A Poesia Concreta cada vez mais viva. Concrecoisa é a prova concreta disso

No dia 16 de outubro, sexta-feira, César Rasec lançou o livro Concrecoisa em seu blog, do mesmo nome.

Antes desse lançamento, a mais recente obra, referente ao concretismo, a chegar ao público foi “Outro”, de Augusto de Campos. O livro inédito fala sobre a trajetória da poesia concreta e, de acordo com entrevista do autor ao O Globo, em 18 de julho, último, mantém a tradição política do movimento com “desomenagem” ao golpe de 1964.

É fundamental falar de Augusto de Campos para ilustrar a importância de Concrecoisa. Por isso, mais abaixo, o blog abre espaço para a entrevista do ícone concretista ao jornal carioca.

Concrecoisa de César Rasec ganha formato de livro

Capa livro Concrecoisa

Obra, lançada no dia 16 de outubro, está no blog (www.concrecoisa.blogspot.com.br), mas você pode comprar a edição impressa

As concrecoisas do jornalista e escritor César Rasec ultrapassaram o formato digital do blog (www.concrecoisa.blogspot.com.br), onde existem desde 22 de setembro de 2010, para se fixarem nas folhas de papel do livro Concrecoisa – Volume 1, editado pela Tecnomuseu.

Neste primeiro volume, César Rasec selecionou 54 concrecoisas com temas variados para dar uma visão geral da obra em processo semanal que são publicadas no blog, sempre às sextas-feiras.

Concrecoisa Antropofagia

“As concrecoisas são postadas às sextas-feiras desde o mês de outubro de 2010. Desde então, nunca fiquei uma sexta-feira sem publicar a imagem e o texto de apoio. Já são mais de 250 postagens”, diz César Rasec. Ele acrescenta que “foi muito difícil fazer a edição do livro porque todas as concrecoisas são ‘filhos’ queridos e importantes”.

No livro colorido com texto de apresentação, na contracapa, assinado pelo tropicalista Rogério Duarte, o autor traz algumas definições de sua criação: “Concrecoisa é pensamento, é ideologia, é ensaio, é arte visual, é abstração, é desejo e esperança”, inicia as definições.

César Rasec acrescenta que concrecoisa “é história visual, cromática, ordenada e matemática”, sendo ainda “filosofia de vida presente no cotidiano”.

Concrecoisa Roda-vida

O termo concrecoisa surgiu quando o autor teve que dar um nome para as criações visuais que estavam sendo feitas. “Essa palavra concrecoisa foi inventada por mim, pois eu precisava de um nome para sintetizar bem a alquimia das letras, palavras, cores, fotografias e pensamentos”, confessa César Rasec.

O livro em cores, com 56 páginas, poderá ser adquirido diretamente com o autor (rasec1963@gmail.com) ao custo de R$ 25. Contatos com César Rasec: 9123-9153 e rasec1963@gmail.com

O que é poesia concreta?

Autores concretistas

“Outro”, de Augusto de Campos e a “Poesia Concreta”

Na entrevista ao O Globo, Augusto de Campos diz que ficou em sua cabeça uma frase que ouviu de Décio Pignatari (homenageado aqui, no blog) dias antes da morte do amigo, em dezembro de 2012. Em seu último encontro, eles conversaram sobre a efervescência da poesia concreta e da arte brasileira nos anos 1950 e 60. Para definir aquele momento de explosões criativas, debates, manifestos e dissidências, Décio cunhou uma expressão tão sintética quanto os mais provocantes poemas da época: “Movimentos movimentam”.

Aos 84 anos, Augusto mostra em “Outro” o interesse de sempre pela dimensão “verbivocovisual” (na poesia concreta, diz-se da forma de apresentação de um poema em que o texto é organizado segundo critérios relacionados aos aspectos gráficos e fonéticos das palavras; integração do verbal, do visual e do sonoro: a dimensão verbivocovisual da poesia) da escrita, conceito que os concretistas buscaram em James Joyce para definir a integração entre aspectos verbais, visuais e sonoros do poema. O novo livro do autor de clássicos como “Viva vaia” e “Luxo” inclui obras como “Ter remoto”, com versos em letras espelhadas descrevendo o bater de asas de uma borboleta, ou “Humano”, formado a partir de um painel com os 64 hexagramas do I Ching. Há ainda links para “clip-poemas” na internet.

Augusto faz homenagens em “Outro” a seus companheiros de Noigandres – nome do grupo que impulsionou a poesia concreta com a revista homônima fundada em 1952: seu irmão Haroldo de Campos (1929-2003), Décio Pignatari (1927-2012), José Lino Grünewald (1931-2000) e Ronaldo Azeredo (1937-2006). E ressalta: ‘O golpe militar de 1964 desarrumou nossa utopia construtivista. Tentamos fazer o mais difícil: uma poesia engajada sem concessões às “palavras da tribo”’.

Importante lembrar nesse momento político tão conturbado no Brasil: a atuação política do movimento é evocada em “Outro” com uma nova versão do poema “Brazilian ‘football’”, publicado pela primeira vez em 1964 na imprensa britânica, que denunciava o regime militar com um jogo entre as palavras “goal” e “gaol” (cadeia). “Não sei se o que faço é ainda poesia concreta. Fiquei talvez mais “pop”. Mas sempre “verbivocovisual”, diz Augusto, para quem “quase toda a intelligentsia brasileira” resistiu e ainda resiste ao projeto concretista. “Certa vez, escrevi que a poesia-bumerangue-concreta, depois de exportada, iria recair em cabeças duras. Está aí. Vão ter de engoli-la. Movimentos movimentam”.

Augusto de Campos - Football

“Brazilian ‘football’” foi publicado em setembro de 1964 no “Times Literary Supplement” de Londres em páginas que divulgavam a poesia concreta brasileira. Com ele, Augusto de Campos denunciava, em tempo relativamente real, passando de GOAL a GAOL (“cadeia”), as prisões da ditadura: “1958 — Goal. Goal. Goal. 1962 — Goal. Goal. Goal. 1964 — Gaol. Gaol. Gaol”.

“A data 2014 se refere ao novo layout com o qual relembro o poema. Ao revisitá-lo, pensei em uma “desomenagem” ao golpe de 1964. Hoje, dedico-o aos golpistas de todos os matizes do presente, chupins desmemoriados do poder”, enfatiza Augusto de Campos.

7 pensamentos sobre “A Poesia Concreta cada vez mais viva. Concrecoisa é a prova concreta disso

  1. Almoçamos outro dia no Mini Cacique e impressiona em Rasec a capacidade de não se acomodar, deixar estar ou, sob outra ótica, envelhecer. Sempre light e busy, ele não pára (me recuso a deixar de acentuar, quando necessário), expressando sua inconformidade com as coisas que somos obrigados a viver através da palavra, agora concreta, às vezes acompanhada de música.
    Amigo de boa cepa e ainda torcedor do Bahia!
    Viva Rasec

  2. Bomfa querido:

    Interessante que ao ler a Poesia Concreta cada vez mais viva associei imediatamente aos irmãos Campos, e olha a minha constatação no final da matéria. Muito bacana! Gostei muito!! Como sempre seu blog sempre informando com agilidade e precisão!!

    Abs

  3. Pingback: Falando na Lata

  4. Agradeço, e muito, ao amigo pela postagem sobre a concrecoisa e enriquecida com o mestre Augusto de Campos.

    Augusto, inclusive, conhece as concrecoisas.

    Numa troca de e-mail, em 2010, ele disse:
    ——————————————-

    Caro Cesar,

    Gostei das concrecoisas. Acho apenas que não deve dar tantas explicações sobre os poemas.
    Deixe rolar. Os outro que adivinhem e interpretem.

    Abraço Augusto
    ————————————

    Valeu Bomfa!

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