Aracy, o anjo de Guimarães Rosa

Em 6 de março, o blog foi prestigiado com o comentário da professora Alzira (confira) no post Guimarães Rosa por Marisa Aurea de Sá Falcão. A professora sugeriu que o blog falasse de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, que teve marcante papel humanitário durante a Segunda Guerra. Leia então a pesquisa abaixo e conheça Aracy.

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa - Rede Brasil Atual

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa  – Anos 1940 – Fotos Rede Brasil Atual – Acervo Família Tess

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa (Rio Negro, Paraná, 5 de dezembro de 1908São Paulo, 28 de fevereiro de 2011) foi uma poliglota brasileira que prestou serviços ao Itamaraty, tornando-se a segunda esposa do escritor João Guimarães Rosa

Aracy também é conhecida por ter seu nome escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, por ter ajudado muitos judeus a entrarem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. A homenagem foi prestada em8 de julho de 1982, ocasião em que também foi homenageado o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas. Ela é uma das pessoas homenageadas também no Museu do Holocausto de Washington (EUA). É conhecida pela alcunha de O Anjo de Hamburgo.

Filha de pai português e mãe alemã, ainda criança foi morar com os pais em São Paulo. Em 1930, Aracy casou com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess , com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois se separou, indo morar com uma irmã de sua mãe na Alemanha. Por falar quatro línguas (português, inglês, francês e alemão), conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, onde passou a ser chefe da Secção de Passaportes.

No ano de 1938, entrou em vigor, no Brasil, a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra J, que identificava quem era judeu.

Nessa época, João Guimarães Rosa era cônsul adjunto (ainda não eram casados). Ele soube do que ela fazia e apoiou sua atitude, com o que Aracy intensificou aquele trabalho, livrando muitos judeus da prisão e da morte.

Aracy permaneceu na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os aliados da Segunda Guerra Mundial. Seu retorno ao Brasil, porém, não foi tranquilo. Ela e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão, até serem trocados por diplomatas alemães. Aracy e Guimarães Rosa casaram-se, então, no México, por não haver ainda, no Brasil, o divórcio. O livro de Guimarães Rosa “Grande Sertão: Veredas“, de 1956, foi dedicado a Aracy.

Sua biografia inclui também ajuda a compositores e intelectuais durante o regime militar implantado no Brasil em 1964, entre eles Geraldo Vandré, de cuja tia Aracy era amiga.

Aracy enviuvou no ano de 1967 e não se casou novamente. Sofria de Mal de Alzheimer e morreu no dia 28 de fevereiro de 2011 em São Paulo, de causas naturais, aos 102 anos. Foi sepultada no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, ao lado de seu marido, no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.

Leia informações sobre o documentário que revela a história de Aracy e a salvação de judeus

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa - jornalggn

História

Na Alemanha, Guimarães Rosa conheceu o anjo Aracy

Documentário conta a história da ‘intrépida’ mulher do escritor que, entre outras bravuras, atuou para salvar cerca de uma centena de judeus do nazismo

Aracy Moebius

Guimarães receava que algo acontecesse: ‘O pavor que você tinha que a Gestapo me pegasse…’, escreve Aracy em carta

A história de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa foi sendo descoberta aos poucos. Há alguns anos se sabe que ela, como chefe do setor de passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, burlou orientação da diplomacia brasileira e arriscou-se diante do regime nazista para salvar judeus. Talvez uma centena deles. A conta é incerta. A própria Aracy, que morreu em 2011, aos 102 anos, evitava comentar. Mas os detalhes vão surgindo. Alguns revelam ironias históricas: na Alemanha, seu único filho, Eduardo Tess, entrou em uma fila com outras crianças para cumprimentar Adolf Hitler.

A revelação é feita por Plínio de Arruda Sampaio – que morou na mesma rua e era colega de Eduardo – no documentário Esse Viver Ninguém me Tira, longa de estreia do ator Caco Ciocler. “O Edu me contou uma vez que ele cumprimentou Hitler”, diz Plínio no filme. Hoje com 85 anos, o filho de Aracy confirma. Diz que ficou indeciso, até que resolveu se enfileirar para cumprimentar o líder alemão. “Ele perguntou de onde eu era”, recorda Eduardo. Outra coincidência histórica entre personagens tão distantes: Aracy (1908) e Hitler (1889) nasceram no mesmo dia, 20 de abril, com 19 anos de diferença. “Em meio ao horror inventado por ele, Aracy descobriu quem era ela”, escreveu a jornalista e escritora Eliane Brum em 2008, quando Aracy completou 100 anos e há muito tempo era conhecida como “anjo de Hamburgo”.

Paranaense de origem, Aracy foi cedo para São Paulo, onde teve uma criação de classe média alta. Em 1934, aos 26 anos, separada e com um filho de 5, deixou o Brasil e foi morar na Europa (sua mãe era alemã), na casa de uma tia. Depois de algum tempo, foi trabalhar no consulado em Hamburgo, onde conheceria João Guimarães Rosa, o cônsul adjunto, que tinha duas filhas (Vilma e Agnes) do primeiro casamento (com Lygia Cabral Penna). Já estavam juntos, mas casaram-se por procuração, no México, em 1942 – ainda não havia o divórcio. E ficariam juntos até a morte dele, em 1967. O livro Grande Sertão: Veredas, de 1956, começa com esta dedicatória: “A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”. Ela era Ara. Ele era Joãozinho.

Aracy chegou a transportar judeus clandestinos em carro diplomático

A historiadora Mônica Raisa Schpun, pesquisadora e professora do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris) e autora do livro Justa, sobre Aracy e a imigração judaica, diz no filme pensar como foi embarcar para uma viagem de três semanas com um menino de 5 anos. “Fico tentando imaginar como ela subiu naquele navio.” De um país pacífico para uma Alemanha “já nazificada”, como define. Se tivesse de escolher apenas uma palavra para falar de Aracy, ela escolheria “intrépida”.

Há escassa informação sobre a atuação de Aracy no consulado. Familiares que dão depoimentos para o documentário são unânimes em dizer que ela era reservada em relação a esse assunto. O tema jamais apareceu nas correspondência com a mãe, nem nos diários que ela escrevia. Mas sabe-se que Guimarães Rosa receava que algo pudesse acontecer a ela (“O pavor que você tinha que a Gestapo me pegasse”, escreve Aracy em uma carta). “Ela não queria que isso ficasse documentado. Ela estava contrariando ordens superiores”, observa o sociólogo e escritor René Decol.

Havia orientação do governo brasileiro para não conceder, ou dificultar, vistos para a entrada de judeus no Brasil. Antes de romper com o Eixo e declarar guerra a Alemanha, Itália e Japão, o governo Vargas flertou com esses países. Decol, filho de sobreviventes do Holocausto, cita a Circular Secreta 1.127, de junho de 1937 – ano em que Guimarães Rosa chega à Alemanha, após passar em concurso –, sobre recusa de vistos a “indivíduos de origem semita”. Já sob o impacto da perseguição e violência contra os judeus na Alemanha, Aracy resolve burlar as ordens do Itamaraty.

Não se sabe bem que “técnicas” ela usou para isso. Misturava os pedidos à papelada do dia, conseguia passaportes sem o J vermelho que identificava os judeus. Teria “cúmplices” na administração pública de Hamburgo para conseguir falsos atestados de residência em Hamburgo para que judeus de outras regiões pudessem pedir vistos. Aracy também chegou a transportar gente no carro diplomático.

O cônsul, Joaquim de Souza Ribeiro, desconhecia as ações de sua chefe da área de passaportes. Um mérito do filme, senão o maior, é trazer depoimentos de pessoas salvas pela ação solidária de Aracy. Ou de pessoas que descobriram histórias de seus pais – e talvez nem existissem se isso não tivesse acontecido. A Segunda Guerra começara em 1939, mas as ações contra os judeus já haviam começado bem antes. As chamadas Leis de Nuremberg, por exemplo, são de 1935.

Imigração

Até 1942, quando declarou guerra ao Eixo, o Brasil mantinha boas relações com a Alemanha. Chegou a ser o principal parceiro comercial daquele país na América Latina, aponta o jornalista Lira Neto no segundo volume da recente trilogia sobre Getúlio Vargas. O pesquisador cita a mudança de política da diplomacia brasileira para “disciplinar” a emissão do visto a judeus.

“Em vez de incentivar a imigração judaica, as novas regras do Itamaraty tinham como objetivo declarado reduzi-la drasticamente”, escreve Lira Neto à página 362. Deu certo, conforme afirmava o próprio ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha: “O número de indivíduos de origem semita entrados no Brasil em 1939 foi de 2.289, o que representa uma diminuição considerável em relação aos números anteriores, 4.900 em 1938; 9.263 em 1937”, disse o ministro ao embaixador brasileiro em Berlim, Ciro de Freitas Vale, primo de Aranha. Segundo o livro, Vale se queixa da “displicência” do governo em relação à “invasão de judeus no Brasil”.

“A gente tinha muito pouca documentação relativa ao propósito do filme”, conta Caco Ciocler, que durante uma exibição do documentário dedicada à comunidade judaica, em novembro, fez uma comparação comTubarão, de Steven Spielberg, ao dizer que em determinado momento das filmagens, nos anos 1970, a equipe concluiu que não poderia mostrar o robô que representava o animal, por ser muito ruim – e optaram por mostrar apenas a barbatana. “Deixa de ser um filme sobre tubarão e passa a ser sobre fobia, instinto”, observa Caco. “Não procurem pelo tubarão Aracy. A gente visitou a ausência de Aracy, tentou filmar essa ausência.”

documentos

Com aproximadamente uma hora e dez minutos, Esse Viver Ninguém me Tira foi exibido nos festivais de Gramado e do Rio de Janeiro e iria ainda para os de Recife e do Maranhão, antes de ser apresentado no exterior. No Brasil, os direitos de exibição foram adquiridos pelo canal pago Arte 1. Deverá chegar aos cinemas no ano que vem. Boa parte do material foi garimpada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da Universidade de São Paulo (USP), onde fica o Fundo de Aracy, com 1.477 itens pessoais, como diários, cartas, fotografias, cartões-postais, documentos – e até dentes de gato.

Justa

Aracy está citada no Museu do Holocausto (Yad Vashem) entre os não judeus que ajudaram a salvar judeus da perseguição nazista – os “justos”. Ganhou um bosque com o seu nome em Israel. Em 1982, foi reconhecida como “Justa entre as Nações”. Além dela, figura o nome do diplomata brasileiro Luiz Martins de Souza Dantas, que foi embaixador na França no mesmo período.

“Ela salvou meus pais”, diz no filme Marion Aracy, que ganhou o nome em homenagem à antiga funcionária do consulado em Hamburgo. O seu pai era Günter Heilborn, preso em 1938 em um campo de concentração. Inge, mulher de Günter, bateu à porta da representação diplomática e conseguiu ajuda. Obteve o visto e foi embora com Günter para o Brasil. Casaram-se no navio.

Assim como Margareth Levy, a Margarida, que conseguiu deixar a Alemanha graças a Aracy, de quem se tornou amiga até o final da vida. “Uma mulher tão corajosa…”, murmura Margarida no filme. As duas morreram aos 102 anos, em 2011. Margarida em fevereiro, Aracy em março. Nem tinha como saber da morte da amiga, porque sofria de Alzheimer havia muito tempo – às vezes, reconhecia o filho, Eduardo. Mas a ligação entre as duas mulheres atravessou o tempo e superou o esquecimento.

aracy e joão

Neto de Aracy e com o mesmo nome do pai, Eduardo lembra que sua avó também ajudou gente muito tempo depois. Comenta que ela foi contra “os nazistas na Alemanha e os fascistas no Brasil”. E recorda do episódio em que, já viúva, esconder em seu apartamento em Copacabana, no Rio, o cantor Geraldo Vandré, perseguido após apresentar sua canção Pra não Dizer que não Falei das Flores no Festival Internacional da Canção da Globo, em 1968. Do apartamento, ironicamente, dava para ver a movimentação no Forte de Copacabana.

“Minha mãe mais uma vez assumiu a defesa de alguém que estava precisando”, completa Eduardo Tess. Em um livro de poesias publicado em 1973 no Chile e ainda inédito no Brasil, Vandré homenageou Aracy. “A graça já se fez, amiga,/ E não vai se perder./ Só falta que eu bendiga/ e vou me preparar para cumprir/ a missão de agradecer/ além do verso e da palavra”, diz o trecho inicial.

Em uma carta, Aracy lembra de um episódio dos tempos em que o casal morava na praia do Russell, também no Rio. Guimarães procurava um título para seu livro, ela foi dormir. “Às 4 da manhã, assusto com você gritando: Ara, achei! Sagarana! Como ficamos alegres Esse viver ninguém me tira.” O livro saiu em 1946, primeiro ano do pós-guerra.

5 pensamentos sobre “Aracy, o anjo de Guimarães Rosa

  1. Parabéns, Brown, pela homenagem cuidadosa a Aracy e sua tão significante trajetória, na qual humanidade e coragem se converteram em ação de proteção ao outro. É comovente a força solidária e amorosa que leva uma pessoa a sair de sua zona de conforto para salvar vidas, sobretudo no cenário terrível e perigoso do Holocausto. Fico imaginando o quanto a disposição humanitária de Aracy deve ter encantado Guimarães Rosa, pois, fazendo a ponte de mão dupla entre ficção e biografia, arte e vida, o ser amoroso sempre impressionou o escritor e, protagonizando outros contextos, esteve presente em muitos dos seus personagens, como Riobaldo, Diadorim, Brejeirinha, Nhinhinha e tantos outros. Em especial, e por estar entre os relatos ficcionais-biográficos sobre a Segunda Guerra, lembrei-me de uma sensível homenagem a esse tipo de desapego de si, que é prestada por Guimarães Rosa em seu livro “Ave, Palavra”, no conto “A Velha”, no qual a protagonista idosa, viúva de um judeu, de modo muito digno e já no fim da vida, abre mão de sua imagem social por amor e proteção ao outro. Parabéns a Brown pela qualidade de seu blog; parabéns aos seus leitores-escritores que enriquecem o debate e me estimulam ainda mais a leitura; e parabéns a professora Alzira por ter instigado matéria de tanto valor!

  2. de: Alzira
    para: Brown Gmail
    data: 26 de abril de 2016 12:45

    Faço aqui, com muita alegria na alma e no coração, o meu agradecimento ao Brown, que atendeu o meu pedido de também homenagear Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. Sinto-me participante desse blog, tão interessante. Obrigado, muito obrigado também aos outros comentaristas, Srs. Valter e Fernando. Todos vocês tornaram meu dia muito mais feliz.
    Atenciosamente
    Alzira

  3. Em corruptela do enunciado de uma das leis da Física, poder-se-ia dizer: “Os grandes espíritos se atraem na razão direta de sua grandeza e generosidade…”.
    Bem adequado seria o epíteto, para definir o alcance da grandeza formada por esse casal.
    Um, trouxe luz ao mundo por intermédio da beleza da sua literatura, também nesse blog reverenciada; outra, por intermédio de suas ações humanitárias, numa época em que apenas a vontade de fazer, e a consternação, não seriam por si sós suficientes. O elemento destemor era indispensável predicado.
    Os brasileiros somos cegos em relação à nossa própria história, de sorte a tão tardiamente na vida sermos apresentados à grandeza de muitos de nossos heróis, na acepção mais orgulhante do termo, categoria em que, por certo, se inclui Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa.
    Que bela homenagem prestada a essa heroína da espécie humana!
    Parabéns à Professora Alzira, por lhe fazer menção, quando em comentário de postagem sobre o texto de Marisa!
    Parabéns, Bomfim, por não deixar passar em brancas nuvens o pedido feito pela Professora Alzira!

  4. Mermão, mais uma vez você contribui de forma positiva ao mostrar essa Mulher-Coragem. Ela salvou vida e se salvou uma vida salvou o mundo inteiro, diz uma frase judia. Sempre tive admiração por Aracy e pelo Souza Dantas pelo que fizeram e por marcar um ponto positivo para a história da humanidade. Viva Aracy!

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