PT descobre depois de 13 anos que PMDB não presta. Dilma, após 6 anos, percebe que seu vice trai

Michel Temer, Lula e Renan Calheiros

Michel Temer, Lula e Renan Calheiros

Então, depois de 13 anos numa aliança que desafiava qualquer argumento com o PMDB, os petistas chegam à conclusão que os peemedebistas não valem nada e que Michel Temer, o vice-presidente considerado perfeito durante seis anos, um mandato e meio da presidente Dilma Rousseff, é um traidor. Ora! Façam-me o favor!

É tripudiar com a inteligência alheia. E o pior disso tudo é que letrados e militantes que há pouco aplaudiam quando Lula dizia que Sarney (um dos grandes coronéis peemedebistas) não podia ser tratado como uma pessoa comum berram pelos cantos, indignados com a “descoberta”.

Lula e Temer

Lula e Temer

É a velha fórmula do partido hegemônico do poder, que governa os brasileiros há treze anos, lidar com os seus erros. Não faz autocrítica, ora culpa a imprensa, ora aponta para conspirações da direita e há até os que veem o dedo de Tio Sam na crise. Na realidade, o PT se enrolou em seus próprios erros.

Erros éticos que resultaram em mensalão, petrolão e outros tipos de uso ilícito de dinheiro público e privado, e erros políticos, deixando cair o véu de que são grandes estrategistas. Nesses treze anos se alguém falasse contra o PMDB ouvia dos petistas que o “importante era a governabilidade”.

E assim chegaram a atual encruzilhada. Pela segunda vez o país vê um chefe – no caso, chefa – da Nação sofrer impeachment. Não é golpe, o impeachment está previsto na Constituição. Qualquer pessoa, brasileira, pode pedir impeachment do presidente da República. Redige seu documento, vai ao cartório, reconhece firma e entrega, protocolado, na Câmara de Deputados. O presidente da Câmara decide sozinho se aceita ou arquiva. Se aceitar, o pedido cumpre o rito que este contra Dilma Rousseff está cumprindo, passa pela comissão, segue a Plenário, se aprovado, vai ao Senado.

Contra Collor, foi rápido e o “caçador de marajás” se tornou o primeiro presidente a sofrer impeachment. A turma que hoje fala em golpe estava nas ruas comemorando. Normal. O impeachment de Collor teve como início um escândalo de corrupção que estava diretamente ligado ao nome do presidente. As ligações do presidente com os golpes de seu assessor PC Farias ficaram evidentes. Um carro Fiat Elba para uso pessoal do presidente foi comprado com dinheiro vindo das contas fantasma do tesoureiro de campanha. Em agosto, o motorista Eriberto França contou à revista Istoé como levava contas de Collor para serem pagas por empresas de fachada de PC.

Na realidade, o que o derrubou mesmo foram a fraca sustentação política do governo, com poucos partidos de peso apoiando o presidente, e a profunda crise econômica do país, que havia apenas piorado com as medidas controversas adotadas pelo seu governo. Veio a grande insatisfação popular e forte oposição ao presidente no Congresso. Parecido com o que ocorre agora.

No começo de 1999, era o PT quem trabalhava pela saída do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Meses antes, em outubro de 1998, Fernando Henrique havia sido reeleito derrotando Lula (PT) e Ciro Gomes (então filiado ao PPS). O tucano saiu-se vitorioso no 1º turno, com 53,06% dos votos.

Meses depois da posse de FHC para seu 2º mandato foram apresentados 4 pedidos de impeachment. O então presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB), mandou todos para o arquivo. O PT recorreu ao plenário, mas foi derrotado. Depois de 1 hora e 42 minutos de discussão, o governo sepultou o pedido por 342 votos a 100. Houve 3 deputados que se abstiveram. Os argumentos usados pela oposição em 1999 eram semelhantes aos usados hoje pelo grupo que deseja a queda de Dilma Rousseff. A oposição acusava FHC de ter cometido “estelionato eleitoral” (fazer propaganda mentirosa durante a campanha) e de ter tentado impedir as investigações em curso no Ministério Público Federal (MPF) e na chamada “CPI dos Bancos”.

Em termos de História, foram 17 pedidos de impeachment contra Fernando Henrique Cardoso, um foi aceito, como vimos acima. Contra Lula foram 34, o presidente da Câmara não aceitou nenhum. Contra Dilma, foram 42 antes da aceitação do que decretou o impeachment, depois disso já chegaram à Câmara de Deputados mais nove pedidos.

Na Constituição brasileira quem decide se arquiva ou aceita o pedido de impeachment é só o presidente da Câmara de Deputados. Um dos absurdos que temos. Não podemos nos esquecer que a Câmara é presidida por Eduardo Cunha e o Senado por Renan Calheiros, caciques peemedebistas com extensa folha corrida de acusações no Supremo Tribunal Federal (STF).

Depois de um pouco de História para esclarecer o porquê de impeachment não ser golpe, voltemos a essa história de governabilidade.

Aécio e Lula

Aécio e Lula

No início do primeiro governo de Lula, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, falou algo que tanto o queimou entre os petistas e seus aliados quanto mostrou que além de exímio artista Gil é bom observador da cena política nacional. Gil disse naquela oportunidade que achava mais natural – já que forçosamente para governar é necessário aliança com outros partidos – o PT fazer aliança com o PSDB. Coitado de Gil, foi extremamente criticado.

Ele baseava sua análise no que o próprio presidente Lula fazia. Na Carta aos Brasileiros, Lula garantia manter a política econômica do governo FHC; garantia também os programas sociais do governo anterior (alterou a nomenclatura e ampliou os benefícios) e enfatizava que não haveria ruptura com o que o seu antecessor deixava.

No entendimento de Gil, os dois partidos tinham um projeto semelhante. Mas, além disso, o ministro percebia que era mais fácil controlar os tucanos como aliados do que os peemedebistas, que estão em todos os rincões do país e jamais esconderam a volúpia pelo poder. Qualquer que seja o presidente, o PMDB está sempre lá, colado.

O tempo mostrou que Gil não estava “viajando”. E hoje, 13 anos depois o PT “descobre” que o PMDB trai. E Dilma, que exigiu repetir o vice para o segundo mandato, o considera “golpista”.

Dilma e Temer

Dilma e Temer

Será que do lado de cá do Planalto só há idiotas? Claro que não. Tirando aqueles que se comportam como se partido fosse igreja fundamentalista que não lhe deixa ter voz própria, e outros que de alguma forma ficaram enredados profissionalmente com o PT, as pessoas percebem que o desentendimento tem origem em outros motivos.

Além do mais, se você tem um vice “golpista” você viajaria para o Exterior deixando-o na sua cadeira de presidente?

Afirmar que impeachment é golpe é parte de campanha de marketing de quem o sofre, como defesa. Como vimos acima, quem utiliza desse expediente hoje, pode amanhã estar se defendendo.

Mas era para Dilma sofrer impeachment? A resposta é não. O fato de se revelar fraca para presidir o país (terceirizou a Presidência ao mesmo Michel Temer, que ela condena hoje, em abril do ano passado. Veja vídeo da página do deputado Jean Wyllys https://pt-br.facebook.com/jean.wyllys/videos/869983886382953/; fazer uma propaganda eleitoral fantasiosa; fazer pedaladas com dinheiro de bancos públicos para cobrir rombos do seu governo sem planejamento; tentar interferir em resultados de investigações, e outros pecadilhos, são falhas graves, mas que não se caracterizam como crimes de responsabilidade, que acarretariam evidências para impeachment, de acordo com a nossa Constituição.

O que aconteceu com ela, politicamente, é o que ocorreu com Collor: perdeu a base de sustentação política no Congresso. No fundo, foi abandonada até mesmo por seu partido, que mobiliza muito mais pela “honra” de Lula do que para salvar “a presidenta”. Lembram-se das brincadeirinhas de Lula sobre Dilma? Uma delas dizia que “o governo da Dilma está no volume morto”. Coisas assim só serviram para enfraquecer ainda mais a imagem da presidente.

Treze anos depois de Lula subir a rampa do Planalto ovacionado por quase todo o país, a situação é sombria para o PT. Estão condenados um dos seus ex-chefes da Casa Civil; dois dos seus tesoureiros; um ex-secretário; um ex-vice-presidente da Câmara de Deputados; o marqueteiro oficial; vários dirigentes de empresas públicas indicados pelo partido, e empreiteiros com os quais mantinha relevantes ligações. A delação mais bombástica foi feita por Delcídio Amaral, senador petista, líder do governo no Senado, não é pouca coisa. A aura de honestidade se foi; a distância do conceito de elite caiu. Além disso, o mito Lula sofreu desgastes com acusações jamais respondidas a altura. As negativas petistas são feitas na forma de demonizar os acusadores, mas não justificam as acusações.

Fala-se que tão logo o processo de impeachment chegue ao fim, qualquer que seja o resultado, 27 deputados federais vão fundar outro partido. Liderando esta ideia o ex-ministro Tarso Genro. Argumentam extraoficialmente que desistiram de afastar o joio do trigo no partido, que é formado de várias tendências, e a maior delas impede qualquer “refundação”.

E pensar que tivemos a chance de o Brasil realizar reformas reclamadas há décadas. As reformas política, eleitoral, agrária e da Previdência Social só poderiam ser conduzidas por um presidente que estivesse muito bem com a população. Lula deixou o governo com 83 por cento de aceitação popular. Ora, com esse índice ele poderia liderar essas reformas todas. Não haveria Congresso a dizer não, pois era o próprio povo que estaria ali a exigir. Assim, hoje não teríamos absurdos como o de uma pessoa só ser a responsável por aceitar ou não um pedido de impeachment; caixa 2 deixaria de existir nas campanhas; a clareza nos gastos tiraria do dicionário político as pedaladas fiscais. Certamente o país estaria melhor. Mas a opção foi outra. E o controle do poder ficou mesmo com o PMDB que ganhou do partido hegemônico a vice-presidência (Michel Temer), e as presidências da Câmara (Eduardo Cunha) e do Senado (Renan Calheiros), estratégicas e fundamentais para dirigir um país.

Clique nos links e veja mais História:

Quando estourou o mensalão Lula admitiu e pediu desculpas, veja o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=rhDBXbWS8eI

Dilma, em abril de 2015, terceiriza a presidência entregando-a a Michel Temer:

https://pt-br.facebook.com/jean.wyllys/videos/869983886382953/

1999: PT pedia impeachment de Fernando Henrique (principais trechos)

1999: José Dirceu pedia impeachment de Fernando Henrique

1999: PT acusa FHC de “estelionato eleitoral”

1999: Aécio dizia que PT não aceitava resultado da eleição

1999: Aécio falava em “assegurar a democracia”

1999: José Genoíno pede impeachment de FHC

1999: impeachment de FHC era derrotado na Câmara

1999: PT pedia impeachment de Fernando Henrique – íntegra (parte 1 de 3)

1999: PT pedia impeachment de Fernando Henrique – íntegra (parte 2 de 3)

1999: PT pedia impeachment de Fernando Henrique – íntegra (parte 3 de 3)

Dilma comete gravíssimo erro ao falar em golpe, diz Celso de Mello, do STF

Por Bomfim Brown

4 pensamentos sobre “PT descobre depois de 13 anos que PMDB não presta. Dilma, após 6 anos, percebe que seu vice trai

  1. Pingback: Falando na Lata

  2. Brown, vc sabe que não sou petista e tenho muitas críticas ao PT e ao governo, sobretudo pela manutenção de programas e esquemas de governos anteriores, em nome de governabilidade e da facilidade de financiamento de campanha, em vez de enfrentar a esperada reforma política/eleitoral (assim como a agrária e a previdenciária). Mas chamo de golpe, sim, o que está acontecendo, porque como vc mesmo diz o “crime” não se sustenta na Constituição. E o processo é movido por um monte de corruptos pra escapar de investigações e assumir o poder, ignorando o resultado da eleição.
    Claro que Dilma (e o Brasil inteiro) sabia que não podia confiar no PMDB, não tinha nem o direito de desconhecer o histórico do partido. Mas preferiu ceder à pressão e fazer o jogo. Está pagando por isso. Mas o preço não pode ser a democracia, ignorar as urnas. E é aí que se caracteriza o golpe. E não dá pra negar o papel da imprensa, escancaradamente a favor do impedimento, manipulando os noticiários para o povo achar que o crime alegado é crime de responsabilidade.

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