O triste futebol brasileiro. Governo é omisso, incompetente. E a imprensa, preguiçosa, cúmplice, silenciosa

Parte do título deste post é de uma entrevista feita pelo Cosme Rímoli com o fundador da torcida Mancha Verde, do Palmeiras. É a mais pura verdade. O que Brasil tem hoje, em termos de futebol – e Tostão já falou isso há algum tempo – é uma Seleção sensacional, quase toda ela formada por jogadores que atuam em outros países. Organização dos campeonatos, dos clubes e a famigerada lei do passe – dominado pela avareza de empresários de jogadores – são excrescências que demonstram a pior fase do esporte que mais atrai a atenção dos brasileiros.
O final do Campeonato Brasileiro 2013 foi apenas um reflexo disso. Conseguiram até a proeza de realizarem um jogo sem policiamento. É incrível? Sim, é incrível, mas aconteceu. Atlético Paranaense x Vasco, em Joinville. Embora exista uma lei maior, o Estatuto do Torcedor, o que predominou foi a decisão de um promotor catarinense. Ele entendeu que o jogo – realizado em Joinville porque o Atlético (PR) perdera o mando de campo por mau comportamento de sua torcida e por isso a partida foi para um lugar distante 100 km de sua sede – era um evento particular e a PM de Santa Catarina não tinha obrigação de fazer a segurança. Resultado: o clube paranaense colocou sua própria segurança (60 homens de terno preto) que em tese ficaria entre as duas torcidas. Com 19 minutos de jogo, eles se afastaram e deixaram que mil torcedores do Atlético partissem para quebrar 100 torcedores do Vasco.
O resto foi o que a TV Globo resolveu mostrar. Embora no mesmo domingo o Fantástico tenha mostrado mil contra cem e o apresentador alertando que a torcida do Vasco ficou acuada, nos dias seguintes o Jornal Nacional bateu no Vasco como quem soca um lutador grogue. A Globo, seus executivos jamais perdoaram o Vasco, que em 2000, na decisão do Campeonato Brasileiro, a mando de seu então presidente, Eurico Miranda, jogou com camisas com o logotipo do SBT. Ou seja, por mais de 100 minutos, a Globo teve que transmitir algo com publicidade gratuita do sua então concorrente.
Desde então o clube cruzmaltino sofre com a Globo. Piadas, notícias inventadas e tintas fortes contrárias. Desta vez, a emissora conseguiu até tirar um patrocínio do clube. A Nissan, rendendo-se à pressão da Globo, cancelou um contrato de 28 milhões de reais em quatro anos com o Vasco.
Esqueça as imagens editadas da Globo, clique no link ou na imagem (momento em que a torcida Fanáticos do Atlético Paranaense partiu para agredir torcedores vascaínos) e confira o depoimento da equipe de jornalistas da Rádio Manchete na Arena Joinville.
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=H379wNZs3Dk
Torcida do Atlético Paranaense parte para agredir torcedores do Vasco Pedro Kirilos - Agência O Globo
 
Mas a pantomima continuou. E o Fluminense, que no campo caiu para a segunda divisão, foi beneficiado por um erro da Portuguesa, que mandou a campo por 18 minutos um jogador que estava suspenso por dois jogos. Claro, o advogado da Portuguesa, o notório Sestário, que acumula falhas (?) em sua carreira não passou a informação correta ao departamento de futebol do clube, mas a imprensa nada diz sobre o site da CBF (que organiza os campeonatos e fatura fortunas em patrocínios) que não informou nada sobre a suspensão do jogador. A imprensa esportiva nada fala – e aí, Jornal Nacional, por que se cala? – sobre a atuação canhestra do STJD, um supremo de si mesmo, mais parecido com uma capitania hereditária onde pais passam seus cargos para filhos jovens advogados que de hora para outra se tornam baluartes nas decisões de um esporte que mobiliza milhões de pessoas.
O procurador desse STJD, que agora deu razão ao Fluminense e acabou com a defesa da Portuguesa, é o mesmo que em 2008 defendeu o Fluminense – que também colocara em campo um jogador suspenso por expulsão – com o argumento de que não houvera dolo, nem o clube se beneficiara da participação do jogador. Em 2013, convenientemente, o procurador seguiu a letra fria da lei.
CBF e STJD é que deveriam ser julgadas. Mas isto só aconteceria se tivéssemos um governo sério, sem conchavos, o que inexiste atualmente, principalmente na área esportiva, e uma imprensa esportiva – sobretudo aquela que atua nos veículos de maior audiência.
Nesse aspecto, é bom lembrar que os apresentadores diários do esporte na TV Bahia se superaram este ano. No ano passado, entre várias invencionices disseram até que o Sport (que na época devia até a luz) estava mandando mala de dinheiro para o Atlético de Goiás derrotar o Bahia. O tricolor baiano ganhou o jogo e eles sequer pediram desculpas ao público. Este ano, temendo uma queda do Bahia, inventaram que o Cruzeiro se vendera ao Vasco – que venceu no Rio de Janeiro por 2 x 1 – mas fecharam a matraca quando perceberam que o Cruzeiro depois de sagrar-se campeão não venceu mais ninguém, inclusive perdeu em casa para o Bahia, que fez o gol no finalzinho do jogo. Por honestidade, os dois apresentadores deveriam pedir desculpas, dizer que seguem ordens – sim, antes do campeonato há uma reunião e a ordem é não falar e se puder até esconder os erros de arbitragem que favorecem os clubes baianos, mas valorizar e muito os contrários – e que algumas oportunidades se superam na babaquice. Resultado: o Bahia perdeu em casa para o Fluminense e com isso contribuiu decisivamente para o tricolor carioca não cair para a 2ª Divisão. E o que os apresentadores disseram? Será que se fosse outro clube a derrotar o Cruzeiro no Mineirão e entregar o ouro em casa para o Fluminense, eles não considerariam isto uma marmelada? Não há nem dúvida. E os torcedores, muitos deles conscientes das mentiras dos apresentadores continuarão fazendo o mesmo papel.
Leia mais:
Parte da entrevista de Cosme Rímoli com o fundador da Mancha Verde
Que sensação você ficou assistindo as cenas de Atlético Paranaense e Vasco? Quando torcedores fizeram fila para pisar em rivais desmaiados…
Vou dar a visão que falta à imprensa. A de dentro. Eu já passei muitas vezes por essas situações. Principalmente na briga de 1995, quando mais de 20 são-paulinos vieram para me bater com pedaço de pau no Pacaembu. Eu consegui me defender. Preste atenção. Todos que estavam nos conflitos não eram anjos. Estavam na linha de frente para brigar. Bater muito e também apanhar muito faz parte do jogo. Os atleticanos eram maioria. Correram para cima dos vascaínos. Os torcedores cariocas que reagiram mereceriam medalhas e não críticas. Se eles não enfrentam os rivais, iriam imprensar o resto da sua torcida nas grades. Haveria mortes por esmagamento. Os vascaínos que foram trocar socos, salvaram vidas de seus companheiros. Quem caiu e foi pisoteado não era inocente. Hoje há muita covardia, gente quer matar o rival. Ainda mais com a televisão mostrando. Mas quem mereceria ser preso é quem organizou um jogo de alto risco com seguranças privados, despreparados. O torcedor é vivo, sabe que segurança privado não é policial. E não respeita mesmo. Foi um crime o esquema de segurança em Joinville. Foi muita sorte não ter morrido ninguém. Mas repito: quem fica na linha de frente não é anjinho. Dá para ter dó dos pisoteados. Mas não perder o senso. Eles estavam querendo brigar. Pagaram caro, se deram mal. Como poderiam ter batido muito. Foi uma questão de sorte. As brigas no meio de torcedores é assim.
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“Vascaínos ingressarão na Justiça pedindo destituição de presidente da CBF”
O comentário do jornalista Décio Lopes: Se estivéssemos em uma sociedade civilizada e democrática, como seria a cobertura deste rolo todo da Lusa no Brasileirão? Bem, provavelmente veríamos expostos os dois pontos de vista, especialistas em direito comentariam o caso, Juristas defenderiam cada uma das teses… E esperaríamos pela decisão da Justiça.
Infelizmente não é o caso. Vivemos algo próximo à barbárie.
O noticiário – salvo raras e honradíssimas exceções – é retorcido, mastigado e cuspido ao sabor das opiniões clubísticas e pessoais. Tudo é adjetivado. Tudo! O “denuncismo” mais irresponsável ganha as primeiras páginas, sem qualquer base ou receio de que a Justiça venha a reparar os danos à imagem de pessoas e instituições. Palpiteiros sem a mais básica formação jurídica gritam de dedo em riste, cheios de certezas, citando artigos e códigos – como se a Lei fosse uma questão de opinião, como se analisar um processo fosse o mesmo que analisar um posicionamento tático ou uma escalação de futebol. A piadinha (nova moda) é misturada ao noticiário e, travestida em ingênua tentativa de leveza, na verdade, editorializa radicalmente a cobertura.
Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.
É a lei do mais forte, de quem grita mais alto. Como no bullying escolar. Quem é mais forte, oprime, impõe as suas vontades e ainda ri da cara do outro.
Tanto faz o resultado do julgamento. Como sociedade, em minha humilde opinião, perdemos outra vez. Diante de qualquer oportunidade, infelizmente o nosso reflexo imediato – como sociedade – é correr para mamar nas tetas de um tipo de fascismo.
Desculpem o desabafo. Não toco mais neste assunto. Dane-se o resultado do julgamento.
Melhor postar fotos de pratos de comida.
Comentário do jornalista Patrício Ribeiro de Oliveira: Tenho nojo do futebol brasileiro. Mais: nojo das autoridades designadas para compor o aparato do Estado em todas as suas esferas. Foi o que eu senti vendo as cenas de violência entre torcedores do Atlético Paranaense e do Vasco no último domingo, e continuo sentindo. Tem algumas questões muito importantes aí. O comandante geral da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina disse a um repórter da Globo/SporTV que, “por ser um evento privado, não competia à Polícia Militar fazer a segurança dentro do estádio, esse foi o entendimento do Ministério Público”. Por isso, prosseguiu, a segurança do jogo foi feita por uma empresa particular contratada pelo Atlético Paranaense, algo em torno de 120 homens. Pra que diploma, títulos sejam lá quais forem, terno e gravata se o indivíduo ignora o óbvio? As mesmas autoridades que entenderam ser desnecessário o policiamento dentro do estádio sabiam que os atleticanos fariam do jogo o que fizeram. Esse é o ponto. A diretoria do Atlético Paranaense, clube mandante, que contratou um punhado de pessoas para fazer a segurança de milhares de torcedores, também sabia disso. No entanto, nenhuma punição efetiva ao Atlético e seus dirigentes, nenhuma punição à CBF, organizadora da competição. Fica a visão simplista e o entendimento muito conveniente para explicar que vândalos foram ao estádio para acuar torcedores de um time visitante e demonstrar o que realmente são social e culturalmente falando: bandidos, predadores, homens frustrados em gênero. Sim, eles foram lá pra descer a porrada nos vascaínos, que reagiram, como reagiriam se lá estivessem corinthianos, palmeirenses, flamenguistas ou qualquer outra torcida. Não se trata de mea culpa, mas sim de realidade dos fatos. Numa briga generalizada não há razão, mas a origem da pancadaria em Joinville resta muito bem delimitada. É só analisar as imagens, embora a Globo, intencionalmente, teime em dizer que não fica claro quem começou a confusão. É só ouvir os relatos, como o do repórter da Rádio Manchete. O resultado do jogo, sem dúvida, foi o reflexo da incompetência de um time fadado ao rebaixamento desde o início da temporada, com o abalo emocional dos jogadores que lá estavam, desprotegidos institucionalmente falando, acuados, olhos assustados, num habitat estranho, hostil. O árbitro reiniciou a partida, extrapolando o limite de tolerância estabelecido pelo regulamento da competição. Tomou uma decisão fria e imprudente, ignorando todo o estado de coisas que acontecia a sua volta. O resultado do pós-jogo, no STJD, não surpreende. Derrota ao Vasco, de um presidente perdido como cego no meio de um tiroteio. Derrota ao esporte que é um traço cultural do brasileiro e transcende o campo de jogo. Derrota ao verdadeiro torcedor, aquele que queria de fato ver o jogo, torcer pelo seu time.
Cosme Rímoli: Depois de nova humilhação no Pleno do STJD, a Portuguesa incentiva torcida a buscar a Justiça Comum. Seu rebaixamento salvou o Fluminense, o clube mais odiado do país. Não há vítima nessa história. Só muito atraso…

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