse Seu Alfredo. Mas não adiantou a explicação. O medo continuou, assim como, para mim, a fussura do boi ficou associada à figura da morte. Durante muitos anos aquele sorriso esteve comigo. A figura feia, a tristeza, o mistério da dama ceifadora de vida tinha chifre, olhos grandes, dentes escancarado num sorriso sem som. Descobri que em muitas barracas na feira se vendiam fussuras de boi, de bode, de carneiro. Mas para mim aquelas barracas eram uma exposição de todo tipo de morte. Somente anos depois, quando conheci a obra do poeta Manuel Bandeira, a figura da morte foi-me apresentada como uma dama eterna, uma amante esperada que o levaria para o nirvana. Foi também nessa época que conheci “O Sétimo Selo”, onde Ingmar Bergman mostrou a morte como uma figura de preto, carregando uma foice e disputando uma partida de xadrez para levar pessoas para uma terceira margem do lago. Então, como um exorcismo, a fussura foi perdoada e seguiu, nas costas daquele homem que a colocara na calçada de cimento liso, em direção à Rua do Alecrim.

Carlinhos cresceu na Travessa do Alecrim. Encontramos, brincamos, divertimo-nos nas ruas. Cine Conquista, bar Lindóia, procissão de Nossa Senhora das Vitórias, bisnagas de água, sureco, aprendizados, decepções, lágrimas, sorrisos. Encontrei Carlinhos nas festinhas em casas de famílias tão comum naqueles tempos de jovem guarda, de descobertas. Foi um menino que, assim como eu, descobrimos e amamos os Beatles.

7 pensamentos sobre “Carlinhos The Beatles

  1. Estamos consternados com a perda do nosso amigo Carlinhos! tive a oportunidade de conhece-lo de perto atravez da musica!!!

  2. Como filho da terra do “Salvador”, pois realmente “ELE nasceu na Bahia. e eu aí em Vitória da Conquista” daqui de Curitiba Paraná fico a pensar nas coisas da vida e da morte, hoje entendo mais do que nunca que é morrendo que se nasce

  3. Uma longa trajetória, num arco formado desde o seu nascimento em meio à tragédia, até o final da própria existência. Gostava dos Beatles e amava dançar, como o faria Toni Tornado, às margens da BR-3…
    Que vá em paz!!!

  4. E muito difícil achar palavras para confortar alguém neste momento de dor.
    A perda de um amigo de infância, é o mesmo de ter perdido um irmão……
    Força a você e familiares.
    Fiquem com Deus.

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