Ser ou não ser

Alguns amigos meus confessam estarrecidos que se sentem perdidos depois da greve dos policiais. Vários deles pensam mesmo em procurar terapia. São pessoas honestas consigo mesmas. Muitas delas lutaram pelo fim da ditadura militar – que em alguns Estados demorou mais tempo para acabar, a Bahia, por exemplo – e pela redemocratização do país.

E por terem participado dessa luta quiseram eleger governos teoricamente com ideologia e métodos diferentes dos demonstrados pelo regime anterior. Para essas pessoas, os valores éticos e morais, os direitos humanos e os princípios políticos – transparência e cumprimento de programa de governo – são inegociáveis, independente de ser situação ou oposição.

São pessoas que perdoaram a estranha aliança de Jaques Wagner na reeleição: chamou para vice-governador um carlista sangue-puro. Perdoaram também a insistência de Wagner em colocar na aliança César Borges, outro carlista histórico, que só não se tornou senador na chapa do petista porque optou pela corte de Geddel.

Essas pessoas estranharam e perdoaram antes a tal governabilidade de Lula, na qual vale trazer todo mundo para o lado do governo, o importante é acabar com a oposição. Tudo isso foi perdoado, embora com uma pontinha de desilusão.

Afinal, chegou a grande prova na Bahia. Não se tratava mais de alianças, leques políticos e otras cositas más. Estava em jogo agora uma greve de trabalhadores, policiais que receberam amplo apoio de políticos e políticas, na greve de 2001, agora governantes.

E nessas prova as pessoas que sempre estiveram à esquerda do espectro político e preservam os valores éticos e morais e não abrem mão de princípios humanistas estranharam os métodos do governador Jaques Wagner.

Tido como sábio negociador nos tempos de sindicalista, o governador demonstrou pouca habilidade. Ao chegar de Cuba, durante dois dias em que a greve já tirava o sossego da capital e de algumas cidades do interior da Bahia, ele negava o movimento. O mesmo ocorria com setores da inteligência da Segurança Pública e do Comando da PM.

Depois, quando o leite já estava derramado, o governador partiu para a força. Em nenhum momento chamou os grevistas para o tradicional “sentar à mesa de negociação”.

Sinais claros de governo que detesta greve e outras manifestações. Em 2007, quem não se lembra? O governo Wagner se utilizou do Judiciário para enfrentar a greve dos professores estaduais, recordam agora alguns dos seus estarrecidos eleitores.

Nesse momento, como se tivessem passado por um trauma, essas pessoas, amigas minhas, estão catatônicas. Não conseguem criticar, mas estão insatisfeitas; se questionam, ainda intimamente, mas não se expõem; buscam algum movimento virtual em redes sociais, sentem-se felizes se esse movimento se concretiza e assim vão às ruas, gritam, batem no peito afirmando que o movimento é apartidário; é o máximo que conseguem nesse momento de desilusão com o governo que pensavam ser diferente do autoritário de péssima lembrança, e dos posicionamentos de líderes de partidos, ainda com a tarja de esquerda. Líderes estes de posicionamentos rápidos, belicosos, com adjetivos que identificavam o que se chamava direita raivosa contra trabalhadores.

Será que assimilaram o discurso daqueles líderes autoritários que reprimiam os movimentos populares pela força?

E como deixar para lá o uso conveniente da TV Globo e da revista Veja até ontem chamados de integrantes do “partido da imprensa golpista” e agora citados por governistas (do partido hegemônico e de aliados) como exemplos para desqualificar os grevistas?

As referidas estarrecidas pessoas são bem diferentes de outras que não criticam, por estarem empregadas ou fazendo parte de alguma forma da estrutura governamental. Essas se calam porque o temporário bem-estar econômico impede o exercício de sua consciência crítica.

Mas as outras a que me refiro não estão nem dependem do governo, apenas acreditaram tanto que outra forma de governar – diferente do coronelismo e autoritarismo a que o povo baiano foi por tantos anos submetido – era mais que uma utopia.

Por isso, estão sofrendo. Sabe-se que muitos estão procurando, desesperadamente, indicações para terapia.

Agora, o blog cita textos que vêm a somar nessa reflexão:

 

 

 

 

Greve?

Citando Eliane Cantanhêde, na Folha de SP de 7 de fevereiro, sobre a moral da história para Wagner e governadores que agiam de uma forma quando eram oposição e bem diferente quando se tornaram governo: “Greve no governo dos outros é bom, mas no nosso não pode; privatização no governo dos outros é impatriótica, mas no nosso é um sucesso do patriotismo”.

 

 

 

Mentira

Trecho de artigo de Caetano Veloso (em vários jornais) em 12 de fevereiro: “O clima de terror que os grevistas quiseram instaurar deixou o Rio Vermelho (em Salvador) deserto no sábado à noite: é como se a Lapa (no Rio de Janeiro) tivesse ficado deserta num fim de semana. Os assassinatos de moradores de rua continuam inexplicados. Wagner era sindicalista. É inacreditável que ele diga que foi pego de surpresa. Nós todos já sabíamos o que tinha se passado no Maranhão e no Ceará, antes de sua viagem a Cuba. Ele deverá ser sempre criticado por não ter sido capaz de negociar e, uma vez o conflito deflagrado, não ter tido a força de personalidade para lembrar aos envolvidos que há instituições neste país. Quando Lula chegou à presidência, chamou Luiz Eduardo Soares para projetar uma política nacional de segurança. Os lulistas nunca explicaram como e por que Soares foi despachado sem ter tido tempo sequer de testar um esboço de suas ideias. Mas já ouvi cem vezes que José Dirceu usou toda a sua energia para livrar o nascente governo do PT do estorvo que seria um homem íntegro e informado trazendo racionalidade para o enfrentamento da questão da segurança pública. Nada nem remotamente semelhante foi posto no lugar”.

E dois textos da coluna Tempo Presente, do jornal A TARDE, muito bem redigida no dia 13 de fevereiro por Biaggio Talento:

 

 

 

 

Inabilidades

A tensão da greve da PM talvez explique certas inabilidades de algumas das autoridades no trato com os grevistas, que resultaram no fortalecimento do movimento. Fora o aparato de guerra que cercou a Assembleia Legislativa, as declarações do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, segundo as quais havia preparado dois presídios federais para os PMS, foi um desastre. O governador Jaques Wagner aumentou a insatisfação chamando os grevistas de vândalos. Mesmo que estivesse se referindo aos eventuais envolvidos em atos de vandalismo, atingiu toda a tropa.

O time do governo não conseguiu entender que o sentimento de grupo entre os grevistas se fortalecia a cada agressão. É como, por exemplo, tentar desmoralizar o sacerdote de uma religião qualquer. Mesmo com evidências fortes do envolvimento desses gurus em ilícitos, o normal é o rebanho não condenar o chefe, mas quem o acusa.

 

 

 

Quem dera

Impressionou o braço do Estado que caiu pesadamente sobre a Aspra, a associação que puxou a greve da PM. Armou-se até uma “força-tarefa” para lacrar a minúscula sala usada como sede pela entidade, que teve as contas bloqueadas. Quem dera o Estado tivesse o mesmo empenho para desvendar os, até agora, “crimes insolúveis” do servidor Neylton da Silveira; do sindicalista Paulo Colombiano e do empresário André Cintra.

7 pensamentos sobre “Ser ou não ser

  1. E pensar que esses caras que se diziam de esquerda só queriam mesmo era chegar ao poder e se beneficiar. Eu e tanta gente que perdemos tempo acreditando nesses enganadores.

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  2. Bomfa, é como diz Drummond: lutar com palavras é a luta mais vã/No entanto. lutamos, quando chega cada a manhã.

    Temos sempre, renovada, a manhã da vida, para continuar lutando.

    Forte abraço

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  3. Bomfa, somos cinquentões. Continuamos com a razão, mas perdemos a ilusão.
    Foi pra isso que estudamos? Combatemos por isso? Fizemos o melhor, e basta.

    Forte abraço, amigo de geração, que legitima o tempo!

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  4. Caro Bomfim,

    Saiba que ler seus textos é um prazer e ajuda na profilaxia da massa cinzenta. Parabéns por nos brindar com textos inteligentes e baseado numa análise dos fatos e não em sentimentos arrivistas.

    Abç.

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  5. Pingback: Álvaro Figueiredo « falandonalata1

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