Vasco: um exemplo para outros times

A épica vitória do Vasco da Gama – mais uma na bonita história do clube da cruz-de-malta – ontem contra o Universitário do Peru gerou dezenas de bons textos na imprensa, esportiva ou não. Rádio, TV, jornais, sites, blogs todos destacaram o triunfo de 5 x 2. Explica-se tantos elogios. O Vasco ao conquistar a Copa do Brasil e garantir uma vaga na Taça Libertadores de 2012 – sonho de consumo de todo grande time da América do Sul – relaxaria no Brasileirão e, mais ainda, na Copa Sul-Americana. Afinal, essas duas competições oferecem ao seu campeão exatamente a vaga na Libertadores (no Brasileirão, além do campeão mais três clubes conquistam o direito de disputar o maior torneio das Américas, aquele que leva seu vencedor a dipsutar o título mundial).
Mas não. O Vasco disputa as duas competições como se jogasse sua vida. E dá ótimo exemplo para outras equipes que fazem papelão, principalmente na Copa Sul-Americana. E olhe que o time perdeu seu treinador (sofreu um AVC durante um jogo) no meio do campeonato e, desde então, é dirigido pelo técnico interino.
Os dois excelentes textos abaixo (Cosme Rímoli e Rica Perrone) mostram bem o resgaste de time simpático e vencedor que marca o cruzmaltino da atualidade.

Cosme Rímoli: O Vasco da Gama empolga botafoguenses, flamenguistas, tricolores… E reverte a ordem natural do acomodado futebol brasileiro…
É o time mais forte emocionalmente do País.
E em cada dividida, cada passe, cada gol, o Vasco revoluciona convicções.
Que time insaciável é esse?
A goleada diante do Universitário do Peru por 5 a 2 entusiasma.
O clube teve o pior começo de Campeonato Carioca de sua história.
Tudo indicava que 2011 seria um ano terrível.
Muita gente em São Januário já se arriscava, falando em nova queda para a Segunda Divisão do Brasileiro.
Dunga, Cuca e até Adilson Batista quiseram ficar longe do time de Roberto Dinamite.
Ricardo Gomes não se importou em ser o treinador que o dinheiro deu.
E depois de um péssimo trabalho no São Paulo, ele surpreendeu.
Conseguiu dar unidade ao vários jogadores renegados, desprezados.
E contou com a sorte grande.
A volta do líder Juninho Pernambucano.
A mistura estava feita.
A conquista da Copa do Brasil foi arrancada a fórceps no Paraná.
Do favorito Coritiba.
Mesmo sem Juninho Pernambucano, o time se desdobrou e voltou com o título.
Tudo deveria estar bom demais.
A praxe recomendava a preparação para a Libertadores.
Mas o time começou a conseguir pontos importantes no Brasileiro.
Até que veio aquela partida contra o Flamengo no Engenhão.
E o terrível AVC de Ricardo Gomes.
O sangue drenado do cérebro.
O risco de morte.
Essa tristeza toda serviu para unir o grupo.
O pacto de todos tentarem fazer o melhor, lutar por Ricardo Gomes em campo.
E veio a arrancada no Brasileiro, com o inteligente auxiliar Cristóvão assumindo o time.
A mistura faz com que o Vasco brigue centímetro por centímetro a liderança do Brasileiro com o Corinthians.
Estão empatados com 58 pontos.
Além dessa disputa absurdamente empolgante, há a Copa Sul-Americana.
Cristóvão tem jogado com reservas as primeiras partidas e com os titulares as segundas, as decisivas.
Depois de eliminar o pobre Palmeiras de Felipão logo no primeiro mata-mata…
Veio o Aurora da Bolívia.
Derrota por 3 a 1 na primeira partida.
No caldeirão fervente de São Januário, 8 a 3.
Aí a situação ficou mais complicada nas quartas.
O Universitário do Peru.
Nova derrota na primeira partida.
O time caiu por 2 a 0.
Trouxe a decisão para São Januário.
Antes, na hora do almoço, o doping psicológico definitivo.
Ricardo Gomes na parte final da recuperação do AVC vai almoçar com o time.
Diz o quanto confia nos jogadores.
O quanto está orgulhoso de cada um.
E que seu maior sonho é assumir em janeiro.
Mesmo colocando sua vida em risco.
Atingiu coração e mentes.
O time entrou salivando contra os peruanos.
O jogo foi épico.
De fazer flamenguista, botafoguense e tricolores se pegarem vibrando pela Cruz de Malta.
O Vasco saiu na frente.
Tomou a virada.
Perdendo por 2 a 1, teria a obrigação de fazer quatro gols, situação terrível no futebol moderno.
E o Vasco partiu todo para o ataque com uma superação amadora.
Depois do empate, já sem Diego Souza, expulso.
Faltavam três gols.
Os peruanos ficaram encurralados, amedrontados com tanta determinação.
E com a cumplicidade dos torcedores vascaínos.
São Januário virou um inferno.
O time foi pressionando o Universitário para a sua pequena área.
Os chutões eram apenas a chance de um novo ataque vascaíno.
E os gols foram saindo.
Dedé se mostrou um novo centroavante.
E Alecsandro abençoado com o quinto gol.
5 a 2 Vasco.
O incrível aconteceu.
A classificação inesperada, festejada, merecida para as semifinais da Sul-Americana.
Foi um feito impressionante.
Por mais que alguns tentem desmerecer a força dos peruanos.
O que importa é a atitude vascaína.
Esta vontade que ganhar, de se impor, de superar.
De conquistar.
Essa será a grande marca de 2011.
Um ano que nasceu com a vergonha…
E está acabando com o orgulho….
Para quem tem a sina de ser vascaíno…
Juninho Pernambucano, outro símbolo da garra vascaína
Rica Perrone: Não é possível…
Não, não é possível. O Vasco é campeão da Copa do Brasil, disputa o Brasileirão na contra-mão do que faz a maioria quando leva a Copa e ainda não está tentando se livrar da Sulamericana.  Pior do que isso? Lidera o Brasileiro com o Corinthians e está nas semi da Sulamericana.
Não satisfeito em buscar, está chegando. E ontem o que mais repeti vendo a história ser escrita foi “não é possível”.
Time titular faltando 5 rodadas no Brasileirão com 3 clássicos por vir? Não é possível…  É um sonho ou algum clube se tocou que ninguém morre jogando duas vezes por semana?
A bola rola, o tal do Universitário não a encontra. O Vasco deita, rola, finge de morto e faz 1×0.
Bola na área e o medíocre atacante deles bate de primeira por cobertura… Não é possível que ele tentou fazer aquilo. Mas fez.
Juninho, experiente, se joga na área pra simular um pênalti. Porque não chutou? Não é possível que tenha preferido cavar do que tentar o gol…
Fim de primeiro tempo, empurra-empurra.
Na volta Diego Souza expulso. Não, não é mais possível.
Dois minutos depois o time dos caras dá um chute sem vergonha da entrada da área, bate no Dedé e entra. 2×1, acabou.
O Vasco tem que fazer mais 4 gols em 45 minutos pra conseguir a vaga. Não é possível.
Bola na área, Elton de cabeça, 2×2. Correria, pega a bola, volta correndo, aquela cena toda, mas…. não era possível.
Dedé resolve, então, virar atacante.  Não satisfeito em ser o melhor zagueiro do país disparado, desafiou a lógica e partiu.
Virou ponta direita. Recebeu, cruzou, entrou. O goleirão aceitou, é verdade. Mas aquele 2×1 contra de minutos atrás agora era um 3×2 que ainda deixava esperanças.
Faltam 2. Mas será possível?
Pressão, caldeirão fervendo, torcida em pé, time vibrante e os peruanos assustados.
Aos 27, o candidato a atacante conquista a posição. De cabeça, Dedé faz 4×2 e o Vasco precisa de apenas um gol para conseguir o impossível.
Eu, confesso, em pé diante da TV, repetia em voz alta: “Não é possível…. “.
A senhora Perrone passava pelo quarto sem entender muito bem que euforia era aquela e eu tentava explicar: “O Vasco tá quase…. Não é possível, não é possível!”.
E aos 37, Dedé desvia, Alecsandro empurra, o Vasco torna o impossível real.
Tá, eu confesso sem medo! Gritei gol e não fui só eu.  Conheço alguns que não tinham nada com isso e que também se envolveram com a virada a este ponto.
Em 45 minutos o Vasco conquistou 4 gols, a torcida, a vaga na sulamericana e qualquer sujeito que estivesse na frente da TV sem ser flamenguista, tricolor ou botafoguense.
Estes, convenhamos, tem anti-corpos suficientes pra não se envolverem.
Era possível.
O Vasco dava outra aula de vontade, ousadia e vergonha na cara.  Quantos ali entregariam no 2×2 só pra não sair da competição perdendo?
Quantos iam querer levar a Sulamericana a sério já tendo a vaga?
Porque só pro Vasco título é título e dane-se a tal da vaga?
Porque o Vasco está sendo tão mais ousado, inteligente e corajoso do que os outros ao disputar tudo que tem pela frente?
E se perder o Brasileiro por causa da Sulamericana e, talvez, ficar sem os dois? Dirão os comentaristas de resultado que não valeu a pena?
Valeu, já valeu.
O ano de 2011, seja com título de Sulamericana ou não, com Brasileirão ou não, já é do Vasco.
Eu pensei que “não era possível” um clube trocar o ódio que o país todo sentia em virtude do seu ex-presidente por simpatia.
Pensei que o Vasco estivesse eternamente rotulado pela lamentável postura do Eurico que fez do clube o mais odiado do país.
Hoje, não.  Com Roberto, com Ricardo, com essa postura e sem pisar em ninguém por estar em cima, o Vasco reverteu também esta imagem.
Sim, o Vasco é o time da virada. O Vasco é o time do amor.
Duvida? Cai dentro do Caldeirão pra ver se não vira sopa…

7 pensamentos sobre “Vasco: um exemplo para outros times

  1. Realmente, o nosso Vasco é um exemplo de história para o futebol brasileiro, pena que é foi e é tão mal administrado. No dia que tiver uma administração boa, será um dos maiores clubes do mundo. E o time será de primeira grandeza.

  2. O Vasco é um clube com uma história, forte, bonita. Negros e operários encontraram no Vasco a possibilidade de jogarem futebol com os mauricinhos daquela época (anos 1920). Por isso, o clube é tão perseguido dentro e fora de campo.

  3. Bonfa, meu líder:

    Como americano/flamenguista, reconheço a excelente fase vascaína, que tem um líder chamado Juninho e um zagueiro de área apelidado de Dedé, que sabe se colocar na área adversária como poucos e cabeceia tão bem quanto os melhores atacantes.

    Um abraço

  4. Comentário apaixonadíssimo – até uma flamenguista moderada como eu reconhece a odisséia gloriosa do Vasco…
    Vera Schumann

    Schumann Consultoria Ambiental & Comunicação Ltda.
    Rua Cel Adriano Pedreira, n. 93, Centro
    São Gonçalo dos Campos – Bahia

  5. Sim, esse é definitivamente o ano do Vasco. Se será campeão brasileiro ou sulamericano é outra história. Conquistou de volta a confiança e a paixão dos torcedores, e ainda torcedores novos! Time unido, coligado, sabe o que quer. Quer mostrar que tá vivo e tá alegre e tá jogando futebol. Jogar futebol brasileiro tem esse espírito. O espírito que o Vasco trouxe de volta, perdido há muito, e que faz o Brasil se encantar independentemente da cor da camisa com que se vista o coração. O Vasco voltou, o campeão voltou. Uhuuu!
    Bjs, meu benzinho de filosofia e coração vascaínos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s