Editor-chefe suprime Caco de Telha e repórter se demite

Na terça-feira, 29, recebi e-mail do amigo Ciro Brigham, relatando a nova polêmica no jornalismo. A informação batia com os destaques do Twitter naquela tarde: o pedido de demissão de uma repórter do jornal A Tarde. Transcrevo (mantive os textos como chegaram), aqui no blog, o que chegou a mim por e-mail, o que foi twittado é por demais conhecido. O que chama a atenção é um jornal que se fazia respeitar por divulgar notícias em primeira mão agora virou notícia. E o que é pior, não são boas notícias.
Embora os Simões neguem, nos meios empresariais é dada como certa a venda do prédio do jornal para a Odebrecht. Afirma-se que para tudo ficar definido só falta mesmo decidir para onde irá o setor administrativo da empresa. O parque gráfico vai para Lauro de Freitas. O administrativo pode ficar próximo à Fonte Nova, como sugeriu a Odebrecht.
Em consequência, surgem daí duas notícias, uma boa, outra ruim. A boa é que os Simões (pelo menos é o que os donos do jornal têm dito em reuniões com seus big boss) deixarão a empresa, passando a direção para profissionais que serão pagos para tentar reverter toda a má gestão que eles preconizaram. A ruim é que os proprietários do jornal já têm até o número de jornalistas que serão demitidos (170) que, segundo eles, só ainda estão empregados porque A Tarde não tem o dinheiro necessário para pagar as rescisões. Com a venda sacramentada, dinheiro não faltará para isso.
Para quem aprendeu a gostar e a respeitar o A Tarde é triste ver o que a terceira geração dos Simões fez com a empresa. Mas vamos ao que os coleguinhas escreveram. Primeiro o e-mail de Ciro, falando da saída da repórter, depois a carta da própria Emanuella, em seguida mais opiniões de jornalistas e por fim uma nota que o editor-chefe de A Tarde, Ricardo Mendes, mandou hoje para os meios de comunicação:

De Ciro Brigham:
Abaixo, carta que a repórter da Revista Muito, Emmanuella Sombra, mandou para toda a redação do Jornal A Tarde no último dia 28 de março, um mês após o caso Aguirre Peixoto. 

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“Caros colegas,
 Comunico que hoje, 28 de março, pedi demissão de A Tarde, jornal onde trabalhei nos últimos quatro anos como estagiária do Alô Redação, repórter de Local e, nos últimos 12 meses, repórter da Muito. Faço isso após o editor-chefe, Ricardo Mendes, determinar a supressão de trecho de entrevista que fiz com a cantora Ivete Sangalo, a ser publicada no próximo domingo, 3 de abril, na edição 157 da Muito.
O referido trecho diz respeito a duas perguntas referentes, respectivamente, à crise na sua empresa, a Caco de Telha, e ao processo envolvendo seu ex-baterista, Tonho Batera. As duas perguntas foram pronta e educadamente respondidas pela cantora, sem qualquer indicação de que eu não pudesse publicá-las. Foram feitas após sua assessoria explicar que Ivete só não falaria: 1 – sobre sua vida pessoal e 2- sobre polêmicas envolvendo outros cantores. Portanto, sem que nem mesmo a assessoria da cantora me censurasse antecipadamente.
Quando saí da redação para fazer a entrevista na última sexta-feira, 25 de março, estava ciente de que o foco principal era o Troféu Dodô & Osmar, promovido e realizado pelo Grupo A Tarde, no qual Ivete Sangalo será mestre de cerimônias, e que se tratava de uma edição especial em homenagem ao prêmio. Sei que todas as empresas de jornalismo desse país possuem interesses econômicos. Não estou saindo da empresa com uma ideia romântica do que é a minha profissão ou do que não vá enfrentar novamente. Mas para mim, neste momento, publicar uma entrevista de capa, com oito páginas internas de perguntas e respostas, em que, aos olhos do leitor, não se toca em dois dos assuntos mais relevantes envolvendo a cantora (isso pelo menos nos últimos três meses) é praticar um anti-jornalismo ao qual, em quatro anos de profissão, não estou acostumada.
Mais ainda quando se trata da primeira oportunidade em que Ivete falou sobre o caso em uma entrevista, de forma paciente e educada, longe dos bastidores do show business, sem nenhum tipo de pressão, e explicou qual sua versão dos fatos, afirmando que o irmão continua à frente dos negócios mesmo à distância – uma informação nova, de extrema relevância para o caso, ainda mais se dita por ela. Deixo claro que tomo esta decisão após solicitar ao mesmo editor-chefe que eu não assinasse a matéria por respeito à minha consciência e ao leitor, que certamente achará estranho uma entrevista tão longa ignorar o caso Caco de Telha. O pedido foi prontamente negado por ele.
Quero agradecer a todos os colegas com quem trabalhei, em especial Marlene Lopes, quem primeiro me incentivou a fazer um bom trabalho nesta empresa, Kátia Borges, editora das mais competentes e sábias que conheci, e Nadja Vladi, que vem fazendo, semana a semana, um ótimo trabalho na Muito. Se um jornal tem em mãos um material de relevância jornalística e decide não publicá-lo para não correr o risco de ferir suscetibilidades ou atender a qualquer outro interesse que não o de informar, nada mais faz do que pôr em risco a própria credibilidade. Da minha, eu não abro mão”.
Emanuella Sombra

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De: Paulo Coutinho
Saiu na A Tarde, já não é mais tão verdade. Se tivéssemos mais colegas com esta postura com certeza teríamos um jornalismo mais próximo da nossa paixão pela profissão e “Muito” mais perto da verdade. Boa sorte se nos puder ajudar…
PAULO COUTINHO
www.youtube.com/coutopaulo
http://twitter.com/ coutopaulo  
COUTINHOPAULO@OI.COM.BR
PCDAB@HOTMAIL.COM

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De Juca Badaró (apresentador da jornal das 19h da TV Itapoan)
É realmente lamentável isso acontecer, mas a atitude da colega de profissão Emmanuella Sombra é de uma nobreza que quase inexiste nos profissionais de comunicação que hoje atuam na Bahia. Este é o pseudo-jornalismo feito em nosso país, parabéns às oligarquias que conseguem oprimir a verdade.

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De: Paloma Jacobina
Só o A Tarde?
Todo mundo faz assim, gente.
Comunicação não é considerado um bem público, mas, sim, privado. E sei disso desde que eu comecei a trabalhar no mercado, há quase 10 anos, quando ainda vivíamos sob o regime do Carlismo.
Eu teria brigado pela minha matéria, mas não pediria demissão. não po$$o!
também li o texto dela e não pareceu que o editor fez isso para censurar.
achei mais coisa de linha editorial. ele achou que não tinha nada a ver com a matéria e tirou.
ela reclamou e ele bateu o pé.
Limitado o cara? Sim!
Mas quem foi que colocou ele lá?
enfim… vamos ver como a classe vai se comportando e como isso refletirá nos veículos.
Sugiro que os jornalistas que clamam pela imparcialidade, verdade e todas as ‘ades’ do jornalismo fundem um jornal 100% verdade.
Se emplacar, quem sabe a moda não pega?
(olha eu arrumando confusão)
Paloma Jacobina
Assessora de Comunicação

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De: Letícia Belém
Querido Ciro,
obrigada por compartilhar essa história. É realmente uma pena, porque Emanuella Sombra tem um texto e uma apuração impecáveis, e é uma grande perda para o jornal e para os leitores. Mas o jornal A TARDE nunca esteve preocupado com seus leitores e nem com a qualidade do material que produz. Há anos, vem demitindo os repórteres mais experientes e contratando recém formados, sem malícia, texto, experiência, e que aceitam trabalhar por qualquer tostão, com exploração e assédio moral. O papel de Ricardo Mendes no jornal é o pior possível: demitir. O capitão do mato é odiado por todos, e defende com unhas e dentes os interesses dos donos do jornal, atende direitinho aos interesses políticos e econômicos da empresa A TARDE. Demitiu todos os que brigaram para fazer jornalismo. Eu mesma, em 2006, fui covardemente perseguida, proibida de fazer matérias sobre determinados grupos e construtoras, vc bem se lembra, até ser demitida, mesmo depois de ter recebido quatro prêmios de reportagem. E olha que o jornal era a minha vida, tamanha era a minha dedicação. Mas enfim, a vida segue. Espero que oportunidades não faltem para Emanuelle, que o bom jornalismo ainda consiga ter espaço e que nem todos os jornalistas saiam assim tão desiludidos com a nossa profissão.
Um grande beijo,
Letícia Belém
Jornalista DRT: 6309 JP MG
skype: leticia.belem.machado
leticiabelem@gmail.com

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De: Maria Marques
 Coleguinhas,
 
Só não enxerga que é censura quem não quer. Dois trechos importantes da entrevista foram retirados. Não eram água, eram caldo. Retirar caldo das informações recebidas e publicá-lo é função de todo bom jornalista, açucarar as informações, delas retirando o caldo para não divulgá-lo, é função de quem não tem compromisso com a profissão.
Em síntese: o bom e o mal jornalismo consistem em retirar caldos. O bom jornalismo leva este caldo ao público. O mal, o joga no lixo.
Paloma que me desculpe, mas que$$$tão nenhuma me permitiria continuar associada a um emprego para não conseguir, ao final do dia, dar de cara com meu espelho, ou olhar nos olhos de um amigo ou de um filho. Em quase trinta anos de profissão aprendi: levantar a cabeça, dizer não a este tipo de coisa e seguir em frente nos garantem respeito e credibilidade profissional e pessoal. E respeito e credibilidade, nesse mercado, é moeda sonante. Digo por experiência própria e de colegas. Mais, nunca vi um bom jornalista desempregado por muito tempo, mas hoje procuro nas empresas de Comunicação, ou em qualquer outro lugar, aqueles que no meu jurássico passado de redações cederam às vontades dos grupos políticos e econômicos.
Sabe de uma coisa? Nunca mais os encontrei.
Maria Marques
Jornalista
Professora Assistente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
Mestre em Ciências Sociais – PUC São Paulo
Doutoranda em Ciências da Comunicação – Universidade Nova de Lisboa

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De: Maria Marques
Correção, galera, correção. Escrevi e não revi, reli depois e me envergonhei. Onde lê-se mal jornalismo, please, leiam mau :-). Errei duas vezes, mas estava acordando, e o que é pior, de ressaca.
Beijos

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Editor-chefe de A Tarde, Ricardo Mendes diz que informação da repórter é inconsistente:

Ricardo Mendes substituiu Florisvaldo Matos no cargo de editor-chefe do jornal A Tarde

“O assunto editado na entrevista de Ivete Sangalo trazia informação inconsistente, sobre tema já veiculado pelos jornais do Grupo A TARDE, inclusive com chamadas em primeiras páginas, assim como na mídia nacional. Na avaliação dos editores, não havia novidade. A repórter não concordou e pediu demissão. Respeitamos a posição dela. O desligamento, a pedido da repórter, não merece ser comentado por nós, diante do que parece uma provocação sem sentido de quem não tinha interesse em permanecer na empresa.”
Outras informações:
Ivete Sangalo News
Direto da Fonte
Bocão News
Política Hoje
Comunique-se – o portal da comunicação
Rádio Metrópole vê crise no A Tarde
Ponto de vista
Sisal Notícias

5 pensamentos sobre “Editor-chefe suprime Caco de Telha e repórter se demite

  1. Os dois com suas razoes: o editor do A Tarde com a sua e a repórter com a dela. Entretanto, em casos como esses, o bom-senso quase nunca prevalece (lembrando que os dois são jornalistas): um pequeno debate – sobre o que fazer com ‘a sobra’ da entrevista – e tudo se resolveria (talvez). Mas, pelo que já passei, aqui vão as minhas considerações: O jornalista, e aqui me refiro a situações generalizadas, com RARÍSSIMAS exceções, é a expressão da Arrogância – essa é que é a verdade -. Vivo isso na pele com alguns deles. – Quando deixarem de ser tão intransigentes; tão metido a donos da verdade; de se comportarem como ”semi-deus”, terão suas vitórias e, de certo, deixarão de chorar a miséria que choram. Mas, como Humildade não se vende em quitandas, haverão de penar mais outro tanto. Uma pena que seja assim.

  2. Ver e não ligar…
    No pique da postagem anterior, vi fazerem um estardalhaço danado com o pedido de demissão de uma jornalista de A Tarde, perante o que ela denominou de censura a um texto de sua lavra, referente a entrevista com a cantora Ivete Sangalo. A menina disse que era um absurdo o cutelo de dois trechos, que ela considerava fundamentais, de uma matéria que lhe foi encomendada pelo jornal onde trabalhava pelo seu editor-chefe.
    Eu fiquei contra o que ela chamou de censura por admitir que é uma atribuição do editor-chefe de qualquer jornal ou redação, finalizar as matérias que lhe são levadas para justamente fazer o que se chama de edição. Qualquer merdinha de redação (como eu fui na própria A Tarde) sabe disso. E não sei porque a moça se julgou tão agredida a ponto de escandalizar e se demitir, deixando o emprego e criando desde já essa impressão de brigona. Mas é um problema de lá ela.
    O que quero dizer é que ela pretendia dar ênfase a apenas dois trechos da entrevista que fizera com Ivete, sobre problemas da empresa Caco de Telha e do que chamou de “processo de Tonho Batera”, os quais certamente, no entender do editor, não estivessem dentro do contexto da entrevista solicitada para ela, jornalista, fazer. Se era ou não, é um critério do editor e não da repórter exigir que se publicasse na íntegra o seu texto. Como também é um critério pessoal dela achar que foi censura e se sentir ofendida, ultrajada ou sei lá o quê.

    O que se tira de positivo nesse imbróglio desnecessário e desmedido é que a cantora Ivete Sangalo respondeu às indagações feitas pela repórter, tranquilamente, e sequer pediu que não as publicasse. O que evidencia amadurecimento profissional e ético da cantora, que tem sido efetivamente uma marca registrada dessa artista extraordinária.

  3. Albenisio, análise lúcida. Alguém de bom senso ainda acha que o jornalismo tradicional é um bem esotérico, de outro mundo que não este? Que as empresas de jornalismo pertencem ao jornalismo?

    Sua análise, na minha opinião, foi uma das melhores peças já publicadas neste espaço.

    Abs

  4. Cada vez mais o jornalismo vem perdendo a credibilidade, enquanto isso os programas sencionalistas estão aí, na tv e no rádio, de nossa cidade.

  5. Cavalo-de-batalha, ou o não-lugar do jornalismo frente à consciência

    Em meio à divisão do trabalho com que é desenvolvida a atividade jornalística, e própria das alienantes formas de produção industrial regidas pelo sistema capitalista, seja em assessoria ou redação, sôa estranho (também uma tolice) que uma repórter exija o que vai ser editado, ou se rebele e demita-se em reação à mera supressão de trechos do seu produto ou manufatura, sem que, no caso e de fato, tenha ocorrido uma inversão de valores do seu texto.

    A supressão de trechos de um dado conteúdo – notadamente quando se trata do cumprimento de pauta originada da coordenação, chefia de reportagem, editoria ou mesmo do próprio autor – no meu entendimento, e sem pretender com isso consolidar um estatuto de verdade, remete à responsabilidade ou especificidade do ofício da editoria. O critério não é sequer, bem entendido, norma de consciência do editor, mas “ossos do ofício” da função. Nessa relação hierárquica, repórteres, como de resto os próprios editores, estão submetidos à lógica que o capital impôs ao processo de trabalho.

    Vejo no episódio da demissão requerida pela repórter Emanuella Sombra alguns aspectos dignos de serem ressaltados: Seja pelo entendimento dela de que os fatos envolvendo a produtora Caco de Telha seriam “imprescindíveis”, como controverso em uma pauta que visava homenagear a cantora Ivete Sangalo no universo de uma premiação, o Troféu Dodô e Osmar, produzida pelo jornal; seja no fato de, obedecendo a um critério de programação visual e editorial, o repórter deva – inapelavelmente – assinar o texto, quando, ao fim e ao cabo o material converte-se em uma “propriedade” da empresa; e, ainda, nas mil e uma faces desse imbróglio, a que compreende uma explícita sujeição do redator-chefe, como sugerido na carta de anúncio do pedido da demissão, em ser manietado pela fonte. Vale a pergunta, até que ponto um redator-chefe ou editores em geral não são apenas agentes da reprodução do capital?

    Entendo que, no primeiro caso, e sem que fizesse do episódio cavalo-de-batalha, as informações suprimidas na edição da entrevista para a revista “Muito” poderiam ser tornadas públicas, de uma forma de outra, através das tantas possibilidades de postagens em blogs ou redes sociais. E não poderíamos dizer que estaria-se inventado a pólvora ou uma tática de guerrilha. Claro que, também nessa estratégia, discutível ou não, estão envolvidos o lugar da consciência, ou ética profissional, o da relação de trabalho e mesmo o da credibilidade jornalística.

    No tocante à questão da assinatura da matéria, somos levados a sugerir que deva ser analisada no âmbito do sindicato, como reivindicação de um direito, se houver divergência quanto ao conteúdo final a ser apresentado ao público. Mas aqui, mais uma vez, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo, retornamos à divisão do trabalho e à possibilidade do repórter conhecer, previamente, o que será publicado.

    É certo, contudo, que graças à rede e à luz de mais essa controvérsia – envolvendo em dois meses a produção de dois repórteres, Aguirre Peixoto e Emanuella Sombra, frente aos interesses das indústrias da construção civil e do entretenimento – deparamo-nos com a sinalização (ou, por que não dizer, cristalização) de sujeição da redação de A TARDE aos interesses do mercado, em detrimento da relevância jornalística, o que vale dizer, do interesse público. Mas, quem ainda sonha com a neutralidade jornalística?

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