Mimiminho foi embora, mas deixou uma trilha de amor para os humanos

Recorro aos poetas Pablo Neruda e Ulisses Tavares. A Ode ao Gato e Meu melhor amigo se foi mas continua comigo significam muito mais que um poema e uma crônica, revelam o afeto, o amor e a consideração por seres que na hierarquia da população do planeta equivocadamente estão abaixo dos humanos – cada vez mais monstruosos nas demonstrações de violência. Esses textos – estão no final do post – são fundamentais para tentar explicitar o que sinto com a partida de Mimiminho, a Chaninha/Shaninha, gatinha tão meiga e alegre que nos deixou segunda-feira, 28 de janeiro. Nos seus poucos anos de vida – 9, 10, 11? – deixou lições de de amizade e uma trilha de puro amor aos humanos. Mais do que tentar verbalizar, escrever, deixo o sentimento de saudade transparecer nas fotos e vídeos que ficam como prova da amizade e carinho. Antes dela, foi Fera, que o blog estampou em 27 de dezembro de 2010. Do trio, ficou Zig, o belo doberman que aparece em fotos e no vídeo abaixo.

Mimiminho - 05022012 - AC (1)

Mimiminho em 5 de fevereiro de 2012

Mimiminho em 5 de fevereiro de 2012

Mimiminho - 05022012 - AC (3)  Mimiminho - 05022012 - AC

Mimiminho em maio de 2012

Mimiminho em maio de 2012

Mimiminho e Zig no Natal de 2012

Mimiminho e Zig no Natal de 2012

Mimiminho e Zig em 25-12-2012

Mimiminho e Zig em 25-12-2012

Mimiminho, a Chaninha pequenina e altiva

Mimiminho, a Chaninha pequenina e altiva

Mimiminho em 2009

Mimiminho em 2009

Mimiminho, a Shaninha (também grafava assim) em 2009

Mimiminho, a Shaninha (também grafava assim) em 2009

Ode ao gato
De: Pablo Neruda
Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.
(Tradução:  Maria Teresa Pina)
Meu melhor amigo se foi mas continua comigo
 Por: Ulisses Tavares
Nesta noite de domingo ele dorme, como sempre, aqui no meio da sala.
Só que, desta vez, não irá acordar nunca mais.
Meu melhor amigo, o Ferinha Mel, morreu da maneira que viveu: como um anjinho.
Olhando seu corpo peludo, sua carinha de criança cheia de cabelinhos brancos, meu coração encolhido, angustiado, exausto pelas tentativas de hoje a tarde, no mercenário hospital veterinário, de espetar e entupir seu combalido ser de remédios e soros, penso que atendi seu último desejo, no último olhar que me dirigiu.
Em nossa comunicação visceral, entendi o que me disse:
Pai, me tira desse lugar, quero partir lá onde aprendi a ser feliz desde filhotinho. A nossa casa.
Ferinha Mel nunca teve uma casinha de cachorro, teve é uma casa inteira para o cachorro.
Tanto que agora há pouco a veterinária insistiu em levá-lo de volta ao hospital e eu, em nome dele, recusei.
Nem daria tempo: seu coraçãozinho parou de repente, cercado de pessoas que o conheciam e o amavam.
Vai ficar o profundo vazio de sua presença física, sei, claro.
Meu grudinho. Meu pançudinho. Meu encrenquinha. Meu melhor amigo. Meu filho. Meu amor.
Neste velório íntimo e dolorido, em que minha alma escorre em lágrimas, continuo sabendo o que ele quer.
Que eu me lembre que ele só veio parar em meus braços para me alegrar, repartir, consolar, se doar e agradecer as zilhões de pequenas coisas que compartilhamos.
Foi ele quem me estimulava a defender os animais, todos.
Foi ele quem me mostrou que não há dia ruim que não melhore diante de uma boa lambida.
Foi ele quem me ensinou a abanar mais o rabinho e rosnar menos.
No céu dos cachorrinhos, continuará a fazer isso.
E na terra fico eu com seu legado, sua herança abençoada, sua sabedoria de carpem diem.
Ferinha Mel apenas finge que morreu, o sapequinha.
O safadinho sabe muito bem que continua aqui, para o resto de minha vida.
Uma vida que, confesso, me parece no momento bem triste.
Mas não é o que ele me deseja.
Por isso prometo: quando ficar vendo o mundo cinzento demais, chamarei por ele e suas vívidas lembranças.
Não há adeus, portanto, apenas a humana dor da perda.
Ferinha Mel, tenho apenas tudo a agradecer.
 Ulisses Tavares tem agora vivo dentro do peito o Ferinha Mel a lhe consolar, ensinar. Como sempre foi e será.

7 pensamentos sobre “Mimiminho foi embora, mas deixou uma trilha de amor para os humanos

  1. Zeca, sublime sua homenagem a Mimiminho! A nós, seus leitores, resta manifestar aqui toda consternação pela perda de uma querida amiga e desfrutar, em memória, dessa trilha de amor, que na verdade testemunha o amor puro, proporcionada por Mimiminho a todos que com ela conviveram. Abraço.

  2. Eu me emocionei com esse artigo. As pessoas que conviveram com Mimiminho amaram e foram amadas por essa gatinha formosa. Este é um nível alto de percepção, de amor. Que maravilhosa deve ter sido essa convivência!

  3. Uma pessoa que se sensibiliza com o amor dos animais só pode ser iluminada. Fico feliz por esse contato. Mimiminho onde estiver, está feliz com esse reconhecimento. Fique com Deus!

  4. Quem gosta de animais gosta do planeta, cuida da vida com o objetivo de ser vivida com qualidade. Eu me solidarizo com a dor das pessoas que conviveram com esta gatinha tão bela e que transmite tanta paz.

  5. Passei por situação parecida, há pouco tempo. É uma dor de perda enorme. Minha solidariedade a quem gostava e sente falta de Mimiminho (tão delicado o nome…).

  6. Linda, meu bem, sua homenagem. Vc era o amor de Mimiminho. A vc ela rendia todas as homenagens e permitia todos os carinhos. E acho que eu era como a mãe. Ela tinha 11 anos. E era incrivelmente carinhosa.

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