Elio Gaspari – O que vem a ser o golpe de 2016

“Como no de 1840, o impedimento de Dilma Rousseff irá para a história coberto pela névoa das paixões do momento”.

Recorro ao mestre Elio Gaspari (entre outras obras é autor da coleção As Ilusões Armadas, sobre a ditadura militar de 1964) para explicar o esdrúxulo cenário armado no Senado brasileiro. Ficou muito claro que o placar do impeachment não significava a convicção de grande parte dos favoráveis ao impedimento da presidente, quando veio a segunda votação (?) pela manutenção ou não dos direitos políticos de Dilma. 

Por 61 votos a 20, Dilma foi condenada por crime de responsabilidade e definitivamente afastada da Presidência da República. No entanto, os mesmos senadores entraram em consenso para se fazer uma votação sobre a suspensão ou não dos seus direitos políticos. Ao final da votação, 42 senadores optaram por cassar os direitos políticos de Dilma e 36, não. Houve ainda três abstenções. Como não se formou 2/3 dos votos contra, ela manteve os direitos políticos.

Claro que nós, cidadãos comuns, não vamos imaginar que alguns senadores tiveram uma crise de remorso pela votação do crime de responsabilidade. Remorso? Em políticos profissionais? Não, não mesmo. Faltou foi convicção no que faziam? Ou terá sido um “acordão”, como outros defendem?

A história recente da política brasileira demonstra que impeachment significa  que o impedido não manteve sua base política no Congresso Nacional. Isto mais uma administração ruim do governo leva ao impedimento. O que se anuncia como crime de responsabilidade não revela peso para derrubar ninguém. É importante lembrar que Fernando Collor foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal cinco anos depois de sofrer o impeachment. Foi o péssimo governo que fazia e, principalmente, a perda da base parlamentar que o levaram ao cadafalso. 

Como bem fala o mestre Elio Gaspari (em 31 de agosto), algo vai mal na História do Brasil pós-redemocratização. Dos quatro brasileiros eleitos para a Presidência, dois sofreram impeachment, “uma taxa de mortalidade superior à do vírus ebola”.

Leia o artigo abaixo e, depois, veja os links. 

Dilma Rousseff

 

Elio Gaspari

Na manhã de ontem (terça-feira, 30 de agosto) o senador Aloysio Nunes Ferreira reagiu a uma provocação de um deputado que ofendia a advogada que acusava a presidente Dilma Rousseff e ameaçou chamar a Polícia Legislativa para retirá-lo do plenário. Na véspera, como Nunes Ferreira, o senador José Anibal, também da bancada tucana de São Paulo, lembrou seus 50 anos de amizade com a presidente e, em seguida, defendeu seu impedimento. Hoje, Dilma Rousseff perderá seu mandato.

Assim, dos quatro brasileiros eleitos para a Presidência desde a redemocratização, dois terão sido defenestrados. Essa é uma taxa de mortalidade superior à do vírus ebola, um sinal de que algo vai mal em Pindorama. Afinal, Dilma será deposta, e o deputado Eduardo Cunha, espoleta do seu processo de impedimento, continua no exercício do mandato. As sessões do julgamento de Dilma mostraram a beleza do ritual da Justiça.

Ouvidos a ré, os advogados e os senadores, restarão uma sentença e a impressão de que houve muita corda para pouca forca. As pedaladas — o único elemento levado ao juízo — foram crime de responsabilidade, num caso de pouco crime para muita responsabilidade. Como não existe a figura de “pouco crime”, o resultado estará aí, irrecorrível, legal e legítimo. Dilma será deposta pelo conjunto da obra, uma obra que foi dela, e não dos chineses.

Seu longo depoimento, confirmou sua capacidade de viver numa realidade própria. Em 14 horas de depoimento e respostas aos senadores, a presidente, ao seu estilo, manteve-se numa atitude professoral, com um único momento que se poderia chamar de pessoal. Cansada, informou que estava prestes a perder a voz: “É inexorável”. Não era, aguentou até ao fim.

A palavra “golpe” tem uma essência pejorativa. O primeiro grande golpe da história nacional é costumeiramente conhecido como “Golpe da Maioridade” e entregou o trono do Brasil a Dom Pedro II, um garoto de 14 anos. Antecipando a conduta de Michel Temer, quando lhe perguntaram se ele queria a Coroa, teria respondido: “Quero já”. O tempo cobriu a violência do episódio. Argumente-se que quase dois séculos de distância fazem qualquer serviço.

Contudo, a posição dos senadores Aloysio Nunes Ferreira e José Anibal mostra como as paixões alteram condutas e que não são necessários 200 anos. Em 1965, o jovem José Anibal, como Dilma Rousseff, era um militante da organização Política Operária, a Polop. Do grupo de 20 estudantes mineiros, sete foram presos, seis foram banidos, um foi assassinado, outro matouse para não ser preso e quatro exilaram-se, inclusive José Aníbal, que a polícia procurava como “Clemente” ou “Manuel”.

Aloysio Nunes Ferreira, o “Mateus” da Ação Libertadora Nacional de Carlos Marighella, participou de um assalto a um trem pagador e exilou-se em Paris. Em 1975, de seis participantes, só ele estava vivo. Numa trapaça da história, Dilma Rousseff, a “Estela”, teve dois companheiros de armas dos anos 60 na bancada do seu impedimento. Na defesa de seu mandato, ficou só o protoguerrilheiro amazônico João Capiberibe, senador pelo PSB do Amapá.

Esses cacos de memória parecem não querer dizer nada, mas daqui a 50 anos dirão tudo ou, no mínimo, dirão mais. Hoje começará a avaliação de Michel Temer.

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4 pensamentos sobre “Elio Gaspari – O que vem a ser o golpe de 2016

  1. Caro Bomfim, você mostrou neste Blog que os baianos da terra conquistense são a elite inteligente da terra de Castro Alves e Rui Barbosa. Parabéns meu amigo pela eloquência.

    ________________________________

    • Caro Nattinho

      Além de excelente cantor e de propagar o nome da nossa bela Vitória da Conquista mundo afora, você demonstra generosidade nos elogios. Obrigado, amigo, pelo incentivo. Felicidades!

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