Dona Lúcia Rocha, a guerreira conquistense, foi ao encontro de seu filho Glauber

Dona Lúcia Rocha - I
Na sexta-feira, 3 de janeiro, o mestre André Setaro (crítico de cinema do jornal Tribuna da Bahia desde agosto de 1974, pesquisador, professor de Cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de Escritos sobre Cinema – Trilogia de um tempo crítico) escreveu sobre dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber. Dizia André, “é uma mãe coragem, como a heroína da famosa peça de Bertold Brecht. Ao completar, em 2013, a fantástica idade de 94 anos de existência, e festejada com várias homenagens, não chegou, porém, ao fim do percurso, pois, de repente, um ataque cardíaco tirou-a do nosso convívio”.
Dona Lúcia é um exemplo de quem não se deixa abater pelos revezes da vida. Enterrou três filhos, segurou todas as ondas depois que o marido sofreu um acidente e sozinha lutou para manter viva a memória e o trabalho de Glauber Rocha. Entre choramingar ante as tragédias, optou pela luta, e como combateu.
Sim, a guerreira conquistense partiu.
De Conquista, o jornalista Patrício Ribeiro Alves de Oliveira destacou o acontecimento: “Aos 95 anos, morreu nesta sexta, 3, dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber Rocha. Durante três décadas, dona Lúcia dedicou-se a reunir e dar visibilidade ao legado do filho, um trabalho incansável, que lhe rendeu muitas homenagens, além da reedição e produção de materiais indéditos da obra de Glauber”, e sugeriu a leitura de uma homenagem feita pelo site Sintoma de Cultura: http://sintomadecultura.com.br/coluna-01/cinema-e-audiovisual-coluna-01/nosso-cinema-se-despede-da-mae/
Dona Lúcia Rocha - foto: www.cbnfoz.com.br

Dona Lúcia Rocha – foto: http://www.cbnfoz.com.br

Voltemos a André Setaro, leia o artigo escrito por ele:
“Morto o filho querido, o realizador Glauber Rocha, cujo reconhecimento internacional é indiscutível, Dona Lúcia resolveu se dedicar full time à preservação da memória do autor de Deus e o diabo na terra do sol (1964), e, para isso, criou o Templo Glauber. A princípio, na primeira metade dos anos 1980 (o cineasta morreu em agosto de 1981), Dona Lúcia pretendeu instalar o acervo memorialístico do filho em Salvador, mas não encontrou apoio. Segundo ela, foi “enrolada” e, no final das contas, para não perder a oportunidade, aceitou o convite do Museu da Imagem e do Som para o depósito do material do filh, no Rio de Janeiro.
Da Imagem e Som, o Templo Glauber se mudou para um casarão em Botafogo, mas o percurso, para conseguir sobreviver às intempéries, foi cheio de atropelos, principalmente quando, em 1990, houve o confisco promovido por Fernando Collor, que provocou um trauma imenso no funcionamento do templo dedicado ao cineasta.
Dona Lúcia Rocha e os filhos - foto: blogdomarcelo

Dona Lúcia Rocha e os filhos – foto: blogdomarcelo

Nascida em Vitória da Conquista, Dona Lúcia Rocha casou-se com Adamastor e, com ele, tiveram três filhos: Ana Marcelina, Glauber e Anecy. Como numa tragédia grega, Dona Lúcia perdeu os três. Ana Marcelina foi a primeira, ainda adolescente, quando uma leucemia a tirou da vida inesperadamente, causando, com isso, imenso choque na família. Em 1976, a talentosa Anecy, atriz no auge de seu sucesso, cai, de repente, no poço do elevador do prédio onde morava. Apenas cinco anos se passariam para que Glauber viesse também a morrer. Como se diz, geralmente os filhos é que enterram os pais, mas, no caso dessa mãe coragem, ela enterrou os seus três filhos.
Também o marido, Adamastor (dono daquela loja que ficava logo na entrada da Rua Chile, Loja Adamastor), sofrera acidente automobilístico que o deixara sem o vigor de antes, e Dona Lúcia tinha que se desdobrar para manter o equilíbrio da família. O casarão da rua General Labatut, número 14, Barris, em Salvador, era o point onde se reuniam os jovens intelectuais que queriam fazer cinema na Bahia. A pensão de Dona Lúcia, com o passar do tempo, foi ficando famosa a tal ponto de hospedar artistas e intelectuais que vinham do eixo Rio-São Paulo. Devia, o casarão hoje em ruínas, ser tombado como patrimônio cultural baiano.
Dona Lúcia, ao contrário das mães tradicionais, sempre incentivou Glauber a fazer cinema. Adolescente, ela, ao invés de lhe dar um automóvel, como todo jovem deseja, deu a ele, consultado, uma câmera 16mm para filmar. Quando das filmagens de Barravento (1962), na praia de Buraquinho, distante da cidade, Dona Lúcia preparava quarenta marmitas para que o pessoal da equipe técnica não ficasse sem almoçar – a produção dava apenas para se fazer o filme e muito mal para alimentar seus participantes. Embora não creditada (o único, segundo ela, que a creditou foi Joaquim Pedro de Andrade em Os inconfidentes, de 1972), Dona Lúcia fez alguns figurinos de Deus e o diabo na terra do sol  e de O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), entre outros filmes do filho querido.
O mais incrível é que Dona Lúcia pulou uma fogueira também no que diz respeito à sua saúde. Há alguns anos, quase aos 90, submeteu-se a uma cirurgia de revascularização miocárdica, a famosa ponte de safena. Na sua idade, e a considerar ser uma operação bastante invasiva, Dona Lúcia tirou de letra. E não foi a primeira que fez.
Há 20 anos, submeteu-se à mesma cirurgia, sempre com êxito considerável. Uma vez, perguntei a ela o que era colocar uma ponte de safena. Me respondeu: “André, está vendo aquela estrada de asfalto, deite-se ali e sinta um caminhão pesado passar por cima de você!”.
Vi, há algum tempo, no Canal Brasil, dois documentários sobre a mater glauberiana: Abry (2003), de Paloma Rocha (filha de Glauber com Helena Ignês) e Joel Pizzini,  e Lúcia Lux, de Neville D’Almeida. Vale lembrar que dois cineastas baianos, José Umbelino e Fernando Belens, fizeram um bom documentário sobre a figura de Dona Lúcia Rocha: A mãe (1998).
O título do filme de Paloma é tirado de uma frase da própria Dona Lúcia, que, ao ouvir do médico que tinha um problema que precisava, para ser extinto, de uma operação invasiva, com a abertura do peito, ela repetiu: Abre, abre, abre. Paloma, para dar um tom, substituiu, no título, o “e” pelo “y”, e ficou Abry. O outro, de Neville, vale pelas entrevistas com ela, pelos depoimentos que dá sobre a vida e sobre Glauber, como conta quando o filho foi preso durante a ditadura e a espera angustiosa, dias e dias, pela sua volta. Já o filme da dupla Umbelino e Belens, creio ser o mais completo.

4 pensamentos sobre “Dona Lúcia Rocha, a guerreira conquistense, foi ao encontro de seu filho Glauber

  1. É uma trajetória extraordinária. Impressiona como pode uma mãe, mesmo Coragem, ou aquela outra de Gorki (quem não leu na época da EBC?), sobreviver após perder tudo. E aqueles que tiveram tempo para se expressar detentores de um talento notável, ainda que no caso dele (Gláuber) muito acima de seu tempo. Ou diria melhor, da mediocridade dominante e que persiste – com agravamento sério nas artes, música em especial???

    2014 não começa com bons augúrios. Tomara que mude, logo.
    Abs

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