Quintino, a Tribuna e a venda da baiana A TARDE para a holding paulista Piatra

A TARDE - prédio na Avenida Tancredo Neves

O mês de janeiro sacudiu o jornalismo da Bahia com o anúncio da venda do jornal  A Tarde. Trata-se do jornal baiano mais antigo em circulação e um dos mais antigos do Brasil. Foi fundado por Ernesto Simões Filho em 15 de outubro de 1912. Sobreviveu a duas guerras mundiais, mas não se livrou da maldição da terceira geração familiar. No dito popular “a primeira geração constrói, a segunda usufrui e a terceira destrói“. Foi exatamente o que ocorreu em A Tarde. Em postagens passadas o blog falou da crise do centenário jornal.

Anúncio da venda de A TARDE

A situação chegou a tal ponto que só a venda da empresa salvaria seu patrimônio, indenizações e salários dos seus funcionários. Por isso, o anúncio feito por dirigentes e compradores aos trabalhadores da empresa, em 26 de janeiro, foi brindado com champanhe (foto). Confira informação no Comunique-se. Confira também o artigo de Paulo Roberto Sampaio, diretor de Redação da Tribuna da Bahia, “Uma nova página na imprensa da Bahia”, publicado em 2 de janeiro de 2016. 

E a crônica inteligente e de leitura agradável do jornalista Antônio Matos, que conta como uma má administração somada à vaidade e irresponsabilidade podem levar uma empresa sólida e respeitada ao fundo do poço. 

Quintino e os ‘velhinhos’ de “A Tarde”

“Mas os ‘velhinhos’ de ‘A Tarde’ registraram”. Era desta forma irônica que o mestre Quintino de Carvalho, redator-chefe da jovem redação da ‘Tribuna da Bahia’, nos cobrava sempre que levávamos um ‘furo’ ou deixávamos de noticiar algo que entendia importante.

E assim os velhinhos de ‘A Tarde’ se notabilizaram por nunca passarem batido. O leitor tinha certeza de que a morte de alguém importante, que o aniversário de uma instituição conhecida, que uma sessão polêmica na Câmara Municipal ou na Assembleia Legislativa e que o desembarque de um artista famoso no então Aeroporto de Ipitanga, ocorridos na véspera, estariam nas páginas do jornal no dia seguinte.

Este comportamento fez com que “A Tarde”, fundada em 1912, por Ernesto Simões Filho, se tornasse “o jornal da família baiana”, ganhasse credibilidade e se fortalecesse. A apuração correta dos fatos e o cuidado em divulgar as informações também ajudaram no seu crescimento. Embora conservadora no conteúdo, inovava na forma, criava cadernos (Cultural, Auto e Moto, Municípios, Esportes), mantinha sucursais em Brasília e nas maiores cidades baianas, além de possuir uma circulação primorosa.

Sob o comando seguro de Jorge Calmon e Cruz Rios na parte redacional, e Arthur Couto (pai) na área administrativa, sequer sentiu o afastamento de Simões Filho (deputado estadual, deputado federal e ministro de Educação do segundo governo de Getúlio Vargas), quando este passou a se dedicar mais à política do que ao jornal, nem quando da sua morte em 1957.

Navegou, durante muito tempo, em águas tranquilas, apesar do surgimento em 1969 da revolucionária ‘Tribuna da Bahia’, em impressão offset e numa linguagem direta, moderna e atraente. Com uma tiragem impressionante, em especial às segundas-feiras, o grupo chegou a recusar, em 1980, a oferta para ser proprietário de uma emissora de televisão na Bahia – a Tv Itapoan, que acabou adquirida pelo Sistema Nordeste de Comunicação, do empresário basco Pedro Irujo – quando da falência da Rede Tupi, pertencente aos Diários e Emissoras Associados.

As coisas começaram a desandar quando boa parte dos herdeiros de Simões Filho, quase todos radicados no Rio, resolveu se mudar para Salvador nos anos 90 do século passado e interferir diretamente na administração financeira e na linha editorial do jornal.

Embora contrariando as diretrizes da presidente Regina Simões, aos poucos foram esvaziando o poder de Dr. Jorge – desgastado e sem interesse em reagir, preferiu deixar olimpicamente o jornal – e de Dr. Rios. Inexperientes e deslumbrados com o prestígio e com os dividendos financeiros que “A Tarde” lhes proporcionava, meteram os pés pelas mãos, com incursões políticas e estranhas reformulações redacionais e gráficas, ditadas pela controvertida Universidade de Navarra e executadas pelo jornalista Ricardo Noblat.  

Não demorou muito para que o antigo vespertino da Praça Castro Alves, aquela altura inteiramente descaracterizado, desmoronasse. Já sem contar com Adroaldo Ribeiro Costa, Arthur Couto (pai e filho), José Curvello, Fernando Rocha, Vitor Hugo, Britto Cunha, Walmir Palma (Seo Porreta), Renato Ferreira, Otacílio Fonseca, Silva Filho, Béu Machado, Luís Eduardo Dórea, Fred Castro e Wilson Barbosa, começava a perder peças importantes de sua Redação.

Reynivaldo Britto, Eliezer Varjão, Chico Carvalho, Sérgio Mattos, Tasso Franco, Raul Monteiro, Chico Neto, André Curvello, Cleber Borges, Genésio Ramos, Florisvaldo Mattos, Pinheiro Cal, José Bomfim, Raimundo Marinho, Alfredo Castro, Valmir Palma (o novo), Carlos Gonzalez, Helô Sampaio, Alex Ferraz, Tony Pacheco, Paixão Barbosa, Alberto Oliveira, Raimundo Vieira, César Rasec, Ângela Guimarães, Ana Vieira, Raimundo Machado, Lenilde Pacheco, Núbia Cerqueira, Reinaldo, Arestides Baptista, Arlindo Félix, Sônia Araújo e Clécio Max são nomes que integram uma imensa lista de desfalques.

Perdia também credibilidade, leitores, articulistas, anúncios, liderança no mercado, cadernos, páginas e seções, enquanto ganhava uma infinidade de processos trabalhistas, motivados por suas recentes mazelas, e dívidas astronômicas, que o levaram a uma situação pré-falimentar, com fôlego para resistir por, no máximo, 60 dias.

Juntamente com o seu portal, a “A Tarde FM” e o “Massa!”, “A Tarde”, de campanhas memoráveis, a exemplo da “Bahia não se divide” (promovida em 1988, em contraponto a um projeto demagógico de um oportunista deputado federal, que pretendia criar na região sul o Estado de Santa Cruz), agora está nas mãos da Piatra SP Participações, que adquiriu o seu controle acionário, pagando R$ 25 milhões em 48 prestações mensais.

Grupo paulista, capitaneado por Felício Rosa Varelli Júnior, sócio da WYX Holding, e Roberto Lázaro, sócio da DX3 Investimentos, do qual faz parte o baiano Creso Suerdieck Dourado, é apontado como especialista em reabilitar empresas em dificuldades financeiras.

A contratação do experiente jornalista Geraldo Vilalva, como superintendente de “A Tarde”, é um passo importante para o soerguimento do jornal. Seu competente trabalho (como repórter, redator, articulista e editor) no “Jornal da Bahia” e na própria “A Tarde” e (como proprietário) no “Bahia Negócios”, periódico político-econômico de publicação mensal, e o fato de conhecer o mercado jornalístico baiano são suas duas maiores credenciais..

Vamos rezar para que o projeto dê certo.

Antônio Matos, jornalista e delegado de Polícia, trabalhou durante 20 anos em “A Tarde”.

7 pensamentos sobre “Quintino, a Tribuna e a venda da baiana A TARDE para a holding paulista Piatra

  1. Na minha infância eu lia esse jornal. Todo dia eu ia até a praça 9 de Novembro, na única banca de revistas da cidade, comprar para o meu pai. Até hoje sou leitor voraz de jornal. Em papel e na internet. Como gostava de ler Adroaldo e o crítico de cinema Walter da Silveira. Estive em Salvador tempo atrás e vi com tristeza o belo prédio d’A Tarde abandonado. Triste. Maldição da terceira geração que também vitimou o Jornal do Brasil aqui no Rio. Abraço, mermão!

  2. Pingback: Falando na Lata

  3. Muito bom Bomfim, A terceira geração em geral é irresponsável mesmo. Não contribuiu para formação do patrimônio cultural, não se importa em destruí-lo.

  4. Vc disse bem, Bomfa, a maldição se confirmou. Lamentável. Torcendo para q o novo grupo seja mais responsável com o jornalismo
    Mônica Bichara

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