Não foi bonita a festa, pá…

O Grito - Tela do pintor norueguês Edvard Munch

O Grito – Tela do pintor norueguês Edvard Munch

Agora que a guerra terminou talvez a lucidez retorne aos brasileiros. Não, não imagino que a lucidez retorne às redes sociais. A loucura campeia no “face” e no twitter. Belas ferramentas, uma verdadeira revolução, mas para a maioria que as utilizaram durante as eleições não passam de trituradores de candidatos e, por extensão, da ética, moral e inteligência.
Incrível como pessoas comuns se transformam ali, principalmente no “face”. Não há espaço para debater ideias, programas, o que importa é acabar, destruir o adversário, naquele momento o maior inimigo.
O que seria uma grande festa cívica – a primeira vez em que 3 mulheres disputaram a Presidência da República – virou uma guerra suja, em que a verdade era o detalhe menos considerado.
Sequer se dão ao trabalho de olhar para a nossa artificial democracia. Baseado no poder financeiro de candidatos (não precisam ser milionários, mas é fundamental que tenham “costas quentes”, geralmente de empreiteiros, banqueiros, latifundiários do agronegócio, etc.) o sistema eleitoral está longe de ser exemplo democrático.
A começar pela imposição: as pessoas são obrigadas a votar!
Mesmo assim, e sabendo do quão ridículas são as multas por não votar (o valor da penalidade varia de R$ 1,05 a R$ 35,14), milhões de eleitores nem se abalam.
Vamos aos números nacionais:
O Brasil tem um colégio eleitoral de 142.821.358.
Dos quase 143 milhões de eleitores, a vencedora colheu 54.501.118.
O candidato derrotado conseguiu 51.041.155 votos.
Ou seja, os dois candidatos que chegaram ao segundo turno conseguiram 105 milhões 542 mil 273 votos. É este número que o Tribunal Superior Eleitoral chama de votos válidos.
O TSE e as leis brasileiras simplesmente apagam os 1.921.819 (1,71%) de votos brancos e os 5.219.787 (4,63%) votos nulos. Pela lei não valem nada.
A alta abstenção também não chamou a atenção das redes. Mais de 30 milhões de pessoas (30.137.479 ou 21,10% dos eleitores) não foram votar.
Teria sido este o protesto de milhões de pessoas contra o sistema?
Vamos aos números na eleição estadual na Bahia:
Rui Costa obteve 54,53% dos votos considerados válidos (3.558.975 votos) pela Lei Eleitoral. Paulo Souto ficou com 37,39% (2.440.409 votos). Lídice da Mata, 6,62% (432.379 votos); Marcos Mendes 0,78% (50.891 votos); Da Luz, do PRTB, 0,43% (27.781 votos); e Renata Mallet, do PSTU, 0,26% (16.788 votos).
Foram apurados 7.818.832; descartam os brancos 496.697 (6,35%) e os nulos 794.912 (10,17%) e chegam aos válidos: 6.527.223 (83,48%).
Ninguém fala, mas mais de 2 milhões de eleitores não foram digitar número nenhum: 2.360.558 (23,19%).
Se verificar direitinho, verá que o número da abstenção foi apenas 80 mil votos a menos que o resultado do segundo colocado.

 

“Nós” e “Eles”

O massacre nas redes sociais impedem que lucidez e inteligência andem juntas. Pessoas comuns, outras contratadas unicamente para criar perfis falsos e dirigentes partidários ficam 24 horas dando estocadas em seus “inimigos”.
Como disse a jornalista Ruth Aquino, da revista Época, “Nós” e “eles” estamos irremediavelmente ligados por um amor comum. O destino do país. E o país são as pessoas”.
No entanto, a insanidade durante as eleições e até depois impedem que todos vejam o país dessa forma. Daí surgem manifestações racistas, desabafos, impropérios de todo tipo.
E mesmo que se tentasse “culpar” uma região por resultado favorável a A ou B, não se pode esquecer que Dilma venceu a eleição em Minas e no Rio de Janeiro. A presidente fez 20.126.579 votos no Nordeste e 19.867.894 no Sudeste. Uma diferença de 258.685.
Nunca é demais lembrar que marqueteiros petistas passaram a explorar a ideia de “país dividido” desde a campanha para o segundo governo de Lula. As redes sociais vieram depois e ajudaram a disseminar isto, agora há a grita geral contra os preconceitos de regiões para regiões. O que parecia ser apenas uma “ideia brilhante” de marqueteiros para vencer eleição, agora tomou uma proporção muito maior.
Cabe aos dirigentes partidários, principalmente do PT porque é o partido que vence as eleições presidenciais há doze anos, desautorizar seus marqueteiros e fazer uma autoanálise sobre o mal que causam com esse tipo de propaganda durante a campanha e atualmente até fora dela.
Na campanha à Prefeitura de Salvador, há dois anos, tentou-se o mesmo, os petistas inventaram até um quadro típico (o “pé de pranta”). Com personagens falando errado, com deboche à ética e à moral, citando gírias do tráfico e cultivando uma planta considerada droga ilícita, os marqueteiros petistas felizmente não obtiveram sucesso e o quadro não durou a campanha toda, mas fica o registro para chefes do partido se antenarem.
Voltando a Ruth Aquino, “nós” e “eles” votamos – seja qual for o candidato – com sonhos parecidos. Que o Brasil vença a ignorância e o subdesenvolvimento. Que a inclusão social não signifique nivelamento por baixo. Que o conhecimento seja valorizado e se erradique o analfabetismo. Que o combate à desigualdade se qualifique por oportunidade real de ascensão, e todos tenham direito a saneamento e a moradia digna.
“Nós” e “eles” votamos para que não se adie mais a construção maciça de creches em todo o território nacional. Para que se cumpram as promessas de educação em tempo integral, e as escolas não parem por falta de professores. Para que se fiscalize a qualidade dos cursos técnicos e os mestres ganhem dignamente.
“Nós” e “eles” votamos para dar um basta às maracutaias de poderosos. Para que uma reforma política inclua prestação de contas, transparência e fim da corrupção que enlameou do planalto às planícies e contaminou uma estatal como a Petrobras. Votamos para sanear as contas do governo federal e saber se nossos impostos beneficiarão a população ou continuarão a encher os bolsos dos corruptos.
“Nós” e “eles” votamos para que o Brasil tome vergonha na cara e reduza drasticamente o recorde atual de 56.337 homicídios por ano – desses, 30.072 são jovens entre 15 e 29 anos! Números de guerra que revelam o fracasso da política nacional de segurança. Em 100 países, o Brasil está em sétimo lugar no extermínio de sua própria gente. Nosso país elucida apenas 8% dos homicídios. Votamos para não ser mais assaltados na rua, na praia, dentro de casa, na saída do banco, no ônibus, no carro, por gente que não dá valor à vida e atira na cabeça.

 

Imprensa e liberdade de expressão

Outra vítima no massacre das redes é a Imprensa. Muitos se esquecem que são profissionais do jornalismo e exercem mesmo é a militância partidária, orgulhosamente!
Na semana da eleição a revista Veja publicou reportagem baseada em depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal. A Veja é a revista que possui mais agilidade na publicação de reportagens consideradas investigativas. E é a revista que pauta toda a imprensa. Quem quiser comprovar é só conferir as principais reportagens da revista no fim de semana e o que TV, sites, jornais e outras revistas publicarão a partir do início da semana.
No entanto, a opção de grande parte do eleitorado e – o que é pior – de jornalistas foi o de acompanhar a opinião dos acusados na reportagem: toda a publicação era caluniosa, mentirosa e estava a serviço do candidato inimigo. Houve jornal que nem publicou o fato, optou pelos “memes” e manteve seus leitores desinformados.
A reação foi a mesma verificada em outros períodos. É o mesmo padrão contra as publicações de denúncias dessa revista. Isto foi visto na ditadura militar, no período de Collor, na era dos tucanos no poder. Tudo que foi dito antes contra as reportagens, agora é dito por aqueles que estão no poder e são acusados de malfeitos (termo da presidente). O padrão de repudiar as reportagens é o mesmo, desqualifica-se o mensageiro e fecha-se os olhos para a corrupção.
Como disse Noblat, “diante dos previsíveis danos dos depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef à campanha da reeleição, o PT e a candidata Dilma Rousseff não tinham saída: usar e abusar da inversão da culpa, tática que eles tão bem dominam – Lula à frente. Quem conseguiu transformar compradores de um dossiê falso contra José Serra (PSDB-SP) em “aloprados”, mensalão em caixa dois, mensaleiros em “guerreiros do povo brasileiro”, tudo pode”. 
Ainda repetindo Noblat, “quem tem parceiros como Fernando Collor e Renan Calheiros, com os quais a presidente desfilou em campanha em Alagoas, quem se aliou ao clã dos Sarney, Jáder Barbalho e a Paulo Maluf, pode mesmo afirmar que é o maior combatente contra a corrupção, algo que Dilma passou a enfiar em todos os discursos”.

No dia 20 de outubro, Lula disse “Agora é nós contra eles”, em comício ao lado de Dilma em Itaquera, distrito da Zona Leste da capital paulista, ele falou mal da imprensa – até aí nada demais. É direito dele. E nada tem de original.

Mas a certa altura do seu discurso, ele citou os nomes dos jornalistas Miriam Leitão, do jornal O Globo, e de William Bonner, apresentador do Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão.
– Daqui para frente é a Miriam Leitão falando mal da Dilma na televisão, e a gente falando bem dela (Dilma) na periferia. É o (William) Bonner falando mal dela no “Jornal Nacional”, e a gente falando bem dela em casa. Agora somos nós contra eles – ameaçou Lula.
Já pensou se esses jornalistas encontram na rua um grupo de militantes naquele período eleitoral?

E as bandeiras?

A esperança que representava o PT se foi. O marketing do partido aprendeu bem com seus adversários – ou seriam inimigos? – e optou pelo medo (algo que já pertenceu aos tucanos). Depois de aniquilar Marina Silva, que caiu na armadilha de citar bandeiras que eram do PT em sua origem (por exemplo a autonomia do Banco Central, ainda defendida por tantos petistas, inclusive por aquele considerado o melhor deputado federal do partido em 2014, infelizmente não reeleito, Amauri Teixeira) e foi bombardeada, o marketing petista viu que a tática deu resultado e partiu para o ataque tendo o exército das redes como suporte e retaguarda. Nem se deu conta que poderia ganhar de forma nobre.
Cito o jornalista Patrício Ribeiro, que lembra a inação do partido em favor do trabalhador. Questiona ele, cadê “a redução da jornada de trabalho, medida que resultaria, por si só, em aumento do número de empregos – claro, se acompanhada de uma boa reforma tributária. Ao contrário. Aposentado passou a contribuir com a Previdência, pessoas que ganham em torno de R$ 2 mil pagam Imposto de Renda, pessoas que ganham R$ 10 mil pagam a mesma alíquota de Imposto de Renda (27,5%) de quem tem rendimentos de R$ 100 mil ou R$ 100 milhões”.

Cito também o jornalista Zé de Jesus Barreto, com suas “Gotas de reflexão pós-eleição:

Dilma se reelegeu. Isso significa 16 anos seguidos de PT no governo. Acabou-se essa balela de ‘herança maldita’ alheia.
– Foi a eleição mais disputada da história do país. Três pontos percentuais de diferença e uma abstenção acima de 20 % = mais de 36 milhões deixaram de votar ou anularam seus votos.
– No mais, a presidente Dilma disse que se sente mais forte, está mais serena e mais madura para governar. Que bom!  Confiança. 
–  Atenção: Pouco antes do discurso de união, Dilma louvou o ‘líder maior’ o ‘primeiro de todos os militantes’, o presidente Lula. Bem, Lula foi sim talvez o maior responsável pelo racha – ‘nós x eles’ – pelo clima agressivo da campanha, sobretudo nas duas semanas finais, onde, em cima dos palanques, só fez xingar, mentir, demolir o que entendia por inimigos. Lamentável. Pior, está grudado em Dilma e  já se põe candidatíssimo à sucessão, em 2018. Já no palanque.
Que o Senhor do Bomfim olhe pelo Brasil e viva o Povo Brasileiro! 
Zédejesusbarreto – 27out2014

E outro jornalista, Lauro Jardim, fala dos bastidores da campanha vitoriosa:

 O santo milagreiro‏
“Dilma Rousseff tende, neste segundo mandato, a ficar menos devedora do PT e de Lula. Devedora, se tivesse que ser, seria de João Santana, um vitorioso incontestável desta eleição.
Santana soube desconstruir adversários – como ninguém, aliás. Mas também soube construir.
Num país com a economia estagnada, com indicadores preocupantes para 2015, com a crise energética batendo as portas, Santana conseguiu um milagre.
De acordo com o Datafolha de quarta-feira passada, o otimismo do brasileiro com a economia voltou aos índices de 2007.
Esse, sim, é o santo milagreiro da campanha petista”.

O massacre das redes e a falta de lucidez fez muita gente se afastar de família, namorada (o), amigos (as). No início de outubro, o jornalista Nelson Mota escreveu o artigo:

A arte do desencontro – Artigo de Nelson Motta
11 de outubro de 2014
Comecei no jornalismo em 1967, com 22 anos, sem diploma, como estagiário do “Jornal do Brasil”, onde trabalhei por um ano como repórter de arte e cultura, até ser chamado por Samuel Wainer para assinar uma coluna diária sobre juventude na “Ultima Hora”. Era muito poder para um jovem apaixonado por música, cinema e política, mas desde o início, por meu temperamento tolerante e contrariando o espírito jornalístico tradicional, decidi que nunca perderia um amigo para não perder uma notícia.
Deu certo, em quase 50 anos de jornalismo só fui ganhando amigos, e eles sempre me deram em primeira mão as melhores notícias… rsrs
Depois da redemocratização também decidi que jamais perderia um amigo por causa de política. Nem os que apoiaram Collor quando fiz campanha para Mário Covas. Acho que a vida é tecida por relações entre pessoas, indivíduos diferentes, e, como dizia Vinicius de Moraes, “é a arte do encontro — embora haja tanto desencontro pela vida”.
As próximas semanas serão de sangue, suor e lágrimas entre os candidatos e seus partidos, num vale-tudo no rádio, televisão, jornais e internet, que pode ter consequências desastrosas para vencedores e vencidos, rachando o país. Com essa ameaça, é preciso ser muito burro para chegar a romper amizades por paixão política — a mais nefasta de todas as paixões, que faz heróis de ontem vilões de amanhã, e do “nós” de hoje o “eles” de ontem.
A menos que alguém esteja defendendo um candidato ou partido em causa própria, porque depende deles — quando qualquer discussão é inútil — todas as outras são possíveis, desde que não se atribua ao outro falhas de caráter, intenções malignas ou interesses escusos por defender seu candidato. Isso não é política, é estupidez.
Pode até parecer ingenuidade, mas é só o óbvio ululante: se o PT reconhecesse as conquistas econômicas dos governos FH, e o PSDB o resultado de programas sociais petistas, e seguissem adiante, já seria uma grande economia de tempo (e de lama) para começar a discutir o que realmente interessa: como crescer e distribuir renda, com melhores serviços públicos e menos impostos.
 

E o blog encerra esse balanço eleitoral com citação de Martin Luther King:

‘O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.’

4 pensamentos sobre “Não foi bonita a festa, pá…

  1. Pingback: big brown __ | falandonalata1

  2. Parabéns, Bomfim,
    Muito bom. Encaminhei para vários amigos. Uma análise excelente sem tomar partido nas cretinices que se lê por aí.

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