Livro de Francisco de Assis faz uma viagem nas entranhas da corrupção

Como diz a socióloga Marlene Vaz, “este livro abriu as entranhas da justiça, amarrado num fio de suspense”, leia a resenha feita por Letícia Malard, professora emérita da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

A Justiça e a mesa do bar
Supremo Tribunal Federal em Brasília: palco de polêmicas e inspiração para a literatura
O Botequim do Paço funciona como um teatro onde se encena diariamente essa peça-romance de Francisco de Assis Moura de Melo – O garçom que sabia demais. Peça – devido ao fato de os diálogos suplantarem numericamente a narração e a descrição. Romance, sua classificação oficial – porque, mesmo repercutindo fatos reais que têm recebido a cobertura da mídia, o autor não se propõe a escrever uma história da corrupção no tribunal de algum estado brasileiro. Seu objetivo é alertar para a existência de importantes agentes da nossa Justiça que são corruptos, e o que fazer.
Sob os olhos e ouvidos de Nascimento, o garçom-proprietário, no botequim se reúnem advogados em happy hour, não só para beber e conversar amenidades. As conversas giram sobretudo a respeito de assuntos relacionados à profissão, com enfoque nas mazelas da Justiça. A homonímia desse garçom e do capitão mais famoso do atual cinema brasileiro não é mera coincidência.
Ambos, inconformados com a corrupção sistêmica do Judiciário e da polícia, respectivamente, acreditam na possibilidade de implodir o sistema. Se, por um lado, o herói de Tropa de Elite lida com o problema no próprio campo de batalha, por outro lado o anti-herói do botequim trabalha na arena da conversação, ou seja, em cima daquilo que os assíduos frequentadores do seu bar conversam entre si ou comentam com ele. Também, no que lê na mídia.
O eixo do romance é, portanto, o discurso direto dos advogados, centrado naquilo que vivenciam ou escutam de colegas, a respeito dos descaminhos da Justiça. O autor está focado no modus operandi de juízes e desembargadores: especialmente, a venda de sentenças, a incompetência profissional, o desinteresse pelo trabalho, a preguiça, o mau comportamento, a falta de compromisso com a verdade e a Justiça.
Na opinião desses causídicos que dependem das decisões judiciais, tais descaminhos acarretam sentenças estapafúrdias e, por consequência, suspeitas. Alguns delineiam propostas concretas para melhorar o funcionamento e efetuar a limpeza moral do poder judiciário. O leitor pode discordar das propostas, se transportadas para a realidade, mas as personagens, em suas conversas de botequim, discutem a fundo – mesmo que encervejados – como golpear a corrupção que campeia no poder constituído da República cuja função é o resguardo e a interpretação da lei.
Pairando acima de todas as figuras romanescas, sobressai o honesto garçom, humilde porém sabedor de cor e salteado dos artigos de leis, dando tratos à bola para implodir o sistema corrupto, auxiliado por um jornalista investigativo. Na outra ponta do novelo – o proctologista Eduardo, cujo defensor foi contratado para comprar uma sentença para seu cliente ganhar R$ 22 milhões, acionando-se para tal um senador como lobista e pagando R$ 800 mil a um desembargador.
Estamos diante de um romance de narrador zero, quer dizer: o texto se constrói quase que inteiramente no diálogo direto. Daí, sua proximidade com o teatro. Quando o narrador, de terceira pessoa, se apresenta, é para reportar ou comentar aquilo que as personagens fizeram ou disseram, sem entrar-lhes no mérito nem justificar suas ações e reações. Esse narrador funciona basicamente como um espelho da peça que se encena, do romance que se desenvolve por si mesmo, operador de uma câmera de vigilância sonorizada, flagrando tudo o que os homens do direito conversam no Botequim do Paço, bem como a participação idealista do garçom naquilo que ouve.
As cenas que se desenrolam fora do Botequim, em especial as relacionadas ao médico comprador de sentenças (que não o frequenta), são carimbadas pela onisciência do narrador. Ganha e perde Moura de Melo demonstra a preocupação de colocar frente a frente advogados de ideias opostas, tanta política quanto juridicamente, que as discute com civilidade, não raro com ironia e salpicando-as com o palavrão irritado e espontâneo.
O autor sempre procura imprimir democracia nas discussões: fala-se o que se quer, não há ganhadores nem perdedores nos debates. Nesses momentos, os causídicos tiram a máscara profissional que costumam usar no dia a dia, quer na presença do cliente ou do defensor da parte contrária, quer na dos julgadores dos quais dependem, para se expor sem amarras nem fingimentos. Dessa forma, a mesa do Botequim funciona como uma sessão de terapia descontraída, onde questões teóricas profundas se alternam com fofocas de todo tipo, em que as mazelas da Justiça afloram com vigor e indignação. O garçom, convocado a demonstrar sua decoreba legislatória, às vezes faz o papel de ingênuo bobo da corte. Não só por acertar as perguntas dos advogados sobre os termos da lei, provocando risos, como também por acreditar que ele seja capaz de acabar com a corrupção através da implosão do sistema, denunciando casos a um representante da grande mídia.
O romance é publicado em um momento em que o Conselho Nacional de Justiça e o Supremo Tribunal Federal estão em debate sobre a corrupção que contamina o Poder Judiciário, sua banda podre queimando o filme da banda sã. Momento em que a mídia noticia a situação na qual se encontram processos em andamento contra membros do judiciário suspeitos de corrupção. Assim, no plano ficcional, O garçom que sabia demais pode auxiliar a entender e a interpretar o que está acontecendo no mundo real, no âmbito da Justiça. No fim das contas, há uma teoria que diz que a literatura é antecipadora do que ocorre na realidade.
O garçom que sabia demais • De Francisco de Assis Moura de Melo •
Editora Garamond, R$ 28,00
Letícia Malard é professora emérita da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
http://impresso.em.com.br/app/noticia/toda-semana/pensar/2012/03/24/interna_pensar,29473/a-justica-e-a-mesa-do-bar.shtml
Fonte: Jornal Estado de Minas Impresso

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