O Brasil despertou no outono

Manifestação em 17-06-13 - II Manifestação em 17-06-13 - IVSalvador, em 17/06/2013 – Fotos: Agência A Tarde

Manifestação em Salvador - 17-06-13 - Crédito Reginaldo Ipê (4) Manifestação em Salvador - 17-06-13 - Crédito Reginaldo Ipê (2)Salvador, em 17/06/2013 – Fotos: Reginaldo Ipê

Manifestação em Salvador - 17-06-13 - Crédito Reginaldo Ipê (1) Manifestação em 17-06-13 - IIISalvador, em 17/06/2013 – Fotos: Reginaldo Ipê

Manifestação em 17-06-13 -V Manifestação em 17-06-13 - VISalvador, em 17 /06/2013 – Fotos: Reginaldo Ipê

O País foi surpreendido em 13 de junho por manifestações que, a princípio, pareciam reivindicar redução no valor de passagens de ônibus coletivos, mas com o passar dos dias e o aumento no número de capitais e municípios interioranos de quase todo o Brasil comprova-se que a indignação dos milhões de pessoas que tomaram as ruas para protestar vai muito além.
Como sempre acontece, políticos e pessoas ligadas a centrais sindicais trataram logo de desqualificar a força do movimento. Para essas pessoas, tudo era orquestrado por partidos radicais. Como se os minúsculos partidos que escaparam do imenso leque de aliança do governo federal pudesse reunir milhões de manifestantes em 17 capitais e dezenas de municípios do interior do Brasil.
Perdidos, os políticos e os dirigentes de centrais sindicais, no momento seguinte à constatação que os pequenos partidos da ainda esquerda não estavam na liderança das manifestações; e que a oposição também não está liderando nada pelo simples fato do País há muito tempo não ter oposição representativa, passaram a acusar os manifestantes de serem da “classe média alta”. Esqueceram que os movimentos desse tipo nascem mesmo dos jovens, de estudantes, de pessoas com toda a fibra para protestar e sair da letargia.
Agora que chegaram à conclusão que estão lidando com um movimento que vai bem além do passe livre, da redução de passagem e que está na rua é para denunciar à fadigante corrupção que está arrasando o Brasil – e que apareceu tão nitidamente nesse momento de copas -, a falta de investimento ou o desvio de verbas que dignificaria a Educação, a Saúde e a Segurança, políticos que estão no poder ordenam aos seus diretórios para determinar aos prefeitos a redução das tarifas dos ônibus. Acham que assim tiram os manifestantes das ruas e voltam a vender ao mundo a imagem de país ordeiro e povo gentil.
Sim, as manifestações iniciadas em São Paulo tinham como foco a redução das tarifas dos ônibus, mas depois que o governador do PSDB, Geraldo Alkmin, mandou a polícia reprimir com força os protestos, e o prefeito da capital, Fernando Haddad, do PT, repetia que os preços das tarifas seriam mantidos, viu-se que a simples reivindicação fora só a fagulha para destravar o descontentamento nacional.
As pessoas honestas, que estudam, que trabalham, que pagam impostos, que sofrem com o ensino público descomprometido dos prioridades governamentais; da falta de investimentos na Saúde e de um SUS cada vez longe das ideias que o criaram; e da falta de segurança, não aceitam mais que políticos inescrupulosos desviem verbas e atuem com maus empreiteiros e empresários com o intuito apenas de enriquecer ilicitamente.
As pessoas honestas não aceitam mais que os governantes cheguem ao podem apenas para cooptar antigos adversários, acabar com oposição e fortalecer seu governo a ponto aprovar em Assembleias Legislativas, Câmaras de Vereadores, Câmara de Deputados e Senado tudo o que o chefe do Executivo quiser.
Os manifestantes mostram que governabilidade a qualquer custo, como o imaginado e posto em prática por Lula, aumentando desmedidamente a base do governo, deixando o País sem oposição, porque todos tem suas “boquinhas” na máquina governamental, é um método que só causou mal ao Brasil.
Algumas pessoas de meia-idade, demonstrando surpresa, chegam a perguntar “se os estudantes puxaram esse movimento por que a UNE, a tão tradicional União Nacional dos Estudantes, não aparece, nem que seja para dar apoio?” É simples a resposta, a UNE age como tem agido importantes – em outras épocas – representações sindicais e sociais e centrais sindicais de comprovada força entre os trabalhadores, apenas como auxiliares do governo.
Uma das provas de que o movimento não quer, não acredita e repudia a presença de bandeiras políticas foi o ato de queimar um boneco que simbolizava o PT e o PSDB. Confira:
18h21 – Os manifestantes estão queimando bonecos com a cara do prefeito Fernando Haddad (PT) e do governador Geraldo Alckmin (PSDB).  ”Ei Haddad, tomamos a cidade”, gritam.
Muito além dos 20 centavos, por Calos Tautz
Vão muito além do protesto contra um injusto aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus os motivos das passeatas no Rio. O que mobiliza as pessoas é a gana de retomar para si uma cidade que os governos do município e do estado entregaram às especulações da Fifa, das imobiliárias, dos tubarões do transporte e das empreiteiras, farreando com dinheiro público e exibindo aquele arrogante sorriso de escárnio contra a sociedade. Tem uma hora que o povo briga pelo que lhe foi roubado.
Nesta guerra de Paes e Cabral contra a população, é claro que são usados a PM e seus infiltrados conhecidos, porque foi justamente para proteger o Estado e a grande burguesia que ela foi criada. Mas, o que a imprensa convencional se nega a ver, é contra o quê bradam as pessoas que apenas exercem o direito cívico de lembrar: se a cidade não for boa a seus munícipes, não há Copa nem Olimpíadas que se justifiquem, por mais que as telinhas insistam em criar um falso consenso festivo em torno dos megaeventos.
A luta das ruas também é contra a destruição do saudoso Maracanã, supostamente para atender a critérios da corrupta Fifa, entregando-o à Odebrecht, tendo Eike como de testa de ferro.
É contra a remoção forçada no Morro da Providência, onde, como nazistas, a Secretaria Municipal de Habitação marca às casas que serão desapropriadas por valor vil.
É contra a Transcarioca, que valoriza condomínios na Barra e tenta expulsar gente como Dona Zélia. que não arreda o pé de sua pequena casa.
É contra os péssimos trens, metrôs e barcas, privatizados quando Cabral era do PSDB e presidia a Alerj, e contra o monopólio das empresas de ônibus amissíssimas de Paes desde quando ele era do finado PFL e que, por isso, nunca enfrentam licitações nem fiscalizações sérias da prefeitura.
É contra hospitais em coma e escolas reprovadas, enquanto o prefeito distribui um jogo em que suas “realizações” viram propaganda pessoal.
É contra Cabral chamar bombeiros de vândalos e deles se servir para resgatar amigos mortos enquanto viajavam no helicóptero de Eike ao regabofe de Cavendish, da Delta, na Bahia.
É contra Cabral a priori imputar a tragédia no bondinho de Santa Teresa ao Nelson, condutor falecido no acidente.
É contra a Justiça proibir o protesto contra o aumento das barcas e impor censura prévia à expressão da opinião.
A luta não é por centavos, como um cínico comentarista afirmou. É para lembrar que cidade é coletivo de cidadão e que só tem sentido se existir para seus munícipes serem nela felizes.
Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia, transparência e controle cidadão de governos e empresas.
Panorama do movimento:
Rapidamente o movimento absorveu a campanha publicitária da Fiat (Vem pra rua):
http://adnews.com.br/publicidade/vem-pra-rua-campanha-da-fiat-vira-hino-de-protesto
http://www.youtube.com/watch?v=hFhP03DZvIw
http://brasil.tvabcd.com.br/campanha-da-fiat-vem-pra-rua-vira-hino-nos-protestos-1054/

Quarta, 19 de Junho de 2013 – 21:30

Conquista: Centenas de pessoas protestam na cidade
Conquista: Centenas de pessoas protestam na cidade
Foto: Blog do Anderson
Com faixas, cartazes e carro de som, centenas de pessoas saíram às ruas de Vitória da Conquista, cidade que fica no centro sul do estado, nesta quarta-feira (19). A concentração partiu da Praça Nove de Novembro e seguiu em caminhada por diversas ruas. Segundo o Blog do Anderson, a Polícia Militar esteve presente na manifestação, mas apenas acompanhou.
Clique e veja, no Exterior, a crítica emocionada de uma brasileira à copa dos estádios de 1 bilhão de reais.
Brasileiros protestam em 25 cidades do mundo
Ricardo Calazans, O Globo
Vinte e cinco cidades de quatro continentes realizaram, nesta terça-feira, atos em apoio às mobilizações que tomaram as ruas do Brasil na última semana. Em sua maioria jovens, os participantes relataram, mesmo de longe, um sentimento compartilhado de orgulho pelas manifestações que já reuniram centenas de milhares em todo o país, e de choque pelas imagens de violência policial que rodaram o mundo.
Até agora, 50 cidades, da América do Sul, América do Norte, Europa e Ásia, realizaram ou programam eventos de solidariedade aos protestos no país. O número só não foi maior hoje porque alguns organizadores não conseguiram autorização oficial para realizar seus atos, como em Valência e Madri, na Espanha. Valência remarcou para o dia 28 e Madri negocia uma mobilização para este sábado.
Protesto de brasileiros em Florença, Itália
Leia mais em Brasileiros de 25 cidades do mundo realizam atos de solidariedade aos protestos
19/06/2013 | 15:50
Brutalidade da PM é capa do NY Times

O momento em que um policial militar ataca uma mulher com spray de pimenta durante manifestação na última segunda-feira (17), no Rio de Janeiro, estampa a capa do Jornal The New York Times desta quarta-feira (19). Com o título: Protestos crescem enquanto brasileiros culpam seus líderes”, a reportagem afirma que os líderes políticos do país foram sacudidos pelo maior desafio em anos. O texto destaca ainda, que apesar do tom mais conciliatório que começou a ser adotado pelo governo a partir de ontem, o movimento não diminuiu e segue ganhando as ruas das principais capitais do país.
E pela primeira vez a poderosa Rede Globo se rende aos fatos. Um repórter da emissora fala das palavras-de-ordem dos manifestantes contra a Globo e a âncora do Jornal Nacional tenta justificar o trabalho da TV de maior audiência do Brasil. Confira:
http://g1.globo.com/jornal-nacional/
Mais adiante, os manifestantes investem contra a emissora do bispo Edir Macedo:
Bahia Notícias
Durante os protestos realizados nesta terça-feira (17) em São Paulo, alguns manifestantes depredaram carros de emissoras que cobrem os protestos na cidade. Um carro da Rede Record foi totalmente destruído pelo fogo, após ser incendiado. Jornalistas da emissora teriam sido apedrejados pelos revoltosos. Em nota enviada à imprensa, a Rede Record informou que todos os profissionais que trabalhavam na transmissão ao vivo das manifestações na capital paulista escaparam ilesos do incêndio no caminhão usado para a captação de imagens. “A grande maioria dos manifestantes já tinha deixado o local em passeata. Por isso, a Record tem a certeza de que foi atacada por uma minoria de vândalos”, afirmou. O grupo atacou o veículo da emissora com pedras e depois colocou fogo nos equipamentos. “A Record reafirma o seu compromisso de transmitir com fidelidade o protesto pacífico de milhares de pessoas nas ruas brasileiras e lamenta apenas que pequenos grupos tentem impor as suas ideias pela violência”, condenou.
A crise de representatividade dos partidos (Editorial)
O Globo
Depois das manifestações do MPL, Movimento do Passe Livre, na quinta-feira, no Rio e em São Paulo, analistas políticos passaram a se dedicar a entender o que acontece — a imprensa, inclusive.
O que parecia um pequeno movimento de estudantes alegadamente contra o aumento de tarifas de ônibus, acompanhado por grupos de anarquistas, sempre atentos a oportunidades como esta para atos de vandalismo, ganhou outra dimensão, principalmente a partir das passeatas de ontem.
Manifestações, à mesma hora, no Rio, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte remetem a momentos que fazem parte da História: cassação de Collor, Diretas Já. Claro, não há sequer de longe comparação com a atual conjuntura política.
O fenômeno é de outra natureza e passa ao largo da estrutura partidária e de organizações de longa história de militância, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e sindicatos, anestesiadas pelo convívio próximo com o poder e suas benesses, nestes últimos 12 anos de PT e aliados no Planalto.
Foram todos surpreendidos pelo crescimento desta onda de críticas a “tudo isto que aí está”, cuja faísca de ignição foi o custo do transporte urbano, no qual milhões de brasileiros padecem todos os dias.
Elucidativo que alguns ativistas levem cartazes com a mensagem de que “nenhum partido me representa”. Reflete o enorme distanciamento entre legendas e a sociedade, construído com a ajuda de uma legislação deficiente, fonte de absurdas distorções.

Série de reportagens publicadas na semana passada pelo GLOBO sobre a estrutura partidária traça um diagnóstico deste divórcio crescente entre partidos e eleitores.
É sabido que regras irreais, incentivadoras da dispersão partidária, não apenas diluem a representatividade como favorecem a entrada de oportunistas na vida pública, um dos fatores que contribuem para a degradação da imagem da democracia representativa, uma grave ameaça às liberdades.
As 30 legendas legalmente registradas, um número excessivo, movimentaram R$ 1 bilhão no ano passado, dos quais R$ 350 milhões do Fundo Partidário, grande parte proveniente do contribuinte. Mesmo que o partido não tenha sequer um parlamentar eleito, ele é beneficiado pela distribuição de 5% do Fundo Partidário. Assim, por exemplo, o Partido da Causa Operária (PCO), com 2.560 filiados no país, sem qualquer eleito na Câmara, recebeu do contribuinte, no ano passado, R$ 629.081. Já o Partido Ecológico Nacional (PEN), com irrisórios 247 filiados, embolsou R$ 343.303.
Se considerarmos que as legendas com bancada no Congresso têm garantido tempo no horário gratuito, por menores que sejam, conclui-se que as oportunidades de negócios são mais amplas. Entendem-se, então, cartazes de protesto contra os partidos.
Infelizmente, a própria classe política resiste à criação de uma cláusula de barreira que saneie a estrutura partidária, e a torne capaz de, afinal, representar de fato o eleitorado e canalizar as reais reivindicações da população.
É preciso ouvi-los, por Míriam Leitão
O Globo
Um surto de manifestação como o que se espalhou pelo Brasil nos últimos dias nunca tem uma explicação simples. É preciso humildade para admitir que ele não está inteiramente compreendido. Existem pistas. Ele tem a vantagem de quebrar a convicção de que o brasileiro suportaria todo o desaforo sem reagir: da deterioração dos costumes políticos ao desconforto econômico.
Há razões conjunturais e outras mais antigas para justificar qualquer manifestação de protesto no Brasil. A inflação está alta há muito tempo, o nível de inadimplência cresceu e isso eliminou o amortecedor que o crédito vinha exercendo, o desemprego de jovens chega a quase 16% em São Paulo.
No início da nova legislatura, o Congresso escolheu, para presidentes das duas Casas, líderes e integrantes de comissões que foram vistos como um acinte pela população. A lista com 1,3 milhão de assinaturas coletadas em tempo recorde contra Renan Calheiros na presidência do Senado foi ignorada com desprezo.

O mamútico governo federal, montado com 39 ministérios, faz anúncios sequenciais de planos que não se transformam em realidade. Em cada pronunciamento de sua campanha eleitoral antecipada, a presidente Dilma desenha um país cor de rosa onde tudo está resolvido, exceto por alguns da “turma do contra”.
Ontem, ela elogiou o movimento das ruas. Falta só agora conciliar o elogio aos protestos com a sua visão de que o governo faz tudo certo, que o país vai muito bem, e só os que torcem pelo pior é que não reconhecem.
O movimento é heterogêneo, apartidário, sem lideranças claras. As reivindicações são muitas. Como em qualquer onda de descontentamento, há sempre um estopim. Desta vez foi o aumento da tarifa de ônibus, que havia sido adiado. Mas o estopim é só isso: a gota que transborda o copo já cheio pelos desaforos diários.
Leia a íntegra É preciso ouvi-los
Surpresa nas ruas, por Ilimar Franco
Ilimar Franco, O Globo
Os políticos estão perplexos com os protestos que tomaram as ruas. As manifestações não têm um alvo definido nem um objetivo específico.
Seu foco inicial foi o aumento da passagem de ônibus, mas tudo indica que ele vai bater na Esplanada, no Congresso e no Planalto. A falta de ligação dos manifestantes, com qualquer partido, sugere que se trata de mobilização contra os Poderes instituídos.
O cientista político Paulo Kramer diz que os manifestantes saem às ruas por “diferentes motivos”. Para o cientista político João Francisco Meira há um “somatório de insatisfações”. Ambos concordam que os protestos têm como pano de fundo a situação econômica difícil, com o retorno da inflação.
Kramer avalia que a antecipação da corrida eleitoral deu sua contribuição. Meira acrescenta a existência de um elemento novo: a capacidade de mobilização e articulação de pequenos grupos gerada pelas redes sociais e novas formas de comunicação. Ambos destacam que as autoridades precisam enfrentar, com urgência, o drama da mobilidade urbana no país.
Decifrar as mensagens da rua (Editorial)
O Globo
A estimativa de que cerca de 240 mil pessoas estavam nas ruas, no início da noite de terça-feira, em 11 capitais, para protestar já é algo significativo.
Mais do que isso, são as imagens e o sentido do que aconteceu anteontem neste país que colocam a data de 17 de junho de 2013 no calendário dos grandes acontecimentos políticos e sociais dos últimos 28 anos, desde o início da redemocratização, em 1985, com a posse de José Sarney na Presidência.
As cenas de violência e vandalismo — ocorridas principalmente no Rio, na tentativa de invasão da Assembleia Legislativa, e na não menos criminosa depredação de bancos e estabelecimentos comerciais na área, além da pichação do Paço, patrimônio nacional — não conseguem reduzir o peso das mensagens que as ruas têm transmitido nestes últimos dias a governos, políticos e partidos da situação e da oposição.
A partir da descontrolada ação da PM paulista, na quinta-feira da semana passada, o movimento pelo “passe livre” no transporte público, deflagrado com o último aumento de tarifas, recebeu maciças adesões em escala nacional e passou a ganhar outra dimensão.
Não que a chamada (i)mobilidade urbana já não criasse imensas dificuldades para as pessoas, principalmente as de renda mais baixa, a grande maioria. E não só em função do custo, mas pelo crescente sacrifício físico que milhões de pessoas passam diariamente nas capitais brasileiras para se locomover.
É que o movimento, deflagrado e organizado por meio das redes sociais, tem a questão do transporte público apenas como uma chave que destampa e coloca nas ruas a insatisfação acumulada nos últimos anos com uma sucessão de distorções. É a tal sensação difusa de desconforto com “tudo isso que está aí”, amplificada pela volta da inflação.
A mobilização política ressurge no Brasil de um movimento subterrâneo, surdo, invisível, mas bastante ativo, a partir da rede mundial de computadores. O fenômeno não é novo, acontece em escala planetária. Mas há peculiaridades regionais.
Onde existe liberdade, redes sociais facilitam a organização de grupos na defesa de pautas específicas. Em ditaduras, ajudam a driblar censores, a repressão política.
No Brasil, país democrático, vivia-se um longo período de inércia política. A situação, confortável no poder, e a oposição, também passiva, incapaz de metabolizar a fermentação das insatisfações que há tempos trafegam nas redes. As ruas acabam de atropelar ambas — má notícia para a democracia representativa, ruim para a estabilidade institucional.
Leia a íntegra em Decifrar as mensagens da rua
Corrupção é o foco, por Merval Pereira
Merval Pereira, O Globo
Mesmo que as reivindicações sejam várias e muitos cartazes exibam anseios mal explicados ou utopias inalcançáveis, há um ponto comum nessas manifestações dos últimos dias: a luta contra a corrupção.
A vontade de que o dinheiro público seja gasto com transparência e que as prioridades dos governos sejam questões que afetam o dia a dia do cidadão, como saúde, educação, transportes, está revelada em cada palavra de ordem, até mesmo nas que parecem nada ter a ver com o fulcro das reivindicações, como no protesto contra a PEC 37.
Nele está contido o receio da sociedade de que, com o Ministério Público impedido de investigar, o combate à corrupção seja prejudicado. Todas as questões giram em torno do dinheiro público gasto sem controle, como nos estádios da Copa do Mundo, todos com acusações de superfaturamento.

O dinheiro que sobra para construção de “elefantes brancos” falta na construção de hospitais ou sistemas de transportes que realmente facilitem a vida do cidadão.
O mundo político está de cabeça para baixo tentando digerir as mensagens que chegam da voz rouca das ruas, como dizia Ulysses Guimarães, que dizia também que “a única coisa que mete medo em político é o povo na rua”.
Ninguém entende, por exemplo, por que houve esse verdadeiro estouro da boiada agora, e não há um mês ou mesmo há um ano.
Tenho um palpite: assim como as manifestações na Tunísia, as primeiras da Primavera Árabe, começaram com o suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante que ateou fogo ao corpo depois de proibido de trabalhar nas ruas por não ter documentos nem dinheiro para pagar propinas aos fiscais, as manifestações aqui foram grandemente impulsionadas pela reação violenta da polícia em SP semana passada.
O movimento contra o aumento das passagens de ônibus poderia não ter a amplitude que ganhou se não houvesse uma reação nas redes sociais à atitude da polícia, como se todos sentissem a opressão do Estado na sua pele, e de repente liberassem os diversos pleitos que estavam latentes na sociedade.
Creio que foi a partir do entendimento de que uma reivindicação justa como a da redução das tarifas de ônibus estava sendo tratada simplesmente como um pretexto para arruaças e vandalismos que a sociedade passou a se mobilizar para ampliar suas reivindicações.
Leia a íntegra em Corrupção é o foco
Dilma e Lula oferecem ajuda política para Haddad em São Paulo
Marcelo de Moraes, Estadão
A presidente Dilma Rousseff reuniu-se nesta terça-feira com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um hotel da zona sul da capital paulista, para discutir uma estratégia para avaliar qual ajuda política poderá dar ao prefeito da capital, o petista Fernando Haddad, em razão das manifestações que estão tomando conta das ruas de São Paulo nos últimos dias.
Fora de sua agenda oficial, Dilma viajou para São Paulo preocupada justamente com os desdobramentos políticos que essas manifestações podem ter na administração de Haddad na Prefeitura.

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Ciro Gomes é contra
Ainda de acordo com Ciro, os protestos de rua contra a Copa das Confederações e a Copa do Mundo é “uma desinteligência”. Mas ele afirma que o povo gostaria a mesma eficiência para construir estádios em outras áreas da atuação pública.
Comissão de Direitos Humanos e Feliciano, nem aí para o que se passa nas ruas…
Numa prova do escândalo que é a Brasília de políticos irresponsáveis e sem compromisso com a cidadania, enquanto a temperatura sobe nas ruas, a Comissão de Direitos Humanos (imagine!) presidida pelo pastor Feliciano aprova um excêntrico e homofóbico projeto:
Comissão de Feliciano aprova projeto que permite a ‘cura gay’
Isabel Braga, O Globo
A Comissão de Direitos Humanos da Câmara, presidida por Marco Feliciano (PSC-SP, foto abaixo), aprovou nesta terça-feira o decreto legislativo que permite a chamada “cura gay”. A votação foi feita simbolicamente, apesar da tentativa do deputado Simplício Araújo (PPS-MA) de obstruir mais uma vez a votação.
Por cinco vezes, a comissão tentou sem sucesso votar o texto, que derruba trechos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que impede profissionais de “tratarem” homossexuais. Agora o projeto segue para votação na Comissão de Seguridade e Família e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
Na sala da audiência, cerca de 12 manifestantes que assistiam à sessão aplaudiram as falas de Simplício Araújo e também do deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA), que se manifestou dizendo que a votação era ineficaz, pois pretendia revogar atos que não são do Congresso, mas de uma entidade autônoma.

Feliciano em foto de Givaldo Barbosa / O Globo
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Os políticos em xeque, por Merval Pereira
Merval Pereira, O Globo
A tomada simbólica da cúpula do Congresso Nacional pelos manifestantes de Brasília e os ataques à Assembleia Legislativa no Rio, apesar de inaceitáveis como parte de manifestações democráticas que não deveriam dar lugar a depredações e vandalismo, sintetizam o espírito dos protestos espalhados por várias capitais do país.
O sociólogo Manuel Castells, um dos maiores especialistas em novas mídias, esteve no país recentemente e deu declarações sobre os movimentos mobilizados pelos novos meios sociais, chamando a atenção para o fato de que todos os dados mostram o desprestígio total dos políticos, partidos e parlamentos pelo mundo.
A descrença na democracia representativa levaria a que, se os cidadãos pudessem, mandariam todos embora, mas o sistema bloqueou as saídas, comentou Castells em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”. Sua admiração pelos novos meios de comunicação, no entanto, não o leva a superdimensionar o poder desses instrumentos de mobilização.

Ele adverte que “não basta um manifesto no Facebook para mobilizar milhares de pessoas”. A mobilização dependeria do nível de descontentamento popular e da capacidade de mobilização de imagens e palavras, explicou. “A internet é uma condição necessária, mas não suficiente para que existam movimentos sociais”.
Também o professor Clay Shirky, autor do livro “The political power of social media” (“O poder político dos meios sociais”), conclui na mesma linha, dizendo que “as redes por si só não têm poder político, sendo necessário que a sociedade esteja madura para que seus efeitos aconteçam”. Castells diz que agora o cidadão tem “os meios tecnológicos para existir independentemente das instituições políticas e do sistema de comunicação de massa”.
Essa ação através das mídias sociais tenta preencher o que Castells define de “vazio de representação”, criado pela vulgarização da atividade político-partidária, que caiu no descrédito da nova geração de usuários da internet.
Manuel Castells acha que um político ligado aos partidos convencionais dificilmente conseguiria superar essa rejeição, mas acredita que a ex-senadora Marina Silva tem condições de assumir esse papel.
Sem se referir ao projeto de lei que está em tramitação no Senado que dificulta a criação de novos partidos, Castells previu que Marina “terá de enfrentar todo o sistema, porque um ponto sob o qual todos os partidos estão de acordo é manter o monopólio conjunto do poder”.
Leia a íntegra em Os políticos em xeque
Dilma classifica manifestações como ‘legítimas e democráticas’
Luiza Damé, O Globo
A presidente Dilma Rousseff falou, nesta segunda-feira, pela primeira vez sobre os protestos que ocorrem no país desde a semana passada. Segundo a ministra da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Helena Chagas, a presidente considera “legítimas e próprias da democracia” as manifestações pacíficas.
— As manifestações pacíficas são legítimas e próprias da democracia. É próprio dos jovens se manifestarem — disse a presidente.
Na tarde desta segunda-feira, a presidente se reuniu com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que fez um relato das manifestações pelo país contra aumento das tarifas de ônibus urbanos e contra os gastos públicos na organização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo.

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Protestos se espalham por capitais brasileiras nesta segunda-feira
O Globo
Manifestantes tomaram as ruas de diversas capitais do Brasil nesta segunda-feira. No Rio, 100 mil pessoas ocuparam pacificamente o Centro da cidade; no fim do protesto, um pequeno grupo entrou em conflito com a polícia nas imediações da Assembleia Legislativa, atirou coquetéis molotov, destruiu carros e depredou prédios públicos, num confronto que terminou com 29 feridos. Em São Paulo, ao menos 65 mil pessoas foram às ruas, de acordo com o Instituto DataFolha. Em Brasília, manifestantes invadiram a cobertura do Congresso Nacional, de onde desceram, algum tempo depois, em clima de festa. Mais tarde, voltaram a ocupá-la.
Os protestos aconteceram em capitais como São Paulo, Rio, Brasília, Maceió, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador, Vitória, Curitiba, Belém e Belo Horizonte, e foram acompanhados de perto pela polícia.
Ao todo, mais de 240 mil pessoas participaram dos atos, cuja pauta se amplia a cada dia: as manifestações desta segunda-feira combinaram protestos contra o aumento de tarifas de ônibus, os gastos excessivos na Copa de 2014, a PEC 37 (conhecida como a PEC da Impunidade), o polêmico Estatuto do Nascituro, além de pedidos de investimentos em transporte público, saúde e educação, numa clara exigência da sociedade civil por uma atualização da agenda política do país.
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Manifestação atrai 65 mil em SP; grupo tenta invadir sede do governo
O Globo
Numa manifestação inicialmente pacífica, marcada pela mudança no comportamento da Polícia Militar, 65 mil pessoas lotaram nesta segunda-feira vários pontos de São Paulo. À noite, entretanto, um grupo se dirigiu para o Palácio dos Bandeirantes e tentou derrubar um portão e invadir a sede do palácio do governo. A polícia reagiu e o momento gerou tensão. Gás lacrimogênio foi usado pela Polícia Militar. Ainda não há informações sobre feridos.
Mais cedo, o Movimento Passe Livre (MPL) falava em 100 mil nas ruas.A concentração da quinta e maior mobilização em São Paulo aconteceu no fim da tarde no Largo da Batata (foto abaixo) , em Pinheiros — cuja maior parte do comércio, incluindo o Shopping Iguatemi, foi fechada. Depois, o grupo se dividiu entre a Avenida Faria Lima e a Marginal Pinheiros, para mais tarde se encontrar na Ponte Estaiada, Brooklin, em direção ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo, onde teve novo protesto.

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Novo protesto no Centro do Rio tem ao menos 29 feridos
Dez pessoas haviam sido detidas ao fim da noite; manifestantes chegaram a atear fogo na Alerj. Prédio da assembleia foi depredado, assim como outros imóveis no Centro
Antônio Werneck, Gustavo Goulart e Vera Araújo, O Globo
Depois de um início pacífico, com uma multidão de 100 mil pessoas tomando conta de ruas do Centro do Rio, a manifestação contra o reajuste das passagens de ônibus terminou em confronto, quebra-quebra e pelo menos 29 feridos, atingidos por disparos de armas de fogo, de balas de borracha ou por pedras.
Há 20 policiais machucados, segundo a Secretaria de Segurança. Além dos militares, nove pessoas ficaram feridas e foram atendidas no Hospital Souza Aguiar. Três deles foram baleados, dois na perna direita e um no ombro, com perfuração dos pulmões.
Um outro ferido foi atingido por um disparo de bala de borracha na coxa, mas foi liberada em seguida. Ao fim da noite, dez pessoas haviam sido detidas e levadas de micro-ônibus do Batalhão de Choque para a delegacia.
Durante a manifestação, dois policiais deram tiros de fuzil para o alto, na tentativa de afastar e dispersar os manifestantes que tentavam invadir a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
O incidente aconteceu próximo ao prédio anexo da assembleia, na esquina das ruas São José com Dom Manoel. Após usar os fuzis, um dos agentes ainda sacou uma pistola. Sem munição, os agentes fugiram deixando para trás uma viatura, que acabou depredada.

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18.6.2013

Câmara autoriza entrada da PM e evita invasão do Congresso
Isabel Braga, Fernanda Krakovics e Jaílton de Carvalho, O Globo
A direção da Câmara chegou a trabalhar com a hipótese de que o Congresso seria invadido e até autorizou a entrada da Polícia Militar (PM) no Congresso. Mas por volta das 23h50 desta segunda-feira, os manifestantes deixaram a área da Chapelaria, principal entrada no prédio. Eles seguiram em direção à Esplanada dos Ministérios, e a PM desfez o cordão de isolamento formado na porta de entrada do Congresso. O Senado não chegou a autorizar a entrada da polícia.
O presidente em exercício da Câmara, André Vargas (PT-PR), que havia deixado o prédio e acompanhava a manifestação do gabinete do governador, retornou ao Congresso logo após a autorização da entrada da PM. Por volta das 22h, a Tropa de Choque da PM tomava o Salão Verde da Câmara, se posicionando para o caso de uma invasão.

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Abaixo, o exemplo de arrogância e descaso com a cidadania e a coisa pública. Onde a fagulha foi acesa:
Bahia Notícias
Secretário de Segurança de SP defende ação da PM em manifestações
Foto: Reprodução
O secretário de Segurança do Estado de São Paulo, Fernando Grella, reforçou o que o governador Geraldo Alckmin disse, em entrevista no Palácio dos Bandeirantes, sobre as manifestações contra o aumento do preço do transporte público na capital paulista. O titular afirmou que a polícia cumpriu o papel de acompanhar e garantir condições para que o ato acontecesse. “Esse é o trabalho inicial. O paralelo é evitar e reprimir atos que atentem com a ordem pública”, declarou. O protesto, que reuniu 5 mil pessoas segundo a Polícia Militar (PM), foi o quarto desde o dia 6. Em todas as manifestações houve confronto com a polícia e depredações por parte dos manifestantes. A força tática usou bombas de gás e balas de borracha. De acordo com a Polícia Civil, 232 pessoas foram detidas e, do total, quatro permanecem presas em um Centro de Detenção Provisória. O secretário disse que não houve orientação para que a polícia agisse com violência e destacou que a situação era complexa. Explicou que sempre há um escalonamento de ações em missões como essa. Fernando Grella garantiu que todas as situações abusivas por parte da PM, que foram relatadas, serão investigadas e, se for o caso, punidas. Ele justificou a ação da polícia devido à mudança de roteiro pré-estabelecido entre a organização e a Polícia Militar. O comandante da PM da área centro, Reinaldo Simões Rossi, explicou que a liderança do movimento descumpriu os acordos feitos e a mudança de planos obrigou os policiais a pedirem que os líderes realinhassem a posição da manifestação. “Por isso, os manifestantes começaram a jogar objetos contra os policiais e aí começou a ação da tropa de choque”. Informações da Agência Brasil.

Um pensamento sobre “O Brasil despertou no outono

  1. A gente vai pra rua, leva bomba da polícia (a brasileira deve ser a mais ignorante do planeta, porque nem percebe que estamos lutando pelos policiais também) e depois ainda temos que aguentar a hipocrisia do governo, com essa bobagem de plebiscito para uma coisa que está há dez anos no Congresso Nacional. Mas tudo bem, o alerta foi dado e podemos voltar pras ruas a qualquer momento.

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