Caiu na Tarde. É verdade…

Cai a tarde. Título de uma música de Tom Jobim que bem se aplica ao que acontece de uns dez anos para cá, acentuando-se vigorosamente nos cinco mais recentes, ao jornal A Tarde. Seguindo o tom da música, o jornal vertiginosa e melancolicamente despediu-se do primeiro lugar em vendas, agora do Correio, e passou a ameaçar o terceiro lugar do Massa! Este um subproduto popularesco da própria A Tarde. No caso, a criatura está engolindo o criador.
Repórter caiu n’ A Tarde. Agora com a pecha de autoritária, revivendo tristes momentos dos chamados anos de chumbo. A demissão do repórter Aguirre Peixoto não se justifica, nem se explica por meios justos. A diretoria de A Tarde cedeu às pressões do mercado imobiliário. A empresa banca uma revista sobre o mercado imobiliário (Mercado imobiliário da Bahia ganha nova revista neste sábado), sob os auspícios do Sylvio Simões.
Depois de quase trinta anos de profissão não me surpreende mais as formas canalhas de agir de patrões de empresas jornalísticas, principalmente aqueles que se escalam na ponta-esquerda. O que ainda me entristece é ver colegas jornalistas, na posição de chefia, fingir que nada do que aconteceu é com eles. Sabemos que o elo mais fraco nessa história é o repórter. O assunto de reportagem passou por vários chefes de Aguirre, que foi a campo fazer o seu trabalho respaldado por seus superiores na empresa.
Os mesmos fingidores de que nada lhe diz respeito certamente pressionaram o repórter “para dar pau”, fazer uma reportagem forte, mostrar a sanha dos especuladores imobiliários. E quando o principal acionista do jornal e os atores principais do mercado imobiliário pediram a cabeça de alguém, lhes deram, na bandeja a cabeça do repórter.
A maioria da Redação reagiu, marcou assembleias, houve um dos acionistas (Ranulfo Bocayúva) que quase chorou e anunciou que entregaria o cargo, mais por perceber que seus pares de diretoria o consideram um zero –  tanto que não o consultaram na demissão – apesar dele ser o administrador da Redação. O choro não foi exatamente pelo autoritarismo e mão de ferro que cai sobre o mais fraco.
Acompanhe a história nos links a seguir. A carta feita por quem ainda honra a profissão. E perceba nas entrelinhas a covardia daqueles que fingem sentir a dor que deverasmente não sentem (que me perdoe, Fernando Pessoa).
Demissão de repórter abre crise entre herdeiros de A Tarde
Caso Aguirre: Folha e G1 mandam equipes à Bahia para investigar relações entre reportagens e poderosos
Demissão de repórter do A Tarde é um atentado à prática do bom jornalismo
Protesto para A Tarde por duas horas
Sinjorba se manifesta em favor de jornalista
Sylvio Simões: A Tarde em tempo de mudanças
Jornalistas de A Tarde cruzam os braços por duas horas e voltam a discutir demissão nesta quinta
ABI lamenta demissão de jornalista de A Tarde
UOL – Jornalistas de “A Tarde” fazem greve na BA após demissão de repórter
Editor-chefe de A Tarde, Florisvaldo Mattos, pede pra sair

11 pensamentos sobre “Caiu na Tarde. É verdade…

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  5. Mais uma vez, prova-se que não existe liberdade de imprensa, basta escrever um artigo indo de encontro a linha editorial do jornal, que está fora… cadê o direito???

  6. ocaso de A tarde…
    no fundo, orgulho-me de nunca ter trabalhado lá dentro… por essas e outras coisas.
    amém
    eu

  7. AGUIRRE: FAÇA DO LIMÃO UMA LIMONADA!

    fc.

    Minha solidariedade ao jornalista Aguirre Peixoto, egresso da Facom. A quem orientei no seu trabalho de conclusão no bacharelado em Jornalismo do curso de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, defendido há pouco mais de um ano – não tranquilamente, que o diga o jornalista Tasso Franco, que participou da banca.

    Trabalhei em A Tarde em vários momentos no período da redação comandada por Jorge Calmon. Se algum episódio houve de tamanha covardia contra um repórter no exercício de sua função, não presenciei. Testemunhei Jorge Calmon satirizar tentativas de pressões que à época empresários e grupos políticos poderosos fizeram, pedindo a cabeça de jornalistas. Pelo menos duas vezes fui chamado à sua sala, convidado a sentar à sua frente, para que me mostrasse correspondências – telegramas ou cartas, ou notícias de telefonemas – de representantes de interesses poderosos contrariados com matérias que escrevi e que foram publicadas. Um hoje proprietário de rádio popular, mas por anos estrela política em ascensão, foi um desses – que utilizou até mesmo serviços de outros jornalistas (um deles agora marketeiro do lulismo), foi um desses. Jorge Calmon simplesmente não dava bola, e nos mandava – repórteres – fazer o nosso trabalho.

    A demissão de Aguirre Peixoto é um atentado ao livre exercício da profissão de jornalismo. Nos semestres em que foi meu aluno na Facom, percebi nele a garra, a vontade e a alegria de cumprir as pautas que criávamos para o hoje morto “Jornal da Facom”, onde ele primeiro teve suas reportagens publicadas. Quando me procurou para ser seu orientador no projeto de construção de um site de jornalismo político-cidadão, percebi o seu desejo de ajudar a melhorar a cobertura jornalística nesse campo, infelizmente pouco respeitado na Bahia – por conta de feudos dominados por antigos e novos coronéis, mantenedores do atraso.

    Que Aguirre Peixoto esteja cônscio que ele não é, não foi e nem será a vítima exclusiva desse atentado. E que saiba daí extrair a energia para continuar cumprindo com o seu dever profissional: um cão de guarda em defesa daqueles que, tacitamente, concederam-lhe o mandado de apurar, falar, bradar, denunciar, apurar em nome dos que não podem fazê-lo. Que, para citar Ruy Barbosa, seja não apenas os olhos, mas também o nariz e a boca dos menos favorecidos.

    Esta é também uma mensagem em reciprocidade. Obrigado por ter ajudado a liderar o manifesto em minha defesa quando fui “cassado” do jornal-laboratório da faculdade que tentou “ensinar” jornalismo a você.

    Fernando Conceição, jornalista
    Professor da Faculdade de Comunicação
    Universidade Federal da Bahia
    10/02/2010

  8. É deverasmente vergonhoso, eles fazem de conta que estão de acordo, permitem que o profissional batalhe por uma matéria passa pelos superiores, porém como tem outros interesses em jogo!!!!!!! Não podem perder $$$$$$$, demitem o repórter pois o custo é mais baixo para eles.
    Não devemos cruzar os braços, é preciso justiça e respeito.

  9. É muito triste, mas estamos bem acostumados a ver a corda arrebentar do lado mais fraco… certamente alguém “tinha” que ser punido depois da reclamação dos poderosos. É por estas e outras que ando envergonhada e cansada da profissão que abracei.

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  11. Esse caso foi mesmo escabroso. Não dá para acreditar que essa prática ainda acontece. Aguirre é um excelente profissional, preparado e responsável e com certeza não criou a pauta sozinho e publicou a matéria na calada da noite, como sabotagem. Só isso explicaria uma demissão pela reportagem publicada.
    Ou será que A Tarde está tão decadente que não tem mais chefe, editor do setor, editor-chefe… Mais uma vergonha para o jornalismo baiano, o nosso jornalismo, pelo qual dedicamos tanto suor e responsabilidade.

    Estou menos orgulhosa da minha/nossa profissão

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