Educação: nossos filhos querem escola

O blog publica o artigo que Barreto escreveu em A Tarde no dia 27 de julho. Para governantes, educadores e estudantes seria uma boa parar um pouquinho o que estiver fazendo e ler esse texto. Vale a pena.

Foto: Flávio Pereira/2008

NOSSOS FILHOS QUEREM ESCOLA

Numa manhã de sol, o menino mulato magrinho improvisa baquetas e dá um show de ritmo fazendo percussão num tambor de lixo da esquina da rua. Os adultos passam sem olhar, ouvir, mas quatro outros guris da mesma idade, sentados no chão a poucos metros, apreciam, quietos. A escola onde deveriam estar os liberou naquele dia por ausência do professor. Lá não se ensina e não se pode tocar tambor.  A menina de 11 anos, filha da vizinha que lava roupas de ganho, é um raio de perspicácia mas não sabe ler. Suas aulas começam às 13 e acabam às 15 horas, todos os dias, por falta de professor para várias matérias. Ela quer, mas não consegue aprender.  Num noticiário de tevê, essa semana, uma garota linda de cabelinhos encaracolados, da mesma idade desses nossos outros personagens, queixa-se da falta de espaço na sala de aula, da imundície dos sanitários de sua escola, da água imunda que partilha no bebedouro, da inexistência de local de recreio, da merenda. Sua linguagem é clara, o pensamento bem articulado, seu apelo comovente. Em muitos bairros de Salvador e cidades da RMS vemos crianças fardadas zanzando pelas ruas no meio da manhã, em plena tarde, fora das salas de aula.   São dezenas, quiçá centenas de escolas da rede pública de ensino básico e fundamental que ainda não funcionam regularmente, desde o início do ano letivo. Por falta de professores, de pessoal auxiliar de limpeza e segurança, de merenda, de condições mínimas de segurança em seus prédios.

Sei, há exceções, aqui e acolá, há experimentos bem sucedidos, raros, nalgumas cidades e até no campo, tem gente heróica como Jorge Portugal brigando pela educação, ensinando, um Nelson Preto na UFBa apontando caminhos inovadores. Mas…  quando focamos a rede pública de ensino básico e fundamental, o começo, o princípio de tudo… francamente! É uma tristeza, parece que nada caminha.

Não, não se trata apenas de reformar ou construir mais escolas. O problema é melhorar o ensino, é priorizar o aprendizado, traçar metas e persegui-las. Não, de nada adianta comprar computadores, estocá-los, se não temos professores capacitados para usá-los como meios que facilitem a aprendizagem nas salas de aula.  Nosso ensino básico carece de diretrizes, de conceitos, de metodologia, de objetivos reais, de ganhos alicerçados no mérito. Mérito, aproveitamento real dos alunos, dos professores, da administração escolar. Mérito, respeito aos direitos, deveres, à aplicação, aos resultados obtidos.  Cobrança. O aluno deve ser cobrado, o professor tem de ser cobrado, exigido.  Sem isso a educação escolar é um blefe. E não me venham com números fictícios e estatísticas para propagandas políticas eleitoreiras.

A despeito dos discursos, a cada campanha, a educação nem de longe é prioridade neste país. Sabemos. Acabou a campanha, eleitos, nem mais um pio sobre o assunto.  É só dar uma espiada na meninada, nos adolescentes pelas ruas, na falta do gosto pela leitura, pelo saber, a desvalorização do conhecimento.  As nossas crianças, de um modo geral, já não têm a proteção familiar, desconhecem o que significa educação doméstica… e nas escolas perderam-se princípios de respeito, de autoridade, de busca de informação e de formação para o amanhã.  Enquanto não tivermos escolas de ensino fundamental integrais, em dois turnos, com atividades educativas, técnicas, recreativas e culturais que as tornem prazerosas, atrativas e realmente produtivas, veremos estarrecidos nossos filhos à mercê do tráfico, do consumismo estúpido, das balas de bandidos e da polícia. Vamos gritar, exigir. Em nome da vida.  Já!

Aprendi que educar é apontar caminhos, abrir horizontes. Educar é possibilitar liberdades, permitir vôos libertos do pensamento. Mas educar é também estabelecer limites.  Educação é plantio de conhecimento. Semeadura, irrigação, luz, poda, acompanhamento para que as raízes se aprofundem, se fortaleçam e a planta cresça, floresça, dê sombra e frutos.  Sem escola, sem ensino, sem educação de nada adianta esse progresso, pois o futuro, a vida… estão comprometidos.

Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (27jul/2011)

   zedejesusbarreto@uol.com.br

3 pensamentos sobre “Educação: nossos filhos querem escola

  1. Esse é o nosso Barretinho! Sempre inspirado e consciente da importância da educação para que as nossas crianças tenham, realmente, um futuro decente pela frente.

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