A morte de Santiago Andrade expõe o abismo do real e do virtual

ArlitaSantiago

Os dois textos que o blog reproduz são significativos para a reflexão de internautas – ou não –  que estão aturdidos com a violência extrema que tem tomado conta do Brasil. Não há aqui uma guerra civil como em outros países, mas a cada dia – principalmente nos fins de semana – a estatística de mortos e feridos é de assustar. E chama também para a reflexão, gente que troca a vida real pelo cômodo divã das “redes sociais”. Nas fotos, Arlita, que perdeu Santiago. Vamos aos textos.

Decepção virtual

Autora: Cora Rónai – colunista de O GLOBO
Conhecer melhor as pessoas é uma das grandes vantagens e desvantagens das redes sociais
Uma das grandes vantagens das redes sociais é que, nelas, passamos a conhecer melhor as pessoas. Uma das grandes desvantagens das redes sociais é que, nelas, passamos a conhecer melhor as pessoas. Ao longo dos últimos dias, tive — como tivemos todos nós, jornalistas — uma overdose de ambas; e posso dizer, com convicção absoluta, que não estou preparada emocionalmente para conhecer melhor as pessoas.
Pegando o mote do meu amigo João Ximenes Braga, não sei de ninguém que, perto de mim, defenda a violência policial. Como ele, nunca tive um amigo, conhecido, pessoa de qualquer relação, que defendesse que bandido bom é bandido morto. Nunca ouvi essa frase enunciada em ambiente no qual eu estivesse presente, a não ser em tom de brincadeira ou reprovação. Também não tenho amigos que apoiem o Bolsonaro, o Marcos Feliciano ou a Rachel Sheherazade — de quem, aliás, eu nunca tinha ouvido falar. Meus amigos e conhecidos tendem a ser pessoas cordiais e afáveis, que fazem o bem, respeitam a lei e o próximo. De modo que, como o João, eu também achava que estava razoavelmente a salvo do convívio com pessoas de má-fé, intelectualmente desonestas ou, na melhor das hipóteses, insensíveis e sem noção. Daquilo, enfim, que o João, resumida e apropriadamente, definiu como “gente babaca”. Até que…
Não, não aconteceu de uma vez só. Foi aos poucos. Quando as manifestações foram sequestradas pelos black blocs, em meados de 2013, passei a conhecer melhor muitas pessoas. Foi um choque. Vi gente que até então eu tinha em alta conta defendendo a violência nas ruas como forma de manifestação legítima; vi pessoas que até então me pareciam civilizadas relativizando comportamentos absolutamente inaceitáveis, como a destruição de bancas de revistas ou o saque de lojas, para não falar na sistemática destruição de equipamentos públicos. Tentei argumentar com alguns (na verdade, muitos); escrevi duas ou três vezes sobre o assunto aqui mesmo, no jornal; usei blog, Twitter e Facebook na tentativa de explicar para onde aquela violência fatalmente nos conduziria. Fui chamada de — como é que vocês adivinharam? — burguesa da Zona Sul, reacionária, elite branca. E jornalista.
É que, àquela altura, já havia começado a caça às bruxas. Com a imprensa transformada em vilã, nós, jornalistas, passamos a ser ofendidos, acuados, agredidos. Tornei a escrever, sugerindo aos descontentes mudarem de canal em vez de queimar carros de reportagem. E de novo fui surpreendida pela reação de algumas pessoas supostamente educadas, que justificavam as agressões feitas aos meus colegas porque, afinal, a cobertura das manifestações não estava bem de acordo com o que a Mídia Ninja ou os black blocs imaginavam que deveria ser.
— Mas vocês acham sinceramente que isso justifica bater em repórter e em cinegrafista?! Vocês acham que está certo expulsar jornalista de espaço público?! Vocês querem mesmo um país sem imprensa?!
Os esclarecidos davam metaforicamente de ombros. Naqueles dias em que a Mídia Ninja ainda parecia ser um projeto independente, era cool defender os black blocs que atacavam jornalistas; por outro lado, era muito pouco cool reconhecer que repórteres, cinegrafistas e fotógrafos eram trabalhadores de carne e osso, que estavam sendo hostilizados e feridos, e cujos direitos estavam sendo cerceados.
Jamais esquecerei o vídeo em que uma equipe da Band, expulsa de uma manifestação, só conseguiu chegar ao carro passando por um corredor polonês de imbecis descontrolados, que se achavam ungidos pela Verdade Revolucionária, na definição perfeita do meu colega Fernando Mollica. Nunca vi nada mais parecido com uma cena de filme sobre a ascensão do nazismo, com a diferença de que aquilo era real e estava acontecendo logo ali.
Quando eu achava que já tinha visto de tudo, e que daquele ponto a decepção não passaria, foi anunciada a morte cerebral do cinegrafista Santiago Andrade. Acredito que estilhaços do rojão que o matou atingiram também a alma de todos nós que somos jornalistas, que nos orgulhamos da nossa profissão e que sabemos da importância da liberdade de imprensa para um país que se quer democrático. Os mais velhos, entre os quais me incluo, nos lembramos bem do que é trabalhar sob censura.
Pois não é que várias pessoas que eu imaginara serem gente de bem escolheram exatamente essa hora para abdicar da própria inteligência? Li coisas de um nível de estupidez indescritível, geralmente associadas à conjunção adversativa mau-caratista que tem sido a marca registrada do país: “Tá, o cinegrafista morreu, mas — e a violência da polícia?”.
Isso para não falar nos que acham que a morte de Santiago não foi assassinato, mas “acidente”, e que nós, jornalistas, estamos exagerando ao dar a um crime o nome que lhe cabe. Ora, nunca vi ninguém acender estopim de “acidente”, um “acontecimento repentino, fortuito e desagradável” na definição do dicionário.
Foram pessoas como os assassinos do Santiago que afastaram o povo das manifestações, ao transformar os protestos em batalhas campais; são canalhas assim, que soltam rojões no meio da multidão, que estão enfim dando aos políticos e à polícia, de mão beijada, a carta branca que tanto querem para sufocar de vez os protestos legítimos da população.
Mas quem justifica a violência como “movimento” ou “estética”, e quem tenta diminuir a importância da morte de um jornalista no exercício da profissão, também terá a sua culpa no cartório no dia em que não pudermos mais sair às ruas — rotulados, todos, de terroristas, para indizível gáudio do governo.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/decepcao-virtual-11587180#ixzz2tDGszRS1
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Um rojão à espera de mais fatalidades, por Diego Escosteguy

Autor: Diego Escosteguy (diretor da sucursal de Brasília da revista ÉPOCA)

A trágica morte do cinegrafista Santiago Andrade não foi uma mera fatalidade. O rojão que o matou fora aceso há meses. Coube aos dois mascarados apenas acabar o serviço. Quando o rojão finalmente explodiu, é possível que ele não estivesse apontado intencionalmente a Santiago. Mas isso não interessa.
Não interessa porque, numa República, não há vidas mais importantes do que outras. A vida de Santiago era tão preciosa quanto a vida de qualquer cidadão. Qualquer jornalista. Qualquer Policial Militar. Qualquer Black Bloc. Em suma, de qualquer um que pudesse estar no caminho do rojão naquela tarde de quinta-feira na praça Duque de Caxias.
Num país em que se reduz todo ato de barbárie a uma fatalidade, seja matar um jornalista ou trancar um adolescente pelo pescoço a um poste, tudo é permitido. E, num país de fatalidades, ninguém é responsável por nada. A morte de Santiago não poderia ser exceção.
Uma fatalidade? Diga isso a Arlita Andrade, viúva de Santiago, e aos seus quatro filhos. Diga a ela que não havia como ser diferente. Que a dor dela era inevitável. “Minha família foi destruída”, disse Arlita, como dizem tantas viúvas da violência que define nosso país.
 O cinegrafista Santiago Andrade e a esposa Arlita. O bebê é a filha mais velha – Vanessa Andrade, hoje com 29 anos e  que seguiu a profissão do pai
 A família de Arlita foi destruída pelos dois mascarados – que, como acontece numa democracia, terão direito à ampla defesa e serão julgados pelo o que fizeram. Mas a família de Arlita não foi destruída apenas pelo que fizeram ambos os suspeitos. Os atos dos dois não surgiram no éter. Sobrevieram num momento de ascensão, no Brasil, de um discurso de intolerância, de ódio mesmo, em relação às principais instituições que dão sentido ao país.
É o discurso que, há meses, acendeu o rojão contra a democracia brasileira. Um discurso que define como vilões da nação a imprensa, os políticos e as demais instituições do Brasil. Um discurso que aparece nos gritos dos Black Blocs, mas que nasce e se propaga em blogs e sites governistas, financiados com dinheiro público com a missão de difamar a imprensa profissional. Os responsáveis por esses veículos, a pretexto de defender o pluralismo político, dedicam-se – sub-repticiamente e usando máscaras tão negras quanto às dos jovens que explodem rojões nas ruas – a achincalhar jornalistas, procuradores, políticos.
As ideias dos mascarados digitais tomam forma nas ações dos mascarados da rua. Não à-toa, 114 jornalistas foram feridos desde o começo dos protestos, em junho passado. Acossados por Black Blocs, mas também pela polícia, repórteres têm que aderir ao anonimato para poder trabalhar. Mas as vítimas não são apenas jornalistas como Santiago. O rojão que o matou ainda não acabou de explodir. Está à espera de mais fatalidades.

7 pensamentos sobre “A morte de Santiago Andrade expõe o abismo do real e do virtual

  1. Brown, querido amigo, o artigo de Cora Rónai está especial.

    Tenho enorme curiosidade sobre o nazismo na Alemanha da primeira metade do século passado. Já li uns 400 livros sobre o tema que me impressiona mais do que a guerra propriamente dita. Os últimos formam uma maçaroca de quase três mil folhas e o estudo é dividido em partes: A Ascensão do Nazismo. No Poder. Em Guerra.
    São impressionantes as semelhanças e a diferença só me faz ficar com os pelos arrepiados de medo, pois lá o, digamos, fenômeno aconteceu no país mais avançado da Europa, envolvendo a nação mais educada e culta do mundo – entupida de prêmios Nobel (científicos, mas também nas humanidades,) com artistas plásticos, escultores, músicos, compositores, escritores e orquestras cultuados em todo o mundo. Aqui, a ignorância e apobrezam imperam. Estão aí os testes de Pisa, as olimpíadas de matemática, os IDHs e a pobreza africana de parte da nossa favelada população que está à beira de um ataque de nervos por não aguentar mais a incúria e o descaso dos poderosos com as coisas mais elementares: saúde, educação, segurança pública, transporte (agora o chique é falar em mobilidade) e tudo mais, como você bem sabe.
    A não ser que se acredite na classe média de R1,1 mil mensais de renda familiar, nos 1,3 milhões de alfabetizados pelo Topa, quando o MEC diz que em sete anos houve 100 mil adultos alfabetizados na Bahia) e o PNAD do IBGE constada que o analfabetismo aumentou em 2012 sobre o ano anterior no país, com a maior piora aqui na Boa Terra. Ou ainda que se acredite na espetacular taxa de desemprego da ordem de 5%¨.
    Bonfa, amigo velho, IBGE e o caralho a quatro não contam como desempregado a legião dos excluídos do mercado porque, não possui instrumental mínimo para encontrar trabalho algum, ou simplesmente cansou de penar e desistiu. Ou ainda os sem-número de flanelinhas, vendedores de balas ou água mineral (imagine a origem) ou de coco e picolé na praia. Esses todos e muitos outros estão empregados nas estatísticas oficiais. Ora… eu perdendo tempo com esses números. Vamos ao X da questão.
    Lá com tudo a favor, os desmandos, queda de governo, uma elite burra e gananciosa, junto com o desemprego, inflação galopante (nunca houve nada igual), falência do estado, crise internacional – e especialmente empobrecimento das camadas médias e de parte do proletariado (os comunistas e socialistas – quase o mesmo lá na época) acabou irritando a todos, cansando, e permitindo que a boçalidade dos grupelhos organizados (como se vê acá, só que pretensamente de esquerda) e violentos se impusesse. Hitler tomou posse no final de janeiro de 33, três meses depois o processo de nazificação, com prisão de centenas de milhares de pretensos opositores, fechamento de sindicatos, associações (ou nazificação), expurgos em empresas e universidades dos indesejados (letrados em geral, esquerdistas, militantes dos demais partidos que não o oficial e especialmente os judeus). Em seis meses até as igrejas foram silenciadas (embora prelados católicos e muitos pastores batistas lutassem até o fim, sofrendo duras consequências).
    A coisa foi na porrada. No quebra-quebra, na intimidação – antes depois da tomada do aparelho estatal. Em três meses já era impossível arranjar um emprego se não fosse militante ou integrasse a maioria dos conformados. A ordem foi imposta a partir da ruína dos outros e só deu no que deu, lá, porque a liderança era toda de desajustados, viciados, ex-prisioneiros e marginais unidos pela cobiça, ódio a quem não comungasse com eles, racismo, e inteligência.

    Metro, ônibus, estabelecimentos comerciais, de adversários foram destruídos. De todos. Não apenas dos judeus, no poder a coisa foi direcionada com força para esse segmento. Os nazistas primeiro ganharam o domínio das praças, das ruas e das manifestações no tapa. Sem respeito a nada ou a ninguém.
    A polícia que coibia excessos, e o judiciário, dobraram-se logo logo e deu no que deu.

    Aqui eu vejo esses boçais querendo queimar e destruir símbolos do capitalismo. ônibus, bancas de revistas, lanchonetes, carros de reportagem e, é claro bancos e escritórios chiques. Mas esculhambam lixeiras, pontos de ônibus e metro, calçamento, placas de trânsito…
    Que revolucionários. E temos, muitas vezes ao lado, vizinhos, achando que é isso mesmo. O governo não age, vamos para a lei de talião. Lá foi assim.
    Veja o absurdo de que temos mais policiais feridos nas manifestações que manifestantes ou black blocs. Parece mentira. E eu não tenho simpatia alguma por polícia, em especial a nossa tão bem treinada. Né não?

    Leia sobre a lei antiterrorismo que o PT que impingir aos brasileiros. É nazista, pois quem age, depreda, pinta e borda e, agora, sabemos, mata, “com fins sociais e coletivos” não é atingido pela lei draconiana.
    Leis temos de mais. Não temos é governo para fazê-las sem cumpridas, com uma polícia que investigue, prenda e instrua os inquéritos com rigor ou muito menos um Judiciário rápido e eficiente.

    Não apenas os dirigentes do país (que 12 anos depois ainda clamam contra as elites perversas ou a herança maldita. Se essa turma não é a elite, que porra é???). A coisa é mais embaixo, como naquela Alemanha. Ali também juízes eram príncipes, bem remunerados e prestigiados. Aliás, lá o funcionalismo servia ao público e era composto de uma elite. Eles só mudaram de lado quando a boçalidade chegou ao Poder.
    Aqui isso não será necessário.

    Abs, desculpe a verborragia.

  2. Muito bom Bonfa!!! Joga tb no face, amplifiquemos! hj a gente até tem medo, se envergonha de dizer que é jornalista pra essa corja de nazi-stalinistas que se espalha pelo país.
    bjsgracia

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