“Que fase!” Jornalismo perde mais um grande profissional. Ivan de Carvalho partiu

Ivan de Carvalho

Ivan de Carvalho

Aos 11 minutos desta quarta-feira (7 de maio) recebo mensagem no celular, enviada pelo meu amigo Paulo Bina, jornalista, chefe da Assessoria de Comunicação da Assembleia Legislativa da Bahia. “Infelizmente o pior aconteceu e Ivan faleceu. O corpo deve chegar ao Jardim da Saudade às 10 horas. O enterro será às 15h30”.
No sábado, 3, eu e Bina falamos da morte de João Carlos Sampaio e Arlindo Félix. Bina citou um um comentário de Biaggio Talento, outro amigo jornalista: “Que fase!”.
Segundo Bina, o comentário de Biaggio foi expresso quando ele procurou informações sobre o sepultamento de João Carlos Sampaio.
Bina acrescentou ao comentário, “más notícias. Não está nada bem Ivan de Carvalho. Desde começo de janeiro internado com problemas pulmonares e cardíacos. Anteriormente no Santa Izabel, mas teve alta na véspera do carnaval e em casa dependia de oxigênio. Ultimamente estava se livrando dessa muleta, mas há uma semana foi ao Jorge Valente para um procedimento de drenagem pulmonar (uma embolia felizmente identificada e localizada) que parecia simples, tanto que foi andando. Deu tudo errado. Um enfarte e outras complicações levaram-no a UTI do Hospital da Bahia”.
Bina conhecia Ivan desde 1982. No sábado, me disse: “É uma pessoa singular na simplicidade, capacidade de debater, ensinar (aprendi um bocadão)”.
Ivan era uma pessoa muito simples. Um fato que ilustra sua simplicidade e desapego ao poder ocorreu no já distante 1985 quando houve uma guerra de poder em torno do controle do Irdeb. De um lado Beto Simões e o grupo de Jonival Lucas, de outro ACM que tinha como ponta de lança Alberval Figueiredo, então secretário de Comunicação do governador João Durval.
Bina presenciou o convite direto feito pelo governador, que gostava de Ivan e precisava de um nome aceitável por ACM, mas que não fosse fazer tudo que o homem mandasse, uma pessoa com compostura pessoal.
Mas Ivan declinou do convite. Disse que gostava do trabalho no jornal. Mas acabou pedindo prazo para não parecer indelicadeza de sua parte. Depois conseguiu convencer a todos. Seus argumentos: não podia aceitar porque o cargo mudaria a sua rotina; dormia tarde, lia à noite, gostava de acordar depois das 11 da manhã, portanto…
Leia a homenagem do Bahia em Pauta, feita por Vitor Hugo Soares

Ivan e o editor do BP em foto de outubro de 2013

Ivan de Carvalho, Adeus
Por: Vitor Hugo Soares
Morreu ontem a noite, no Hospital da Bahia, Ivan Lemos de Carvalho, ou simplesmente Ivan de Carvalho, como ele assinava há décadas a coluna política que escrevia diariamente para a Tribuna da Bahia, publicada também no Bahia em Pauta desde a fundação deste site blog.
O BP perde um esteio generoso, um guia seguro e uma âncora firme e resistente como o Carvalho do seu nome. A Bahia perde o seu jornalista político brilhante, culto, inteligente e capaz de se renovar a cada dia, na abordagem de temas no seu universo inesgotável de assuntos. Do dia a dia dos bastidores da política partidária e do poder na Bahia e no Brasil, aos discos voadores, os OVNIS, tema que ele dominava como poucos.
Tudo com informações fartas, texto atraente e cativante, éticos, críticos e não raramente autocríticos. Temperados sempre com fartas doses de bom humor, uma marca de Ivan, pessoal e profissionalmente falando.
O agravamento geral de antigos e novos problemas cardíacos e pulmonares, na saúde já delicada, apontava para o triste desenlace deste dia de luto e pesar do jornalismo baiano e nacional, pois Ivan de Carvalho ocupou, também, durante um período, a chefia da sucursal do Jornal do Brasil, em Salvador, onde trabalhava também este editor do Bahia em Pauta.
Aí foi sedimentada a forte amizade pessoal nascida na Faculdade de Direito da UFBA, fortalecida em muitos anos de batente de imprensa e convívio intenso, respeito e admiração intelectual. Ultimamente, até o seu mais recente internamento, os contatos por telefone eram praticamente diários, não raro madrugada adentro.
O prenúncio da partida veio através do telefonema de sua Célia, a amada, corajosa e leal companheira até o último suspiro, comunicando o estado crítico de Ivan.
Por volta das 22h chegou o e-mail de Taciano de Carvalho, editor do Blog Gama Livre, em Brasília, que vai transcrito na integra nesta madrugada de despedida:
“Vitor,
Meu irmão Ivan Lemos de Carvalho, seu amigo, acaba de partir na noite desta terça, 6 de maio de 2014. Estava internado desde o dia 26 de maio no Hospital da Bahia. O enterro será no Jardim da Saudade às 15h30. Está previsto o corpo chegar ao cemitério às 10h30″. Abraço,
Taciano Lemos de Carvalho
Na hora da morte, um viva à vida e ao exemplo de Ivan de Carvalho.
(Vitor Hugo Soares, editor, em nome de todos os que pensam e fazem o BP e em memória de seu cronista político maior)
E os comentários no Bahia em Pauta
Rosane Santana on 7 maio, 2014 at 4:41 #
Triste notícia, Vitor. Além de grande profissional, cujas qualidades você realçou, Ivan também foi um homem admirável em sua simplicidade, correção e humanismo. Que siga em paz!
luiz alfredo motta fontana on 7 maio, 2014 at 7:51 #
Manhã triste!
Ivan de Carvalho era sobretudo fraterno. Sempre acolheu as divergências, jamais mudou o tom. Foi fiel às suas crenças, e sereno em equívocos, especialmente suas defesas ao tucanato. Seu encanto com a ala mais conservadora e retrógrada da Igreja são exemplos destes descaminhos, mas nada disto maculou sua gentileza e fino trato.
Manhã triste!
vangelis.a on 7 maio, 2014 at 8:55 #
Perdemos um excelente profissional. RIP.
luiz alfredo motta fontana on 7 maio, 2014 at 9:13 #
Gracinha on 7 maio, 2014 at 9:39 #
Bela homenagem! Que Deus lhe conceda a paz eterna. Admirava muito as crônicas de Ivan e sobretudo a sua cordialidade e elegância. Noticia triste!
Olivia on 7 maio, 2014 at 9:44 #
Vá na boa, querido Ivan, aqui permanecemos mais tristes.
regina on 7 maio, 2014 at 9:53 #
Recebo com pesar esta noticia do falecimento do Ivan de Carvalho. Assino com o Fontana no seu comentário, ele era um homem gentil. Mantivemos alguns debates nas áreas em que mais discordávamos e foram muito interessantes e reveladores. Embora não fosse necessariamente uma de suas assíduas leitoras, sua presença no BP demonstrava uma pessoa comprometida com suas crenças as quais aprofundava nos estudos, e isso é sempre uma virtude. Que sua passagem seja suave como sua fé ensina.
Geraldo Vilalva on 7 maio, 2014 at 9:54 #
Um colega exemplar na Faculdade e companheiro irrepreensível na velha Tribuna da Bahia. Seu texto era gostoso de ler, trazendo fustigadas diplomáticas e colocações primorosas.

O comentário do jornalista e delegado de polícia Antônio Matos:

Ivan foi meu contemporâneo na Faculdade de Direito da UFBª – eu, calouro, da turma de 1966, de Arx Tourinho, Durval Ramos Neto, Francisco Hupsel, Wellington Cerqueira, Pedro Rodamilans. Ele, da turma de 68, tendo como colegas, dentre outros, Eliana Calmon (a ministra, agora candidata), João Laranjeira, Ivan Solón, Helenalvo Meireles e Iran Barroso (delegados de polícia) e Sinésio Cabral (desembargador).
Voltamos a nos encontrar em junho de 1968, eu, ainda no 3º ano de Direito, e ele, já formado, na “Escolinha TB”, uma oficina montada por Quintino de Carvalho, seu tio, numa sala no edifício Banpolar, no Comércio, para preparar jornalistas que iriam trabalhar na “Tribuna da Bahia”, prevista para ser inaugurada no começo de 1969. (Uma interminável greve no porto de New York, que atrasou a chegada do maquinário, adiou o seu início para outubro daquele ano).
Eu, editor de esportes, ele, editor de política. Estivemos juntos até 1974, quando troquei a “Tribuna” pelo “Diário de Notícias”. Ético, dono de um texto “redondo”, inteligente, era um exemplo para todos na redação.
Com surpresa, fui informado de sua morte e do seu sepultamento, esta manhã, por Manuela Matos, minha filha e também jornalista.
Sabia que fumava até bem pouco tempo, mas desconhecia que se encontrava doente e que estivera internado.
Depois de Carlos Catela, Arlindo Félix e João Carlos Sampaio, outro companheiro está nos deixando. Que vá em paz, “Ivan Pureza”*.
Um abraço,
Antônio Matos
*Obs. – Era assim que Quintino o chamava, em homenagem a sua tia Pureza, tão tranquila quanto ele.
Leia também na  Tribuna da Bahia

11 pensamentos sobre ““Que fase!” Jornalismo perde mais um grande profissional. Ivan de Carvalho partiu

  1. Em 2007 escrevi esse comentário sobre Ivan em texto do extinto Ingresia de Franciel.

    http://ingresia.wordpress.com/2007/03/09/ivan-el-terrible/:

    Anonymous Says:
    J f, 2007 às 2:52 pm | Responder
    Atesto a fama de direitista de Ivan. Digo fama, porque, a rigor, ele nunca deu mostras de nenhuma das torpezas reais ou imaginárias de um direitista. A alcunha me foi cochichada assim que cheguei na redação da Tribuna em 92 para cobrir política (em uma época em que cobertura política na Bahia ainda existia): “Olhe, cuidado com Ivan ele defende ACM e é de direita”. Olhei pra o senhor que batia sua coluna compenetradíssimo e gostei da figura no ato. O humor redime quase tudo, mas é apenas uma de suas qualidades sutis. Durante o tempo em que fui sua colega na Tribuna e no finado Bahia Hoje nunca o vi falar mal de nenhum companheiro de redação. Reservado e educado, destoava do desmazelo e do fuzuê que grassava na barulhenta e claustrofóbica redação da Djalma Dutra. Generoso com todos e sarcástico com quem merecia, sempre encontrava tempo para irônica, cifrada e discretamente me apitar uma dica. Embora eu fosse uma foca típica sempre me tratou como uma igual. No passo descansado e com a mão escorrada no quadril, soltava com ar distante e casual coisas do tipo “Você criou problema pra sicrano hein?”, que me enchiam de estímulo e segurança. Com o tempo, os papos foram derivando da política para existencialismos, inteligência extraterestre, teosofia, astrofísica e outras loucuras e hermetismos saudáveis. Ivan é uma das criaturas mais doces e de espírito mais fino que conheci e, quando lembro dele, sempre me recordo de uma frase de Paulo Bina dita em uma dia em que algum chato reclamou do fato de Ivan, por motivo justificado, não ter aparecido pra trabalhar: “E eu lá tenho moral para exigir alguma coisa de Ivan?”.

    PS: ele era um gnóstico tipico e uma de suas crenças me causava muita agonia.Ele acreditava que quando alguém morre seu espírito deixa de existir como uma entidade individual e sua energia se junta às forças cósmicas. Não tem quem me faça acreditar nisso. É muito poético achar que Ivan virou poeira de estrelas, mas isso não tem nenhuma lógica metafísica:ele é um espírito bonito demais para ser dispersado.

  2. Realmente há determinada época que essa “fase” é constante, um atrás de outro, é como se houvesse uma combinação desses espíritos partirem juntos, se encontrarem e com certeza dar continuidade aos seus trabalhos! A vida nos ensina a dizer adeus às pessoas que amamos, sem tirá-las dos nossos corações!

  3. Bomfa:

    Ivan foi meu contemporâneo na Faculdade de Direito da UFBª – eu, calouro, da turma de 1966, de Arx Tourinho, Durval Ramos Neto, Francisco Hupsel, Wellington Cerqueira, Pedro Rodamilans. Ele, da turma de 68, tendo como colegas, dentre outros, Eliana Calmon (a ministra, agora candidata), João Laranjeira, Ivan Solón, Helenalvo Meireles e Iran Barroso (delegados de polícia) e Sinésio Cabral (desembargador).
    Voltamos a nos encontrar em junho de 1968, eu, ainda no 3º ano de Direito, e ele, já formado, na “Escolinha TB”, uma oficina montada por Quintino de Carvalho, seu tio, numa sala no edifício Banpolar, no Comércio, para preparar jornalistas que iriam trabalhar na “Tribuna da Bahia”, prevista para ser inaugurada no começo de 1969. (Uma interminável greve no porto de New York, que atrasou a chegada do maquinário, adiou o seu início para outubro daquele ano).
    Eu, editor de esportes, ele, editor de política. Estivemos juntos até 1974, quando troquei a “Tribuna” pelo “Diário de Notícias”. Ético, dono de um texto “redondo”, inteligente, era um exemplo para todos na redação.
    Com surpresa, fui informado de sua morte e do seu sepultamento, esta manhã, por Manuela Matos, minha filha e também jornalista.
    Sabia que fumava até bem pouco tempo, mas desconhecia que se encontrava doente e que estivera internado.
    Depois de Carlos Catela, Arlindo Félix e João Carlos Sampaio, outro companheiro está nos deixando. Que vá em paz, “Ivan Pureza”*.

    Um abraço,

    Antônio Matos

    *Obs. – Era assim que Quintino o chamava, em homenagem a sua tia Pureza, tão tranquila quanto ele.

  4. Pingback: big brown: adeus, Ivan de Carvalho | falandonalata1

  5. Um tanto sem palavras, engrosso a lista de pesar dos que com ele conviveram na sempre despertadora de boas lembranças e originária de boas amizades: a Redação da Tribuna da Bahia. Com Ivan não cheguei a ter amizade estreita, como com outros colegas da época, mas tínhamos muita simpatia um pelo outro e muitas vezes ele me dava ótimos ensinamentos do fazer jornalístico. Nesse quesito, aprendi muito também com outro contemporâneo da TB no fim dos anos 80 e de quem agora bateu saudade: José Olympio. Que Deus os tenha na luz.

    Bonfa, um beijo!

     

    Berna Farias Jornalista DRT/Ba 1158 71 9979-2741    

    >________________________________

  6. Vitor Hugo é outra figura ímpar, daqueles que Jadson Oliveira (agnóstico) considera um santo, junto com Bosco e Adelmo Oliveira, o ex-deputado de quem estamos publicando uma seleta de poemas.

    Abs tristes, Brown.
    P Bina

  7. Não o conheci, Bomfim, apenas de nome, foi bom saber um pouco mais sobre ele aqui.
    Fará falta, profissionais assim são cada vez mais raros.
    Bj

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