O futebol e a paixão ypiranguense

Albert Camus, escritor francês nascido na Argélia, autor de A Peste e O Estrangeiro, foi o Prêmio Nobel de literatura de 1957. Escritor dedicado à ficção e ao ensaio filosófico, Camus também era um apaixonado pelo futebol, e chegou a ser goleiro, dizem que um bom goleiro, no time de sua universidade, em Argel. Seu amor para com o futebol seguiu-o durante toda a vida. E uma das coisas que mais o impressionou quando da sua visita ao Brasil, de 5 a 7 de agosto de 1949, foi a paixão do brasileiro pelo futebol. Ao pisar em solo brasileiro Camus pediu que o levassem para assistir a uma partida de futebol. O pedido surpreendeu os literatos, que viam o futebol com desdém.
O futebol é uma paixão que sempre surpreende e nunca sai de moda, geração após geração. Como explicar a paixão por um clube que há mais de dez anos sumiu da primeira divisão do futebol baiano e tem suas glórias num já distante passado? É, mas os torcedores apaixonados pelo Ypiranga estão espertos e não perdem oportunidade para falar do clube. Primeiro, você lê um depoimento do jornalista Antônio Matos, depois, uma bonita saudação do professor Djalma Melo.

Conhecendo mais profundamente a trajetória do clube, orgulho-me, cada vez mais, de ser ypiranguense. Segue abaixo uma saudação feita por um jovem torcedor, o professor Djalma Melo, no último dia 7 de setembro, na Vila Canária, quando das comemorações dos 105 anos do Ypiranga. Veja que beleza é a história desta agremiação, nas palavras de Djalma.
Um abraço forte, Antônio Matos

“Caros amigos, boa noite! Hoje é um dia importante para o futebol baiano, pois o Mais Querido, o Canário, o aurinegro baiano, ou simplesmente, Ypiranga está completando 105 anos de existência. Entre crises, intermitências, por ora, extensas, superamos um ano de dificuldades e algumas realizações concretizamos, por exemplo, disputarmos a divisão de acesso. Nesse sentido, falar de problemas para um clube essencialmente nato do seio popular é muito comum.
A história de superação começa quando os grandes clubes que disputavam o foot-ball no Ground do Rio Vermelho, ou apenas o jokei do Rio Vermelho, eram constituídos de jovens que representavam a elite baiana e seus imigrantes potentados. Os clubes eram São Salvador (o mais simples de todos, mas que não admitia negros, crioulos, mulatos, pobres, comerciantes em seus quadros), o Vitória (à época, extremamente elitista), o Internacional (tinha esse nome porque apenas ingleses ou descendentes entravam nos quadros), o Sport Club Rio Vermelho (representava a elite do próprio bairro), o Fluminense (fundado por membros cariocas pertencentes a alta sociedade baiana) e os clubes do bairro da Barra e Graça: Sport Club São Paulo, Associação Atlética da Bahia e o Baiano de Tênis (ambos disputam a partir de 1909 e tinham a mesma postura excludente).
Em 1906, jovens simples do bairro do Rio Vermelho fundam o Sport Club 7 de Setembro, com as cores da bandeira nacional.
O ingresso no campeonato do Rio Vermelho não foi possibilitado, pois aqueles jovens não tinham sequer uma bola para treinar. Para esse problema Branco Alfredo, Salvador Chaves e outros, resolveram da forma mais simples: roubavam as meias de suas mães e irmãs. Bola para treinar faziam, mas o restante do material era muito caro e, consequentemente, a participação no campeonato era impossível.
No outro ano, 1907, em reunião em frente a um sobrado antigo do bairro do Rio Vermelho (tornar-se-ia a primeira sede do clube a posteriori), o Sport Club 7 de Setembro, tornar-se o Sport Club Ypiranga cujas cores amarelo e preto passam a integrar o novo padrão.
Durante anos disputou torneios com clubes de “segundo quadro” no Campo da Pólvora (local que situa-se, atualmente, o fórum).
A partir de 1913, disputa a divisão de acesso com o seguinte lema: aquele indivíduo que conseguisse comprar seus materiais e estivesse apto para jogar poderia entrar nos quadros do time. A polêmica estava feita, pois Turíbio (back, atualmente chamamos de zagueiro, era negro) estava fora da regulamentação do Estatuto do Campeonato. Por outro lado, não estava fora dos ideiais do clube, pois o mesmo era comerciante e tinha condições de comprar seus materiais para jogar.
O time foi formado (VEJA A PRIMEIRA FOTOGRAFIA) e começou a disputar o torneio. Contudo, os rivais imaginavam que pessoas simples não tinham condições técnicas para ingressar no torneio e acabariam não preocupando, pois não venceriam. Os anos passaram-se e os irmãos Nova, ingressaram no clube aurinegro como jogadores. Não obstante, advogados, desembargadores e médicos ingressaram no clube construíndo um corpo administrativo.
Todavia, houve o advento de outros “Turíbios” e a classe popular, assiduamente, adotava a preferência pelo time amarelo e preto. Em 1917 e 1918 conquistamos o bicampeonato baiano desbancando o preconceito da elite e a partir de 1919 já éramos o time mais popular do Norte (como diziam os jornais da época).

Em 1920 e 1921 (SEGUNDA FOTOGRAFIA), conquistavamos outro bicampeonato baiano e a representatividade popular estava justamente nos membros que compunham o nosso time: negros, crioulos, mulatos e, até mesmo, quem não podia comprar materiais para entrar no time, pois agora a administração do clube com muito esmero e esforço concediam os materiais esportivos.
O Botafogo, também nato do Rio Vermelho, era um rival de bairro, e, evidentemente, dentro do campo. Todavia, adotou medidas idênticas com a do Ypiranga e, logo, formaram-se as duas potências baianas no cenário nacional. Nesse ano de 2011, a chave da capital na divisão de acesso abrigou ambos os clubes (Ypiranga e Botafogo) que por ironia do destino, mais uma vez de tantas outras, passam por dificuldades. Entretanto, fizeram uma campanha honrada na Segunda Divisão. Basta dizer, por ora, que no caso do nosso Ypiranga foi acima das expectativas, pois todos começaram a formar seus times primeiro, e, poucos chegaram as semis, MAS NÓS ESTAVAMOS LÁ.
Cabe a nós aurinegros agradecer ao carinho e apoio moral que vocês torcedores do Bahia e do Vitória nos deram assistindo e acompanhando-nos em cada jogo. Apesar das dificuldades e crises terem intermitências duradouras em nosso histórico, essas mesmas adversidades nos legou o mais precioso epíteto reconhecido por nossos rivais (prefiro dizer: co-irmãos): “de charmar-nos de CLUBE MAIS QUERIDO”.
2011 foi uma aprendizagem e 2012 viveremos novas emoções, mas sempre PERSISTINDO, porque essa é a nossa ORIGEM, essa é a nossa HISTÓRIA, e essa é a nossa IDENTIDADE.
Obrigado pelas felicitações.
QUE DEUS ESTEJA COM TODOS.
FORTE ABRAÇO DO ETERNO YPIRANGUENSE QUE ASSIM COMO O MEU TIME, PERSISTO NOS MEUS IDEAIS”.
DJALMA MELO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s