É a FIFA que dita as leis. O torcedor e a Revolta das Caxirolas

O futebol sempre passou a ideia de liberdade. Liberdade para driblar, criar jogadas de improviso, fazer gols e mais gols, uma profusão de gols. Esse espetáculo fazia com que nas arquibancadas o mais sisudo ou a mais tímida extravasassem toda sua adrenalina e sorrissem no dia seguinte ao ver estampada em algum jornal sua foto cheia de caretas. Tudo isso está correndo o risco de ser apenas lembranças de “quando eu era criança”. A FIFA – que depois de João Havelange presidi-la se tornou um Estado financeiro – é que determina as leis a serem seguidas no país durante a Copa do Mundo. Sem esquecer que antes há a Copa das Confederações e que a legislação da FIFA já estará valendo. Determina tudo. Quando e onde beber bebida alcoólica e até o brinquedinho que a torcida deve usar nos jogos. E governo, mídia e políticos dizendo amém, em nome de dois torneios à sua feição.
Triste país esse nosso com representantes no Judiciário demonstrando todo nosso atraso ao banalizarem as leis – durante a semana o desembargador Siro Darlan mandou soltar a quadrilha que atacou e fez reféns no Hotel Intercontinental – e um Congresso Nacional onde bons políticos são as exceções.
Por isso, o blog publica o artigo de André Barcinski.
O artigo fala o que muita gente gostaria de falar e publicar. Vale a pena ler e refletir.
O torcedor e a Revolta das Caxirolas

Jogador do Bahia cata as caxirolas jogadas no campo por torcedores, domingo, 28 de abril de 2013
Estamos às vésperas da Copa das Confederações e a pouco mais de um ano da Copa do Mundo. Em qualquer país, o povo estaria respirando futebol.
Nas ruas, ninguém falaria de outra coisa. Crianças passeariam de camisa da seleção. Todo jogo seria uma festa, com estádios cheios e torcida animada.
Mas não é o que ocorre. Na verdade, não lembro uma época em que o futebol brasileiro estivesse tão por baixo quanto agora.
Nossa seleção é execrada. Aliás, a seleção não é “nossa”, mas da CBF, como bem disse Ricardo Teixeira. O povo não se identifica com o time da CBF e vaia o time.
Nossos campeonatos estaduais foram sabotados pelas federações, que se perpetuam no poder à custa de favores aos times menores.
Nossos estádios, com poucas exceções, vivem vazios. Facções organizadas de torcedores profissionais dominam as arquibancadas.
Não podemos fumar, beber álcool ou levar bandeiras aos estádios. Não temos jogos de duas torcidas porque a polícia não tem competência para garantir a segurança. Partidas noturnas começam em horário de boate para satisfazer a TV. Enquanto isso, na “sisuda” Alemanha, quem paga ingresso pode fumar, beber e exibir bandeiras.
Nosso Ministro do Esporte vai ao programa de TV “Roda Viva” e não tem capacidade de responder com clareza a uma pergunta sequer sobre os problemas da Copa do Mundo, preferindo acusar os jornalistas de “adversários da Copa” e ressuscitando a filosofia militarista do “Ame-ou ou deixe-o”.
O primeiro jogo no Maracanã depois de uma reforma que custou quase 1 bilhão aos cofres públicos é uma pelada entre amigos de Ronaldo e amigos de Bebeto. Dizem que é um “jogo-treino”, mas o evento é transmitido pela TV e usado de propaganda por Dilma, Lula, Sergio Cabral e Eduardo Paes, o que o torna um evento oficial. Mesmo assim, Ronaldo acha por bem usar o Maracanã de playground e coloca um parente da esposa para jogar, enquanto Zico, Romário, Dinamite e tantos outros ídolos da história do Maracanã não foram convidados.
O apresentador da inauguração do novo Maracanã não foi José Carlos Araújo ou algum narrador esportivo com vínculos antigos ao estádio, mas Luciano Huck. Repito: Luciano Huck.
Nossos times, com poucas exceções, estão falidos, com dívidas impagáveis e divisões de bases dominadas por empresários.
Nossa imprensa esportiva se divide entre o oba-oba oficialesco e aqueles que insistem em dizer a verdade e são tachados de “pessimistas”.
O homem mais poderoso do futebol brasileiro é uma relíquia da ditadura que não pode nem chegar perto da presidente da República.
A FIFA manda e desmanda por aqui. Diz que “Mané Garrincha” não pode batizar o estádio em Brasília e que a cerveja estará liberada apenas durante a Copa. Depois da Copa, nós voltaremos a ser tratados como crianças e não poderemos tomar cerveja durante o jogo.
Para completar, temos a tal caxirola, uma invenção oportunista e com carimbo estatal, que o músico Carlinhos Brown quer nos empurrar goela abaixo – por módicos R$ 29,90 – como um apetrecho indispensável ao fervor nacionalista que deve reinar durante a Copa.
Ninguém pode ser a favor de torcedores jogarem objetos no campo. Isso é errado. Mas a Revolta das Caxirolas, como já ficou conhecida a chuva de chocalhos promovida pela torcida do Bahia, dá uma ideia da reação que se pode esperar do povão. Ninguém é idiota. As pessoas percebem quando uma iniciativa é puramente marqueteira. E não é todo mundo que se presta a servir de claque para esse espetáculo grotesco que virou o futebol brasileiro.
Tanto os mineiros que, no jogo Brasil x Chile, gritaram “olé” para humilhar o time da CBF, quanto os baianos que demonstraram as qualidades aerodinâmicas da caxirola, estão apenas descontando – com diferentes graus de civilidade – o que a CBF, as federações, os clubes, o governo e grande parte da mídia fizeram com o nosso futebol.
Alguns dizem que a Copa do Mundo será a “reviravolta” que todos esperamos para o futebol brasileiro. Do jeito que as coisas vão, a Copa parece mais um obstáculo ao desenvolvimento do esporte. Terminaremos a Copa com estádios superfaturados (alguns abandonados), com uma divisão ainda mais gritante entre times grandes e menores, com empresas particulares beneficiadas por contratos açucarados de exploração de estádios bancados com dinheiro público, e com ingressos mais caros para espantar o povão. E aí, periga não ter volta. Nem o Maracanã, Mineirão e Fonte Nova teremos mais para recordar. Como chegamos a isso?

4 pensamentos sobre “É a FIFA que dita as leis. O torcedor e a Revolta das Caxirolas

  1. Esses europeus chegam aqui e acham que todo mundo é ignorante e sem amor pelo seu país. Se deram mal. Eles viram que brasileiro não é o cordeirinho idiota que imaginavam. Agora estão preocupados como será na Copa do Mundo.

  2. E Fifa e esse governo de aproveitadores pensaram que no Brasil todo mundo era idiota. Estão vendo agora que não, uma parte da nação ainda fica indignada.

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